Gênese da Enfermagem hospitalar no Estado de Goiás
PESQUISA
Gênese da Enfermagem hospitalar no Estado de Goiás
Genesis of Hospital Nursing in Goiás State
La genesis de la Enfermería Hospitalaria en el Estado de Goiás
Celma Martins GuimarãesI*; Ilidiana Miranda de Andrade II
IEnfermeira. Pós-doutorado em Saúde Pública. Coordenadora do Núcleo de Estudos
e Pesquisas em Saúde e Sociedade (NEPSS) da Universidade Católica de Goiás
(UCG). Professora Titular do ENF UCG
IIAcadêmica de Enfermagem do 9º período. Universidade Católica de Goiás.
Estagiária de Pesquisa
1. INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
As terras goianas começaram a ser ocupadas por volta de 1725, após a descoberta
de ouro nas cabeceiras do Rio Vermelho. Iniciava-se o ciclo do ouro e o
surgimento dos primeiros arraiais, geralmente localizados próximos às minas. A
presença de escravos negros como força de trabalho era marcante. O trabalho
duro, a falta de liberdade, os castigos e as doenças provocadas pelas condições
de trabalho faziam com que esses tivessem certeza de que viveriam pouco(1).
Quanto aos indígenas, o processo de colonização ocorreu de modo semelhante ao
que se verificara na costa brasileira: escravização, aldeamento, lutas e
extermínio.
As condições de vida e saúde do homem branco também eram precárias. Há relatos
de surtos epidêmicos de varíola e sarampo (que dizimavam a população dos
arraiais) e de condições insalubres provocadas por lagoas cheias de ervas em
putrefação, animais mortos, escavações das minas e tanques feitos nos vales. A
violência e a criminalidade ajudavam a compor um quadro favorável às perdas
populacionais.
Com a decadência da mineração, observada pouco após o território ter sido
elevado à condição de Capitania, desvinculando-se da de São Paulo, a economia
goiana entrou em crise, alcançando seu estrangulamento nas duas últimas décadas
do século XVIII.
O comércio tinha diminuído muito, mas, não havia se extinguido de todo; Goiás
necessitava importar sal, ferro, pólvora e tecidos, produtos indispensáveis.
Ainda extraía algum ouro para realizar os pagamentos, e embora em pequena
quantidade, começava a produzir alguns produtos agrícolas que, exportados,
ajudavam o equilíbrio da balança de pagamentos (...); também iam aparecendo
algumas fazendas de gado, que enviavam suas rezes a Bahia ou a Minas...(2).
Era necessário adotar-se medidas que impulsionassem o desenvol-vimento do
território. As dificuldades nas áreas de comunicação e transporte e a
inexistência de mercados para a agricultura fizeram com que a pecuária se
tornasse o setor mais dinâmico da economia: existiam boas pastagens e maior
facilidade para a condução do gado ao mercado consumidor. Verificou-se, nas
três primeiras décadas do século XIX, a ocupação do território goiano pelos
grandes latifúndios. Essa característica de desenvolvimento econômico emperrou
o processo de ocupação urbana, favorecendo a expansão das relações de produção
com base na unidade familiar rural.
Se no período de prosperidade haviam problemas de Saúde Pública, com a crise
econômica esses se acentuaram. Ofício de Cunha Mattos3, dirigido ao Presidente
Lopez Gama, em resposta à comunicação oficial de que decidira fundar um
hospital na Capital da Província, explicita: "lisonjeio-me de ver dar princípio
a uma fundação de que tanto necessita para socorro dos miseráveis que
desgraçadamente inundam as ruas desta cidade, procurando abrigo de pessoas mais
caritativas do que aquelas que por efeito de ingratidão bárbara e imprópria dos
homens (...) que se confessam membros de uma igreja cujas primeiras bases são o
amor ao próximo, lançam pela porta afora alguns semelhantes seus quando os anos
e as enfermidades os tornam inúteis..."(3)
Nota-se aí uma crítica aguerrida ao tratamento dispensado aos trabalhadores
quando já não possuíam condições físicas adequadas à execução do trabalho(4).
E, também, a situação de mendicância a que estavam submetidos. Apesar de
reconhecer a necessidade e importância de se criar o hospital e, até mesmo, de
prontificar-se a colaborar financeiramente com o empreendimento, Mattos
(3)questionava: "haverá meios para compra do edifício, prontificação de
utensílios, sustentação dos enfermos, pagamento dos empregados, aquisição dos
medicamentos?"
Considerando, porém que era necessário efetuar-se algum tipo de intervenção, o
Presidente Lopez Gama deu prosseguimento ao projeto de criação do Hospital, em
conformidade com os interesses do governo central que incentivava a instalação
de hospitais nas capitais do Império(5). Assim, o Hospital de Caridade São
Pedro de Alcântara foi criado, pela Corte Imperial de 25 de janeiro de 1825,
sendo inaugurado em 1826.
Entretanto, para que uma instituição hospitalar funcione, há necessidade de que
existam pessoas a serem cuidadas e tratadas, recursos físicos, recursos
humanos... Nessa época, ENFERMEIRO era todo indivíduo que cuidava de doentes e
feridos, nos hospitais ou em qualquer outro lugar. Na maioria das vezes eram
analfabetos e de classe social baixa; no início eram brancos, posteriormente
negros libertos ou escravos seus senhores os alugavam como práticos em
enfermagem. E tinham como atribuições: dar os remédios na hora certa; fazer
companhia; auxiliar na ocasião das "necessidades" e nos banhos; limpar os
quartos; forrar as camas; mudar as roupas das camas aos domingos. As roupas de
uso pessoal eram trocadas aos sábados, dia em que, também, se fazia a barba dos
doentes. As enfermarias eram varridas diariamente e lavadas aos sábados. Não
lhes era permitido fazer ou trocar os curativos(6).
Considerando que o São Pedro de Alcântara foi a primeira instituição hospitalar
implantada em Goiás e, percebendo que as informações acerca da gênese do
trabalho em enfermagem no estado são escassas, objetivamos com este trabalho
compreender o contexto histórico-social no qual o estabelecimento foi criado,
buscando informações acerca de sua estrutura e funcionamento, principalmente no
que se refere à enfermagem.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um trabalho qualitativo, construído metodologicamente com base na
dialética e tipificado com estudo de caso, uma vez que, na investigação
científica o caso é tomado como uma unidade significativa do todo e por isso
suficiente (...) para fundamentar um julgamento (...). É considerado também
como um marco de referência de complexas condições sócio-culturais que envolvem
uma situação e tanto retrata uma realidade quanto revela a multiplicidade de
aspectos globais, presentes em uma dada situação(7).
Fontes documentais e bibliográficas foram utilizadas. As documentais foram
buscadas em arquivos e bibliotecas públicas de Goiânia e Cidade de Goiás. O
contexto sócio-histórico tomado como referência foi o da Província de Goiás e,
principalmente, o de sua capital, à época, a cidade de Goiás. Procurou-se
perceber as contradições e mudanças ocorridas na instituição pesquisada durante
o Período Imperial.
3. RESULTADOS
No decorrer do século XIX a cidade de Goiás foi descrita, por naturalistas e
presidentes da Província, como insalubre, devido ao seu clima seco, o qual, por
sua longa duração, favorecia o surgimento de doenças e dificultava a disposição
para o trabalho. No período chuvoso, as enchentes tornavam o ambiente favorável
à procriação de mosquitos transmissores da malária e outras febres
intermitentes. Bócio, sífilis, cólera, hanseníase, doenças de pele e carenciais
também eram comuns. Segundo Karasch(8), os doentes do Hospital de Caridade na
década de 1940, eram frequentemente tratados e cuidados com comida.
A preocupação com as dietas, assim como com os banhos foi evidenciada nas
prescrições médicas encontradas nos documentos hospitalares pesquisados, sendo,
também, percebidos por outros pesquisadores.
A base dessa alimentação era a carne de gado, verde ou seca - mais consumida na
região - e também a de galinha, havendo diferenciação entre o frango e a
galinha, esta preferida para caldos e canjas. Usava-se muito o arroz, o feijão,
o toucinho, a farinha de milho e de mandioca e o açúcar mascavo em torrões.
Evitavam-se os legumes cozidos em água porque causavam dores de barriga, para
os quais o remédio só poderia ser pimenta malagueta, moderadamente. Poucos se
arriscavam a comer verduras(9).
Para atender, em regime de internação, os portadores de doenças, o regulamento
de 1825 estipulava que o número de leitos seria compatível com a capacidade de
cada uma das enfermarias, o que não excederia a 15. O Hospital compunha-se de
dois departamentos, sendo um para homens e outro para mulheres. Em cada um
deles, havia três enfermarias: uma para os doentes não afetados por
enfermidades contagiosas; outra (...), para os convalescentes; e outra, em
local separado, para os doentes de moléstias contagiosas. Cada enfermaria tinha
doze leitos(9).
Percebe-se, então, a possibilidade de existência de 72 a 90 leitos. Todavia,
outros documentos (pedidos de utensílios) permitem supor que o número de leitos
não era superior a 24, o que parece ser mais compatível com a realidade local,
na ocasião. Além disso, relatórios dos Presidentes da Província(10) fazem
menção à insuficiência do número de leitos.
Para prestar assistência de enfermagem aos pacientes e/ou abrigados (os
hospitais tinham, também, como função servir de abrigo aos desamparados) pelo
São Pedro de Alcântara, o Regulamento previa a existência de: um enfermeiro
para as enfermarias dos homens; uma enfermeira para as enfermarias das
mulheres; um ajudante e três serventes para as enfermarias masculinas; e, uma
ajudante e três serventes para as enfermarias femininas.
Nota-se, assim, que havia uma preocupação em separar os pacientes por sexo e
enfermidades; e que fossem atendidos por pessoas do mesmo sexo. Aos portadores
de hanseníase, à época denominados leprosos, era reservado um local à parte na
enfermaria; os utensílios (pratos, colheres, bacias) e roupas (de cama e uso
pessoal) eram separados e escolhidos entre os mais velhos; a quantidade de
roupas e utensílios também era menor que a dos demais pacientes. Os portadores
de doenças mentais, após abrigo temporário no Hospital ou na cadeia, eram
abandonados à própria sorte.
Os trabalhadores de enfermagem, contratados para cuidar dos internos, recebiam
salários diferenciados. O enfermeiro recebia 80 mil réis, anuais; os ajudantes
do sexo masculino, 40 mil réis (anuais). As mulheres (enfermeira e ajudantes),
36 mil réis anuais. " Os enfermeiros tinham um papel mais importante que as
enfermeiras, podendo, às vezes, substituir o médico do hospital; por isso seu
salário era bem mais elevado que o das mulheres"(9).
Entre 1830 e 1840, o número de casos de lepra aumentou considera-velmente. A
vinda de portadores da doença (provenientes de outras províncias) em busca dos
efeitos benéficos das águas termais de Caldas de Santa Cruz contribuía para
esse aumento(9). A preocupação dos Presidentes da Província (1835 1843) em
conseguir uma casa para segregá-los, assim, como a de vacinar a população
contra a varíola é evidenciada nos relatórios encaminhados à Assembléia
Legislativa(10). Buscava-se, também, diminuir a incidência de moléstias
contagiosas e as altas taxas de mortalidade.
Para tal, foram impostas várias exigências higienizadoras, inicialmente no
Hospital (através de mudanças no Regulamento, em 1835), e posteriormente,
através de práticas estipuladas pelo mesmo, atingindo os espaços físicos (ruas,
praças, cadeia, cemitério), a vida das pessoas (introjetando hábitos de higiene
corporal e mental), dos trabalhadores e daqueles, geralmente chamados pela
classe dominante de vadios e vagabundos. O cemitério só foi concluído em 1859,
época em que a junta administrativa do Hospital instituiu uma nova estratégia
de purificação dos espaços: a "geografia social dos mortos"(11).
A população mais pobre passou a enfrentar maiores dificuldades para conseguir
internar-se no São Pedro de Alcântara. Novas necessidades e interesses haviam
surgido e o número de leitos era, cada vez mais, insuficiente. Os enfermos
pobres, passaram, então, em sua maioria, a ser tratados fora do recinto
hospitalar, sendo socorridos com remédios e alimentos.
Essas práticas, naturalmente, exigiam transformações no modo de ver e agir dos
trabalhadores de enfermagem. O trabalho tornou-se mais árduo, disciplinado,
hierarquizado e, para complementar, pior remunerado.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de não se contar com informações mais específicas acerca do trabalho
desenvolvido pelos trabalhadores de enfermagem, foi possível perceber: a
desvalorização do trabalho feminino; o incremento das normas impostas,
traduzidas pela disciplinarização dos espaços e trabalhadores, a presença da
hierarquia e segregação, tanto na vida como após a morte.
Além disso, a problemática presente ainda nos dias atuais (insuficiência de
leitos, precárias condições de vida, incidência de doenças preveníveis...), já
era percebida e/ou vivenciada pelos trabalhadores de enfermagem.
A escassez de registros referentes à enfermagem pode ser compreendida como
decorrente do próprio contexto social, onde o analfabetismo, as precárias
condições de vida, a falta de prestígio social ... contribuíam para imprimir, à
enfermagem, características de submissão, caridade e falta de qualificação
profissional.
Mesmo assim, os parcos registros encontrados acerca desses trabalhadores
revelam que os mesmos eram levados a cumprir o papel que lhes era conferido
pela classe dominante: o de coadjuvantes inexpressivos da sua própria história.