Por dentro da História: o ensino de Administração em Enfermagem
REFLEXÃO
Por dentro da História: o ensino de Administração em Enfermagem
Inside History: the teaching of Administration in Nursing
Por dentro de la Historia: la enseñanza de Administración en Enfermería
Jacinta Maria Morais FormigaI; Raimunda Medeiros GermanoII
IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem/
UFRN. jacintaformiga@hotmail.com
IIEnfermeira. Doutora em Educação. Professora do Departamento de Enfermagem/
UFRN. wgermano@digi.com.br
1. INTRODUÇÃO
Como professoras de Administração e Exercício da Enfermagem, preocupadas com o
fazer docente e com a prática cotidiana do enfermeiro, achamos ser fundamental
refletir sobre a evolução e a direção desse ensino.
Portanto, o propósito deste estudo é registrar a evolução do ensino de
administração em enfermagem, articulada com a formação do enfermeiro,
analisando suas diferentes fases e os fatores que determinaram as mudanças
ocorridas no ensino como um todo, e na área de administração, em particular,
nestes 80 anos de história.
2. O PAPEL DE FLORENCE NA ADMINISTRAÇÃO
Reconhecendo Florence Ninghtingale como protagonista de um projeto social da
saúde, que se fez necessário no âmbito das transformações sociais na segunda
metade do século XIX, na Inglaterra, e operacionalizadas suas idéias
modernizadoras na Enfermagem, torna-se imprescindível referenciá-la ao
abordarmos o ensino de administração em Enfermagem.
A administração de hospitais, a formação de enfermeiros e a educação em serviço
foram, para Florence, a preocupação primordial de todo o seu empreendimento na
Enfermagem, de acordo com a sua mais difundida obra, o livro "Notas Sobre
Enfermagem: o que é e o que não é",escrita em 1859 e só traduzida para o
português em 1989.
Em outubro de 1854, foi convidada para dirigir os hospitais militares de
Scutari, o setor asiático de Constantinopla, na Turquia, onde a maior parte dos
feridos e enfermos, em luta na Criméia, ficava alojada. Nesses hospitais, o
sofrimento dos soldados era algo inusitado; no entanto, poucas medidas eram
tomadas com relação ao atendimento dos feridos.
Sua primeira iniciativa, ao chegar em Scutari, foi organizar a infra-estrutura
dos hospitais, deixando transparecer seu caráter de ordem e comando em tudo que
realizava. Introduziu uma visão de Enfermagem não só de intervenção direta no
doente, mas da mesma forma ampliou as funções para o meio ambiente, organizando
os serviços de lavanderia, rouparia, cozinha dietética, almoxarifado e limpeza,
tendo o controle desses por meio de observação e supervisão rigorosas;
organizou a hierarquia do serviço e introduziu o rigor da disciplina na
Enfermagem.
Quando retornou da Guerra da Criméia (1856), Florence publicou, em 1858, um
livro, Notas sobre questões que afetam a saúde, eficiência e administração
hospitalar do exército britânico.Nele, podemos identificar sua preocupação e
conhecimento acerca da administração na enfermagem.
Vale ressaltar que naquele momento histórico, de plena expansão do capitalismo,
a recuperação da força de trabalho se tornou um projeto político importante, e
coube à Medicina, por meio do hospital, essa recuperação. Com esse projeto
político-social, podemos dizer que a Enfermagem teve a sua inserção no processo
de trabalho em saúde.
Devemos ainda acrescentar que a valorização das funções de planejamento,
direção e supervisão no sistema fabril, do século XVIII, encontrou repercussão
no sistemahospitalar da época, principalmente, a partir de meados do século
XIX. Florence Nightingale demonstrou a necessidade de aplicação das funções
administrativas nas instituições hospitalares, comprovando, através de atos, as
suas convicções, de tal forma que seus repetidos sucessos levaram-na a ser
considerada como pioneira de administração hospitalar(1).
Portanto, foi a partir da necessidade de organizar os hospitais que apreendemos
a constituição de um saber de administração na Enfermagem que, paralelamente às
técnicas, foi fundamental como instrumento do processo de trabalho da
enfermagem.
No momento em que o hospital passa a ser identificado como instrumento de cura,
o saber médico se transforma e a prática de Enfermagem, antes independente,
torna-se subordinada à prática médica, ou seja, cabe ao médico assumir a
responsabilidade pela organização do hospital e seu saber. E Florence legitimou
essa hierarquia disciplinando os agentes de Enfermagem por meio da
implementação de um ensino orientado e sistematizado.
Esse ensino teve início com a criação da primeira escola de Enfermagem, no
Hospital St. Tomás, em 09 de julho de 1860, na Inglaterra, sob a orientação de
Florence. O modelo de ensino implantado, conhecido como Sistema Nightingale,
passa a ser difundido para outras partes do mundo. Apesar do sucesso, continha
claros e rígidos princípios preconizados por sua idealizadora, em consonância
com os valores sociais da época. Entre eles, podemos destacar: rigorosa seleção
de candidatas e ensino tórico-prático metódico. Isso não significa que outros
princípios não tenham sido igualmente defendidos, como, por exemplo, direção da
escola somente por enfermeira.
Outro aspecto importante na origem da enfermagem moderna diz respeito ao fato
de a mesma nascer reproduzindo a divisão técnica do trabalho, através de duas
categorias profissionais: as nurses e as lady-nurses. As lady-nurses eram
preparadas para o ensino e supervisão de pessoal e foram responsáveis pela
difusão do sistema Nightingale na Europa e no mundo. As nurses moravam e
trabalhavam no hospital durante todo o curso, recebiam um salário e, após o
curso, eram destinadas ao cuidado direto com o paciente.
Nos primeiros dez ou quinze anos após a sua fundação, a Escola Nightingale
recebia dos hospitais do mundo inteiro pedidos de enfermeiras diplomadas para
fundarem novas escolas. Portanto, além de atender às necessidades emergentes da
época, Florence, desde o princípio, incutira nas alunas a máxima de que eram
treinadas para treinar,portanto, deveriam sair como pioneiras e
superintendentes, sendo desencorajadas à prática da enfermagem particular(2).
Por conseguinte, desde a institucionalização da enfermagem moderna evidencia-se
a dimensão prática do saber administrativo. Tal saber, embora não se encontre
devidamente registrado, a execução da atividade administrativa legitimou-se no
trabalho e sempre esteve presente na organização da Enfermagem.
Assim, conforme as mesmas autoras, a dimensão prática das técnicas e a dimensão
prática do saber administrativo resultaram na divisão técnica do trabalho na
Enfermagem: alguns agentes administrando e outros executando.
Dessa forma, as técnicas, a administração e a disciplina constituíram-se em
instrumentos de trabalho da Enfermagem, tendo sua origem na segunda metade do
século XIX, na Inglaterra.
Entre os anos de 1873 e 1875, o sistema Nightingale chegou aos Estados Unidos,
por iniciativa de um grupo de senhoras que atuavam como voluntárias durante a
Guerra Civil americana. Essa referência faz-se necessária porque, a partir da
década de 20, a estrutura sanitária americana passa a influenciar a estrutura
sanitária brasileira, através da Fundação Rockfeller, que prestava assistência
técnica e financeira ao Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), órgão
responsável pela criação da primeira escola de Enfermagem no Brasil, em 1923
(3).
3. A TRAJETÓRIA DO ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO EM ENFERMAGEM NO BRASIL
Analisando, pois, a trajetória do Ensino de Enfermagem, este surge ainda em
1890, na própria Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras no Hospital
de Alienados. Essa Escola definia um elenco de disciplinas a constar no preparo
das enfermeiras, entre as quais destacam-se:administração interna e
escrituração de serviço sanitário e econômico das enfermarias(4).
Mesmo considerada como a primeira escola de Enfermagem do Brasil a Escola
Alfredo Pinto, na verdade, uma escola com organização administrativa e docente,
sob aresponsabilidade de enfermeiros, surge somente em 1923, com a criação da
Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), anexa
ao Hospital Geral de Assistência daquele Departamento.
O primeiro currículo dessa escola era composto de uma parte geral, da qual
constavam dezesseis disciplinas, entre elas, a de administração hospitalar, e
uma parte específica com oito disciplinas, entre elas, a de serviço
administrativo hospitalar.
O aluno desse curso era considerado mais funcionário do hospital do que
estudante(5). Porém, enquanto a escola preparava seus alunos para a assistência
hospitalar, o DNSP, o órgão que absorvia os egressos, requeria desses
profissionais o preparo para a administração de serviços, ensino e educação
sanitária(4).
A partir de com o movimento de renovação dos hospitais, o campo da Enfermagem
hospitalar passou a constituir novo mercado de trabalho para as diplomadas,
estimulando a criação de inúmeras escolas de Enfermagem, como uma das formas de
solucionar o problema da deficiência numérica de profissionais, em face das
crescentes exigências das instituições hospitalares(6).
Acrescenta-se: dada à inexistência de enfermeiras experientes disponíveis, as
recém-diplomadas tiveram de desempenhar funções administrativas, de ensino e
supervisão dos atendentes, constituídos por pessoas admitidas nos
estabelecimentos hospitalares sem o preparo técnico necessário para a execução
das tarefas que lhes eram atribuídas(6).
Com a Lei Nº 775/49, de 06 de agosto de 1949, o ensino da Enfermagem sofre a
sua primeira reforma. Passa a compreender dois cursos: o Curso de Enfermagem,
em 36 meses, e o Curso de Auxiliar de Enfermagem, em 18 meses, sendo
regulamentados pelo Decreto 27 426/49, de 14 de novembro de 1949.
O art. 1º do referido Decreto diz: "O 'Curso de Enfermagem' tem por finalidade
a formação profissional de enfermeiros mediante ensino em cursos ordinários e
de especialização, nos quais serão incluídos os aspectos preventivos e
curativos daenfermagem". E no art.2º: "O 'Curso de Auxiliar de Enfermagem' tem
por objetivo o adestramento de pessoal capaz de auxiliar o enfermeiro em suas
atividades de assistência curativa".
É importante ressaltar que, além desses dois cursos ordinários, podem ser
criados outros, de pós-graduação, destinados a ampliar conhecimentos
especializados de enfermagem ou de administração(4). Podemos observar ainda,
que a preocupação, presente nessa reforma curricular em relação à formação do
enfermeiro na área de administração era centrada, sobretudo, no adestramento de
pessoal, logo, identificada com um rigor instrumental, distante, portanto, de
uma pedagogia da autonomia.
Nesse currículo, o conhecimento de Administração era ministrado na primeira
série, através da disciplina "Economia Hospitalar", e na terceira série, com a
disciplina "Princípios de Administração Sanitária". Nesse sentido, Germano(7)
registra em seu estudo sobre o ensino de Enfermagem no Brasil que, apesar de o
currículo de 1949 privilegiar disciplinas de caráter preventivo, já se
observava uma forte tendência do mercado de trabalho para a área hospitalar,
abrindo caminho às especializações.
A propósito, ressalta-se que mesmo com a ampliação do currículo, pela inclusão
de novas disciplinas, não conseguiu entretanto modificar o programa organizado,
quase três décadas atrás, e que não mais atendia às necessidades da educação da
enfermagem brasileira (6).
Nas décadas de 50 e 60, observa-se a incorporação dos estudos de Taylor no
ensino e no trabalho de Enfermagem, onde predominavam a descrição de técnicas,
a economia de materiais, tempo e movimento. Nessa perspectiva, o ensino e a
prática de administração preocupam-se com a distribuição de escalas de serviço,
levando em consideração os tipos de procedimentos, a utilização de mão-de-obra
do aluno nos hospitais, além da preocupação com as técnicas e procedimentos.
A partir de 1959, com o crescimento acelerado da população previdenciária, a
saúde pública perde gradativamente seu espaço, cedendo lugar à atenção médica
individual, com clara tendência à privatização. Diretamente influenciado por
este novo enfoque de atenção à saúde, vemos o currículo de Enfermagem ser
reformulado em 1962, estabelecendo um curso geral e duas alternativas para
especialização opcional(4).
Nessa segunda reforma curricular estabelecida pelo Parecer Nº 271/62 do
Conselho Federal de Educação (CFE), o ensino de administração passou a ser
realizado através de uma única disciplina "administração".
Esse currículo de 1962 emerge num momento em que a economia brasileira começa a
tender para um processo excludente e concentrador de renda e, dessa forma,
coincidentemente a preocupação primordial do currículo de enfermagem incide
agora sobre as clínicas especializadas de caráter curativo(7).
Com o modelo político brasileiro vigente, supostamente liberal e com o
capitalismo em ascensão, vislumbra-se a busca de privatização da assistência à
saúde na forma empresarial e a alta especialização dos hospitais.
O saber de administração, presente na formação do enfermeiro, sempre procurava
conciliar princípios de Administração Científica (Taylor) e da Teoria Clássica
da Administração (Fayol), haja vista que esta última apresentava-se como
necessária à organização hospitalar no Brasil(1). A Enfermagem incorpora esse
conhecimento através de dois fatores essenciais: a ampliação do quantitativo
dos agentes da Enfermagem (enfermeiro, auxiliar e atendente), que levou os
enfermeiros a assumirem o gerenciamento do trabalho nos moldes do processo de
divisão social e técnica do trabalho, e a complexificação das organizações
hospitalares.
Em seu estudo sobre a influência de Taylor e Fayol na produção científica da
Enfermagem brasileira, realizado com base nos artigos da Revista Brasileira de
Enfermagem (REBEn) e Revista Paulista de Hospitais (RPH), mostra a grande
influência dessas teorias na prática da Enfermagem(8). No período histórico,
que compreende as décadas de 30 e 40, prevaleceu a influência das teorias em
70% dos artigos publicados; e nas décadas posteriores, até 80, esse cai para
50%.
Podemos identificar, no estudo, que a adesão da Enfermagem a esses clássicos
não se dá por acaso, não pode ser entendida somente pelo referencial técnico,
por eles legado, mas deve sofrer influência da própria estrutura social.
Portanto, o trabalho no setor saúde passou a ser um trabalho coletivo em que
cada profissional executa um pedaço do todo, sem que ocorram, muitas vezes, a
co-participação e o entendimento desse processo na sua globalidade.
Na Enfermagem, essa divisão técnica do trabalho é mais marcante que em outras
práticas de saúde, uma vez que esta é realizada por diversas categorias
profissionais e propicia a aplicação dos fundamentos das escolas de
administração científica e clássica: científica quando se trata das técnicas de
Enfermagem, que são uma descrição detalhada dos passos de um procedimento,
estudados aí os tempos e movimentos necessários à sua execução; clássica,
quando se trata da organização do serviço de enfermagem como um todo e suas
articulações com os outros setores hospitalares.
Mas, voltando à temática do currículo, as críticas levantadas a esta proposta
curricular Parecer 271/62, dão origem a um forte movimento de mudança, que vem
a ser impulsionado pela Reforma Universitária de 1968, possibilitando que
aquele modelo compacto de matérias e disciplinas fosse substituído através do
Parecer 163, de 28 de janeiro de 1972 e da Resolução Nº 04, de 25 de fevereiro
do mesmo ano, e que vigoraram até 1994.
Esse modelo que perdurou por vinte e dois anos não mudou em sua essência,
apenas se reestruturou para se adaptar aos princípios da Reforma Universitária.
Assim, esse currículo compreendia três partes: Pré-profissional, Profissional e
Habilitações, além da inclusão da Licenciatura como uma alternativa opcional.
Com essa reforma, a disciplina Administração Aplicada à Enfermagem foi
introduzida na parte referente ao Tronco Profissional (Habilitação do
Enfermeiro Geral), e essa se desenvolveu no sentido da intensificação do
controle e da racionalização, em busca da eficiência empresarial da época e
produzir o melhor pelo menor custo(8).
Nas habilitações, o ensino de administração também se encontra presente, com a
denominação de Administração de Serviços de Enfermagem em Unidades de Saúde
Pública, Administração de Serviços de Enfermagem em Maternidades e Dispensários
Pré-Natais e Administração de Serviços de Enfermagem Hospitalar,
respectivamente(4).
Nessa conjuntura, o enfoque teórico da Administração em Enfermagem procura
conciliar os princípios da "gerência científica" com os da Administração
Humanística, aparecendo como prioritárias as habilidades de liderança,
comunicação e motivação, como conhecimentos essenciais à formação do
enfermeiro.
A abordagem humanística da Administração (Escola das Relações Humanas de Elton
Mayo-1924) parte da concepção do homem social (natureza humana), dotado de
necessidades psicossocioespirituais que podem ser manipuladas através de algum
estilo de liderança e comunicação. Dessa abordagem, surgiram várias vertentes
teóricas da Administração, entre elas: a Teoria de Campo e a Teoria das
Necessidades Humanas, oriundas da Psicologia, ambas preocupadas com a motivação
humana como base para a excelência da liderança democrática e da comunicação
(9).
Nesse sentido, é significativo mencionar o que registra em seu estudo, quando
afirma que aTeoria de Campo e o levantamento das Necessidades Humanas Básicas
do trabalhador, a noção do ciclo motivacional e sua relação com satisfação,
frustração ou compensação dos grupos humanos passaram a ser o centro de
interesse na produção do conhecimento na área de administração em enfermagem
(10). Esse também parece ter sido o enfoque central do ensino nessa área, ainda
presente em nossos dias.
Estudo realizado com base em artigos publicados na (REBEn), no período de 1980
a 1988, sobre a produção do conhecimento de Enfermagem, mostra que, do total de
282 artigos publicados, 44 (15,6%) relacionam-se à Administração em Enfermagem.
Todos esses artigos privilegiavam particularmente as teorias da administração
(11).
Pesquisa realizada procurando identificar a ideologia dominante na educação de
enfermagem no Brasil, analisou a REBEn de 1955 a 1980, examinando 1040 (um mil
e quarenta) artigos publicados no período(7). Desses, prevalecem os artigos
relacionados à Enfermagem que guardam estrita consonância com as políticas de
saúde e o modelo econômico vigente no país, cuja assistência individual
curativa, a indústria farmacêutica e de equipamentos têm lugar especial. Em
segundo lugar, aparecem os artigos sobre Administração Aplicada à Enfermagem,
em sintonia com o caráter de disciplina e controle, que marcam a profissão de
Enfermagem.
Essa valorização da função administrativa do enfermeiro, nas últimas décadas,
tem se expressado pelo aumento da carga horária dos conteúdos de Administração
Aplicada à Enfermagem, nos currículos de graduação, assim como pela ampliação
de cargos gerenciais destinados a enfermeiros nos serviços hospitalares e de
rede básica, atendendo, de certa forma, às necessidades do mercado.
Mas, retomando a formação do enfermeiro, Mendes(12), em sua tese de doutorado,
estudando o ensino no período compreendido entre 1972 e 1994, na vigência do
Parecer 163/72 e da Resolução Nº 4/72, afirma: "a normatização do Currículo
Mínimo, no paradigma técnico linear, procura desenhar um modelo padrão de
profissional, que não consegue responder à variedade de realidades, nas quais
as práticas de saúde se dão". Por outro lado, essa função é reforçada pela
sociedade à medida em que há uma hipervalorização da atuação técnica na área de
Enfermagem.
Porém, na segunda metade da década de 70, o cenário brasileiro começa a apontar
para o início da abertura política, abrindo espaços a um pensamento crítico e
reflexivo sobre a realidade educacional, a partir da análise do contexto mais
amplo da sociedade no seu conteúdo histórico-concreto.
Por sua vez, o modelo médico-hospitalar privatista e previdenciário, reforçado
durante os governos militares, acarretou graves conseqüências para a população
brasileira: o aumento da mortalidade e morbidade por doenças preveníveis e
degenerativas e a pauperização da classe trabalhadora são exemplos.
Nesse modelo, a Enfermagem realiza a gerência de serviços e a administração da
assistência de Enfermagem, centrada em instrumentos e métodos para avaliar a
produtividade do trabalho, as relações mecânicas de custo/benefício e
parâmetros quanti-qualitativos para a assistência, que se adeqüem aos
interesses institucionais comprometidos com a lógica do setor privado e da
burocracia do Estado.
Porém, no final dos anos 70, e, com mais intensidade, na década de 80, as
discussões sobre o currículo de Enfermagem (como em outras áreas), até então
centradas no tecnicismo, passam a refletir sobre a profissão e o ensino movidas
por outro momento político do país, sua luta pela redemocratização, trazendo à
tona propostas de mudanças fundamentadas em vertentes críticas.
Com a redemocratização do Brasil, a partir, portanto, dos anos 80, emergem,
entre os enfermeiros, através da Comissão de Educação da ABEn Nacional, novas
propostas de um amplo debate acerca do ensino de Enfermagem no país.
Pouco a pouco, começam a despontar alguns estudos e discussões sobre a
enfermagem como prática social articulada a outras práticas sociais, políticas,
ideológicas. Muda, portanto, a ótica do entendimento da Enfermagem, do seu
processo de trabalho e de seus trabalhadores. Nessa perspectiva, a área de
administração passa a constituir um espaço privilegiado para os debates e
discussões dos rumos da categoria.
Como confirmação dessa tendência, ao analisarmos, por exemplo, a produção
científica na área de administração na Revista Brasileira de Enfermagem
(REBEn), no período compreendido entre 1981 e 2003, identificamos que, dos 42
artigos publicados na área, 12 (28,5%) tratam do objeto de trabalho do
enfermeiro, como sendo o de coordenador do processo de trabalho da enfermagem,
entendendo-a como prática social.
Hoje a Enfermagem tenta firmar-se através da competência técnica e política,
analisando-se nas relações sociais de produção, buscando identificar-se
enquanto processo de trabalho, tentando construir um corpo tecnológico próprio
saberes, técnicas e instrumentos, adequados às especificidades dos seus
objetos, agentes e finalidades de trabalho.
Podemos observar, portanto, em nosso estudo, que o ensino de administração
apresenta-se como um elemento básico na formação do enfermeiro, e cada vez mais
presente na prática desse profissional.
Tanto é assim que, em diferentes ocasiões, encontramos, na REBEn,
recomendações, por parte de docentes e de Congressos Nacionais de Enfermagem,
no sentido de integrar o ensino de administração em diversos momentos do
currículo, pela relevância que o mesmo representa na formação profissional.
Nesse sentido, diante da legislação vigente sobre o ensino e com base em toda a
discussão que vinha se processando no setor saúde, as Escolas de Enfermagem, a
ABEn, e a Comissão de Especialistas em Enfermagem (CEEnf), da Secretaria
Nacional de Ensino Superior (SENESU/MEC), promoveram vários estudos com vistas
à avaliação do ensino de Enfermagem. Esse processo envolveu enfermeiros
docentes, de serviços, estudantes e entidades de enfermagem culminando com uma
proposta de currículo mínimo que foi submetida ao Conselho Nacional de
Educação, sendo aprovada através da Portaria Nº 1.721, de 15/12/94, do
Ministério da Educação e Desporto.
No artigo terceiro, parágrafo quarto, dessa Portaria, especificamente, está
fixado, para a área de Administração em Enfermagem, um mínimo de 15% da carga
horária do curso, determinada na legislação, totalizando o mínimo de 525 horas.
Em resumo, essa mudança curricular trouxe avanços significativos à área de
Administração; a mesma deixa de ser vista de forma fragmentada, passando a
integrar a maior parte da formação do enfermeiro. Essa inovação requer, por
parte dos docentes dessa área e das demais, um novo fazer/ensinar, considerando
a prática não só na especificidadede seus conteúdos, mas sobretudo, integrando-
a à formação do enfermeiro como um todo.
É importante registrar que essa redefinição da prática do Ensino de
Administração se fez de forma articulada com os anseios e desejos de mudanças
da Enfermagem brasileira, em busca do objeto de trabalho do enfermeiro, qual
seja, o degerenciar/administrar o processo de trabalho da Enfermagem, inserido
na saúde e na sociedade como uma totalidade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após analisar o ensino de administração na formação do enfermeiro, tomando-
o desde sua origem até os dias atuais, podemos inferir que este se confunde com
a evolução do próprio ensino de enfermagem como um todo. Vimos que este ensino,
ao longo desses anos, guardou uma relativa sintonia com as políticas
implementadas pelo Estado brasileiro em suas diferentes conjunturas. E, o
ensino de administração como o lócus norteador do processo de trabalho da
enfermagem, tem maior visibilidade nas mudanças ocorridas no exercício da
profissão.
Assim, retomando sua trajetória, podemos afirmar que o ensino de administração
veio evoluindo ao longo dos anos, em uma longa e lenta transição, marcado por
um viés conservador e autoritário. Apesar disso, a partir dos anos 80, esse
ensino vem passando por um processo de renovação, direcionado à formação de um
corpo coletivo no qual a coordenação tem papel preponderante, minimizando,
portanto, o sentido de hierarquia e poder tão presentes na administração. Isso
se expressa na produção de novos conhecimentos, publicação de livros mais
críticos, entre outros aspectos que evidenciaram mudanças na Enfermagem
Brasileira.