Análise do cuidado ao bebê hospitalizado segundo a perspectiva Winnicottiana
PESQUISA
Análise do cuidado ao bebê hospitalizado segundo a perspectiva Winnicottiana
Analysis of delivered care to hospitalized babies according to Winnicottian
perspective
Analise del cuidado al bebe hospitalisado según la perspectiva Winnicottiana
Fabiane Carvalhais RegisI; Tereza Yoshiko KakehashiII; Eliana Moreira
PinheiroIII
IPsicóloga. Enfermeira da Pediatria do Hospital Israelita Albert Einstein, São
Paulo fabiregis@fig.com.br
IIDoutora em Enfermagem. Docente da Universidade do Grande ABC - Santo André
IIIDoutora em Enfermagem. Docente da Universidade Federal de São Paulo
1. INTRODUÇÃO
Considerando o ser humano como um ser em processo contínuo de desenvolvimento
emocional e como um sujeito em inter-relação permanente com o ambiente, que
sofre e exerce influências ao meio que o circunda, questionamos sobre as
condições necessárias para prover e manter um ambiente que favoreça o
desenvolvimento emocional do bebê.
Na grande maioria das vezes, o feto está amparado por mecanismos fisiológicos e
psicológicos, de modo que o ambiente uterino provê o ser em desenvolvimento
daquilo que necessita.
O nascimento vem então romper com esse suposto equilíbrio, tanto que a
literatura menciona o trauma do nascimento, havendo autores, que propõem a
realização do parto no escuro, em temperatura adequada, com som apropriado para
evitar o suposto trauma, como o preconizado por Frédérick Leboyer(1).
Acreditamos, sem nos deter às exceções, que as mães, de um modo geral, estão
preparadas ou amparadas para proteger seus bebês de agressões ambientais, tão
logo possam cuidar dos mesmos.
Pautadas no referencial teórico de Winnicott(2), as autoras decidiram verificar
como ocorre a provisão ambiental diante de um bebê hospitalizado. O holdingé
definido pelo autor como toda provisão ambiental, que vai além do segurar
físico do bebê, incluindo nos cuidados dispensados ao recém-nascido além dos
aspectos físicos, os psíquicos considerando a sua sensibilidade.
Um ambiente hostil, ou falhas no cuidado promovido ao bebê, podem estar
caracterizando o não fornecimento do holding, o que pode por sua vez não
propiciar a integração e a sensação de ser unitário, de ser uma pessoa levando
à sensação de aniquilamento, ou mesmo ao estabelecimento do falso self(resulta
em uma sensação de irrealidade e em um "sentimento de futilidade"; distorção do
ego em termos de falso e verdadeiro "self")(3).
Quando o ambiente não é satisfatoriamente bom, a continuidade do ser pode ser
interrompida, resultando no enfraquecimento do ego e na não existência psíquica
do bebê(3). A criança está presente enquanto um corpo orgânico, que até reage
aos estímulos do meio, mas não existe enquanto ser capaz de estar e criar no
mundo.
A hospitalização de bebês, seja em unidades de médio risco ou de terapia
intensiva por um período prolongado, nos faz pensar que pode estar acontecendo
uma ruptura do que é desejável em termos de ambiente satisfatório para o
desenvolvimento dos mesmos.
Considera-se o ser com um potencial herdado, o que inclui o processo de
maturação que se efetiva em um ambiente favorável. Desse modo nem tudo depende
única e exclusivamente do ambiente. A tarefa do bebê é existir e se
desenvolver, e a da mãe é prover o holding auxiliando-o em sua trajetória(4).
Considerando a nossa vivência como enfermeiras da assistência neonatal,
questionamo-nos sobre como ocorre o holding quando estamos diante de bebês que
permanecem internados por um longo período. Há um ambiente propício para o
desenvolvimento desses bebês? Os profissionais da equipe fornecem o holding? A
mãe consegue propiciar o holding durante sua permanência junto ao bebê no
ambiente hospitalar?
Tais questionamentos nos inquietam na medida em que a prática assistencial
parece por vezes voltada meramente ao atendimento de necessidades fisiológicas,
sendo que até estas não parecem ser integralmente atendidas, quando se
considera o descuido em relação ao desenvolvimento sensório-motor do recém-
nascido provocando seqüelas por vezes irreversíveis, com prejuízo pessoal e
custo social elevado.
Acreditamos ser essa uma questão também com relevância acadêmica, pois
entendemos que no hospital-escola, como um ambiente de ensino e aprendizagem
para os vários profissionais da área de saúde, uma mudança no cuidado fornecido
ao bebê serve por si só como embasamento de uma prática qualificada para os
futuros profissionais.
Este trabalho foi desenvolvido após a realização de um curso de extensão
denominado "Desenvolvimento Emocional Primitivo Winnicottiano" no Instituto
Paulista de Psicologia, Estudos Sociais e Pesquisa - IPPESP, em 2003.
Constatando a escassez de literatura que enfoca a assistência de enfermagem ao
recém-nascido e respaldadas no referencial teórico de Winnicott, as autoras
propuseram-se a investigar como ocorre o holdingno ambiente hospitalar.
Considerando o exposto, o objetivo deste trabalho foi verificar o
holdingproporcionado pelos pais e profissionais de enfermagem aos bebês
hospitalizados em uma unidade neonatal de médio risco de um hospital-escola do
Município de São Paulo; campo de estágio para os alunos dos cursos de graduação
de Enfermagem e Medicina.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo descritivo sobre o holdingproporcionado ao
recém-nascido na unidade de médio risco de um hospital-escola do Município de
São Paulo, tendo como referencial teórico o desenvolvimento emocional primitivo
de D. W. Winnicott.
2.1 Coleta de dados
Para este estudo, foram analisadas as imagens dos cuidados prestados aos recém-
nascidos em uma unidade neonatal de médio risco de um hospital-escola do
Município de São Paulo, gravadas em uma fita VHS e cedidas por Pinheiro(5), que
as utilizou em sua tese de doutorado em Enfermagem.
As imagens captadas por Pinheiro(5) nos períodos de Janeiro a Outubro de 2001 e
Outubro a Novembro de 2002, registraram os cuidados prestados aos recém-
nascidos, tanto pelas auxiliares e enfermeiras durante a permanência dos pais.
Neste estudo, utilizou-se uma edição das sessões de filmagens, com duração de 9
minutos, da qual as autoras selecionaram as imagens pertinentes ao holding,que
poderiam ser analisadas pelo referencial de Winnicott.
Os participantes foram informados sobre os objetivos do estudo e, em
atendimento aos dispositivos da Resolução 196/96 sobre a ética na pesquisa
envolvendo seres humanos, assinaram o termo de consentimento livre e
esclarecido(6).
2.2 Sujeitos da Pesquisa
Os sujeitos do estudo constituíram-se de auxiliares de enfermagem e enfermeiras
que prestam cuidado ao bebê nos plantões matutino, vespertino e noturno e
também de mães e pais que estavam presentes na unidade. Os pais participam do
cuidado do recém-nascido, realizando atividades como: troca de fraldas,
administração de mamadeiras, aleitamento materno. É incentivado que tanto a mãe
como o pai, toquem e segurem o bebê ao colo.
No referido berçário, existe em média uma enfermeira responsável pelas unidades
de médio e alto risco em cada plantão, que acumula atividades assistenciais e
administrativas; e duas auxiliares de enfermagem que prestam cuidados aos
recém-nascidos na unidade de médio risco. Assim, freqüentemente os pais são
recebidos na unidade pelas auxiliares de enfermagem, com quem estabelecem maior
contato.
A ocupação média da unidade de médio risco gira em torno de dez crianças, com
permanência de aproximadamente dez dias, ocupando berços ou incubadoras,
algumas vezes com monitores para vigilância dos sinais vitais, traçado
eletrocardiográfico e saturação de oxigênio. Tratando-se de um hospital-escola,
há um afluxo constante de alunos e docentes.
2.3 Referencial Teórico
Utilizamos o referencial teórico de Winnicott, pela sua relevância social, que
vislumbra o bebê com potencial para o crescimento e desenvolvimento emocional
primitivo. À função materna cabe a tarefa de prover o ambiente e acolher esse
bebê no sentido de reconhecer sua existência. A falha ambiental pode tornar o
desenvolvimento emocional primitivo suscetível a rupturas, contudo capaz de, em
condições de cuidados físicos e psíquicos adequados, prover a existência do
bebê de modo único e pleno.
Na perspectiva winnicottiana, o bebê possui um sentido de continuidade de ser,
sendo que ele ainda não existe por si, existindo apenas na relação com a mãe.
Isso implica em aceitar o princípio de que a criança parte da dependência rumo
à independência, da não-integração à integração, a noção de eu sou(7).
O autor destaca três estágios de desenvolvimento em que o bebê segue de uma
dependência absoluta, para uma dependência relativa rumo a uma independência
relativa. A dependência nesse estágio inicial é absoluta, de modo que quando
ocorre o colapso ambiental, há uma ruptura, e a resposta do bebê é a
interrupção do seu processo de desenvolvimento(7).
Em cada um desses estágios naturais ao desenvolvimento emocional do bebê, o que
se espera é que ocorra o holding satisfatório, ou seja, que a criança possa ser
acolhida, reconhecida em suas necessidades fundamentais, como por exemplo,
necessidades de alimento, higiene, conforto. Isso permite ao bebê estabelecer
os limites do interno e externo, que posteriormente irão caracterizá-lo
enquanto ser, e o que é o outro, enquanto alguém diferente dele próprio. Falhas
ambientais, nesses três estágios iniciais podem caracterizar predisposições
para transtornos psíquicos dos mais diversos, incluindo a psicose,
esquizofrenia, depressão, tendências anti-sociais, dentre outros. O termo
holding significa assim além do segurar físico de um bebê, toda a provisão
ambiental, de modo que o lactente possa adquirir uma individualidade própria(4:
).
Ao discorrer sobre o holding, consideram-se três processos: integração,
personalização e relação objetal. "Antes da integração, o indivíduo é um
conjunto não organizado de fenômenos sensório-motores contidos pelo ambiente
externo"(8). O autor destaca que só depois da integração é que o indivíduo
atinge o status de unidade, sabendo diferenciar o que pertence ao mundo interno
do externo, podendo então, reunir memórias de experiências. Podemos dizer
assim, que a integração representa o estabelecimento de contornos, ou seja dar
molde ao bebê, o que significa que a criança aprende a diferenciar os limites
entre o que é seu e o que é do outro, isto é, os limites entre o interno e o
externo.
A integração é tida por como o principal aspecto do desenvolvimento do ego da
criança, sendo que este deve ser complementado pelo ego materno, que torna o
ego do bebê forte e estável, validando a sua existência(9).
Para que ocorra esse processo é necessário um ambiente suficientemente bom e
alguém que lhe forneça o holding, adaptando-se, o cuidador e o ambiente, às
mudanças inerentes ao crescimento e desenvolvimento do bebê. Para tal é
necessário um cuidado materno que deve ser baseado na percepção e empatia da
mãe ou alguém que desempenhe tal papel. Sob esse aspecto destaca-se a
preocupação materna primária como um estado de sensibilidade materna aumentada
e atenta às necessidades do bebê(10). Com relação ao pai, o autor salienta, que
ao mesmo cabe apenas dar suporte à mãe, a fim de que ela possa estar
inteiramente disponível ao bebê(11).
Com relação à personalização, o autor, lembra que tanto a psiquê quanto o corpo
devem ocupar o mesmo lugar no espaço. Nesse processo, o bebê transcende o que
sente em termos de necessidades fundamentais, e "passa a sentir, como uma
conseqüência do toque amoroso, que seu corpo constitui-se nele mesmo e/ou que
seu sentimento de self centra-se no interior de seu próprio corpo"(12:138). A
personalização, em outras palavras, nada mais é do que a inserção da psiquê no
soma, sendo que "a base dessa inserção é a ligação das experiências funcionais
motoras e sensoriais com o novo estado do lactente de ser uma pessoa"(7:45), de
modo que o lactente possa adquirir um esquema corporal.
Em relação ao terceiro processo, uma aquisição fundamental para a fase inicial
do desenvolvimento do bebê é a capacidade para viver com e estabelecer relações
objetais, em que o bebê deixa de estar em estado de fusão com a mãe, para
relacionar-se com a mesma como separada dele(7).
Assim, a atenção com o bebê e a manipulação do mesmo ao trocar uma fralda,
segurá-lo ao colo, oferecer uma mamadeira, promover o banho, proporcionam as
primeiras experiências de gratificação instintiva e relações objetais com quem
lhe presta os cuidados e com o ambiente que o cerca. Desse modo, o cuidado
materno que é a princípio uma continuação da provisão fisiológica da vida
intra-uterina, forma a base da saúde mental do indivíduo, entendendo-se essa
como ausência de psicose ou mesmo de predisposição à mesma(7:48-51).
Quando a satisfação instintiva e as relações objetais constituem uma ameaça ao
vir-a-ser pessoal do indivíduo, uma das defesas que o bebê pode desenvolver é a
organização do falso self, isto é um sentimento de não existir enquanto ser(7)
.
A principal função do ambiente é reduzir ao mínimo as irritações a que o bebê
deve reagir, o que não significa proporcionar um ambiente isento de estímulos
que não sejam agradáveis. A ansiedade experimentada pela criança nesses
estágios iniciais relaciona-se com a ameaça dela não vir a existir, de
aniquilamento(7).
Em condições favoráveis em que se tem um cuidador atento ao bebê e um ambiente
que possa provê-lo em suas necessidades, a criança estabelece uma continuidade
da existência e assim começa a desenvolver a sofisticação que lhe possibilita a
lidar com as irritações provocadas pelo ambiente, o que é caracterizado por sua
onipotência. O bebê precisa integrar, personalizar e estabelecer relações
objetais, tendo a necessidade de ser reconhecido em sua existência a fim de que
possa suportar um ambiente hostil, que lhe causa irritações, de modo que tenha
menos possibilidades de desencadear transtornos psíquicos posteriormente(7).
Cabe ressaltar que por vezes, a mãe provê um cuidado inicial bom, mas fracassa
em completar o processo, permanecendo fundida ao bebê, adiando assim a
separação entre eles. Isto pode provocar uma irritação à qual a criança pode
reagir, interrompendo a continuidade no processo de vir-a-ser(7).
É esperada a identificação da mãe com o bebê, de maneira que a mesma esteja
sensível às necessidades da criança e possa atendê-la no que necessita.
Posteriormente a mãe deve estar "pronta para deixar ir sua identificação com o
lactente à medida que o lactente começa a precisar ficar separado" dela(7).
Quando ocorre uma provisão ambiental satisfatória, o estabelecimento do holding
passa despercebido, embora seja de fundamental importância para o
fortalecimento do ego e a continuidade da existência do bebê. Mas é justamente
quando há uma falha no holding que tornam-se perceptíveis as conseqüências para
o indivíduo do que foi um ambiente incapaz de envolvê-lo, manejá-lo, atendê-lo
em suas necessidades físicas e psíquicas, de acolhê-lo, reconhecê-lo e deixar
que ele realmente venha existir(7).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao analisar as imagens da fita de VHS, gravadas em uma unidade neonatal de
médio risco, de um hospital-escola do Município de São Paulo, foi possível
verificar que cada pessoa, ao cuidar do bebê, procede de maneira diferenciada,
estando ou não atenta às necessidades do mesmo de acordo com sua capacidade de
envolver-se com ele.
É preciso considerar que este estudo baseia-se na observação de apenas alguns
momentos e pode, por isso, não retratar a realidade do cotidiano das
profissionais e das famílias na interação com o recém-nascido. Cabe ressaltar
que em determinados momentos, mesmo as profissionais atentas às necessidades do
bebê, podem não dispor de tempo para atendê-los convenientemente devido às
múltiplas demandas do serviço. Entretanto, sabemos que não é a quantidade de
tempo que se dispende ao bebê, mas a qualidade do cuidado oferecido, que é
essencial em termos de provisão ambiental.
Foi possível observar que há auxiliares de enfermagem cuidando das crianças de
um modo automático, proporcionando o banho ou trocando uma fralda de maneira
mecânica, sem acolher o bebê, ou mesmo manejá-lo adequadamente, o que é
evidenciado por um choro forte da criança, além da manifestação de movimentos
desorganizados de extensão e flexão dos seus membros superiores e inferiores.
Essas mesmas profissionais conversavam entre si durante os procedimentos, sem
estabelecer qualquer tipo de comunicação com a criança. Tais atitudes podem
estar ocasionando uma falha na provisão ambiental, ou seja, uma falha no
holding. As conseqüências dessas irritações ambientais provocaram reações de
choro e movimentos desorganizados dos membros, provavelmente em função da
sensação de não existir do bebê, relacionada à ansiedade experimentada pelo
mesmo.
Como relatado no referencial teórico, repetidas falhas na provisão ambiental
como não estar sendo acolhido e validado em sua existência, em suas
necessidades fundamentais de alimento, higiene e conforto podem levar o bebê, a
sofrer uma ruptura no seu desenvolvimento emocional.
Verificou-se que houve falha no holding fornecido à criança também durante a
oferta de leite, evidenciado no comportamento de uma auxiliar de enfermagem que
se mostrava desatenta ao bebê posicionado sobre suas coxas, mantendo-o afastado
do seu corpo, enquanto olhava para as pessoas que transitavam pela unidade. O
protetor ocular do recém-nascido foi mantido durante todo o procedimento, de
modo que não se estabeleceu o contato olho a olho, um importante indicadorde
interação com a criança.
Durante a oferta do leite, esse bebê não foi visto pela profissional de
enfermagem. O bebê que repetidas vezes não foi olhado pela mãe, vai
incessantemente buscar esse olhar para ser validado em sua existência. A
criança que não passa pelo processo de integração na relação com a mãe e/ou com
o cuidador, pode crescer sem estabelecer o limite entre o interno e o externo,
misturando-se com o outro por não saber o que é seu e o que é do outro. Assim,
faz-se necessário considerar que, o cuidar em enfermagem resguarda em si boa
parte daquilo de que o bebê necessita para prosseguir o seu desenvolvimento
emocional de modo saudável e vir a constituir-se enquanto ser.
Nas imagens analisadas, notou-se que algumas mães observavam atentamente o
ambiente hospitalar e não direcionavam o olhar para seu bebê. Tais mães
mantinham sua atenção nas pessoas que transitavam pela unidade, no choro de
outros bebês, nas visitas que chegavam, e mesmo em um berço vazio, indicando a
ausência de algum bebê.
O ambiente hospitalar parece paralisar algumas mães, que embora presentes na
unidade, não se envolveram com seus bebês, o que evidenciou um holding
insatisfatório, pois essas mães detiveram-se apenas a contemplar a unidade.
Novamente, diante da falha ambiental os bebês podem sofrer uma ruptura no seu
desenvolvimento emocional.
Observou-se um pai, que após identificar seu filho no berço, alinhou o seu
rosto com o do bebê por breve período, permanecendo ao seu lado sem tocá-lo por
algum tempo, até que a auxiliar de enfermagem o incentivasse para tal. Nesse
sentido, quando a funcionária aproxima-se do pai e incentiva-o a tocar em seu
filho, ela pode estar auxiliando-o a promover a integração e a personalização
do bebê. Isso caracteriza o holding, ou seja, poder se aproximar do bebê para
apresentar-se a ele e acolhê-lo.
Na análise das imagens foi possível verificar que existem profissionais capazes
de fornecer um holding satisfatório ao bebê, acolhendo-o adequadamente,
respondendo às suas necessidades, olhando e conversando com ele. As imagens
mostram que durante o banho, uma das auxiliares de enfermagem segurava o bebê
contendo-o adequadamente de maneira a mantê-lo na posição de enrolamento,
conversando e acariciando-o. Conseqüentemente, o choro foi menos intenso do que
nos bebês que não receberam tais cuidados. O bebê acolhido, que é visto por
aquele que dele cuida, pode prosseguir em seu desenvolvimento com menos chances
de vir a desencadear algum transtorno psíquico.
Outra cena mostra um casal em que o pai inicialmente segura a criança ao colo,
aconchegando-a ao seu corpo, e em seguida auxilia a mãe a sentar-se em uma
cadeira para entregar-lhe o bebê. Nesse momento, o pai agacha-se de modo que
seu rosto fica no mesmo plano do rosto materno, mantendo-se nessa posição
enquanto a mãe amamentava.
O exemplo acima descrito, pode ilustrar que a atitude do pai permite que a mãe
possa entregar-se à amamentação de modo a propiciar o desenvolvimento físico e
psíquico da criança. O desempenho do pai, evidenciado em sua atitude com a mãe,
pode ter favorecido a mãe para prover um holding satisfatório.
Em relação aos procedimentos dolorosos como na punção venosa, verificou-se uma
cena na qual diante da manifestação de choro do bebê, a auxiliar de enfermagem
o envolveu nos braços e conversou com ele de modo a acalmá-lo e acolhê-lo. Da
mesma maneira agiu uma enfermeira após realizar punção capilar no pé do recém-
nascido.
Em um ambiente hospitalar, por vezes esses procedimentos invasivos e dolorosos
são inevitáveis. Contudo, é a maneira como é abordada a criança, antes, durante
e após o procedimento, que deve ser contemplada pelo cuidador quando pensamos
em proporcionar o holding. Desse modo, pautadas na relevância do holding para o
desenvolvimento emocional da criança, as autoras ressaltam que saber manejar o
bebê, em termos de provisão ambiental, antes, durante e após qualquer
procedimento é tão importante para o desempenho do cuidado quanto à habilidade
técnica para realizá-lo.
O não envolvimento de algumas mães e de alguns profissionais no cuidado
dispensado ao bebê hospitalizado na fase inicial de seu desenvolvimento
emocional, no fornecimento de um holding satisfatório, pode vir a ocasionar a
possibilidade de não existirda criança, isto é, no estabelecimento de um falso
self e no desenvolvimento de transtornos psíquicos, que refletem-se em casos
mais extremos.
Por outro lado verificamos que as mães, muito mais do que as profissionais,
proporcionavam melhor holding para seu filho, segurando-o junto ao corpo,
estabelecendo o contato olho a olho e demonstrando sintonia com as necessidades
da criança. Cabe ressaltar que a preocupação materna primáriacomo um estado
caracterizado pela sensibilidade aumentada das mães, possibilita-lhes atender
sensivelmente às necessidades iniciais do bebê(10:403). Tal fato não exclui a
possibilidade de profissionais fornecerem também o holding.
Desse modo, a prestação do cuidado com qualidade semelhante àquele
proporcionado pela mãe em estado de preocupação materna primária, só será
possível aos profissionais sensibilizados. Sabe-se que nem todos conseguem tal
sensibilização apenas por meio do conhecimento formal, uma vez que este não
constitui-se no único determinante da ação. É preciso considerar também o
aspecto motivacional da interação das profissionais de enfermagem com o recém-
nascido, que resultam em ações de cuidar mais adequadas com a pessoa do bebê
(5).
Acredita-se que cabe ao profissional da saúde intervir para tornar o ambiente
hospitalar mais propício ao desenvolvimento do ser humano, pois pode-se inferir
por esse estudo o quanto a provisão ambiental pode ser falha em proporcionar o
holdingadequado ao desenvolvimento emocional do bebê. Um ambiente propício é
desejável para a continuidade do vir-a-ser do bebê, para que o mesmo possa
adquirir sua integração, personalização e estabelecer relações objetais,
caminhando rumo à independência.
Desse modo, acreditamos ser necessário repensar a prática assistencial de
enfermagem, ressaltando a necessidade de que todos os componentes da equipe,
mães e pais sejam capazes de atender às necessidades físicas e psíquicas do
bebê, de proporcionar um holdingsatisfatório e de olhá-lo de um modo a
legitimar a sua existência psíquica diante do mundo, envolvendo-o e manejando-
o adequadamente.
4 CONCLUSÃO
A realização deste trabalho pautada no referencial Winnicottiano, nos permitiu
vislumbrar a complementaridade entre as diferentes áreas do conhecimento,
possibilitando uma prática transdisciplinar capaz de fornecer subsídios para
prestar a assistência de enfermagem, que considera o indivíduo em sua
totalidade de modo a favorecer o desenvolvimento e a possibilidade de continuar
a vir-a-ser do bebê.
A análise de imagens do cuidado prestado ao bebê no ambiente hospitalar nos
revelou que por vezes, há um holding satisfatório por parte dos profissionais e
em outras ocasiões há falha no fornecimento de um ambiente que possibilite o
desenvolvimento saudável da criança na sua integração, fundamental para
posterior personalização, possibilidade de ser unitário e capacidade de
estabelecer relações objetais.
Observou-se que a falha no holding dos profissionais é também reproduzida por
alguns pais. Talvez o berçário, com múltiplos estímulos, muitas pessoas,
restringindo a intimidade do contato entre os pais e seu bebê, dificulte a
adoção do estado de preocupação materna primária.
Acredita-se na necessidade de uma intervenção na prática assistencial de
enfermagem, que permita um olhar que transcenda o cuidado técnico e que permita
ao profissional considerar na sua atuação, o ambiente que atenda às
necessidades psico-emocionais do bebê hospitalizado, incluindo também a família
como alvo do cuidar, apoiando-a na sua tarefa de envolver-se com o bebê.
Afinal, "não existe tal coisa como o lactente ... sempre que se encontra o
lactente se encontra o cuidado materno ... se o cuidado materno não for
suficientemente bom então o lactente realmente não vem a existir"(7).
Como o presente trabalho representa apenas um recorte do cuidado prestado ao
bebê, as autoras recomendam que outros estudos sejam realizados a fim de
avaliar o holding proporcionado à criança, tanto pelo profissional de
enfermagem quanto pela família, para verificar se a provisão ambiental dada
pelos mesmos incorpora ao cuidar as necessidades psico-emocionais do bebê. Por
outro lado, como este estudo baseou-se somente na análise das imagens, não nos
possibilitou compreender as percepções dos sujeitos da pesquisa, suas
motivações e razões de suas condutas. Sugere-se então, a partir do referencial
proposto, a realização de outros estudos que desvelem o fenômeno pela ótica dos
cuidadores. Ressaltam ainda, que essa questão também apresenta relevância
acadêmica, pois entende-se que a introdução de uma mudança no cuidado fornecido
ao bebê no hospital-escola como um ambiente de ensino e aprendizagem para os
vários profissionais da área de saúde, poderá servir como embasamento de uma
prática qualificada para os futuros profissionais.