Significados das práticas de não cuidados na visão dos clientes hospitalares
PESQUISA/RESEARCH/INVESTIGACIÓN
Significados das práticas de não cuidados na visão dos clientes hospitalares
Meanings of non-care practices from the point of view of hospital clients
Significados de las prácticas de no cuidados según la visión de los clientes
hospitalizados
Maria Itayra Coelho de Souza PadilhaI; Ana Rosete MaiaII; Mariana VieiraIII;
Caroline MachadoIII
IEnfermeira. Professor Adjunto do Depto de Enfermagem da UFSC. Doutora em
Enfermagem pela EEAN/UFRJ. Vice-lider do Grupo de Estudos da História do
Conhecimento de Enfermagem (GEHCE). Pesquisadora do CNPq
IIEnfermeira. Professor Assistente do Depto de Enfermagem da UFSC. Membro do
(GEHCE)
IIIAluna do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC. Bolsistas de Iniciação
Científica do CNPq. Membro do (GEHCE)
E-maildo autor: padilha@nfr.ufsc.br
1 Introdução
As demandas sociais têm chamado, internacionalmente, para uma crescente
desumanização no Sistema de Saúde. Os avanços tecnológicos tendem a progredir.
Os problemas de saúde têm desafiado a Ciências e os profissionais de saúde têm
se defrontado com questões cada vez mais delicadas em relação a valores morais
e éticos. Recentemente em países industrializados, a grande preocupação tem
sido o resgate do sentido humanitário. O cuidado passa a receber prioridade
englobando uma abordagem humanística, crítica e metafísica.
Um dos problemas encontrados, refere-se à desumanização nos serviços de
prestação à saúde e à resultante despersonalização dos clientes(1). A
consideração à pessoa como um todo e a consideração e sensibilidade à
integridade do self, é basicamente, por assim dizer, uma ordem ética(1). O
cuidar, como um valor profissional e pessoal, é de principal importância em
prover padrões normativos os quais governam as ações e as atitudes em relação
àqueles a quem se cuida. Nessa condição, os clientes estão à mercê de estranhos
cujas funções e papéis desconhecem, de máquinas, aparelhos, testes assustadores
e de rotinas totalmente desconectadas de seus conhecidos hábitos familiares. O
cliente torna-se somente um objeto a mais, outra patologia, outro tratamento,
outro prontuário, outro nome na lista do cronograma das salas de cirurgias,
unidades e cardápios.
Os maiores desafios lançados à política orientada pela ética e ao modo-de-ser-
cuidado são indubitavelmente os milhões de pobres, oprimidos e excluídos de
nossas sociedades(2). Esse antifenômeno resulta de formas injustas da
organização social hoje mundialmente integrada. Com efeito, nas últimas
décadas, verificou-se um crescimento na produção de serviços e bem materiais,
entretanto, desumanamente distribuídos.
Na crise do projeto humano, sentimos a falta clamorosa de cuidado em toda a
parte(2). Suas ressonâncias negativas, são demonstradas pela má qualidade de
vida, pela penalização da maioria empobrecida da humanidade, pela degradação
ecológica e pela exacerbação da violência. Não busquemos o caminho da cura fora
do ser humano, entendido em sua plenitude que inclui o infinito. Ele precisa
voltar-se sobre si mesmo e redescobrir sua essência que se encontra no cuidado.
A realização de estudos relativos a investigar as práticas de cuidado e não
cuidado são fundamentais, tendo em vista a complexidade e inter-relação dos
problemas sociais, econômicos e políticos, resultantes das transformações no
mundo, os quais afetam diretamente o serviço de saúde e interferem nas práticas
de cuidado de profissionais de saúde. O cuidado à saúde é uma necessidade
universal e vital para o processo de viver em sociedade. Contudo, a estrutura
dos serviços e as práticas de cuidado à saúde parecem não responder
adequadamente às necessidades da sociedade, exigindo iniciativas que possam
através da criação e implementação de políticas inovadoras e criativas.
Consideramos que as forças presentes nas práticas de cuidado à saúde são muitas
e variadas, podendo ser concebidas tanto em complexidade como em intensidade,
merecendo uma curada avaliação. Esta avaliação é necessária para que possamos
tomar consciência dos problemas e da necessidade de mudanças, as quais possam
assegurar uma maior acessibilidade às práticas de cuidado de custo efetivo e de
qualidade.
Constatamos, na revisão da literatura, a existência de inúmeras pesquisas/
estudos relatados de experiências relacionadas ao significado do cuidado em
diferentes grupos, bem como percepções de cuidado do ponto de vista dos
cuidadores e dos recebedores do cuidado. Cuidar em Enfermagem, consiste em
esforços transpessoais de ser humano para ser humano, visando proteger,
promover e preservar a humanidade, ajudando pessoas a encontrar significados na
doença, sofrimento e dor, bem como, na existência. É ainda, ajudar outra pessoa
a obter autoconhecimento, controle e autocura, quando então, um sentido de
harmonia interna é restaurada(3). Entendemos cuidado como ações profissionais
de natureza disciplinar e interdisciplinar, que se dão no processo de interação
terapêutica entre seres humanos, fundamentadas em conhecimento empírico,
pessoal, ético, estético e político, com a intenção de promover a saúde e a
dignidade no processo de vida humana(4).
Em estudo realizado para investigar as atitudes de cuidados do ponto de vista
dos profissionais de saúde a clientes portadores de Aids, foram detectados que
o convívio com o diagnóstico, pelo cliente, continua trazendo grande impacto,
tanto para si quanto para os familiares. O que determina a aceitação da doença,
não parece ser o tempo, mas o juízo de valores que se atribui ao fato. O
convívio com a doença parece provocar muitos sentimentos: a compaixão, o apego,
satisfação, sofrimento, a dor pela estigmatização. Permeando esta rede de
sentimentos, está a relação de cuidado, que é o ponto de encontro entre o
cliente e o profissional. E para a realização do cuidado, estão as atividades
expressivas, instrumentais, a educação, a disponibilidade, o relacionamento
interpessoal(5).
Por outro lado encontramos poucos estudos que refletem o não cuidado na
percepção dos recebedores do cuidado. O nosso entendimento das ações de não
cuidado/violência em saúde consistem de atos caracterizados sob quatro
vertentes: a) como um Problema de Poder: quando a violência física, psicológica
ou moral é praticada direta ou indiretamente por uma pessoa ou grupo de
pessoas, contra outra pessoa ou grupo de pessoas ou coisas. A violência é
apenas o instrumento ou a expressão do poder, e este é o cerne da questão; b)
como um Problema assimétrico: o desequilíbrio entre entidades heterogêneas é
essencial como pré-condição para a violência. Quanto maior a desigualdade maior
o potencial de violência; c) como Anti-Ação: a força exibida como violência é
uma força destrutiva, mata, mutila, fere, desfigura o corpo e altera as funções
orgânicas. Produz, ainda desequilíbrio emocional, medo, deformação e
destruição, tanto de estruturas individuais quanto coletivas; d) como Pró-Ação:
esta forma particular de poder exercida através da força, não é somente
almejada pra destruir ou negar uma ordem ou sistema legal; pode também ser
exercida para afirmar ou defender um direito ou construir uma ordem ou sistema
legal(6).
Este estudo tem por objetivo analisar as formas de não cuidado desenvolvidas em
unidades hospitalares, do ponto de vista de quem recebe o cuidado e refletem
sobre o processo de interação existente entre estes e os profissionais de
saúde.
2 Metodologia
Realizamos este estudo qualitativo, do tipo exploratório descritivo, a fim de
identificar formas de não cuidado/violência que possam ocorrer no processo de
interação entre profissionais de saúde e clientes, em serviços hospitalares da
Grande Florianópolis, como parte do projeto financiado pelo Ministério da
Ciência e Tecnologia - MCT e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico - CNPq, através do Plano Sul de Pesquisa e Pós-
Graduação intitulado: Avaliação das Práticas de Cuidado de Profissionais de
Saúde em Serviços Hospitalares do Estado de Santa Catarina.
Os dados foram coletados através de um instrumento, com entrevistas semi-
estruturadas a um grupo de 89 clientes, sendo que a amostra foi de 29
indivíduos adultos, assistidos em três hospitais públicos de grande porte, da
região da grande Florianópolis, os quais consentiram em participar do estudo e
preencher os critérios de seleção propostos para a pesquisa. Tais critérios
foram: os clientes estarem orientados no tempo e no espaço; aptos para
apresentarem informações; que não estivessem sob uso de medicamento narcótico
ou similar; que não manifestasse qualquer desconforto físico e/ou emocional que
dificultasse sua participação; bem como, que assinassem o termo de
consentimento.
Os dados foram analisados do seguinte modo(7, 8) a) duas pessoas procederam a
leitura linha a linha, parágrafo à parágrafo, para a extração das palavras e
frases indicativas dos significados e as agruparam designando-as com nomes que
englobassem os indicadores semelhantes; b) duas outras pessoas revisaram e
sugeriram modificações; c) uma terceira pessoa revisou e validou o sistema
final de categorização que foi então processado em computador.
Foram perguntadas aos clientes questões sobre o não cuidado, tais como: O que
significa para o senhor(a) não cuidado? Nas respostas dos 29 indivíduos
relacionados a tal pergunta, a qual objetivou captar significados e percepções
do cliente em relação ao cuidador (profissional da saúde), sobre atitudes e
comportamentos de não cuidado. Emergiram os seguintes temas: falta de atenção,
interesse e vontade; desprezo e falta de respeito pelos profissionais;
condições do ambiente impróprias com falta de infra-estrutura, conforto e
comodidade. Em relação a pergunta: Você já se sentiu alguma vez atitudes de
discriminação/preconceito, violência nesta instituição hospitalar? Os temas que
emergiram, nas respostas dos clientes entrevistados foram: discriminação
preconceito pela condição social do cliente.
3 Atitudes de não cuidado manifestas no discurso
Percebe-se que o tema, falta de atenção, interesse e vontade foi o mais citado
entre os respondentes, os quais obtiveram expressões como: atendimento sem
solicitude, presteza e sem afetividade; incompetência técnica, de assepsia/
controle de infecção; falta de sensibilidade, de solidariedade e de compaixão.
Quando não dão importância para aquilo que sentimos ou não escutam,
não conversam [...] já estamos fragilizados, então qualquer mau
tratamento ou desatenção é motivo de piora(C 15.15).
A demonstração de afeição é um elemento relevante nas relações de cuidado,
segundo as pessoas entrevistadas. Alguns autores de enfermagem(9) definem
cuidado como uma afeição, enfatizando que a natureza do cuidado advém do
envolvimento emocional do enfermeiro com o cliente, ou um sentimento de empatia
pela experiência do mesmo.
O cuidado está associado geralmente ao termo atenção, preocupação,
responsabilidade, afeto, amor ou simpatia, e ainda, ação(10).
O cuidar está relacionado a uma responsabilidade em responder a uma necessidade
(11-13) como um fenômeno moral, que aponta para os atributos mais usuais,
contidos no conceito, tais como o cuidar como um modo de ser, como uma pré-
condição para ser iniciado o processo, como um ideal moral e social.
Devemos estar alerta(14) para o componente cognitivo desse aspecto moral,
representado pela percepção da necessidade e do dever em satisfazer a
necessidade.
Outros autores(15,16)têm salientado esta questão de dever ou de obrigação no
cuidar e têm causado algumas reações. O cuidado exige do profissional de saúde
conhecimento, ritmos alternados, paciência, honestidade, confiança, humildade,
esperança e coragem(16).
O cuidar é mais que um ato; é uma atitude(2). Portanto, abrange mais que um
momento de atenção, de zelo, e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação,
preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.
Nas respostas do cliente relacionadas ao tema desprezo e falta de respeito,
expressam-se como: atitudes grosseiras, não éticas em relação à situação saúde/
doença do cliente; falta de confiança, de compreensão; a não permanência do
acompanhante no quarto; falta de educação, prepotência, arrogância dos
profissionais de saúde. O que foi exposto pode ser exemplificado:
[...] alguns profissionais acham que são fingimento nossas queixas,
penso que não devem duvidar [...]. Quem trabalha na saúde deve saber
lidar com os doentes, ter vocação, requisitos de boa personalidade(C
13.13).
O ideal moral e ético dos profissionais de saúde que cuidam devem expressar
características humanitárias, afetivas, relacionais, vocacionais e uma ética
voltada para a justiça e respeito aos direitos, visando tornar o ser-cuidado,
em condição plena de cidadania.
Os sentimentos negativos em relação à interação com o cuidador, expressos pelos
clientes, quanto aos cuidados, eram de que estes, sentiam-se diminuídos,
excluídos como pessoas.
A impaciência e o desinteresse demonstrado nos comportamentos dos cuidadores
geram sentimentos de vergonha, medo e raiva; os quais, sentem-se
insignificantes de estarem aborrecendo os cuidadores(17).
Na compreensão do cliente em um ambiente hospitalar, percebe-se a importância
da presença do cuidador seja ele, profissional da área da saúde, pais,
familiares, companheiros de quarto, visitas ou pessoal do hospital. A presença
das pessoas interagindo com o cliente, permite-lhe elaborar com mais facilidade
seus sentimentos e emoções, controlar sua ansiedade, temores, medo e fantasias
organizando melhor seu mundo anterior. Pois, para o cliente hospitalizado, a
presença do acompanhante é fonte de proteção e segurança.
A necessidade de proteção, livre do perigo e seguro, que o ser humano
apresenta, surge logo após as necessidades fisiológicas ou básicas serem
saciadas; tais como, alimentação, sede, sono, abrigo. Entretanto, para que as
necessidade fisiológicas sejam satisfeitas, faz-se necessário que primeiro
sejam saciadas as necessidades de proteção e de segurança(18).
A impossibilidade da permanência do acompanhante junto ao cliente, se deve na
maioria das vezes a lógica da instituição que é normativa, burocratizante e
centralizadora, pouco sensível à preocupação e angustia da família/
acompanhante, no enfrentamento de um corpo biológico, doente, com dimensão
emocional, subjetiva e de relações sociais, que tenta manter a normalidade da
vida, mesmo com os limites impostos pela hospitalização. Para o acompanhante/
família a hospitalização é um momento crítico e delicado em sua vida familiar e
social. Pois, implica mudanças do ambiente físico e psicológico, separação,
enfraquecimento de vínculos, interrupção das atividades cotidianas, entre
outras.
A fim de atender estas necessidades das famílias, as instituições e equipes
precisam alterar-se, buscar referenciais sociais e psicológicos, subsídios para
reorganização da assistência e do cuidado.
Ao estudar as relações de poder, levantou-se a idéia de que a disciplina e o
controle são inerente aos profissionais de saúde, ora como sujeição aos
superiores, ora como exercentes do poder junto aos demais membros da equipe de
enfermagem e aos clientes. Esta negação de si mesmo, na atitude dos suposto
comando, frente ao acordo estabelecido no contrato da relação, permite a
suportabilidade da submissão, ausência de rebeldia e crítica do cotidiano,
impossibilitando que a própria organização institucional busque alternativas e
mecanismos de intervenção e comunicação objetivando, o acolhimento e uma melhor
qualidade da ação profissional no cuidado aos clientes(19).
Em relação ao tema, segurança/proteçãoexpressados nas respostas dos clientes
pesquisados, este é ao mesmo tempo um sentimento e uma necessidade que as
pessoas tem em relação a sua vida, estando aí no mundo. Este sentimento foi
expresso como: ter disponibilidade de tratamento para cura, controle da doença
e alívio de sintomas, ter trabalho, ter recursos para custear o tratamento,
sentir-se protegida com as pessoas ao seu redor, sentir segura por ter acertado
o tratamento, sentir que tem condições de sobreviver.
Quando o paciente percebe sua situação ser indiferente ao profissional do
cuidado, sente-se não cuidado e pode, sentir-se ameaçado, vulnerável(20).
No tema condições do ambiente impróprias com falta de infra-estrutura, conforto
e comodidade, as respostas por parte dos clientes expressaram como:
equipamentos hospitalares poucos ergonométricos, com sujidade e tecnologia
ultrapassada; espaço físico com dimensões reduzidas e pouco ventilado;
conservação e limpeza da unidade do cliente deficiente; unidade de internação
mista, com perdas da privacidade/intimidade; falta de materiais de consumo e
insumos para a realização de procedimentos; número de funcionários inadequados
para prestar um cuidado seguro e de qualidade; como também oferta nutricional
pouco adequada ao gosto dos clientes. Este tema, pode ser exemplificado:
A limpeza não tá boa, nos outros quartos a cortina tá no chão. Faltam
pessoas que saibam administrar melhor e com mais responsabilidade
[...] também faltam recursos para manter a estrutura adequada, como
gaze para realizar os curativos, produtos de limpezas [...] às vezes
vejo que é só com água (C 11.11).
Uma questão que deve ser considerada é o meio ambiente. Por vezes fica difícil,
senão impossível, favorecer o cuidado, se o ambiente é hostil, se a equipe não
valoriza o cuidado, tratando os clientes como objetos e se a instituição como
um todo não oferece apoio para que o cuidado ocorra. O cuidado como contexto de
humanização do ser profissional/cliente refere-se ao local onde desenvolve-se o
cuidado e a relação profissional/cliente/familiar, onde todas as inter-relações
e relações possibilitam aos seres crescerem e tornarem-se mais humanos, mais
solidários, sensíveis e conectados a natureza, ao cosmo, ao mundo.
Nesse sentido, os profissionais de saúde precisam fazer uso do poder do cuidado
para garantir um ambiente propício, ou, em outras palavras, um ambiente de
cuidado, envolvendo o meio físico, o administrativo e o social. Para que este
meio ambiente de cuidado seja favorecido é necessário que cuidadoras entendam o
significado de cuidar e o valorizem, sentindo-se motivadas, para que o cuidado
seja uma prática dos profissionais da saúde e de todo o sistema.
O não cuidado em relação ao meio ambiente, é importante(20). E pode ser
identificados como uma questão de poder, ou melhor, a falta de poder e o
reconhecimento do cuidado, a sua desvalorização, a negligência, a falta de
responsabilidade, entre outros. Nas respostas dos clientes, percebe-se que o
tema conforto/desconforto aparece como um componente importante no cuidado e
não cuidado.
O cuidado como conforto significa estar presente em sua totalidade, junto à
pessoa que cuidamos, é presença intencional e expressão única na relação entre
cuidador e seu cuidado. É o cuidado real, autêntico.
Encontramos em algumas teorias de enfermagem referências ao termo conforto.
Estas definem enfermagem como um processo interpessoal nutridor e confortador e
consideram em uma de suas pressuposições que o cuidado de enfermagem inclui
ambos, conforto (care) e desconforto (cure). Além disso, identifica três
conceitos centrais de sua teoria, care, core, cure os quais focalizam
respectivamente o corpo, a pessoa e a doença. O conforto é visto como um dos
componentes do cuidado íntimo do corpo, juntamente com alimentação, banho,
posicionamento(21). O desconforto é impingido pela enfermeira quando realiza
procedimentos para a cura da doença, como: administração de medicamentos e
tratamento(24).
A manutenção de boa higiene e conforto físico é colocada como um dos vinte e um
problemas de enfermagem(23). Para que as necessidades dos pacientes sejam
satisfeitas é preciso que as enfermeiras lhes assegurem conforto físico e
mental(22). Por estas colocações, pode-se depreender que as teoristas de
enfermagem enfatizam a faceta do conforto físico e mental enquanto necessidade
humana básica.
Conforto é uma variável que afeta o ambiente externo e interno das pessoas e
sugere, como um dos fatores de cuidado de sua teoria, a provisão de um ambiente
de cuidado que inclua os aspectos físico-mental-sociocultural e espiritual(25).
A enfermagem humanística é vista como diálogo autêntico envolvendo encontro,
relacionamento e presença no mundo das pessoas no tempo e espaço. Este encontro
autêntico resulta em conforto porque a pessoa pode estar confortável mesmo
quando não se está saudável. E a preocupação central da enfermagem é a promoção
de uma maneira confortável de ser, não apenas a preocupação com o bem estar,
mas com o "ser mais" das pessoas. Portanto, o conforto traz consigo a noção de
que o ser humano é "tudo aquilo que ele pode ser de acordo com o seu potencial
em determinado tempo e em determinada situação" (26:101).
As idéias de Paterson(26) a respeito do constructo conforto focalizam tanto o
que ocorre nas relações enfermeira-pessoa como o que resulta deste encontro (o
conforto). Sendo que a experiência de conforto do cliente percebida pela
enfermeira deve ser validada por ele enquanto cliente. Esta experiência é
individual, única e temporal, pois varia de pessoa para pessoa e para cada
pessoa em diferentes momentos.
Oambiente confortável/adequado parece significar algo além de simples
comodidade. O hospital torna-se um ambiente confortável, quando os componentes
da equipe de saúde o tornam assim. A delicadeza no tratar o cliente, atendendo
com solicitude, bondade e respeito são fundamentais para que este, sinta-se
confortável, mesmo estando imobilizado num leito de hospital.
Destaca a influência do meio ambiente na vida e na saúde do ser humano, e
enfatiza a importância de boas condições de ventilação (ar fresco), calor, luz
solar, dieta, higiene e sanitarismo que facilitam ao cliente ativar seu poder
de autocura(27). Depreende-se, desta forma, a necessidade premente de ser o
hospital, um lugar com bastante silêncio, bem arejado, com janelas grandes que
permitam a entrada de luz solar, ar fresco e puro, como também, que forneça
dieta equilibrada e haja bastante higiene, suficiente para que o ser cuidado
não saia pior do que entrou no hospital. O ambiente hospitalar deve ser ainda
um lugar alegre, cheio de vida e nunca um lugar hostil, cinzento, despido de
cor, pois o ambiente tem um papel importantíssimo no sentido de dar
alternativas e estimulações. Este ambiente adequado, juntamente com as ações de
cuidado emocional-afetivo e técnico científico do cuidador holístico estimulam
o sentimento de melhora do ser cuidado, colaborando para que sua recuperação se
efetue mais rápida e eficazmente.
Um dos fatores de cuidado é a provisão de um ambiente que fortaleça a imagem
pessoal e auto-estima, através da atenção holísticas para os aspectos físicos,
mentais, sócios-culturais e espirituais(25). Este ambiente envolve comodidade,
privacidade, segurança e aspectos estéticos e de higiene, ou seja, é um
ambiente de cuidado que facilita o alcance do conforto por parte de quem cuida
e de quem é cuidado.
Entende-se como comodidade, a sensação gerada pela obtenção de condições
ambientais ou materiais favoráveis tais como ter casa para morar, comida, lugar
para dormir, roupa limpa, deitar na sua própria cama, tomar banho de chuveiro
quente. Inclui ainda, os procedimentos realizados no cuidado profissional, como
posicionamento e alinhamento das partes do corpo, mudar a roupa de cama,
realizar a higiene corporal, proporcionar ambiente adequado para o repouso e
descanso, controle de temperatura, odores e ventilação do ambiente. A dimensão
tempo/espaço de internação é uma variável importante que permeia o estar
confortável - desconfortável. Proporciona ao cliente avaliar sua situação e
buscar significados nesta.
A dignidade do cliente, recebedor do cuidado, relaciona-se tanto com o ambiente
físico, quanto o emocional e ocorre sob determinadas condições, dentre as quais
está o afeto, calor humano, atenção, amor que propicia o crescimento, alívio,
segurança, proteção, bem estar ou seja, um ambiente no qual a pessoa experencia
o cuidado humano. Conforto é considerada como uma variável proveniente do
ambiente externo e que por isto pode ser, em parte, controlada pela enfermeira.
Ao incluir conforto como um de seus fatores de cuidado estava enfatizando a
relação íntima que existe entre os conceitos cuidado e conforto(25).
Nas respostas da questão: "Você já se sentiu alguma vez atitudes de
discriminação/preconceito, violência nesta instituição hospitalar?" Os clientes
expressaram: discriminação preconceito pela condição social do cliente, como:
não possibilitar ao cliente o direito de escolha e decisão em relação ao
cuidado a ser prestado; a não valorização de sua queixas e opiniões críticas,
através da hostilização; discriminação e preconceito em relação a cor, sexo,
religião, e o tipo de orientação sexual do cliente; discriminação dos
profissionais da saúde na realização de procedimentos, como biópsia, punção
venosa, curativos, etc, principalmente quando o cliente apresenta os
diagnóstico, como AIDS, tuberculose, etc; não informação correta sobre o
procedimento a ser prestado; e ainda discriminação em relação a condição
jurídica do cidadão (usuários de drogas ilícitas, presidiários). Este tema pode
ser exemplificado, na frase do cliente: [...] Por ser portador da AIDS, já fui
maltratado com grosserias, desprezo, no momento do curativo. (C 0.10).
Ao discutir os significados atribuídos à experiência da enfermidade(28)os
indivíduos conferem significados e desenvolvem modos próprios de lidar com a
situação e as respostas aos problemas criados pela doença se remetem
diretamente a um mundo compartilhado de práticas, crenças e valores. O autor
acrescenta que a vivência da enfermidade pelo indivíduo, assim como por aqueles
que estão envolvidos (familiares, amigos, vizinhos, terapeutas) é reproduzida a
partir do universo sociocultural do qual estas pessoas fazem parte.
Em estudo fenomenológico sobre o cuidado, no qual os clientes descreveram
interações de cuidado e não cuidado foi observado que nas descrições dos
clientes, as interações relatadas foram sempre primeiramente as de não cuidado,
o que a pesquisadora atribuiu ao fato de os clientes estarem vivenciando, uma
experiência nova e estranha. Eles reportaram também como conseqüentes
interações de não cuidado, sentimentos de humilhação, medo e sensação de estar
fora do controle de sua própria situação(29). Em outro estudo(30) foi observado
que existem cinco modos básicos de estar com o outro, segundo os relatos de
clientes: vida-destruição, onde um despersonaliza o outro, destrói a apreciação
da vida e, aumenta a vulnerabilidade do outro; vida-repressão, modo em que um é
insensível ou indiferente ao outro; vida-neutralização, quando um não afeta a
vida do outro; vida-sustentação, quando se conhece a personalidade oculta do
outro, no qual se encoraja e reafirma; vida-doação é o modo que há crescimento
e potencialização do aprendizado da saúde.
4 Considerações Finais
Consideramos que a experiência de saúde/doença exige que o cuidado vincule o
direito ao conforto, propiciando aos seres cuidados integração, liberdade,
melhora de sua condição, segurança e proteção, além de comodidade, dignidade e
fortalecimento de sua cidadania, dentro dos princípios da justiça social. O
estudo demonstrou que o cuidado e o não cuidado estão relacionados a
respectivos contextos de apoio e não apoio. A ênfase na verdade é o
relacionamento entre o contexto social e como os indivíduos, engajam-se em atos
de cuidado(31).
Este estudo possibilitou o desvelamento da prática de não cuidado aos clientes
assistidos nas instituições hospitalares pesquisadas demonstrando a necessidade
de conhecermos como acontece estas práticas, no cotidiano do processo de cuidar
dos profissionais de saúde, refletindo ações de não cuidado físico,
psicológico, social, que muitas vezes estão relacionadas ao modelo econômico e
social e político, pelo qual o país e a sociedade atravessam. Percebemos que há
muito mais para se fazer no intuito de melhorar esta condição e pouco para se
orgulhar dos serviços oferecidos nos hospitais. É aqui que entra a
responsabilidade de todos os profissionais de saúde envolvidos.
Estes profissionais de saúde devem ter o cuidado como seu foco principal,
fundamentado em suas raízes históricas, buscando resgatar e construir um novo
marco para as práticas de cuidado alicerçado nos direitos humanos e na justiça
social, desenvolvendo a cidadania de todos os indivíduos envolvidos no cuidado
à saúde e os empoderando para que a conquista e a garantia de seus direitos à
saúde e a vida seja um acontecimento real. Portanto, acreditamos que é tempo
dos profissionais de saúde encontrarem seu espaço, sua própria identidade como
cuidadores. É tempo destes profissionais compreenderem que são participantes
ativos no processo de cuidar, através do diálogo horizontal e da
conscientização, objetivarem provocar mudanças nas atitudes e práticas do
cuidar em saúde, defendendo e argumentando em favor dessa causa, influenciando
o poder e as políticas de saúde, em questões e problemas que concernem aos
cidadãos ou seres cuidados, sobretudo àqueles marginalizados e excluídos,
apoiando-os em suas lutas e decisões, com atitude e ação da experiência da
compaixão e da solidariedade ativa e pró-ativa.
Este estudo indica que o cuidado e não cuidado/violência refletem questões e
interrelações de poder. Já as práticas de não cuidado/violência são Problemas
de Poder que relacionam-se ao desrespeito, preconceito e/ou discriminação pela
condição social, sexual do indivíduo. O não cuidado/violência pode ser visto
como um Problema Assimétrico, expressando-se por atitude comportamental do
poder e falta de uma comunicação dialógica horizontal, entre o cliente e os
profissionais da saúde, expresso como falta de atenção, interesse, vontade, bem
como desconforto. Percebemos portanto, que as práticas de cuidado e não
cuidado/violência acontecem no cotidiano das relações e inter-relações do
processo de cuidar.
Consideramos que a análise preliminar deste estudo corrobora os estudos de
vários autores, como também indica que cada vez mais necessitamos desenvolver
estudos para compreendermos a realidade da prática do cuidar/cuidado como
possibilidade para um cuidar/cuidado com qualidade(32).