Perfil do adolescente que tenta suicídio em uma unidade de emergência
PESQUISA
Perfil do adolescente que tenta suicídio em uma unidade de emergência
Profile of adolecent suicide attempters admitted in an emergency unit
Perfi del adolescente que intenta suicidio admitido en una unidad de emergencia
Rita de Cássia AvanciI; Luiz Jorge PedrãoII; Moacyr Lobo da Costa JúniorIII
IEnfermeira da Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto - USP. Mestre em Enfermagem pelo Departamento de
Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão
Preto - USP
IIProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências
Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP
IIIProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências
Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP
1. INTRODUÇÃO
A tentativa de suicídio é uma causa muito freqüente de atendimento em urgências
psiquiátricas. O serviço de urgência desempenha papel importante na intervenção
e prevenção, pois o paciente que tenta suicídio é vulnerável a novas
tentativas. O presente estudo pretende relacionar o fenômeno do suicídio com a
adolescência, que é um período de conflitos e de grande vulnerabilidade.
Verificou-se através de um estudo de revisão bibliográfica sobre suicídio na
adolescência no mundo, que este constitui a segunda ou terceira causa de morte
para a faixa etária entre 15 e 25 anos, em quase todos os países. Em relação à
incidência o estudo mostrou que as taxas de suicídio são maiores no sexo
masculino em todos os países da América Latina. Estados Unidos (EUA) e Canadá
possuem taxas de suicídio mais elevadas em relação à América Latina e os países
do Oriente, onde as taxas de suicídio oscilam entre 6 e 10:100.000 habitantes
para o sexo masculino e 2 a 4: 100.000 para o sexo feminino. A Federação Russa,
Lituânia, Letônia, Hungria e Nova Zelândia possuem as taxas mais altas do
mundo. O Brasil apresentou taxas entre 5 e 6:100.000 habitantes para o sexo
masculino e entre 1 e 3:100.000 habitantes para o sexo feminino. Observou-se
também que dos adolescentes que tentaram suicídio 10% acabam se suicidando
dentro de 10 anos após a primeira tentativa e que somente 25% dos que tentaram
procuraram consulta médica, pois acreditam que podem resolver seus problemas
sem ajuda. Além disto, a existência de um clima de tensão, hostilidade ou
violência familiar são considerados fatores de risco para suicídio(1).
Na Austrália a taxa de suicídio encontra-se como a principal causa de morte
entre adolescentes com um índice de 16,4:100.000 habi-tantes(2).
Deve-se considerar que os países da América Latina, especifica-mente o Brasil,
muitas vezes possui um sistema de registros de casos deficiente, onde muitos
casos são passados e não são registrados, podendo ser um dos aspectos nas
diferenças entre as taxas de suicídio em países desenvolvidos e em
desenvolvimento.
Através de um estudo clínico-epidemiológico onde foi utilizado o método de
casos-controles, estudou-se 50 jovens entre 12 e 27 anos que haviam tentado
suicídio e comparou-se com dois grupos-controle de 50 jovens normais e 50
jovens que compareciam a consulta psiquiátrica. Observou-se que não existe
diferenças significativas entre os grupos em relação a doença somática atual ou
anterior. Apresentou maior proporção de doenças psicossomáticas, internações em
hospital geral e maior uso de bebidas alcoólicas em relação aos outros grupos.
Quanto a acidentes não se encontrou diferenças significativas. Encontrou-se
também no grupo de jovens que tentaram suicídio que o comportamento suicida
fazia parte do seu dia a dia, viviam num ambiente suicida, tendo em grande
parte, tentativas de suicídios anteriores(3).
Verificou-se como outros resultados deste estudo que os jovens suicidas
apresentavam, em seus antecedentes, maior proporção de brigas, de problemas com
a polícia e a justiça, de problemas na escola, no trabalho, de gravidez em
solteiras e abortos provocados(4) .
Evidenciou-se num estudo epidemiológico realizado na Unidade de Emergência de
Ribeirão Preto, no período de 1988 a 1993, com todos pacientes atendidos neste
período, o fato preocupante de que distúrbios psiquiátricos e comportamentos
auto-destrutivos estarem ocorrendo com freqüência bastante alta em população
jovem. Os adolescentes representam 23% dos atendimentos no período, com o
predomínio da faixa etária entre 15 a 19 anos e 20 a 24 anos. No sexo feminino
predominaram os Transtornos Neuróticos, Suicídios e Lesões auto-infligidas e
Psicoses Esquizofrênicas, no sexo masculino, predominaram quadros relacionados
a álcool e drogas, Psicoses Esquizofrênicas e Transtornos neuróticos,
respectivamente. É importante ressaltar que considerando ambos os sexos,
verificou-se que 77% dos casos de Suicídio e Lesões auto-infligidas estiveram
presentes no sexo feminino e 23% no sexo masculino, na população total de
adolescentes assistidos (3.100) no período mencionado(5) .
Ainda em Ribeirão Preto, delineou-se um perfil epidemiológico de 60 casos de
tentativa de suicídio atendidos no setor de Urgência Psiquiátrica de um
Hospital Universitário no ano de 1993 e constatou que as pessoas que tentam
suicídio são na maioria mulheres entre 15 e 29 anos, solteira, casada ou em
"união irregular", que pratica o ato suicida em locais familiares,
habitualmente o próprio domicílio, de preferência entre o fim da tarde e a
noite, que deve ser de modo mais impulsivo do que planejado, em decorrência de
estados emocionais imediatos a situações de perdas ou transtornos nas relações
sócio-familiares, utilizando, ao contrário dos homens, de métodos menos
violentos(6) .
Os adolescentes constituem um dos grupos mais sensíveis a um grande número dos
mais graves problemas mundiais da atualidade: fome, miséria, desnutrição,
analfabetismo, violência, abandono, prostituição e desintegração familiar.
Incluindo várias situações que muitas vezes são indesejadas, inoportunas e de
difícil solução como é o caso do uso de drogas, da gravidez na adolescência e
da infecção pelo HIV/AIDS(7).
Na sociedade atual, o adolescente deve adquirir condições para cuidar do seu
próprio destino, a fim de atingir a condição de adulto. O adolescente
confronta-se com aspectos sociais, políticos, filosóficos, religiosos,
econômicos juntamente com todo o processo afetivo por qual passa para
consolidar com a formação de sua personalidade.
Entretanto, nesta sociedade capitalista na qual vivemos estamos inseridos em
meio de constantes contradições, ou seja, espera-se dos jovens um comportamento
afetuoso, responsável repleto de sonhos e objetivos, mas divulga-se a violência
e o comércio do próprio corpo por meio da mídia. Desta forma, deve-se
considerar que é neste mundo de contradições e discrepâncias que o adolescente
necessita aprender a viver, construir sua identidade e resolver seus conflitos
(8).
2. OBJETIVO
Traçar um perfil epidemiológico descritivo de adolescentes entre 10 e 19 anos,
atendidos na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP), com o
diagnóstico de Tentativa de Suicídio de acordo com o CID-10, no ano de 2002.
3. METODOLOGIA
3.1 População
Todos os adolescentes atendidos na Unidade de Emergência do HCFMRP-USP,
diagnosticados como Tentativa de Suicídio segundo o Código Internacional de
Doenças (Cid-10)(9) , com idade entre 10 e 19 anos completos, no ano de 2002.
Adotou-se a definição cronológica da adolescência segundo a Organização Mundial
da Saúde e a Organização Panamericana de Saúde, que delimita essa fase entre 10
e 19 anos.
3.2 Procedimento
Os dados foram obtidos através de listagem contida em disquetes fornecidos pelo
Serviço de Arquivo Médica da Unidade, revisão das fichas de entrada dos
pacientes na Unidade contidas no prontuário e rastreamento dos boletins de
ocorrência policial que foram feitos e encontram-se arquivados no Sistema de
Informação informatizado da Unidade. As variáveis obtidas foram: sexo, idade,
raça, profissão, bairro de moradia para pacientes de Ribeirão Preto, método
utilizado na tentativa de suicídio, mês e dia da semana da tentativa, horário
de admissão na Unidade, horário registrados no boletim de ocorrência policial
que seria horário da tentativa de suicídio. Quanto à procedência incluíram-se
todos os pacientes atendidos na Unidade provenientes de Ribeirão Preto e
região.
4. RESULTADOS
4.1 Caracterizando o adolescente que tentou o suicídio e seu local de origem
A população total inclusa no presente estudo, que constou de 72 adolescentes,
distribuiu-se da seguinte forma: 56 (77,8%) do sexo feminino; 16 (22,2%) do
sexo masculino; 45 (62%) procedentes de Ribeirão Preto; 25 (35%) procedentes da
região de Ribeirão Preto e 2 (3%) pertencem a outra região. As tabelas que
seguem, mostram o perfil dos referidos adolescentes.
Verificou-se que, em relação à população do estudo, a maioria são brancos, do
sexo feminino, com idade entre 15 e 19 anos, solteiros, porém 10%
aproximadamente demonstraram ter a vivência de um relacionamento conjugal,
residentes em bairros pobres de Ribeirão Preto, onde apenas 44% estão estudando
e o restante trabalham em subempregos ou são inativos. Os bairros periféricos e
populosos foram considerados os bairros pobres e os bairros ricos foram
considerados os localizados na zona central ou próxima/distante, mas com
características sócio econômicas mais privilegiadas.
Observa-se que o uso de medicamentos é método predominante entre as
adolescentes do sexo feminino, seguido de substâncias químicas e uso de métodos
violentos. Em relação ao sexo masculino, observa-se a predominância do uso de
métodos violentos seguidos de medicamentos e substâncias químicas. Em relação à
população total do estudo, observa-se que as ingestões aparecem como meios
predominantes onde 34 (47,2%) fizeram uso de psicotrópicos e neurolépticos.
Observou-se que a maioria dos atendimentos dos adolescentes que haviam tentado
suicídio foram realizados no período da noite e os horários registrados nos
boletins de ocorrência são na maioria do período diurno.
Em relação ao mês e dia da semana da tentativa de suicídio, encontrou-se
variação durante todo período, e desta forma, não foi possível caracterizar
algum mês ou dia como fator de risco.
5. DISCUSSÃO
Observou-se que o perfil encontrado dos adolescentes do presente estudo vão de
encontro à literatura vigente.
Em relação à raça, de acordo com a literatura, apresentou-se o predomínio de
brancos com 61,4% para tentativa de suicídio e suicídio(10,11).
Vários outros estudos encontraram percentuais de predomínio da raça branca
entre os adolescentes que tentaram suicídio, variando com taxas entre 77,7%,
62% e 78%. Esses resultados vêm de encontro com o estudo atual, porém não foi
encontrado na literatura justificativa que explicasse esse predomínio, o que
vem a ser motivo de novas investigações(12-14).
Em relação ao estado civil, em um estudo verificou-se 85,7% de solteiros entre
os adolescentes estudados, já em outro, encontrou-se menor número de solteiros
e maior número de indivíduos vivendo em uniões irregulares e separados entre os
adolescentes que tentaram suicídio(10;15).
No entanto, no estudo atual apresentou-se aproximadamente 10% de adolescentes
que estão no grupo de separados e ou amasiados o que surpreende pela faixa
etária, onde se espera que esses jovens estejam iniciando seus relacionamentos
afetivos.
Em relação ao sexo observou-se o predomínio do sexo feminino. Entende-se- que o
período referido é característico do início do relacionamento afetivo com o
sexo oposto, o que também é um fator de grande importância na geração de
conflitos e frustrações, podendo predispor a uma tentativa de suicídio.
Acredita-se que as mulheres, principalmente na idade mencionada e em condições
econômicas mais humildes atribuem maior valor ao estabelecimento de um vinculo
afetivo com um parceiro do sexo oposto, o qual representa segurança e
autonomia. A conseqüente perda desse parceiro associado ao período vulnerável e
impulssivo em qual se encontra, são fatores predisponentes à tentativa de
suicídio, o que contribuem para o aumento na freqüência de tentativa de
suicídio para as mulheres(15).
Quanto à faixa etária observou-se predomínio de adolescentes entre 15 e 19
anos. Neste período, o adolescente está na fase de pós-puberdade, onde seu
corpo de adulto está adquirindo formas mais definidas, considerando ser um
período de definição de identidade(16). Entende-se que nesta fase da vida
ocorre um período preparatório para o início de escolhas profissionais, que é
um passo importante para o adolescente, pois é através da aquisição de sua
independência financeira que ele vai conquistando sua autonomia, porém, essa
fase também pode ser geradora de conflitos e frustrações. Observa-se que 35%
dos adolescentes do presente estudo possuem subempregos, 21% são donas de casa
ou são inativos, e que 44% apenas estão estudando, o que demonstra o baixo
status social, favorecendo a baixa auto-estima e a dificuldade na realização de
escolhas para o início da vida profissional. A tentativa de suicídio poderia
ser um meio para livrar-se dessas dificuldades.
Observou-se em outro estudo, onde caracterizaram-se o perfil das tentativas de
suicídio em adolescentes num hospital de Londrina Paraná, num total de 70
sujeitos entre 12 e 24 anos, observaram maior freqüência para o sexo feminino
com 80% e entre a faixa etária de 16-19 anos com 45,7%(10).
O estudo atual apontou que as ingestões são meios predominantes, principalmente
entre as adolescentes do sexo feminino, na tentativa de suicídio. Esses
resultados vão de encontro à literatura que concordam que tentativa de suicídio
entre adolescentes são caracterizadas principalmente por intoxicação exógena
(14,17,18).
Em um trabalho com 70 jovens que tentaram suicídio, em relação ao método, 70%
utilizaram medicamentos e 18,3% utilizaram praguicidas na tentativa. Observou
se a maior freqüência no sexo feminino, nas residências e com uso de
medicamentos, o que demonstra a facilidade de acesso a essas substâncias. Outro
estudo obteve o método mais utilizado a ingestão de psicofármacos com 51% e sua
grande maioria foi do sexo masculino(10;19).
Outros autores concluíram que houve um aumento significativo no índice de
suicídio em adolescentes, principalmente na faixa etária de 15 19 anos.
Concordam que as adolescentes preferem a ingestão em relação ao método
utilizado, e os adolescentes utilizam métodos mais violentos(11).
Num estudo com relação a 167 casos de tentativa de suicídio, observou-se que
92% utilizou a ingestão de medicamentos como método de preferência e 8% métodos
violentos(13).
Em Ribeirão Preto, em 1977, em relação a ambos os sexos que o agente mais
utilizado foram os comprimidos com 82,5% dos casos, seguidos de venenos 9%,
meios violentos 6,5% e líquidos corrosivos com 1,8%. Em relação ao sexo
feminino obteve-se 86,4% dos casos de ingestão de comprimidos, seguidos de
venenos 8,3%, meios violentos 3,8% e líquidos corrosivos com 1,5%. Quanto ao
sexo masculino observou-se 69,8% dos casos de ingestão de comprimidos, seguidos
de venenos 12,3%, meios violentos 15,1% e líquidos corrosivos com 2,8%(12).
Em outro trabalho, ainda em Ribeirão Preto, o método mais utilizado para as
tentativas de suicídio entre os adolescentes, em ambos os sexos foram: o
envenenamento com 94,5% que inclui a ingestão de medicamentos com 75,9% e a
ingestão de outras substâncias químicas com 18,6%. O emprego de outros
procedimentos ocorreu em apenas 5,5% dos casos, predominantemente com armas
brancas nos homens e atear-se fogo nas mulheres. Em relação ao sexo feminino
verificou-se que a ingestão de medicamentos foi a mais freqüente com 80%, já a
ingestão de outras substâncias químicas e outros procedimentos mais violentos
foram mais utilizados pelos homens(20).
Observou-se que a maioria dos estudos citados estão de acordo com o estudo
atual, em que a ingestão de medicamentos e uso de substâncias químicas, vem a
ser fator predominante e importante nas tentativas de suicídio entre
adolescentes. Entretanto, esses produtos, necessitam de maior controle na sua
venda e distribuição. Os pais deveriam ser orientados para dificultar o acesso
desses adolescentes, dentro de casa, a medicamentos e produtos químicos como
venenos, soda cáustica, entre outros.
Em relação ao período do dia, observa-se que a maioria dos atendimentos na UE,
aos adolescentes que tentaram suicídio foram realizados no período noturno. E
que os boletins de ocorrência policial foram, em sua maioria, realizados no
período diurno, que são considerados horários reais da tentativa.
Esses resultados vêm de encontro com outro estudo que obteve no turno entre as
0-6hs um total de 6,1%, das 6-12hs (12,8%), das 12-18hs (21,0%) e entre as 18-
24hs (43,1%), o restante foi ignorado(12).
Outros autores observaram em relação ao horário de chegada ao hospital um
predomínio entre 12 e 24 horas com 74% dos casos(21).
Portanto, observa-se em relação aos horários das tentativas de suicídio entre
os adolescentes, que são admitidos no hospital em sua maioria no período
noturno, o que sugere que a tentativa de suicídio tenha ocorrido no período
diurno, como confirma os resultados do boletim de ocorrência policial. Durante
o dia, considera-se um ambiente facilitador, pois a maioria dos pais de
adolescentes trabalham nesse período, deixando-os sozinhos, o que facilitaria a
tentativa de suicídio.
6. CONCLUSÃO
A partir dos dados obtidos neste estudo, pode-se concluir que o perfil do
adolescente, entre 10 e 19 anos, que tentou suicídio e foi admitido na Unidade
de Emergência, no ano de 2002, apresentaram as seguintes características: a
maioria pertencem ao sexo feminino na faixa etária entre 15 e 19 anos, da raça
branca, solteiros, atuantes em profissões de baixa qualificação, em maior parte
são moradores de bairros pobres de Ribeirão Preto, o método predominante na
tentativa foram as ingestões, principalmente do tipo psicotrópicos e
neurolépticos, e a maioria das Tentativas de Suicídio ocorreram no período
diurno.
A Unidade de Emergência-UE por onde são encaminhados a maioria dos pacientes
que tentaram suicídio é a única em Ribeirão Preto e região que possui um
serviço de urgência psiquiátrica que funciona durante 24 horas. Dessa forma os
adolescentes que tentaram suicídio em Ribeirão Preto e região são encaminhados
a Unidade de Emergência, onde são inicialmente atendidos pelas clínicas médica
e cirúrgica dependendo do método utilizado na tentativa de Suicídio e suas
conseqüências orgânicas. Posteriormente após estabilização clínica do paciente
solicita-se avaliação psiquiátrica e dependendo do caso transferência para a
urgência psiquiátrica. No entanto, os dados do estudo epidemiológico apontaram
que a maioria dos casos de adolescentes que tentaram suicídio e foram admitidos
na UE são de baixa classe sócio-econômica, residentes em bairros pobres de
Ribeirão Preto e possuindo profissões de baixa qualificação. Esses dados
sugerem um questionamento: os adolescentes ricos não tentam se matar ou não são
encaminhados a UE?
Percebe-se uma grande influência histórico-cultural, principalmente entre
famílias de classe média a alta, resultando na omissão de casos de tentativas
de suicídio e até mesmo de suicídios consumados.
Durante o ano de 2002, além desses 72 casos registrados, pode-se ter perdido
vários outros casos, de diversas formas, como aqueles em que o adolescente e a
sua família tenham procurado serviço particular ou conveniado em outro
hospital, casos admitidos na Unidade e que foi omitida a intencionalidade do
ato pelo adolescente e sua família centrando o diagnóstico, por exemplo, como
Intoxicação Exógena ao invés de Tentativa de Suicídio, ou ainda casos indiretos
de Tentativa de Suicídio em acidentes de trânsito onde nem se cogita que havia
tal possibilidade, e até mesmo Tentativas de Suicídio menos grave, sem risco
eminente de vida, em que a família ou o paciente não tenha procurado
atendimento médico. Esses são alguns aspectos que dificultam a realização do
diagnóstico e conseqüentemente a não inclusão desses casos nos registros
hospitalares influenciando nos resultados de estudos epidemiológicos.
Portanto, acredita-se que ocorram sub registros de casos de tentativas de
suicídio, devido ao preconceito relacionado e a influência histórico-cultural
do tema. A freqüência de comportamentos autodestrutivos entre jovens apresenta-
se como um desafio para toda sociedade e para a saúde pública, onde tabus devem
ser quebrados, a fim de que se notifique as tentativas para que colaborem com
estudos epidemiológicos com finalidades de estabelecer estratégias de prevenção
de casos novos e reincidências.