Orientação sexual na escola: a concepção dos professores de Jandira - SP
PESQUISA
Orientação sexual na escola: a concepção dos professores de Jandira - SP
Sexual orientation in school: conception of the teachers from Jandira - SP
Educación sexual en la escuela: la concepción de profesores de Jandira - SP
Dulcilene Pereira JardimI; José Roberto da Silva BrêtasII
IEnfermeira. Especialista em Saúde Pública
IIEnfermeiro. Psicólogo. Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto do
Departamento de Enfermagem da UNIFESP.Orientrador
1. INTRODUÇÃO
A adolescência tem sido tema de muitos estudos na atualidade. Isso se deve ao
fato de ter ampliado seu espaço etário diminuindo a infância e postergando o
seu ingresso na fase adulta(1).
Fisicamente, o adolescente está sob intensas transformações estimuladas pela
ação hormonal característica da puberdade, com acontecimentos como a menarca e
a semenarca, cada vez mais precoces, dentre outras alterações biológicas as
quais propiciam uma série de eventos psicológicos que culminam na aquisição de
sua identidade sexual(2). Ao final desta transformação os indivíduos estão
aptos para a reprodução, entretanto, a grande maioria não desenvolveu as
habilidades emocionais necessárias para isso(3).
Esta fase tem sido marcada por intensas mudanças no seu comportamento
individual e coletivo, o que tem exposto o adolescente a muitos riscos físicos,
psíquicos e sociais. Dentre as vulnerabilidades da adolescência moderna podemos
citar o desenvolvimento sexual como um tema de extrema importância para nossa
atenção e estudo com vista aos problemas que este assunto tem levantado, como a
gravidez precoce e a transmissão de DST e do HIV.
Diante desta realidade, vemos a importância da educação com vista à prevenção.
E Ao se falar em Educação Sexual, o Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação
Sexual (GTPOS) a define como "todo o processo informal pelo qual aprendemos
sobre a sexualidade ao longo da vida, seja através da família, da religião, da
comunidade, dos livros ou da mídia", enquanto define Orientação Sexual como
"processo de intervenção sistemática na área da sexualidade, realizado
principalmente em escolas"(4).
Neste sentido, a família, a sociedade e a escola são as instituições básicas
para o desenvolvimento das ações educativas, ajudando o adolescente a enfrentar
as situações de risco muitas das quais por ele mesmo geradas.
A educação sexual é prioritariamente uma competência da família, pois é peça
chave na formação da identidade de gênero e no desem-penho dos papéis sexuais
de seus filhos(5). A família mesmo que não dialogue abertamente sobre
sexualidade, é quem dá as primeiras noções sobre o que é adequado, ou não, por
meio de gestos, expressões, recomendações e proibições(6).
Independentemente da participação familiar no processo educativo, a sexualidade
está abertamente debatida na sociedade e nos meios de comunicação, como a
televisão, o rádio e a Internet, que têm influenciado diretamente o
comportamento do adolescente com um bombardeio de informações em sua maioria,
distorcidas sobre a sexualidade.
Somando-se as instituições que interferem na educação sexual do adolescente
encontramos a escola, parte essencial do nosso estudo. Sabe-se que a escola é
um cenário muito apropriado para o desenvolvimento de um programa de educação
sexual, por que além de uma ação direta que exerce sobre os educandos,
indiretamente incentiva a própria família a desempenhar o seu papel(1).
A escola é o ambiente social no qual o indivíduo passa grande parte de sua
vida, e é um dos principais elementos para contatos interpessoais(7), por isso
deve contribuir para o desenvolvimento de uma educação sexual que promova no
adolescente senso de auto-responsabilidade e compromisso para com a sua própria
sexualidade(8).
A orientação sexual na escola está sugerida nos novos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN) elaborados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), dando
autonomia aos próprios estabelecimentos de ensino para decidirem a forma de
abordarem esta temática(9).
No entanto, sabemos que estas instituições enfrentam dificuldades para a
inserção de novas práticas em educação sexual, e muitas vezes deixam de
oferecer um espaço para que ocorram debates sobre saúde reprodutiva e
sexualidade de uma forma contínua, referidos principalmente a carência de
recursos materiais e pessoal capacitado(6,10).
Para que a educação ocorra é necessário um educador e o professor é o grande
agente na integração da orientação sexual na vida escolar. Mas será que este
personagem está preparado para esta tarefa?
A educação sexual é com certeza uma grande estratégia de prevenção dos
problemas relacionados ao desenvolvimento da sexualidade na adolescência, mas a
escola apresenta dificuldades em cumprir seu papel, pois este trabalho resulta
entre outros fatores, de docentes capacitados previamente para a função(7,11).
Considerando a orientação sexual como fator essencial ao desenvol-vimento
seguro da sexualidade na adolescência, e tendo a escola como cenário propício a
este trabalho e o professor como peça chave para sua execução, este trabalho
teve como objetivos identificar o conhecimento e a prática destes professores
sobre orientação sexual, bem como dimensionar o nível de dificuldade dos mesmos
ao lidar com a sexualidade dos seus alunos.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo-exploratório com abordagem quantitativa. O
estudo descritivo pretende descrever as características de determinada
população ou fatos e fenômenos de determinada realidade, sem nela interferir
para modificá-la(12).
O desenho de estudo descritivo promove um delineamento da realidade uma vez que
esta descreve, registra, analisa e interpreta a natureza atual ou processos dos
fenômenos. Afirmam os autores o enfoque deste método sobre as condições
dominantes da realidade, ou como uma pessoa, grupo ou coisa se conduz ou
funciona no presente, empregando para este fim a comparação e o contraste. Na
resolução de problemas, informa as condições atuais, necessidades e como
alcançar resultados(13).
Este estudo foi realizado no período de Janeiro a Setembro de 2005, na rede
pública de ensino do Município de Jandira, o qual se encontra à oeste da região
metropolitana de São Paulo, com uma população de cerca de 105.000 habitantes em
seus 22 mil Km2, cuja economia baseia-se na indústria e no comércio. A rede
pública de ensino tem 28 escolas, e destas 14 oferecem da 5ª série até o ensino
médio, das quais 7 fizeram parte deste estudo conforme aceitação das mesmas.
Estima-se que nas escolas participantes do estudo a população de professores
seja de 150 somando-se os efetivos e os eventuais. A amostragem do estudo foi
aleatória, que contou com 100 professores conforme a disponibilidade em
participar da pesquisa, os quais lecionavam da 5ª serie do Ensino Fundamental
ao 3º ano do Ensino Médio, independente da disciplina ministrada.
A coleta de dados se deu através de um questionário semi-estruturado, sendo que
a primeira parte visou caracterizar a população e a segunda obter dados sobre o
conhecimento e atuação no que tange a orientação sexual na escola, o qual teve
duração média de 15 minutos para ser respondido.
Os dados obtidos foram analisados e interpretados em um contexto quantitativo,
expressos mediante símbolos numéricos. Apresentados em tabelas e gráficos para
melhor compreensão dos mesmos e analisados descritivamente.
O projeto desta pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética da
Universidade Federal de São Paulo. Uma vez que obtivemos a aprovação para
realização da pesquisa os professores foram orientados e aceitaram participar
da mesma. Desta forma, confirmamos que todos os procedimentos metodológicos
obedeceram aos padrões estabelecidos pela Resolução 196/96, que trata das
Normas de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos(14).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Caracterização da população estudada
A amostra foi composta por 100 professores de 7 escolas, com idade média de 34
anos. Destes 68% eram mulheres e 32% homens. Quanto ao estado civil, 27% eram
solteiros, 55% casados, e 17% divorciados, sendo de 2 a média de filhos, e 21%
dos professores tinham algum filho na adolescência. A renda familiar média foi
de R$ 2.630,61.
Quanto à carga horária, 30% trabalham apenas em um período; 50% trabalham em
dois períodos e 20% trabalham nos três períodos: manhã, tarde e noite. Além da
carga horária de trabalho como professor, 8% deles ainda exerciam outra
atividade ocupacional não relacionada à educação.
Com relação à formação escolar, somente 83% tinha formação superior, 14% tinham
especialização, 3% eram mestres.
Na variável religião encontramos 51% católicos, 23% evangélicos, 5% espíritas e
21% não têm religião. Durante a coleta de dados observou-se mais resistência de
professores com religião em relação aos que não tinham, devido a temática
tratada neste estudo.
A questão da religião se torna relevante porque muitas vezes ao abordar o
assunto, professores e educadores tomam por base seus próprios valores, com
condutas discriminatórias e posturas pouco reflexivas, devendo, portanto ser
cuidadosos para não misturar o trabalho de educação sexual com suas convicções
pessoais, religiosas ou partidárias sobre a matéria(9,15).
Independentemente da religião, 99% dos professores consideram importante a
orientação sexual na escola, que segundo eles servirá para orientação e
conscientização dos alunos preparando-os para a vida. Um professor ainda
respondeu que "a escola é um espaço privilegiado para qualquer discussão",
concordando com Gherpelli(16) que considera a escola o local eleito para
inserir no processo educacional a educação preventiva. Considerando a escola
neste contexto privilegiado, apenas 36% dos professores referiram que a sua
escola já desenvolveu alguma atividade em orientação sexual, sendo que 14%
delas restritas a palestras isoladas realizadas por convidados.
Por serem episódicas e desprovidas de continuidade, as palestras embora possam
ter um impacto imediato e alterar momentaneamente a percepção do problema com
base nas repercussões emocionais, raramente modificam atitudes(1), devendo,
portanto ser restritas neste processo.
Algumas escolas não vêm desempenhando o seu papel social no que diz respeito à
orientação sexual dos jovens. Este fato se torna preocupante diante desta
problemática, pois um dos meios de orientar os adolescentes sobre o tema
sexualidade, pode não estar cumprindo eficazmente o seu papel(17).
Para mudar esta realidade, uma possibilidade é a Secretaria de Educação do
município de Jandira incentivar a inclusão do estudo da sexualidade no
currículo escolar, em parceria com organizações com interesses comuns.
Quanto se fala em currículo escolar logo nos vêem a mente os responsáveis pela
educação: os professores. Este estudo pretendeu avaliar o conhecimento e
habilidade dos envolvidos nesta tarefa, fazendo parte da pesquisa professores
de todas as disciplinas que normalmente compõem um currículo escolar
fundamental e médio. Sendo assim: Biologia (6%), Ciências (4%), Geografia
(12%), Inglês (8%), Português (20%), Artes (5%), Matemática (19%), Educação
Física (6%), Química (5%), Física (3%) e História (12%).
Quando falamos em orientação sexual na escola as opiniões se divergem quanto a
se tratar do tema apenas nos conteúdos programáticos (nas aulas de Ciências e
Biologia) ou como um tema transversal permeando todas as disciplinas do
currículo escolar.
Nos PCN do MEC a orientação sexual está incorporada como tema transversal além
de indicada a pertinência do espaço específico para a temática da sexualidade
(4). A orientação sexual comporta uma sistematização e um espaço específico
(18), mas não deve ser colocada em uma matéria obrigatória, nem a preocupação
de que estas aulas possam gerar uma nota ou uma avaliação(19).
O professor de qualquer disciplina pode realizar um trabalho de educação
sexual, podendo abordar o assunto a qualquer momento em qualquer disciplina,
pois é um tema transversal que atravessa fronteiras disciplinares(6,18).
A sexualidade humana tem aspectos biológicos, sociais, relacionais que podem e
devem ser abordados nos diversos grupos disciplinares existentes(20).
3.2 Apresentação dos dados
Concordando-se com a importância da orientação sexual na escola, os professores
foram questionados quanto à idade ideal para começá-la, cujos resultados estão
apresentados na tabela_1.
Dentre as maiores porcentagens, o início da orientação sexual para 16% dos
professores deve ser entre os 07 e 09 anos exclusive, idade na qual normalmente
os indivíduos se inserem no contexto escolar. Para 23% a orientação deve
começar entre os 09 e 11 anos exclusive, sendo os 10 anos o marco para se
iniciar a orientação, idade qual para a OMS (Organização Mundial da Saúde) dá-
se início á adolescência(23). Ainda para 13% deve-se começar a se falar em
sexualidade entre os 11 e13 anos exclusive.
A orientação sexual deve começar quando a criança entra na escola e se
desenvolver ao longo de toda a vida escolar. Para o GTPOS, da 1ª á 4ª série do
ensino fundamental esse trabalho é transversalizado com base na observação e na
demanda das crianças, dispensando um espaço específico. Da 5ª série em diante,
a transversalidade não dispensa mais a existência de um espaço específico para
trabalhar com a sexualidade(22,23).
Completando esta questão é importante salientar que, cada faixa etária possui
características próprias que devem ser levadas em consideração para se garantir
a compreensão das mensagens que serão passadas(6), buscando sempre uma
vinculação entre o conteúdo e a vida cotidiana do aprendiz(24).
Na tarefa de orientar sexualmente os alunos 45% consideram que os pais são os
grandes responsáveis por esta missão, enquanto que 4% responsabilizam a
comunidade e outros 4% a igreja. A maioria, 58% traz para si a responsabilidade
da educação enquanto professores, desde que treinados para isso, enquanto que
10% direcionam a tarefa apenas aos professores de ciências e biologia. Para 29%
a educação sexual na escola deve ser feita por profissionais especializados no
assunto para garantir o sucesso da informação.
Em se tratando de orientação sexual, há uma transferência para a escola de uma
responsabilidade que muitos pais não se dispõem ou encontram dificuldade em
assumir(4). Mas, a escola e a família têm papéis diferentes e complementares,
uma não substitui a outra(22).
Ao se falar da escola, o professor se constitui um interlocutor confiável para
as questões da sexualidade, na qualidade de adulto significativo para o aluno
(23). Para tanto, há necessidade de disponibili-dade pessoal do professor para
atender às demandas que recebe em relação ao assunto e dependendo do estilo do
professor ele pode inibir ou estimular o aparecimento de dúvidas por parte dos
alunos(25).
Especialistas com capacitação comprovada em educação sexual podem promover uma
constante reciclagem de conhecimentos dos professores, servindo de suporte
técnico na orientação de problemas educativos(1).
Quanto à abordagem pedagógica dos assuntos relacionados a sexualidade, a maior
parte dos professores acham que deve ser por palestras (19%), por discussões de
situações reais (18%), e através de vídeos educativos (18%). Soma-se a estes,
em menor porcentagem, jogos, teatros, entrevistas, músicas, e textos. Um
professor acha que os pais devem estar envolvidos em alguma atividade com os
filhos, e 21% não sabem como abordar o assunto.
Deve ser usada uma metodologia participativo-construtivista, devendo-se sempre
partir do conhecimento que o aluno já possui sobre o assunto e ir preenchendo
as lacunas nas informações. A educação sexual na escola não deve trazer
respostas prontas, mas problematizar, levantar questionamentos e ampliar o
leque de conhecimentos e de opções para que cada um escolha seu próprio caminho
(6,16).
Concordando com os resultados deste estudo, o grupo de Estudos e Comunicação e
Sexualidade - ECOS(6)sugere que dinâmicas de grupo, jogos educativos, estudos
de caso, dramatizações produzem um bom resultado neste sentido, e Gherpelli(16)
acha importante envolver a família neste processo.
Quanto aos assuntos que deveriam ser abordados na escola, 43% acham que devem
ser discutidos todos os assuntos que envolvem a sexualidade; 38% acham que deve
ser falado apenas sobre a gravidez na adolescência e os métodos contraceptivos;
para 30% deve ser dito sobre as DST e suas formas de prevenção; 5% acham
importante falar sobre auto-estima, valores e responsabilidades relacionadas ao
exercício da sexualidade; 3% falariam sobre a família e o casamento, e 1% acha
importante dar noções de higiene pessoal.
As temáticas a serem trabalhadas na educação sexual deveriam ser construídas
junto com o adolescente baseadas nas suas necessidades(26) e não na necessidade
do professor.
As discussões em sexualidade ainda estão muito restritas a prevenção da
gravidez e das DST. Claro que estas são de grande importância, mas, os
adolescentes precisam saber muito mais do que os métodos contraceptivos, mas
também como negociar o seu uso, baseados em uma valorização pessoal e senso de
responsabilidade individual e coletiva. Todos os assuntos relacionados á
sexualidade devem ser abordados e com qualidade.
Quanto aos assuntos que Não deveriam ser mencionados na escola, 91% dos
professores não restringiriam nenhum assunto, e 9% deles não falariam sobre o
aborto e a masturbação para não estimularem os alunos a sua prática.
Ainda existe entre os educadores a concepção que se falarem sobre determinados
assuntos estarão estimulando a sua prática, quando na realidade, os
adolescentes muitas vezes já têm conhecimento destes "tabus" e carecem de
esclarecimentos.
A ignorância não protege ninguém de nada, ao contrário, torna a pessoa mais
vulnerável ás situações por não saber lidar com elas(22).
Na prática, 55% dos professores disseram que abordam temas relacionados à
sexualidade em sala de aula, de acordo com o plano de aulas (16%) ou
respondendo aos questionamentos dos alunos (25%) mesmo que não façam parte do
conteúdo programático. Os demais 45% dos professores não falam sobre assuntos
relacionados à sexua-lidade em sala de aula.
Ao serem questionados quanto à segurança para falar sobre estes assuntos,
apenas 33% sentem-se seguros para tanto. Então, como fazem os demais
professores que na questão anterior afirmaram que falavam sobre sexualidade com
os alunos e nesta questão expressam insegurança com o tema?
Podemos considerar que os demais professores não se considerem seguros para
falar sobre todos os temas que envolvem a sexualidade e só abordam em sala de
aula os assuntos os quais tenham domínio. O fato de assumir sua insegurança é
um ponto positivo, pois pode estimular o professor a aumentar seu conhecimento
sobre a temática.
Na tentativa de quantificar o conhecimento dos professores sobre a sexualidade
na adolescência, os mesmos formam questionados quanto ao seu conhecimento e
habilidade para colocar em discussão assuntos básicos para orientação sexual,
respondendo se considerava o assunto "fácil", "difícil" ou "não falaria" sobre
aquele assunto (Tabela_2).
Os resultados apontam que os professores têm mais facilidade em ensinar sobre a
versão biológica da adolescência, a prevenção da gravidez e das DST's, do que
discutir sobre a sua versão psíquica, sobre as vivências e conflitos
decorrentes do crescimento e da sexualidade(27).
Informações e orientações a respeito da anatomia e fisiologia do aparelho
reprodutor, muito embora sejam necessárias, não são suficientes. Falar sabre
sexualidade é referir-se também a sentimentos, emoções e afetos fundamentais no
desenvolvimento e na vida psíquica do ser humano(28).
O professor deveria estar preparado para polemizar, lidar com valores, tabus e
preconceitos(4), mas, continuam sem subsídios adequados para trabalhar essas
questões e acabam dando á elas enfoque totalmente biológico com a função de
preservar o educador frente aos alunos com relação aos seus próprios
questionamentos, receios e ansiedades(29).
Este nível de discussão requer do professor muito mais habilidade e
sensibilidade do que para falar dos assuntos escritos nos livros de biologia,
exigindo dele constante aprendizado, atualização e reciclagem.
Os professores foram ainda questionados quanto ao seu conhecimento dos métodos
contraceptivos, já que a gravidez na adolescência foi apontada como tema
essencial de orientação aos alunos. A questão exigia não somente o seu
conhecimento pessoal sobre os métodos contraceptivos, mas também sua habilidade
de explicar ao adolescente o uso, vantagens e desvantagens na sua utilização.
Os resultados obtidos foram: pílula (95%), camisinha masculina (91%), coito
interrompido (72%), Dispositivo Intra Uterino (70%), injetável (61%), cam-
isinha feminina (58%), tabelinha (52%), diafragma (46%), espermicida (38%),
transdérmico (32%), anel vaginal (30%), intradérmico (18%) e não conhecem
apenas 5%.
As adolescentes já conhecem os métodos contraceptivos e continuam engravidando
porque existe uma lacuna entre o conhecimento e o uso dos contraceptivos e por
muitos motivos este conhecimento não tem gerado ação(30).
É preciso levar os adolescentes à reflexão e negociar com eles a utilização do
seu conhecimento para sua proteção. Os adolescentes do novo milênio querem
falar de seus sentimentos, ansiedades, dúvidas e emoções compartilhadas.
Em sua origem, a educação sexual se caracterizava pelo aspecto informativo,
biologizante e repressivo às manifestações da sexualidade. Em certos períodos
teve como objetivo o controle da natalidade, e, mais recentemente, tem visado
associar a idéia do prazer à sexualidade(23).
A realidade nos mostra que ignorar o tema ou privilegiar o aspecto informativo
não foi suficiente, pois as informações sobre conduta contraceptivas de
prevenção a AIDS não asseguram sua eficácia entre os adolescentes. Isso talvez
ocorra por que as relações intersubjetivas têm mais influência que o simples
repasse de informações aos adolescentes(31).
Apenas 27% dos professores já participaram de algum tipo de treinamento ou
capacitação para falar sobre sexualidade em espaço escolar, o que responde o
alto índice de insegurança com o assunto. Felizmente, 90% da população do
estudo expressou o desejo de participar de treinamento específico nesta
temática para se capacitarem para uma orientação sexual efetiva, mas ainda 10%
não manifestaram este desejo.
Os professores são peça chave na educação sexual sendo necessário que ele
participe de um processo amplo e aprofundado de formação tanto em termos de
conhecimento quanto de uma metodologia adequada que lhe dê segurança
transmitida aos adolescentes para expressarem sua opinião sobre o assunto(6).
Para o sucesso da orientação sexual na escola faz-se necessário estabelecer um
programa de capacitação em sexualidade para os professores interessados de modo
que eles enfrentem os problemas com objetividade, sem medo e sem alarde, e se
transformem em agentes multiplicadores da ação educativa(1).
4. CONCLUSÕES
O desenvolvimento da sexualidade faz parte de todo ser humano e seu ápice
talvez se dê na adolescência onde são vivenciadas grandes transformações no
corpo e mente de cada indivíduo. Estas mudanças precisam ser acompanhadas de
perto para que através da prevenção se ofereça proteção.
No sentido de acolher e educar o indivíduo revela-se importante à educação
sexual fornecida desde o nascimento pela família. Mas esta instituição nem
sempre consegue cumprir satisfatoriamente sua função e acaba transferindo-a a
outra instituição onde seu filho passará grande parte de sua vida: a escola.
Sabemos que as duas instituições têm ações complementares na educação e que a
escola também enfrenta dificuldades em cumprir seu papel na orientação sexual
de seus alunos.
Para cumprir sua função educativa, a escola depende dos seus professores, os
quais foram objetos deste estudo. Para eles a orientação sexual para o
adolescente é de grande importância para orientação e conscientização dos
alunos preparando-os para a vida.
Uma parcela expressiva dos professores acredita que ela deve começar logo
quando a criança ingressa efetivamente na escola, o que com certeza teria um
caráter mais preventivo e facilitaria o trabalho nas séries subseqüentes, mas
muitos ainda a adiariam ao máximo possível talvez para fugir à responsabilidade
de colaborar com esta educação.
A sexualidade na escola deveria ser trabalhada transversalmente em todas as
disciplinas do currículo escolar, com professores devidamente preparados para
esta função em uma metodologia participativa, com base na manifestação do
próprio adolescente.
Os professores deste estudo mostraram-se inseguros com o seu conhecimento e
prática nos conteúdos de orientação sexual, restringindo-se apenas aos
conteúdos dos livros de ciências e biologia que se resumem na anatomia e
fisiologia da reprodução e temas tradicionais da adolescência como a prevenção
da gravidez e das DST/AIDS.
Diante da necessidade de conquistar o adolescente e de atingir as suas
expectativas de discutir não só questões biológicas, mas também questões que
envolvem sentimentos, valores, a moral e a ética, é necessário "construir"
professores com habilidades essenciais, proporcionando a eles condições de
ampliar e reciclar seu conhecimento, através de programas de atualização e
capacitação direcionadas a sexualidade.
Só assim, teremos professores capazes de criar e manter um vínculo de confiança
com o adolescente e cumprir os objetivos da orientação sexual na escola de
levá-los a reflexão e aplicação do conhecimento para a construção da sua
cidadania.