A terceirização nos serviços e conseqüências no cuidar em enfermagem
RELATO DE EXPERIÊNCIA
A terceirização nos serviços e conseqüências no cuidar em enfermagem
Outsourced services and their consequences for nursing care
Los servicios contratados y sus consecuencias en la atención de enfermería
Cláudia ZamberlanI; Heidi Crecência Heckler de SiqueiraII
IEnfermeira. Docente do Curso Técnico em Enfermagem da Escola Nossa Senhora de
Fátima. Santa Maria, RS. Mestranda em Enfermagem pela Fundação Universidade do
Rio Grande (FURG)
IIEnfermeira. Docente do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Fundação
Universidade do Rio Grande (FURG). Doutora em Filosofia da Enfermagem pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
1. INTRODUÇÃO
As transformações tecnológicas na área da saúde vêm provocando modificações no
processo de cuidar, visto que têm exigido, constantemente, a reciclagem dos
profissionais com o propósito de prestar um cuidado cada vez mais eficiente
(mesmo que eficaz; que produz o efeito desejado)(1).
O cotidiano do trabalho em enfermagem está permeado pelas inter-relações com os
demais profissionais que atuam em âmbito hospitalar. Neste sentido, as pessoas
do sistema organizacional de cuidados de enfermagem utilizam um espaço
geográfico e simbólico de uma convivialidade humana muito própria e a princípio
de uma objetividade muito clara. Isto demonstra a importância singular da
interação entre as equipes no ambiente organizacional hospitalar na busca da
qualidade da assistência(2).
A reorganização no mundo do trabalho caracteriza um conjunto de modificações
dentre estas, pode-se citar a forte influência da terceirização nos serviços de
saúde. Hoje, as instituições hospitalares possuem diversas áreas terceirizadas
como serviços diagnósticos por imagem, laboratórios, bancos de sangue,
nutrição, lavanderias, higienização dentre outros, que se agregadas totalizam
grande parte das forças de trabalho A utilização da força de trabalho é o
próprio trabalho. O comprador da força de trabalho consome-a fazendo o vendedor
dela trabalhar(3).em inúmeras instituições públicas e privadas.
Cada serviço compreende um grande número de profissionais, indivíduos com
características, valores, sentimentos e saberes específicos que na sua
heterogeneidade/diversidade, são capazes de contribuir para as relações
interconectivas/integrativas, enriquecendo o todo com suas particularidades. Em
uma organização hospitalar estruturada em serviços, cada um destes constitui um
subsistema dentro de um sistema maior(4).
Esta idéia busca explicitar como deveriam ocorrer a interconexão dos serviços
hospitalares, porém as relações integrativas no que tange ao conhecimento
técnico e prático na área da enfermagem muitas vezes escapam da visão acima
descrita. Partindo pois, deste enfoque surgiu a proposta de refletir sobre a
influência da terceirização no processo de cuidar em enfermagem procurando
visualizar, especificamente, uma unidade diagnóstica e terapêutica por imagem
de alta complexidade hemodinâmica visto que, a partir da prática profissional
vivenciada, foi constatado a falta de preparo e de conexão entre as equipes de
enfermagem ao cuidarem de clientes submetidos à intervenções hemodinâmicas.
Cabe ressaltar que o serviço de hemodinâmica é terceirizado na instituição de
referência em estudo, realiza a terapêutica e o diagnóstico cardiovascular,
recupera esta clientela nas primeiras horas pós-intervenção e encaminhando-os,
posteriormente, para as unidades de internação (não terceirizadas).
Diante disto faz-se presente a necessidade de reflexão sobre a questão exposta,
visto que, independentemente da área de atuação o trabalho de enfermagem
deveria estar interligado, constantemente, com as diversas áreas de inserção
institucional priorizando, assim, o cuidado singular à clientela.
Objetiva-se a partir desta vivência analisar a influência da terceirização nos
serviços de saúde e sua conseqüência no processo de cuidado de enfermagem.
2. METODOLOGIA
Este relato de experiência possui como base a experiência profissional vivida e
que se traduziu em diversos questionamentos acerca dos cuidados prestados pela
enfermagem. O relato aborda as equipes de enfermagem de uma unidade de
cardiologia invasiva (terceirizada) e demais unidades de internação de um
hospital privado situado na região central do Rio Grande do Sul.
O problema exposto refere-se a minha vivência profissional como enfermeira
assistencial em uma unidade de hemodinâmica na qual sentia a dificuldade por
parte dos outros profissionais das unidades de internação de prestarem um
cuidado singular para a clientela que era submetida à cateterização cardíaca
diagnóstica e intervencionista. Após a recuperação imediata na unidade de
hemodinâmica a clientela era encaminhada para as unidades de internação para a
recuperação. Os clientes que apresentavam certas complicações tardias
traduzidas em sangramento inguinal, reflexo vaso-vagal, lombalgias, hematomas
na região cateterizada, complicações estas que não eram avaliadas pelos
profissionais das unidades, talvez por um desconhecimento dos procedimentos
realizados, isto se traduzia no deslocamento dos profissionais da hemodinâmica
até as unidades de internação para a avaliação destes clientes, o que na
maioria das vezes, não eram complicações severas mas reações esperadas em
decorrência do tratamento instituído.
Essa atitude profissional, muitas vezes, acarretava um descrédito por parte dos
clientes pois não se sentiam verdadeiramente "cuidados", ocasionando um
problema, uma inquietude na medida em que a enfermagem deveria estar
fundamentalmente integrada visando um único objetivo cuidado humanizado e
integral aos pacientes.
Acreditamos contudo, que a tecnologia e as novas áreas de atuação na enfermagem
trouxeram dúvidas aos profissionais e que os serviços terceirizados e os não
terceirizados criaram entre si uma barreira ao cuidar, barreira esta que não
deveria existir quando se trata em cuidar do outro. Hoje algumas atitudes já
estão sendo implementadas para que o profissional torne-se conhecedor destes
novos procedimentos, habilidades, pois há maiores possibilidades de atualização
na área. O que se faz necessário é que os profissionais das unidades de
internação busquem estes conhecimentos e aos profissionais do setor
terceirizado que oportunizem a troca de saberes, pois o trabalho quando é
realizado como um todo integrado é mais eficiente, valorizado e conduz à
realização pessoal e profissional.
3. CONHECENDO O PROCESSO DE TERCEIRIZAÇÃO NO AMBIENTE HOSPITALAR
A terceirização é entendida como interveniente, intermediário na abordagem
administrativa caracterizando-se como uma modalidade através da qual se coloca
um serviço de terceiros em uma instituição que assumirá o desempenho desse
serviço e que pode, desta maneira, ser chamada de atividade terceirizada(5).
Alguns estudiosos desta área definem este processo como sendo a busca pela qual
a instituição visa alcançar maior e melhor qualidade e produtividade, redução
de custos e, desta forma, a atividade deixa de ser realizada pelos funcionários
de uma empresa A (instituição hospitalar) para ser transferida aos funcionários
de uma empresa B (serviço terceirizado) ocorrendo assim um processo de
transferência de funções e/ou atividades podendo incluir tanto as etapas do
processo produtivo, ou atividades-fins da chamada "empresa origem" como
atividades ou serviços de apoio, também denominados de meios, nestes casos
pode-se citar como exemplos: os serviços das lavanderias, de limpeza,
manutenção, nutrição, dentre outros.
Pelo exposto podemos entender que o processo de terceirização deveria ser
inseparável do processo de parceria ainda que sua finalidade é sobretudo
otimizar o trabalho e como conseqüência obter maior produtividade, qualidade e
diminuição de custos.
A terceirização no setor hospitalar se deve, sobretudo, ao aumento nos custos
com a saúde e nesta área este processo deveria desenvolver a parceria
objetivando alcance do coletivo sobre o individual.
O trabalhador da saúde se coloca em um terreno pluri-institucional(6), isto nos
remete ao pensar de que este "terreno" engloba não somente o homem mas também a
natureza e todo o seu processo, como também a força de trabalho que põe a vida
em movimento.
A onda de qualidade, terceirização e automação ou qualquer outra forma de
diminuir a dita necessidade de pessoal parecem idéias que ainda não surgiram
nos serviços de enfermagem hospitalar, porém a forte idéia de que a presença do
cuidador junto ao cliente/paciente é muito importante não se esgota(2). A
afirmativa da autora nos leva a refletir a respeito das inúmeras e rápidas
transformações que se fazem presentes no trabalho da enfermagem. Podemos
constatar que em relação a força de trabalho da enfermagem a idéia de
terceirização já atingiu diversas instituições. Essa nova realidade necessita
adaptações em busca de novas formas de convivência, o desenvolvimento de
conhecimento específico e a interconecção/integração dos serviços(4).
A enfermagem encontra-se envolvida neste processo uma vez que participa da
equipe multiprofissional, prestando o cuidado, planejando e coordenando ações e
possibilitando espaço com vistas à prevenção, promoção e recuperação da saúde.
Como já citado anteriormente, dentre as unidades que mais se destacam como
terceirizadas cencontram-se as de diagnósticos e intervenção por imagem, motivo
escolhido como objeto de reflexão, e por isso ressaltar-se-á aspectos
referentes, especificamente, à unidade de hemodinâmica.
A unidade de hemodinâmica é um setor que estuda o estado normal e patológico do
sistema cardiovascular, intervindo quando necessário através de procedimentos
altamente complexos. Não encontramos na literatura uma definição ampla acerca
de procedimentos de alta complexidade porém há um consenso de que os mesmos
sejam aqueles procedimentos que apresentam custos elevados, equipamentos de
ponta e condutas altamente complexas e especializadas e que, na maioria das
vezes, ainda não foram adotados como rotineiros nos tratamentos. Este é o caso
dos procedimentos realizados nas unidades de hemodinâmica onde podemos destacar
cateterismos cardíacos, angioplastias coronarianas, implantes de stents
(armações metálicas usadas para manter aberto os vasos do organismo que em
condições adversas não funcionam de forma correta) implantantes de balão intra-
aórtico dentre outros e que por ainda não serem rotineiros em muitos ambientes
hospitalares tornam-se um entrave ao cuidado dos profissionais da enfermagem
que atuam nas unidades de internação pois, não ocorre um conhecimento
específico por parte destes acerca da técnica, das complicações e da
especificidade do cuidado de enfermagem a ser prestado.
Faz-se, desta maneira, importante analisar o que é cuidado de enfermagem e como
deveria acontecer a integração dos serviços terceirizados com os não
terceirizados realizados na mesma instituição, porém, com equipes de enfermagem
distintas, objetivando a produção de um trabalho interconectado com efeitos
mais positivos ao cliente submetido a procedimentos hemodinâmicos.
4. A INTER-RELAÇÃO DO CUIDADO NAS UNIDADES TERCEIRIZADAS COM AS DEMAIS EM
ÂMBITO HOSPITALAR QUE TERCEIRIZA O SERVIÇO
Ao visualizar o processo de terceirização faz-se urgente o repensar acerca do
cuidado que estamos prestando à clientela em estudo e desta forma compreender a
dificuldade de integração entre as diferentes áreas de atuação.
Apesar de existirem hoje tecnologias extremamente abrangentes, vê-se ainda
inúmeras necessidades sentidas pelos cuidadores no que diz respeito aos
procedimentos de ponta realizados nos serviços terceirizados onde o cuidador
das unidades não terceirizadas por não possuir conhecimentos, habilidades
profissionais relativas às intervenções de alta complexidade, necessárias para
satisfazer suas dúvidas, não pode traçar melhores estratégias de cuidado e
conseqüentemente o cliente externo é que sofrerá os "prejuízos". Para amenizar
a descontinuidade, seria necessário proceder-se a inter-relação de
conhecimentos entre os profissionais de enfermagem dos setores terceirizados e
não terceirizados, oportunizando ao profissional cuidador uma produção
cooperativa de cuidado e o exercício de uma atividade humanizada para a
clientela.
Falar em cuidado no âmbito da saúde é culminar a idéia de que o cuidado conduz
à promoção da saúde e a cura onde o modo como se opera os serviços de saúde
define-se como a produção de cuidado(7). Desta maneira produzimos cuidado na
medida em que conhecemos os sujeitos aos quais prestamos o cuidado, surge,
desta forma, a necessidade de vínculo entre os profissionais dos setores
terceirizados e os não terceirizados com o propósito único de troca de
experiências objetivando no final o melhor atendimento possível ao cliente.
O que se observa na prática é a falta de uma educação continuada inter-setorial
facilitando o processo de aprendizagem e proporcionando um cuidado mais eficaz.
5. EDUCAÇÃO CONTINUADA: UMA NECESSIDADE
A educação continuada nos serviços de enfermagem torna-se de fundamental
importância, visto que, possibilita ao trabalhador um aprimoramento e uma
reciclagem em relação a novos implementos técnico e científicos, além do que
proporciona um resgate científico nas organizações.
No que diz respeito a evolução tecnológica e ao processo de conhecimento, "um
novo trabalho em contínua construção e reconstrução, com base na motivação e
auto estima, deve ser criativamente, despertado no sentido de desenvolver
caminhos contra a entropia e, consequentemente acompanhar o constante avanço
tecnológico que está a produzir novos produtos/serviços que irão modificar o
mercado emergente.as organizações precisam capacitar-se para acompanhar esta
evolução traçando estratégias que irão orientar o caminho a ser seguido. É
necessário investir nos trabalhadores, clientes/internos, maior bem da
organização, oportunizando uma aprendizagem contínua, para que possam
satisfazer as suas necessidades pessoais e profissionais e participar da
análise das ameaças e oportunidades que se apresentam, traçando as melhores
estratégias para encontrar as soluções que venham ao encontro das necessidades
dos clientes"(4).
Para isso, torna-se necessário que o trabalhador esteja engajado em um processo
de mudança e assim absorvendo ao máximo o que a educação possa proporcionar e,
por fim, analisar quais estratégias são adequadas para a resolutividade dos
problemas vivenciados no cotidiano.
O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com um gesto a relação
dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão
em permanente movimento na história(8).
Esta relação dialógica que o autor acima expressa é que constrói e reconstrói o
saber independente da existência de duas instituições, pois será a partir da
reflexão crítica das mesmas e do estabelecimento de ajustes e relações de
trocas de saberes que dar-se-á um "movimento permanente na história" movimento
este, que contemple o conhecimento e o saber contínuo.
A educação continuada é o ponto principal para aquisição do conhecimento/saber
que pode propiciar o sucesso de qualquer atividade aliada a participação ativa
e comprometida das instituições/organizações, em que os indivíduos estão
inseridos. A educação permanente associada a uma educação continuada, planejada
pela instituição, de forma sistemática, faz com que o trabalhador conquiste seu
espaço, sua realização e reconhecimento pessoal e profissional, garantindo
assim seus direitos de cidadão(9).
Os autores supracitados abordam um ponto fundamental dentro da educação, onde
enfatizam que precisamos estar abertos ao mundo, às novas formas de aprender,
aos conhecimentos tecnológicos, isto tudo servindo como inquietação em nosso
ser. Pensamos que desta maneira a enfermagem poderá prestar um cuidado mais
humano e eficiente, pois é na busca da mudança e na construção contínua do
conhecimento que se faz do cuidador um ser integrado nas instituições,
oportunizando-lhe sentir-se satisfeito, realizado e feliz.
Reportando aos serviços terceirizados e não terceirizados situados em uma mesma
instituição hospitalar a educação continuada seria um caminho oportuno e
eficaz, servindo como uma estratégia instrumental para que as dificuldades
sentidas no cuidar à clientela consigam serem superadas. Assim, a qualidade da
profissão está no caminho de sua permanente renovação e não apenas banalizados
em resultados repetidos pois os eventos socializadores do conhecimento,
recuperam a competência de modo sistemático(10).
Este pensamento, se realmente colocado em prática, nas instituições através da
educação continuada impede o isolamento profissional proporcionando
compartilhar os saberes o que representaria o desempenhar de habilidades e
competências únicas com vistas a um atendimento integral.
O estabelecimento de uma educação continuada entre estes serviços poderia
ocorrer de maneira sistemática, periódica, através de reuniões de estudo com as
equipes envolvidas, de workshops, cursos, palestras, trabalhando em um primeiro
momento as dificuldades e posteriormente as melhores estratégias de
resolutividade das mesmas, configurando assim, as possibilidades de socializar
o conhecimento, traduzindo-os num melhor cuidado.
Entretanto, para concretizar este agir é necessário que as instituições não
visualizem somente as suas ações mas que tracem, conjuntamente, protocolos nos
quais são definidos e assegurados a continuidade efetiva e eficiente do cuidado
através de equipes de enfermagem habilitadas. Esta etapa além de valorizar o
cliente oportuniza o crescimento pessoal e profissional das equipes
assegurando-lhes maior significação através dos resultados obtidos pelo seu
trabalho.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As organizações, atualmente, buscam cada vez mais a terceirização como processo
de facilitação de atendimento e diminuição de custos. Porém o que se observa é
a falta de interação intersetorial o que, por vezes, leva à demora nas
informações e resolutividade de problemas apresentados.
Não se pode admitir, hoje, que a profissão enfermagem se torne fragmentada
diante da terceirização dos serviços, pois visamos o atendimento ao ser humano
de maneira única e integral, priorizando, assim, a unicidade e individualidade
de cada um. À medida que fragmentamos o cuidado de enfermagem tornamo-nos
inconsistentes e a clientela descrente, fragilizada em nosso atendimento.
Precisa-se pois, que a enfermagem independente do trabalho que realiza esteja
integrada com as demais áreas na busca de aperfeiçoamento contínuo porque este
se traduz no melhor atendimento e na confiança que a clientela dispensa ao
cuidador.
Acredita-se contudo que a educação continuada, nas suas mais diversas maneiras,
com a proposta de desenvolvimento do conhecimento através do auxílio de
encubadoras(9), ressalta-se que seja o caminho para que os setores de
enfermagem dos serviços terceirizados e não terceirizados busquem eficiência
nas relações de trabalho onde a socialização dos saberes possa se traduzir na
re-construção de um cuidado mais integrado, humanizado, produtivo e eficiente.