Situações significativas no espaço-contexto da hemodiálise: o que dizem os
usuários de um serviço?
PESQUISA
Situações significativas no espaço-contexto da hemodiálise: o que dizem os
usuários de um serviço?
Significant situations in the space and context of hemodialysis: what do users
say about?
Situaciones significativas en el espacio-contexto de hemodiálisis: que dicen
los usuarios de un servicio?
Vanusa PietrovskI; Clarice Maria Dall'AgnolII
IEnfermeira. Mestre em Enfermagem pelo PPG/ENF-UFRGS. Enfermeira da Unidade de
Terapia Renal de Pato Branco, PR
IIDoutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Assistência e Orientação
Profissional da Escola de Enfermagem da UFRGS (DAOP/EENF-UFRGS), Porto Alegre,
RS. Orientadora do Estudo
1. INTRODUÇÃO
O interesse em desenvolver um estudo sobre situações vivenciadas pelo paciente
renal crônico em hemodiálise decorreu de observações surgidas ao longo da
trajetória profissional de uma das autoras, em uma clínica de hemodiálise, que
vinha presenciando queixas dos usuários a respeito do tratamento. Este era
apontado como sendo demasiadamente técnico em razão do aparato instrumental
utilizado, podendo-se exemplificar o emprego de filtros, alarmes e equipamentos
sofisticados. Por outro lado, a própria condição da doença crônica impõe aos
pacientes a necessidade de confiar suas vidas a uma máquina e à equipe que
presta cuidados. No entanto, por parte da equipe de saúde desse setor, havia o
entendimento de que uma assistência ideal estava sendo implementada, isto é, no
sentido de que estava sendo oferecido o melhor aos usuários do serviço.
Em meio a tal contradição, tornou-se imperativo questionar: o melhor
planejamento, sob o ponto de vista da equipe, corresponde às principais
necessidades dos usuários? Como e em que medida os usuários têm participado
desse processo? A essas questões, agrega-se ainda outra, bastante instigante:
"a ênfase no tratamento supervisionado não indicaria, de parte do discurso
sanitário, uma tendência para infantilizar as pessoas?(1)"Diante destas
indagações, buscou-se conhecer a experiência do paciente renal crônico,
elencando situações que tivessem sido marcantes, positivas e/ou negativas,
favoráveis e/ou desfavoráveis e, ainda, aquelas que vinham se constituindo como
fator de satisfação e/ou de insatisfação durante o tratamento dialítico.
Norteou-se pelo propósito de fornecer subsídios que contribuam para a
(re)organização do serviço e da qualificação da assistência, visando
benefícios, tanto para os indivíduos em condições crônicas como para a equipe
que atua na prestação desse atendimento.
Um fator importante a ser considerado é o número de pacientes renais crônicos
que necessitam de diálise para sobreviver. No Brasil, de acordo com o Censo da
Sociedade Brasileira de Nefrologia, 59.153 pessoas encontram-se nesta situação,
sendo que, deste total, 52.794 pacientes são submetidos ao tratamento de
hemodiálise(2). Outro aspecto, também levado em consideração, é o fato de que
no Brasil e, principalmente na região Sul, nas últimas décadas, houve uma
diminuição dos índices de morbimortalidade por doenças infecciosas e um aumento
progressivo de doenças crônicas(3,4).
2. METODOLOGIA
Estudo de abordagem qualitativa realizado em uma clínica de hemodiálise, no
interior do Paraná. Este serviço funciona desde 1982, desenvolvendo atividades
de clínica médica e nefrologia. De natureza privada, intra-hospitalar, conta
com uma área física de 600m², cuja estrutura segue os padrões e normas regidas
pela Resolução da Diretoria Colegiada(5). A Unidade atende 16 pacientes por
período, de segunda-feira a sábado, em três turnos. Atualmente dialisa 82
pacientes sendo que 78 procedem de demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) e
04 derivam de convênios particulares. A equipe é composta por dois médicos
nefrologistas, duas enfermeiras e onze técnicos em enfermagem.
A coleta de dados ocorreu no período entre setembro a novembro de 2003,
mediante Entrevistas Semi-Estruturadas com pacientes renais crônicos que vinham
se submetendo ao tratamento de hemodiálise, nesse período. As entrevistas,
gravadas em áudio, ocorriam antes de os pacientes iniciarem a sessão de
hemodiálise, em uma sala nas dependências da Clínica, com total privacidade e
silêncio. Solicitava-se o relato de algum(ns) fato(s) que tivesse (m) sido
marcante(s) no espaço de hemodiálise, não importando se a experiência tivesse
sido positiva ou negativa, boa ou ruim.
A seleção dos sujeitos ocorreu por meio de sorteio aleatório simples, a partir
da listagem diária de pacientes e, tendo-se adotado o critério de saturação dos
dados(6), foram realizadas quinze entrevistas, transcritas na íntegra. Para a
análise das informações recorreu-se à Técnica de Análise de Conteúdo, a qual
possibilita uma descrição objetiva dos discursos, para posterior interpretação
(7).
Para o desenvolvimento da investigação, pautou-se na Resolução nº 196, de 10 de
outubro de 1996, que dispõe sobre as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de
Pesquisa com Seres Humanos, publicada pelo Conselho Nacional de Saúde(8)e
somente deu-se início à coleta de dados após a homologação do projeto pelo
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), registrado sob o número de 2003206. Nas entrevistas, adotou-se o Termo
de Consentimento Livre e Informado, em duas vias, uma destinada ao informante e
outra à pesquisadora. No documento, constou explicitamente sobre os objetivos,
método e possíveis benefícios do estudo, bem como sobre as formas de contato
com a instituição de origem UFRGS - sendo assegurada a livre participação, sem
que nenhuma influência incorresse no tratamento a que os sujeitos vinham se
submetendo. Para preservar o seu anonimato, eles foram identificados por um
código: U1, U2, U3 (...) e assim sucessivamente.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O tratamento do material resultou em quatro categorias de maior relevância:
início do tratamento, possibilidade de vida, estar com o(s) outro(s) e
organização do ambiente físico, conforme é apresentado a seguir.
3.1 Início do tratamento
O impacto causado pelo início do tratamento, resultante da falta de preparo e
orientação prévia, foi uma tônica nos relatos. Isso remete a pensar sobre a
importância do acolhimento ao paciente renal crônico, mediante à nova condição
que a doença lhe impõe, quando o mesmo passa a depender do tratamento
dialítico. Acolhimento recai na humanização do atendimento que, por sua vez,
pressupõe a garantia de acesso a todas as pessoas. Diz respeito, ainda, à
escuta do problema de saúde do usuário, de forma qualificada e resolutiva(9).
Neste estudo, ficou demarcado que há lacunas no processo de acolhimento, em se
tratando dos primeiros contatos com o tratamento. Para os usuários do serviço,
que se sentem surpreendidos pela nova condição a que se vêem submetidos, há uma
carência de orientação prévia, já que pouco ou quase nada lhes é informado,
provocando uma sensação de desamparo:
Quando eu comecei a fazer hemodiálise foi o que me marcou mesmo
porque eu não tinha idéia do que era, não tinha nenhum conhecimento e
logo já fui sendo cortada, colocando cateter (U 1).
Quando eu comecei a fazer hemodiálise eu não sabia como era, não
sabia como ia ser, ninguém tinha me explicado nada (U 7).
A partir dessas colocações, pode-se intuir que a sessão de hemodiálise é uma
possibilidade para a equipe de saúde interagir com o paciente renal crônico e
auxiliá-lo no suprimento de suas necessidades. No tempo de permanência na
clínica, várias ações da equipe de saúde podem reverter-se em um processo
educativo em que, por exemplo, se possa dialogar sobre dieta, medicações, com
esclarecimento de dúvidas, orientações sobre esportes e lazer, enfim, visando
criar condições satisfatórias para o bem-estar do usuário do serviço.
Nas falas, percebe-se que o atendimento das necessidades físicas é colocado em
primeiro plano de tal forma que gera importantes lacunas na prestação do
cuidado e estas derivam de falhas na comunicação com o cliente, como foi dito:
O começo foi difícil, eu fiquei quase doida. Eu não estava preparada
quando comecei a dialisar. Quando eu entrei na sala de hemodiálise,
minha nossa. Eu acho que deveriam ter me explicado como era e o que
ia acontecer, eu não sabia nada, nada. Simplesmente me colocaram na
máquina. Acho que eu deveria ter tido uma orientação, eu ia saber de
tudo(U 8).
Há necessidade de uma intervenção educativa e de suporte psicológico, durante a
fase inicial do tratamento. Um apoio social pode prevenir ou servir e ser
utilizado como defesa emocional das conseqüências psicológicas negativas,
durante o declínio da função física(10).
3.2 Possibilidade de vida
A sensação de obrigatoriedade em aceitar o tratamento, como única forma de
manutenção da vida, e a fé em Deus, como fator de auxílio para enfrentar essa
situação, foram questões incisivas na fala dos informantes. Para o doente com
insuficiência renal crônica, o tratamento hemodialítico é necessário,
provocando uma realidade que não há como ser diferente, não existe opção, ele
necessita do tratamento. Fica claro que existem situações na vida que
independem da vontade e fogem ao controle do indivíduo. A adaptação não
acontece em um passe de mágica, é um processo complexo que mobiliza estruturas
individuais:
Eu não aceitava e acho que acostumar ninguém vai acostumar, porque é
muito difícil, mas é uma maneira da gente continuar sobrevivendo(U
1).
Eu acho que ninguém aceita. Porque não vi ninguém que entrou aqui
depois de mim que dissesse que é bom. Mas é uma coisa que eu preciso
e dependo para viver. É uma coisa que, hoje, é necessária para minha
vida(U 3).
Por analogia a alguns achados na literatura(11), estes depoimentos retratam
explicitamente os estágios de enfrentamento de pacientes que se encontram em
fase terminal de uma doença, ao tomarem conhecimento da sua condição,
traduzindo-se em negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A negação é
uma defesa temporária, sendo logo substituída por uma aceitação parcial. A
esperança mantém-se presente em todas as fases do processo de adaptação, e é a
forma encontrada pelos clientes para ter forças e continuarem vivendo em
situações adversas. Por um lado, os pacientes vislumbram a possibilidade de
melhora e, por outro, tomam consciência da necessidade da convivência com
tratamentos, intervenções e cuidados que geralmente são obrigatórios e de longa
duração(12). Esse quadro é ilustrado na fala de U 11:
Fazer hemodiálise foi bom porque eu melhorei, estava ruim e melhorei
bem. Só que eu achei que era só por uns dias e que eu ia ficar boa,
aí o Dr. me explicou que o meu rim não funcionava mais, daí foi
difícil(U 11).
A doença renal crônica é vista pelos pacientes como um fator de profundas
mudanças em suas vidas. O mesmo também se observa no estudo com pacientes
oncológicos que percebem a doença como praticamente fatal, produzindo profundas
repercussões na vida do indivíduo que experiencia este diagnóstico e as mesmas
poderão ser positivas ou negativas, uma vez que o modo como cada um percebe e
enfrenta a doença, está associado à forma como ele constrói seu processo de
viver(13). Mediante as várias dimensões que estão implicadas, espera-se da
equipe de saúde que não se restrinja apenas ao uso de saberes acadêmicos,
focados na perspectiva do modelo clínico de intervenção, mas que assuma uma
conduta capaz de contextualizar o atendimento de necessidades que se insurgem
como prioritárias para o paciente renal crônico. Convém destacar que este se
depara com inúmeras perdas, geralmente o emprego, o vigor físico, tendo que se
habituar com restrições alimentares e comparecer à clínica para dialisar três
vezes por semana. Além disso, enfrenta uma lista de espera por um transplante
renal. Acerca dessas questões a equipe de saúde deve estar preparada,
dialogando entre si e com os clientes para, conjuntamente, estabelecer planos
de ação a curto, médio e longo prazos, que oportunizem um satisfatório
enfrentamento da doença e do tratamento.
Para os pacientes crônicos não há muitas escolhas na resolutividade de sua
condição. Eles se vêem dependentes do tratamento dialítico ou, então, da
submissão a um transplante renal. A esperança no transplante ilumina-se na
perspectiva de ter mais liberdade, única alternativa para não mais depender do
tratamento hemodialítico. Por outro lado, situações que dizem respeito à
procedência e doação do rim por pessoas da família ou não desencadeiam
angústias.
Isso emergiu nas entrevistas:
A hemodiálise é desconfortável porque você não pode viajar, não pode
ficar fora. Por isso eu digo que transplantar é melhor porque daí a
gente tem liberdade, pode sair(U 9).
O transplante, sinceramente eu gostaria muito e quero um dia, e tenho
fé que eu vou conseguir. Não que a hemodiálise seja tão terrível
assim, mas eu acho que no transplante as dificuldades são bem
menores. Com o transplante se tem mais liberdade. Eu acho que posso
melhorar bastante(U 15).
Os portadores de doença renal crônica vêem no transplante renal a única forma
de realmente ter uma vida plena, entendendo por vida plena o retorno a suas
atividades anteriores, tendo uma vida "normal", como foi enfatizado.
Na expectativa de realizar o transplante, os pacientes renais vivem a angústia
de aguardar um possível doador, seja no seio da família ou por meio de um
doador cadáver. Mas, em nome de tal acesso, munem-se de forças para todo tipo
de enfrentamento, em meio à espera até que se efetive a localização de um órgão
compatível, a definição quanto a doador vivo ou cadáver, a legalização de
documentos. O decreto-Lei nº 2268, de julho de 1997, artigo 2º, criou e
organizou o Sistema Nacional de Transplante (SNT), responsável pela
normatização da captação e distribuição de tecidos de órgãos e de partes do
corpo para finalidades terapêuticas. O SNT tem como âmbito de intervenção as
atividades de conhecimento de morte encefálica verificada em qualquer ponto do
território nacional e a determinação do destino dos tecidos, órgãos e partes
retiradas(14).
Doação de órgãos ainda é um assunto de pouco domínio público, terreno fértil
para a proliferação de mitos, tabus e mal-entendidos, na população. Até mesmo a
equipe de saúde não está suficientemente esclarecida para auxiliar nestas
questões(15). Isso leva a refletir e questionar: qual o preparo dos
profissionais da saúde para lidarem com estas questões? Que informações
circulam nesse meio e como são apresentadas aos pacientes e aos respectivos /
possíveis doadores?
3.3 Estar com o(s) outro(s)
A importância da família no acompanhamento do tratamento do paciente renal
crônico evidenciou ser um fator que contribui de forma efetiva para a adaptação
do hemodialisado. Devido às restrições impostas pela doença crônica e pelo
tratamento, faz-se importante o apoio familiar e social como forma de incentivo
na sua trajetória (16).
É importante você ter apoio da família, e eu tenho dos meus filhos,
do meu marido(U 6).
Com o apoio muito grande da minha família fui encarando a
hemodiálise. Eu acho que se não fosse a minha família, não sei (...)
(U 3).
Através dos relatos de U 1 e U 9 observa-se que nem sempre se inclui a família
quando se trata do paciente, deixando-as muitas vezes sem orientação e
incentivo na participação do tratamento. É preciso esclarecer sobre o
tratamento, procedimentos, etc. como forma de minimizar as angústias dos
familiares e também para que esses, cientes do que está acontecendo com seu
familiar, possam efetivamente servir de apoio.
Meu filho chegou para me visitar e em vez de ele me consolar, eu tive
que consolar ele. Ele virou num choro quando me viu lá[na
hemodiálise], com cateter e tudo, não sabia o que era aquilo(U 1).
Quando eu comecei a dialisar, que eu coloquei o cateter, eu queria
encorajar a minha família, entende? Porque a P. chorava muito e eu
queria encorajar eles(U 9).
É importante salientar que a família pode servir como fonte para o
enfrentamento da doença e de suas conseqüências, uma vez que ela faz parte do
contexto no qual o indivíduo está inserido. Muitas vezes, a experiência do
adoecimento leva ao fortalecimento das relações familiares.
A convivência com os demais usuários, na clínica, surgiu nas falas com uma
dupla conotação: de um lado, foram apontadas dificuldades de relacionamento e
até mesmo de falta de privacidade, em presença tão próxima do(s) outro(s)
pacientes; por outro lado, vínculos de amizade e de mútuo reforço são
constituídos no seio desta convivência, pois é o próprio tratamento, em dias
alternados, que proporciona momentos de reencontros face-a-face que fortalecem
as relações. O sentimento de ambivalência, em presença dos outros pacientes,
ficou bem demarcado:
Eu tenho os pacientes, os outros meus colegas, todos como irmãos. Eu
quero bem todos eles. Tem uns que não são muito de conversar, mais a
gente respeita, porque a gente conta tudo um para o outro, tenho
todos como uma família(U 9).
A nossa turma é assim, boa. Todos assim mais ou menos(...)tem uns que
às vezes incomodam um pouco. Se a gente não gosta das brincadeiras
tem que ficar quieto e pronto. Tem que aceitar(U 13).
Aqui é uma sala de hemodiálise e como eu gosto de respeitar os outros
eu também gosto de ser respeitada. Porque nós já tivemos uma encrenca
no primeiro dia, eu e o(...), até hoje ele não me engole por causa
disso(U 8).
O apoio multiprofissional é fundamental para que o indivíduo e sua família
possam assimilar e responder melhor à vivência da doença crônica e ao
tratamento(17), tanto que foi comentado:
Eu sempre fui bem atendida, de todos os lados, tanto da enfermagem
como dos médicos, como das outras pessoas que trabalham aqui. Sempre
me dão atenção no que eu preciso(U 13).
Em momento algum eu posso dizer que fui mal atendido, ao contrário,
eu sempre fui bem atendido. Esse relacionamento aconchegante entre a
equipe e o paciente me deu segurança total.(U5)
Os depoimentos demonstram a importância da equipe de saúde para os usuários na
prestação de um atendimento efetivo, contribuindo para proporcionar segurança,
na medida em que há um real investimento nas relações interpessoais. Há
necessidade de uma atenção em saúde em uma lógica acolhedora, a qual se destaca
como sendo um espaço intercessor trabalhador/usuário que se abre para um
processo de escutas dos problemas, para troca de informações, para um mútuo
reconhecimento de direitos e deveres e para um processo de decisões que pode
possibilitar intervenções pertinentes e/ou eficazes, em torno das necessidades
dos usuários(9). Mas, paralelamente aos comentários que referem o bom
atendimento, houve outras sinalizações:
(...) às vezes se a gente chama e elas[membros da equipe de
enfermagem] demoram e se você chama é porque precisa na hora.(U 7)
A hora que ela vai puncionar[punção venosa], ela não tem atenção de
ficar olhando, ela é desatenta, conversa (...). Outra coisa, tem dias
que elas[membros da equipe de enfermagem]não observam o quadro de
avisos, eu acho que é uma obrigação delas lerem o quadro. (U 8)
Além do que já se mencionou, houve destaque à interação que se estabelece entre
o paciente renal crônico e a equipe de saúde, não apenas em vigência do tempo
de permanência na clínica demandado pela hemodiálise, mas também por tratar-se
de um procedimento bastante especializado que é de domínio de uma equipe
igualmente especializada. Em muitos momentos do tratamento, esta condição forja
uma inevitável relação de dependência por parte do paciente para com os
profissionais que sistematicamente o atendem. No entanto, concebe-se que isto
seja plausível em se tratando do saber-fazer no âmbito tecnológico do cuidado
em hemodiálise. Porém, se tal pressuposto for transposto para outras esferas do
cuidado, como as que transitam no processo interativo inclusive durante a
realização de procedimentos técnicos o risco é de imprimir a marca de um modelo
vertical, hierarquizado, alheio a uma proposição dialogada, de co-gestão de
coletivos.
3.4 Organização do ambiente físico
O procedimento de hemodiálise, embora seja realizado em serviços ambulatoriais,
é considerado de alta complexidade. Para um doente fazer uma sessão de
hemodiálise é preciso prever e dispor de espaço físico adequado, equipamento
tecnológico específico, tratamento especifico da água, materiais descartáveis,
medicações, equipamentos de urgência, entre outras condições. Apesar de todo o
aparato tecnológico-instrumental que envolve o tratamento hemodialítico, os
participantes desta pesquisa não manifestaram preocupação com tais questões que
não foram sequer mencionadas. Nos depoimentos, surgiu em destaque o conforto
ambiental:
(...) aqui o conforto para o paciente é coisa sem comentários, desde
as acomodações, tudo[...] (U 5).
Eu hoje faço hemodiálise porque tenho que fazer, mas a gente está
aqui numa boa, dormindo, vendo televisão, comendo(...)(U 15).
Percebe-se que a importância que os usuários dão ao ambiente está relacionada
ao conforto que o serviço proporciona em termos de hotelaria e não o que diz
respeito aos procedimentos técnicos, máquinas de hemodiálise ou outros
equipamentos e materiais. Em diversos depoimentos surgiram queixas relacionadas
ao barulho na sala de hemodiálise, ao ambiente considerado muito frio - e à
falta de lazer durante o tempo em que se submetem ao tratamento hemodialítico:
Há também uma coisa, quando vão abrir uma gaveta, uma porta, sabe, dão aquela
batida que dói nos ouvidos da gente. Às vezes tem algum paciente dormindo que
chega até se assustar com essas batidas(U 2).
Na hemodiálise eu tento dormir, mas eu consigo dormir uma hora e nessa uma hora
a agitação é muito grande, não se preocupa, na hora de bater uma gaveta, fazem
barulho, de repente a gente ali leva aquele susto, muitas vezes não controla
nem o braço da fístula com o susto que leva. Então, às vezes, na correria, não
tem muito essa preocupação de fazer barulho e acordar alguém(U 14).
O significado que as pessoas atribuem aos acontecimentos que se sucedem em suas
vidas difere de um indivíduo para o outro, de um momento para o outro, de um
dia para o outro(18), sendo importante que os profissionais de saúde
oportunizem a inclusão do próprio usuário no planejamento de ações que possam
da melhor forma satisfazer suas necessidades. Isto começa pela escuta, pela
busca de entendimento do que um e outro percebem como necessidade e satisfação,
cujo diálogo possivelmente não esteja ocorrendo, haja vista que até mesmo a
regulação da temperatura ambiental foi trazida como um problema a ser
equacionado. Os usuários referiram-se ao ambiente muito frio na sala de
hemodiálise devido ao ar condicionado, questionando se o conforto é para os
pacientes em tratamento hemodialítico ou para a equipe de enfermagem:
(...) como o ar condicionado, tem muita gente que não gosta e não
falam. O ar condicionado, este do corredor é muito gelado(...) a hora
que o pessoal pára, o ambiente vai começar a esfriar porque não abre
e fecha mais a porta, então são coisas assim. Eu entendo o lado
delas, cheias de roupas, pra elas fica calor mas pra nós é frio(U
14).
Uma coisa que eu não gosto é esse ar condicionado, é muito frio, eu
tenho uma raiva(...) (U 4).
O que é visto pela equipe de saúde como boa estrutura e ambiente adequado, não
é percebido da mesma forma pelos usuários do serviço. Nem sempre o que é
preconizado e instituído formalmente, visando contemplar normas de qualidade,
atende às reais necessidades dos clientes e, muitas vezes, os usuários colocam-
se em posição de subordinação diante dos profissionais, pois deles depende seu
tratamento e, com receio de que este seja comprometido, acabam calando-se
diante de certos desconfortos.
Preencher o tempo durante as sessões de hemodiálise também foi um aspecto
trazido para a pauta das reivindicações:
Aqui são quatro horas que tem que ficar e tem que ficar, daí a gente
não tem alguma coisa para se ocupar. Se não conseguir dormir e na
televisão não estiver passando nada de bom, a gente fica quatro horas
olhando para a parede, então uma falta é isso aí, ter alguma coisa
que te ocupe o espaço(...) vendo alguma coisa diferente, se
instruindo(...) então uma ocupação seria bom(U 14).
(...) eu não paro quieto e ficar quatro horas preso ali, eu tenho que
estar aqui e tenho que preencher meu tempo(U 5).
Embora os profissionais não devam abdicar da presteza, segurança e habilidade
técnica, como condições indispensáveis ao cuidado especializado, eles também
devem estar atentos a outras dimensões do ser humano e em constante busca de
estratégias para supri-las. Conforto emocional, diálogo, preenchimento criativo
do tempo e atenção são esferas que indubitavelmente convergem para o cuidado
humanizado ao paciente renal crônico, francamente retratado nas verbalizações
dos sujeitos participantes.
As condições de higienização do ambiente igualmente permearam os relatos, com
críticas revezadas ao serviço de limpeza da clínica - campo de pesquisa não
havendo referência direta à ambiência da hemodiálise propriamente dita, porém à
sala de espera, aos vestiários e aos sanitários:
E a limpeza, deixa muito a desejar. Acho que às vezes o papel do
banheiro é tirado uma vez por semana. Os cantos sujos no vestiário,
no banheiro, parece que ficam semanas sem serem limpos(U 7).
A única coisa é a limpeza, porque eu acho que fica só passando pelo
meio, os cantos a gente vê que está sujo, o banheiro tem dias que não
dá para entrar e é um lugar que todos usam, os pacientes, os
acompanhantes, então não dá(U 12).
Além dos profissionais diretamente envolvidos na prestação do atendimento ao
cliente, outros trabalhadores como os da limpeza desenvolvem atividades
bastante importantes para que o cuidado institucional se efetive, garantindo um
ambiente seguro, não agressivo, zelando para que se estabeleçam interações
agradáveis e vitalizadoras(19).
4. Considerações finais
A escuta de pacientes renais crônicos, em tratamento hemodialítico, forneceu
importantes subsídios para que se repense aspectos da dinâmica organizacional
em um ambiente de hemodiálise, principalmente para que as equipes reconheçam,
cada vez mais, que o cuidado não pode ficar circunscrito a um rim doente. É
preciso perceber a magnitude da presença de um ser humano que almeja ver
atendidas ou, pelo menos, ser compreendido em suas expectativas e, como
condição primeira, ser respeitado em sua individualidade. Para tanto, é
necessário ampliar o leque de atenção e extrapolar a fronteira da sofisticação
tecnológica e do aparato instrumental que, mesmo sendo importantes e
indispensáveis no tratamento hemodialítico, são insuficientes para suprir as
necessidades do um ser humano que está sendo cuidado.
Com a pesquisa, ratificou-se o quanto é importante considerar as várias
dimensões da natureza humana, na tentativa de obter melhores resultados e que
atendam as reais necessidades dos usuários de serviços de hemodiálise. Pensar
em estratégias que dêem suporte para o paciente renal crônico no enfrentamento
de sua condição é um desafio constante para os profissionais da saúde. Alguns
dos encaminhamentos concretos, pelo menos que possam contribuir com esse campo
de pesquisa, seria a implantação de um sistema de Ouvidoria e mesmo a coleta de
opiniões por meio de caixa de sugestões, uma medida simples, mas que pode ser
estratégica. Outra possibilidade consiste em sistematizar grupos de sala de
espera, visando integrar usuários e equipe multiprofissional com vistas a
processos educativos que promovam planejamentos e ações compartilhadas.
Os resultados do estudo oportunizaram discussões que vão além do desempenho
técnico. Enfim, de um ambiente de hemodiálise se espera que haja
conscientização e um franco reconhecimento do papel social em nome de um
atendimento mais humanizado ao paciente renal crônico.