A visão ecológica: uma teia na enfermagem
REFLEXÃO
A visão ecológica: uma teia na enfermagem
Ecologic view: a web in the nursing
La visión ecologica: un tejido en enfermería
Estela Maria Leite Meirelles MonteiroI; Karla Maria Carneiro RolimII; Maria de
Fátima Antero Sousa MachadoIII; Rui Verlaine Oliveira MoreiraIV
IEnfermeira do HUOC-PE. Professora da FENSG - Universidade de Pernambuco.
Doutoranda em Enfermagem/UFC. Membro do grupo FAMEPE. Bolsista PQI/CAPES.
estelameireles@fensg.upe.br
IIEnfermeira da Maternidade Escola Assis Chateaubriand-MEAC/UFC. Doutoranda em
Enfermagem/UFC. Membro do Projeto Saúde do Binômio Mãe-Filho/UFC. Professora do
Curso de Enfermagem da Universidade de Fortaleza - UNIFOR.
karlarolim@secrel.com.br
IIIEnfermeira, Doutoranda em Enfermagem/UFC. Professora Adjunto do Curso de
Enfermagem da Universidade Regional do Cariri (URCA). Membro do grupo FAMEPE.
fatimaantero@bol.com.br
IVProfessor Titular da UFC e da disciplina Filosofia da Ciência do Programa de
Pós-Graduação em Enfermagem/UFC. ruiverlaine@yahoo.com.br
1. REFLEXÕES INICIAIS
Uma crise mundial vem acontecendo nas últimas décadas; ela é complexa,
multidimensional, e afeta todos os aspectos da vida humana, como a saúde, o
modo de vida, a qualidade do meio ambiente, das relações sociais, da economia,
tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e
espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história
da humanidade.
A deterioração do meio ambiente natural tem sido acompanhada de um
correspondente aumento nos problemas de saúde das pessoas. Enquanto as doenças
nutricionais e infecciosas são as maiores responsáveis pelas mortes no Terceiro
Mundo, os países industrializados são flagelados por doenças crônicas e
degenerativas, chamadas "doenças da civilização", sobretudo as enfermidades
cardíacas, o câncer e o derrame. Sob o aspecto psicológico, a depressão grave,
a esquizofrenia e outros distúrbios do comportamento parecem brotar de uma
deterioração paralela ao meio ambiente social.
No quadro contemporâneo, ressalta-se a dicotomia/fragmentação do homem
resultante do pensamento de René Descartes (1596-1650), marcada pela visão
mecanicista de Isaac Newton (1642-1727) até a tentativa de unicidade ensejada
por Albert Einstein (1879-1955).
As idéias de Descartes são, logo de início, marcadas pela ruptura estabelecida
por ele com o pensamento dominante em que fora formado: o escolasticismo. As
conseqüências desta ruptura foram imediatas e constituem os outros destaques de
suas reflexões: A mudança do enfoque_ontológico_para_o_gnosiológico; a_dúvida
como fundamento primeiro do método proposto para atingir a verdade; a clareza e
evidência como critério de certeza; a existência_de_idéias_inatas; a retomada
da existência_de_Deus_como_garantia, em última análise, da existência e certeza
das idéias claras e distintas; a_visão_mecânica_do_mundo e a valorização da
matemática por causa da certeza e da evidência de suas razões.
Empenhou-se no sentido de usar o método analítico para formar uma descrição
completa de todos os fenômenos da natureza, num único sistema preciso de
princípios mecânicos, regidos pelas relações matemáticas.
É oportuno e bastante para o propósito deste trabalho lembrar estas suas
palavras: "Comprazia-me sobretudo com as matemáticas, por causa da certeza e da
evidência de suas razões; mas não percebia ainda seu verdadeiro uso e, pensando
que só serviam para as artes mecânicas, espantava-me de que, sendo tão firmes e
sólidos os seus fundamentos, nada de mais elevado se tivesse construído sobre
eles"(1).
Newton tendo codificado a ciência da mecânica, por ele denominada de mecânica
racional, foi igualmente defensor do modelo matemático como um novo
procedimento científico. Atente-te ao que ele, de modo límpido, diz a respeito
da indução e dos princípios gerais da análise e da síntese, ou da decomposição
e da composição: "Tal como na matemática, também na filosofia natural a
investigação das coisas difíceis pelo método de análise deve sempre preceder o
método da composição. Essa análise consiste em fazer experimentos e observações
e deles extrair conclusões gerais, através da indução, e em não aceitar nenhuma
objeção contra as conclusões senão as que forem extraídas de experimentos ou de
outras verdades seguras"(2).
No "Escólio Geral" dos "Princípios Matemáticos de Filosofia Geral e Sistema do
Universo", possivelmente em resposta a Leibnizsobre a relação de Deus com o
universo físico, ele é enfático ao afirmar que ainda não havia conseguido
descobrir a causa da gravidade a partir de fenômenos e que hipóteses não se
inventam. É esclarecedor este trecho de suas reflexões: "Até hoje, no entanto,
não pude descobrir a causa dessas propriedades da gravidade a partir de
fenômenos, e não invento hipóteses; pois tudo o que não é deduzido dos
fenômenos deve ser chamado de hipótese, e as hipóteses, sejam elas metafísicas
ou físicas, quer de qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia
experimental"(2).
As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança na visão de mundo
mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.
Reconhece-se a mudança de paradigma em física como parte integrante de uma
transformação cultural mais ampla.
No século XX, o início da nova física foi marcado por Einstein, revolucionário
do pensamento científico, que acreditava profundamente na harmonia inerente à
natureza. Sua maior preocupação foi descobrir um fundamento unificado para a
física. Não concordando com a mecânica clássica e com a teoria da relatividade
especial, pois "(...) este é um estado de coisas com o qual ninguém que pense
logicamente pode se dar por satisfeito (...)", propõe a teoria da relatividade
geral, ao afirmar que só esta última "(...) nos dá condições para deduzir
propriedades do campo gravitacional através de procedimentos puramente
teóricos"(3).
Em contraste com a concepção mecanicista cartesiana e newtoniana, a visão de
mundo que está surgindo a partir da nova física pode caracterizar-se por
palavras como orgânica, holística e ecológica. Uma revolução só poderá ser
implementada se a estrutura da própria teia for mudada, o que envolverá
transformações profundas nas instituições sociais, valores e idéias.
Dominada por uma visão sistemática, o universo deixa de ser visto como uma
máquina, composta de uma infinidade de objetos, para ser descrito como um todo
dinâmico, indivisível, cujas partes estão essencialmente inter-relacionadas e
só podem ser entendidas como modelos de um processo cósmico.
Essa visão emergente não é compartilhada por toda a comunidade científica, mas
está sendo discutida e elaborada por muitos físicos eminentes cujo interesse na
ciência supera os aspectos de suas pesquisas. Mostram-se interessados nas
implicações filosóficas da nova física, e tentam, com espírito aberto, melhorar
a compreensão da natureza e da realidade.
Com base nessas reflexões tenta-se mostrar como o pensamento de Capra vem
favorecendo a disseminação do cuidado ecológico na enfermagem.
2. O PONTO DE SUSTENTAÇÃO DO PENSAMENTO DE CAPRA
Fritjof Capra nasceu em 01 de fevereiro de 1939 na Áustria. Obteve o título de
Doutor em Física pela Universidade de Viena em 1966. É considerado, na
atualidade, um dos nomes mais significativos na divulgação da ciência, da
filosofia e da ecologia. Seu nome está vinculado ao surgimento de uma nova
maneira de entender a ciência como um dos meios para a compreensão da
realidade, vinculando ao misticismo antigo a complementaridade dessa tarefa. O
interesse de Capra pelas tradições místicas do Oriente surgiu em 1960 e
imediatamente descobriu os paralelos em relação à nova física(4).
O pensamento de Capra é destacado principalmente em suas obras: O Tao da
Física, O Ponto de Mutação, Sabedoria Incomum e A Teia da Vida que refletem
todo o clima intelectual e espiritual que atualmente emerge no mundo, ou seja,
reformula o pensamento no sentido de apreender uma maneira mais sensível e
significativa de entendimento, propício a uma mudança fundamental da
compreensão humana quanto à natureza do conhecimento científico, tanto na
esfera das ciências físicas, quanto naquela das ciências biológicas e humanas,
favorecendo uma extraordinária transformação cultural(5). Fundamentando seu
pensamento Capra destaca que quando percebemos que nós e o planeta somos na
verdade, um só, uma realidade, uma só consciência, teremos chegado a um ponto
de descobrir que a nossa transformação não foi só uma mudança de atitude, mas
uma mutação(6).
O novo paradigma pode ser chamado de visão holística do mundo, que o concebe
como um todo integrado, e não como um conjunto de partes isoladas. Também
chamado de visão ecológica, tomando o entendimento de ecologia num sentido
muito mais amplo e profundo que o usual. A percepção ecológica profunda
reconhece a independência fundamental de todos os fenômenos e o fato de que
indivíduos e sociedades estão encaixados nos processos cíclicos da natureza. A
ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de seres vivos e concebe os
seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida(7).
A sobrevivência humana, que é ameaçada por ações advindas de uma visão de mundo
mecanicista e fragmentada, só será possível se o homem for capaz de mudar
radicalmente os métodos e os valores subjacentes à cultura individualista e
materialista atual e à tecnologia de exploração do meio ambiente. Esta mudança
deverá refletir-se em atitudes mais orgânicas, holísticas e fraternas entre os
seres humanos e entre estes e a natureza(6).
O pensamento ecológico de Capra tem íntima relação com o sentido de viver
saudável, preconizado através de encontros científicos internacionais que se
baseiam na percepção do descuido com o cuidado ecológico e com a má qualidade
de vida das pessoas, demonstrando atenção especial pela população dos países
menos desenvolvidos, que apresentam elevada mortalidade infantil, desnutrição e
fome.
Entretanto, esse adoecimento gerado no planeta demanda um desequilíbrio nas
políticas públicas que permeiam os países mais desenvolvidos, cuja
centralização dos investimentos de capital priorizam o mercado armamentista em
detrimento do valor da vida e do planeta. É urgente provocar uma reviravolta
nas mentalidades impregnadas de pensamento cartesiano e newtoniano, ao
fragmentar e mecanizar o homem em partes cujos domínios de saber se atribui a
especialidades sem a percepção do ser humano como ser integral inserido num
contexto, em um ambiente.
Na relação dos seres humanos com a natureza emerge a coesão com a tão propalada
física quântica, quando retomadas pela reflexão e afloramento dos sentidos, as
pessoas se descobrem como seres formados por partes microscópicas em processo
dinâmico de interação e troca de energia. Esse pensamento científico transcende
o controle e domínio matemático da precisão e da experimentação, ocupando o
espaço da probabilidade, aberto ao valor do acaso como possibilidade de avanços
no crescimento e descobertas científicas.
Tal mudança de paradigma que atinge as diversas ciências requer do homem, que
até então supervalorizava a dimensão técnico-cientifica, o resgate do
desenvolvimento das competências humanas, as quais registram a essência do
saber filosófico e ético do "modo de viver" da população e do planeta. Quando o
homem se fecha ao questionamento do sentido da vida, atribuindo a si mesmo o
"poder" e o domínio sobre a natureza e a vida humana, gera o caos, o
desequilíbrio, a estagnação no processo de desenvolvimento no planeta.
Um caminho fértil para ir de encontro a esse caos é disseminar um novo modo de
olhar o planeta e a existência da vida nele, fortalecendo as estratégias de
promoção à saúde em busca de uma cidade saudável, de um viver digno, de um
planeta habitável. É possível, então, encontrar na educação ecológica um
elemento gerador de saberes comprometidos com a preservação do planeta como
condição essencial para o cuidar da vida e da saúde(6).
3. A ENFERMAGEM A PARTIR DA TEIA ECOLÓGICA
Algumas idéias do pensamento de Capra encontram respaldo na literatura
difundida por autores que contribuem para o cuidado em enfermagem. Estes
estudos vêem a integralidade e a individualidade do homem, como ser complexo,
ao retomar o elo corpo, mente e cosmos.
A valorização humana, a realização do cuidado individualizado e a ética do
trabalho estão sendo repensadas. Os enfermeiros têm respostas a dar sobre o
valor de seu trabalho, não somente no que concerne à remuneração, mas também no
que diz respeito a um saber-poder socialmente edificado e como subjetividades
que percebem, imaginam, simbolizam e criam, através de posturas e atitudes
reais, uma condição de cuidar, ao perceberem o paciente como um ser merecedor
de respeito e consideração(8).
No cuidado, identificam-se os princípios, os valores e as atitudes que fazem da
vida um bem-viver e das ações um reto agir(9). Esses valores e atitudes
convidam a transpor o desamparo e a prestar atenção à aflição do outro que
sofre, trabalhando para que se revele toda a grandeza do ser humano.
A ação de enfermagem faz com que o sofrimento e a dor sejam minimizados.
Através do cuidado e do conforto, revela-se uma prática impregnada de idéias de
altruísmo, de amor ao próximo. Com isso, o outro se faz semelhante e deixa de
ser o diferente.
Estas são atitudes do enfermeiro como ser vocacionado para o cuidado integral
ao ser humano, que sente e vivencia no outro situações de dor, desconforto,
sofrimento e morte, dando significado, no seu exercício profissional, à
capacidade de ensejar a transformação do ato de cuidar em amor ao próximo(10).
A sensibilização do cuidado ao paciente está relacionada à visão holística que
busca a compreensão do homem em sua singularidade e totalidade. Neste processo
cotidiano de compaixão e participação no sofrimento do outro, forma-se a base
real de todo o amor verdadeiro ao próximo, que só tem valor moral, na medida em
que dela surge uma ação. Assim, o bem-estar e a dor do outro vêm ao encontro
das pessoas e a diferença entre elas já não é diferença absoluta(11).
O cuidado sempre esteve presente na história humana e, como tal, uma
característica da Enfermagem, envolvendo a paz, o bem-estar, a liberdade e o
respeito(12).
Na realização de procedimentos técnicos, o cuidado pode ser representado pelo
processo de interação daquele que cuida com o que é cuidado. Quando o
enfermeiro concebe o ser humano na sua totalidade só então pode determinar o
cuidado em sua integralidade. É importante ressaltar que o processo de cuidar
envolve ações, atitudes e comportamentos com base na intuição e conhecimento
científico(13).
Foi-se a época em que se acreditava que ser "bom enfermeiro" significava ter
excelência técnica e científica. Hoje, sabe-se que o envolvimento com as
necessidades humanas e espirituais é essencial para a assistência de enfermagem
responsável e completa(14). Considera-se que cuidar do corpo não exclui
cuidados com a alma; não existe saúde que não traga, ao mesmo tempo, salvação;
o corpo não deve ser tratado como um objeto defeituoso(15).
Esse pensamento é ressaltado por Capra: "a percepção da ecologia profunda, como
percepção espiritual ou religiosa é vivenciada quando a concepção de espírito
humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma
sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo"(6).
Não se pode direcionar os conhecimentos somente ao mecanicismo do cuidado, pois
é ao ser em sua totalidade que se devota a assistência. Este pensamento deve
ser constante e cabe à equipe de saúde mostrar seu empenho na prática do
cuidado holístico. Transformação cultural requer conversão, mudança de rumo
mental com vista a uma nova forma de comportamento relacional. É preciso,
então, educar-se, adquirir-se maneiras novas de cuidar(16).
No cenário que desponta, é imperioso que o homem se despoje do seu egocentrismo
aniquilador, arme-se de sentimentos de solidariedade e compaixão pelo outro,
para que se reacenda a chama dos valores humanos de viver e conviver em
coletividade, em defesa da dignidade humana, do respeito à vida, do planeta e
valorização das culturas.
Essa preocupação com o outro é uma forma de compromisso com o estar-no-mundo,
com o bem-estar geral, na preservação da dignidade humana e da espiritualidade,
contribuindo para a construção do conhecimento, da vida(13).
O enfermeiro, por também desempenhar atividades de educador, deve participar e
incentivar as mudanças necessárias, para que o cuidado de enfermagem dignifique
o homem, nas situações de saúde e de doença. Para tanto, enfermeiros de
serviços de saúde, interagindo a partir de uma mesma filosofia de trabalho,
argumentando sobre atitudes legais e éticas da profissão e articulando esse
conhecimento, certamente estarão trabalhando significativamente para a
construção de novos paradigmas de cuidado.
Quando a prática reflexiva surge de uma educação transformadora embasada no
diálogo e no exercício da consciência crítica, então as mudanças aparecem como
resultado de uma realidade em que as pessoas envolvidas no processo retornam
participativas. A conscientização passa a ter sentido de auto-avaliação,
crítica e reflexiva, na tentativa de melhor cuidar de seu paciente(17).
O homem encontra na natureza sua fonte de energia. Esse processo dinâmico de
interligação e troca de energia pode ser associado à integração dos sistemas
que compõem o organismo humano, onde seu funcionamento adequado demanda um
equilíbrio interno que não se estabelece sem uma interação com o meio externo.
Portanto, sofre influência direta deste. Dos cientistas e profissionais de
saúde é exigida a ampliação dessa percepção e do entendimento da saúde para
avançar no tratamento e controle das doenças.
Focalizando um mundo marcado pela elevada mortalidade infantil em países em
desenvolvimento, pelo desmatamento desordenado, pela poluição atmosférica e das
águas, pela produção de lixo atômico, pelas guerras, pelos investimentos
armamentistas, pelo extermínio de animais, pelo uso de agrotóxicos, pela
produção de pesquisa alimentada pela área militar e por multinacionais movidas
pelo interesse de lucro exacerbado e controle do mercado, emerge a essência do
pensamento de Capra. Sua percepção é filtrada pelo entendimento da Teoria do
Sistema Vivo, do ecossistema, onde a natureza deve ser compreendida através de
conexões e relações.
Neste sentido, alerta-se que as ameaças a nossa saúde através da poluição do
ar, da água e dos alimentos constituem meros efeitos diretos e óbvios da
tecnologia humana sobre o meio ambiente natural. "A tecnologia está perturbando
seriamente e pode até destruir os sistemas ecológicos de que depende a
existência humana"(6).
A excessiva ênfase no método científico e no pensamento racional, analítico,
levou a atitudes profundamente antiecológicas, com ameaças não só à saúde
individual, como também à saúde social e ecológica, comprometendo a saúde das
pessoas, da sociedade e dos ecossistemas de que o homem é parte integrante. A
compreensão dos ecossistemas é dificultada pela própria natureza da mente
racional. O pensamento racional é linear, enquanto a consciência ecológica
decorre de uma intuição de sistemas não lineares. Assim, a consciência
ecológica somente surgirá quando for aliada ao conhecimento racional uma
intuição da natureza não-linear do meio ambiente(6).
É neste contexto que se pode conceber a saúde, não apenas como ausência de
doença, mas como um sistema complexo que necessita ser alimentado e
retroalimentado. Requer-se, na percepção do homem como ser holístico, um saber
transdisciplinar renovado; este encontra-se alicerçado na idéia de querer estar
mais próximo da natureza, do outro, de desejar conhecê-lo melhor, de acreditar
que ainda tem muito por aprender e apreender, de reconhecer no saber do outro a
essência da tentativa de compreender o todo.
4. REFLEXÕES FINAIS
Capra, a partir de seu conhecimento profundo da física quântica e como
estudioso da espiritualidade propagada pela cultura oriental, convida as
pessoas a refletirem na falta de percepção de mundo com base na ciência pura. O
século XVII foi marcado pela cientificidade, onde predominou a idéia de
considerar, como verdade absoluta, os fatos da natureza que podiam ser
experimentados e provados através de cálculos e gráficos matemáticos,
prevalecendo assim o enfoque mecanicista e fragmentado. O homem era comparado a
uma máquina possível de ser dividido, estabelecendo-se a dicotomia mente-corpo.
Essas idéias calcificaram os pensamentos da academia durante 300 anos.
Entretanto, os paradigmas vigentes não estão mais atendendo a própria evolução
da ciência que não se limita à repetição, à predição, à construção de conceitos
concretos, desvelados pela física quântica e teoria da relatividade, como se
pode constatar pelas pesquisas em nível subatômica. Por outro lado, evidencia-
se uma perda de controle do homem, dominado pelo poder e pela busca incessante
no avanço científico e tecnológico, com o surgimento de questões éticas e
humanísticas.
A insatisfação diante do paradigma dominante provoca seu rompimento para
despontar com força total entre estudiosos de diferentes países, seja dentro ou
fora da academia, em defesa do pensamento ecológico com abrangência planetária,
estabelecendo-se e respeitando-se legislações ambientalistas, bem como
propagando a necessidade de se criar uma sociedade sustentável.
A saúde, a partir da visão holística do homem e da teia de relações que atinge
o pensamento ecológico, exige do enfermeiro em suas áreas de ensino, pesquisa e
assistência uma percepção crítica de seu saber, saber-ser e saber-fazer
comprometido com as transformações que marcam a atualidade. Isso possibilita o
ressurgimento das emoções, do encantamento, dos sentimentos, do cuidar da
natureza como premissa para uma melhor qualidade e existência da humanidade. O
reconhecimento desta mudança estrutural contínua transcende a organização do
planeta e permite a evolução no meio ambiente de modo criativo e não
simplesmente adaptativo.