A enfermeira-chefe como figura-tipo em meados do século XX
HISTÓRIA DA ENFERMAGEM
A enfermeira-chefe como figura-tipo em meados do século XX
The head nurse as figure - type in the middle of the XX century
La enfermera-jefe como figura-tipo en mediados del siglo XX
Lílian Silva de FrançaI; Ieda de Alencar BarreiraII
IAcadêmica do 7º período de graduação em Enfermagem e Obstetrícia da Escola de
Enfermagem Anna Nery - EEAN/UFRJ. Bolsista de IC/CNPq _ Membro do Núcleo de
Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras)
IIEnfermeira. Ex-professora titular da EEAN/UFRJ. Membro do Nuphebras.
Pesquisadora 1 A CNPq
Correspondência
1 Introdução
Este é um estudo de cunho histórico-social, que tem como objeto a enfermeira-
chefe como figura-tipo de enfermeira diplomada nos hospitais, em meados do
século XX. O recorte temporal do estudo inicia-se em 1946, ano em que a
Associação Brasileira de Enfermeiras Diplomadas (ABED) reinicia a publicação de
seu periódico, Revista Anais de Enfermagem, interrompida desde 1941; e finaliza
em 1950, junto ao término da gestão de Laís Netto dos Reis como diretora da
EAN. Neste período ocorreram mudanças como o advento da primeira lei do ensino
da enfermagem (775/49), que determinou o rompimento do "Padrão Anna Nery",
cessando a obrigatoriedade de equiparação de novas escolas ao modelo "anáneri",
que passou a ser atribuição do Ministério da Educação e Saúde(1).
Com a finalidade de orientar o esclarecer, no contexto histórico em estudo, a
atuação das enfermeiras-chefes nos serviços de enfermagem, nos campos de
estágio hospitalares da Escola Anna Nery, foram traçados os seguintes
objetivos: descrever o teor da matéria publicada na Revista Anais de Enfermagem
sobre a enfermeira-chefe; analisar a atuação das instrutoras da Escola Anna
Nery (EAN) nos campos de estágio e comparar os registros das atas de reuniões
sobre essa atuação com os conteúdos selecionados na citada Revista.
As fontes primárias utilizadas foram a coleção da Revista Anais de Enfermagem
(1946-1950) e os livros de atas das reuniões da diretora da EAN, Laís Netto dos
Reis, com as enfermeiras-chefes que ocorreram entre 1942 e 1946, pesquisados no
Centro de Documentação (Cedoc) da na atual Escola de Enfermagem Anna Nery. As
fontes secundárias foram buscadas no Banco de Textos do Núcleo de Pesquisa de
História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras) e na Biblioteca Setorial de Pós-
Graduação da EEAN, conforme a seguinte classificação temática: Revista Anais de
Enfermagem; história da enfermagem; enfermeira-chefe; administração hospitalar;
e gestão Laís Netto dos Reis, de acordo com a seguinte classificação temática:
O Brasil e a 2ª Guerra, Escola Anna Nery, enfermeiras-chefes da EAN, gestão de
Laís Netto dos Reis como diretora na EAN; como diretora da EAN (1938-1950).
áfica.
2 A enfermeira-chefe nos artigos da Revista Anais de Enfermagem
O número de publicações sobre enfermeira-chefe na Revista Anais de Enfermagem,
órgão oficial da Associação Brasileira de Enfermeiras Diplomadas (ABED),
evidenciou o interesse da classe pelo tema.. O Quadro 1 elesNo período de 1946
a 1950, foram publicadas dezoito revistas, sendo que sete (38,8%), possuíam
matérias que remetiam sobre as funções e atribuições das enfermeiras-chefes.
Foram publicados nove artigos, um documento sobre as resoluções do I Congresso
Nacional de Enfermagem realizado em São Paulo, 1947; um editorial, um resumo de
trabalho apresentado no X Congresso Internacional de Enfermagem realizado em
Estocolmo, 1949; e um resumo de artigo publicado originalmente no The American
Journal of Nursing, totalizando treze matérias, que significa 3,96% do total de
328 matérias publicadas entre 1946 e 1950(2).
Nota-se que as autoras dos artigos trabalhavam em escolas de enfermagem,
exercendo cargos como diretoras, enfermeiras-chefes e docentes. Também há a
presença de autoras americanas, como a assessora do Serviço Especial de Saúde
Pública (SESP), órgão executivo inserido no Ministério da Educação e Saúde, por
força do acordo Brasil-EUA, e que se manteve entre nós mesmo após a guerra(3).A
outra enfermeira americana, Estella P. Mann, publicou um artigo no The American
Journal of Nursing que as líderes de enfermagem brasileiras julgaram merecer a
publicação de seu resumo na revista da associação de classe.
A análise da bibliografia levantada mostra que o papel da enfermeira-chefe
abrangia funções e atribuições relacionadas tanto à assistência e ao ensino
como à administração e supervisão. No que se refere ao conteúdo dos artigos,
não são observadas discrepâncias entre as opiniões das autoras americanas e
brasileiras; seus artigos melhor se complementam, como se nota a seguir.
Ella Hasenjaeger, consultora do IAIA/SESP junto à Escola de Enfermagem da USP,
era da opinião que o sucesso de uma escola de enfermagem deveria ser atribuído
não só à habilidade de sua diretora, mas que também era necessário que esta
reunisse ao seu redor um corpo eficiente de colaboradoras, que eram as
enfermeiras-chefes. As enfermeiras-chefes deveriam ocupar uma posição
estratégica no ambiente hospitalar, já que estas constituiam a base da pirâmide
administrativa, executiva e educacional do serviço de enfermagem. A enfermeira-
chefe deveria ter um preparo especial, com ensino adequado e grande experiência
no ambiente hospitalar; possuir qualidades morais e intelectuais que a
possibilitasse lidar com seres humanos com compreensão e tato e também deveria
ter o "dom da direção", a fim de guiar eficientemente seus auxiliares e
ministrar ensinamentos, mantendo vivo o interesse pelas questões sociais(4).
O I Congresso Nacional de Enfermagem, realizado em São Paulo, em março de 1947,
teve como um dos principais objetivos a elaboração de um programa eficiente de
enfermagem visando o preparo técnico, apurado e atualizado dos profissionais.
Dentre suas resoluções, destacou-se a criação de cursos especializados para
enfermeiras-chefes e supervisoras em escolas de enfermagem e em hospitais.
Durante o Congresso foram apresentados seis trabalhos referentes à temática que
foram publicados no mesmo ano, no volume XVI, n. 22, da Revista Anais de
Enfermagem, como se segue(5).
Três representantes da Escola de Enfermagem de São Paulo/USP apresentaram seus
pontos de vista: Maria Rosa de Souza Pinheiro, vice-diretora da Escola,
sublinhou a necessidade das enfermeiras-chefes reforçarem cada vez mais sua
competência com cursos de administração e supervisão, ampliando seus
conhecimentos para melhor qualificarem suas alunas(6). Zilda A. Carvalho,
professora da mesma Escola, acentuou a função de ensino da enfermeira-chefe,
que "senhora do ambiente" e segura da orientação a ser tomada, podia ajudar a
aluna de minuto a minuto, fazendo-a aplicar o que lhe foi ensinado. Também
afirmou que somente formando adequadamente o seu pessoal é que a enfermeira-
chefe poderia obter um padrão elevado do serviço dentro da enfermaria.
Registrava ela a alta responsabilidade da enfermeira-chefe pela segurança do
paciente, no que concerne ao cumprimento das ordens prescritas, aos cuidados de
enfermagem e à atuação em casos de emergência(7). A recém diplomada, Maria José
de A. Leite, abordou o tema sob o ponto de vista da estudante, descrevendo a
enfermeira-chefe como a "alma" de uma enfermaria, responsável pelo ensino com
segurança, entusiasmo e clareza(8).
Diretoras de duas outras EE, ambas de orientação católica, também apresentaram
trabalhos: Waleska Paixão, diretora da Escola de Enfermagem Carlos Chagas, em
Belo Horizonte /MG, afirmou que uma das mais importantes funções de uma
diretora de escola de enfermagem era a de assumir aresponsabilidade pela
formação das instrutoras e chefes de serviço, pois o valor de uma escola de
enfermagem estava, antes de tudo, no seu corpo docente e técnico.Waleska
Paixão, diretora da Escola de Enfermagem Carlos Chagas, de Belo Horizonte, e
futura diretora da EAN, declarou em 1947 que um dos mais importantes deveres
das diretoras das escolas de enfermagem era assumir a responsabilidade pela
formação de suas próprias instrutoras e chefes de serviço, pois a qualidade das
escolas de enfermagem dependia do progresso da profissão e o valor de uma
escola de enfermagem estava, antes de tudo, no seu corpo docente e técnico.
(PAIXÃO, 1947 p.23). Enfatizou ainda que, para qualificar as enfermeiras-
chefes, era necessário proporcionar-lhes ambiente favorável ao exercício de
suas funções e oportunidades de desenvolver qualidades próprias de chefe,
recebendo estímulos e instrução organizada, como reuniões para discussão de
assuntos relacionados aos campos de estágio(9). Por sua vez, a Irmã Matilde
Nina, diretora da EE Luiza de Marillac, do Rio de Janeiro/DF, ressaltou a
importância da enfermeira-chefe possuir uma formação profissional eficiente,
dentro das normas da moral católica, além de procurar o conhecimento de acordo
com suas aptidões e assumir a necessidade de corrigir seus pontos fracos(10).
A chefe de serviço de enfermagem hospitalar da Santa Casa de Misericórdia de
Santos, Berila P. de Carvalho, relatou que enfermeira-chefe ocupava a posição
chave na instituição inteira, como coordenadora das medidas administrativas,
dos cuidados aos seus doentes, de sua família e do melhor aproveitamento da
aluna, mantendo o ideal cristão de "fazer aos outros aquilo que queres que
façam a ti"(11).
No ano seguinte ao Congresso, Celina Viegas, diretora da Escola de Enfermagem
de Juiz de Fora /MG, publicou um artigo sobre a orientação de pessoal,
caracterizada por ela como uma das mais árduas tarefas da enfermeira-chefe,
pois a ela cabia promover a eficiência do trabalho de seus subordinados, ser
responsável pela realização do trabalho e pelo bem-estar dos que com ela
trabalhavam. A qualidade essencial exigida da enfermeira-chefe era a capacidade
de guiar, sabendo ser líder e sabendo a diferença entre conduzir e comandar.
Outra questão importante era a de manter a disciplina em sua enfermaria
mediante uma eficiente supervisão e pelo bom exemplo, tanto de eficiência no
trabalho e no cumprimento de seus deveres, como de nobreza de espírito e
coração, para que pudesse transmitir o espírito de bondade e amor pelos que
sofriam(12).
O editorial publicado em 1949 na Revista Anais de Enfermagem citou que onde
havia enfermeiras diplomadas, estas estavam sempre ocupando posições de chefia,
seja no ensino, na supervisão ou na administração e que por isso estas tinham
poucas oportunidades de cuidar diretamente dos pacientes, tornando-se
coordenadoras dos esforços de toda a equipe(13).
De acordo com a enfermeira supervisora e professora de Psicologia da Escola de
Enfermagem de São Paulo, Maria de Lourdes Verderese, as enfermeiras deviam
favorecer um maior contato entre os pacientes e as alunas para que estas,
baseadas nos conhecimentos adquiridos em sala de aula e laboratórios, pudessem
compreender sobre comportamento e relações humanas(14).
O diretor e cirurgião-chefe do hospital de Örebro, na Suécia, G. Bohmansson,
apresentou em 1949, um trabalho no X Congresso Internacional de Enfermagem,
cujo resumo foi publicado na Revista Anais de Enfermagem em 1950. No referido
trabalho, o autor enfatiza a importância das enfermeiras-chefes frente ao
processo cirúrgico e frente à instrução das alunas, contribuindo para a
otimização das cirurgias(15).
No que se refere ao resumo do artigo da enfermeira americana, Estella P. Mann,
esta estabelecia as cinco metas a serem alcançadas pela supervisora que
desejasse melhorar sua capacidade como líder: desenvolver a confiança dos seus
subordinados na sua direção; desenvolver, nos que trabalham sob suas ordens, a
confiança em si mesmos; estimular neles o interesse pelo trabalho; tratar os
subordinados como indivíduos; e procurar melhorar sua própria habilidade como
supervisora. Deste modo, as responsabilidades da enfermeira-chefe se estendiam
aos pacientes, seus amigos e parentes, e aos médicos, que dependiam das
observações da enfermeira e de seus relatórios. Assim, a enfermeira-chefe
representava em sua unidade, a supervisora, a diretora do serviço de enfermagem
e a administradora do hospital(16).
3 Atuação das enfermeiras-chefes nos campos de estágio da EAN
Em julho de 1937, a EAN, "Escola Padrão Oficial"para as escolas de enfermagem,
desde 1931, fora desvinculada do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP)
para se inserir na Universidade do Brasil(1). Com o fim do contrato da última
diretora americana, foi escolhida para sucedê-la, Laís Netto dos Reis, que
pertencera à primeira turma de diplomadas da Escola. Apesar das grandes
dificuldades administrativas e orçamentárias enfrentadas em sua gestão, Laís
Netto dos Reis alcançou enorme prestígio social. Como diretora da "Escola
Padrão Oficial", foi designada presidente do Conselho de Enfermagem do
Ministério da Educação e Saúde, em 1942, com as atribuições de solucionar
questões relativas à equiparação de escolas de enfermagem à escola padrão e de
estudar sobre os problemas de enfermagem no país(17).
O principal campo de estágio da EAN, desde sua fundação, era o Hospital São
Francisco de Assis. No entanto, como este não oferecia todas as experiências
necessárias à formação de enfermeiras, outros campos de estágio também passaram
a ser utilizados, como se observa nos livros de atas das reuniões da diretora
da EAN com as enfermeiras-chefes e nos depoimentos de ex-alunas como a seguir
(18):
Hospital de Isolamento São Sebastião, Hospital Paula Cândido, Maternidade Pro-
Matre, Maternidade-Escola de Laranjeiras, Hospital Arthur Bernardes, Hospital
Central da Aeronáutica, Hospital Geral Miguel Couto, Hospital do Iapetec,
Centro Psiquiátrico Nacional e Instituto de Psiquiatria da Universidade do
Brasil (IPUB).
As relações entre as escolas de enfermagem e os hospitais assumiam
características diversificadas. Em alguns hospitais, o serviço de enfermagem
era realizado apenas por enfermeiras diplomadas; outros hospitais possuíam
escolas de enfermagem anexas e dependiam parcialmente dos serviços prestados
por suas estudantes e . Eexistiam ainda hospitais que eram procurados pelas
próprias as estudantes de enfermagem procuravam para adquirir prática (19). A
Escola Anna Nery utilizava diversos campos de estágio hospitalares, com maior
ou menor participação nos respectivos serviços de enfermagem.
Nos campos de estágio da EAN a enfermeira-chefe respondia tanto ao hospital,
sobre o bom andamento do serviço de enfermagem, quanto à diretora da EAN, sobre
as condições do aprendizado das alunas nos campos de estágio(18).
Com a finalidade de qualificar enfermeiras-chefes era necessário que lhes
fossem proporcionados: ambiente favorável, oportunidade de exercer funções e
desenvolver qualidades próprias de chefe, estímulos, e instrução organizada,
como por exemplo reuniões para discussão de assuntos relacionados aos campos de
estágio hospitalares. (PAIXÃO, 1947, p.24).
Rosaly R. Taborda, ex-professora da EAN, afirmou ser o hospital moderno a
melhor escola para educar sanitariamente os doentes, disciplinar e aperfeiçoar
o trabalho de médicos e enfermeiras. Por isso, segundo ela, o diretor do
hospital precisava encarar com seriedade a escolha da diretora da enfermagem e
integrá-la à equipe de profissionais que formava o seu estado maior. Ressaltou
ainda a enfermeira-chefe deveria ser líder, manter coesa a equipe de
enfermeiras e estar ciente de sua alta função e deveres. Considerava também as
reuniões das diretoras das escolas de enfermagem com as enfermeiras-chefes como
um instrumento indispensável para o aperfeiçoamento tanto das mesmas como do
serviço de enfermagem. emNestas reuniões as enfermeiras deveriam ser
encorajadas a fazer perguntas, dar sugestões e discutir os assuntos(20).
Nesse sentido, Laís Netto dos Reis promovia reuniões periódicas com as chefes,
que geralmente ocorriam no Pavilhão de Aulas da EAN. A partir do exame
minucioso dos livros de atas n. 69(21) e n. 81(22) dessas reuniões, buscados no
Centro de Documentação (Cedoc) da EEAN, foi possível analisar a atuação das
instrutoras da Escola Anna Nery (EAN) nos campos de estágio.
Inicialmente, vale esclarecer o papel da diretora e o das enfermeiras-chefes
nesse processo administrativo e pedagógico, na concepção da diretora:
O papel da diretora da Escola é o das linhas gerais, dos problemas
máximos, agindo junto às chefes, porém estas formam o estado-maior da
Escola e devem mostrar-se interessadas pela causa, procurando
trabalhar com entusiasmo, louvando a Deus por tudo que puderem dar
(21:Ata de 25/10/43).
No referente às relações interpessoais, a diretora fazia comentários
sobre a hierarquia a ser observada entre enfermeiras-chefes veteranas
e novatas: "As diplomadas antigas devem aproximar-se das demais novas
e mostrar-lhe sua simpatia, sem contudo dar muita intimidade"(21:Ata
de 01/09/43), sendo também de seu dever ensinar-lhes pelo exemplo:
O que vos parecer difícil, deveis torná-lo fácil, este é o exemplo
que devemos dar às novas diplomadas; despertar nelas confiança,
amizade fraternal, não as deixar permanecer nos erros, orientá-las,
mostrando-lhes a maneira certa de agir(21:Ata de 25/10/43).
Outro comentário é sobre a responsabilidade pessoal da enfermeira-chefe de
garantir a continuidade do serviço:"Dona Laís disse-nos que a chefe é a
primeira que entra e a última a sair e que nunca deve sair e deixar sua aluna à
espera de substituta"(21:Ata de 27/9/43). Sobre o controle das alunas:
Dona Laís lembra em fazer uma ficha de freqüência para conhecimento geral da
importância da pontualidade, ficha essa cujas anotações serão feitas pelas
próprias alunas, à entrada e saída do serviço e rubricadas pelas enfermeiras-
chefes(21:Ata de 04/10/43).
Sobre o controle de material, "Dona Laís pede uma lista dos aquecedores
defeituosos"(21:Ata de 18/10/43).
Erros na administração de medicamentos recebiam atenção especial, sendo sua
responsabilidade atribuída, tanto à aluna como à enfermeira-chefe: "Dona Laís
disse que a referida aluna não levaria castigo e sim seria supervisionada pelas
chefes e instrutoras de serviço"(21:Ata de 22/2/43). A respeito de um outro
caso, uma enfermeira-chefe presente diz que "A aluna tem bastante culpa,
principalmente porque já é uma aluna antiga, mas a culpa maior está com a
diplomada que não verificou o serviço"(22:Ata de 03/01/44).
A participação das enfermeiras-chefes nessas reuniões com a diretora aparece
ligada a questões pontuais. Mereceram destaque dois pontos relacionados à
administração e supervisão, sendo o primeiro referente à melhoria do
funcionamento da unidade: "(...) passaram para a sala de demonstração, sendo
feita por R.M.R. [enfermeira-chefe] a apresentação de todas as bandejas,
fazendo-se comentários e aprovação de cada uma delas"(21:Ata de 03/12/42). O
segundo ponto refere-se à enfermeira-chefe, M.M.R. à qual foi dada a palavra
para esclarecer sobre "a nova orientação do serviço de controle de material,
que será posta em execução no Hospital Geral Miguel Couto"(21:Ata de 02/12/42).
O terceiro ponto é sobre a organização de ambientes adequados ao ensino
prático: "A enfermeria-chefe Dona E. falou da dificuldade em dar aula de
técnica de sala de operações no Hospital Arthur Bernardes"(21:Ata de11/10/43).
4 A atuação das enfermeiras-chefes nos campos de estágio da EAN e os artigos da
Revista Anais de Enfermagem
A análise conjunta das atas das reuniões da diretora da EAN com as enfermeiras-
chefes, e das matérias publicadas na Revista Anais de Enfermagem sobre a
enfermeira-chefe evidenciou as grandes responsabilidades atribuídas à
enfermeira-chefe, em três grandes áreas funcionais, sendo que cada instância
comporta sub-categorias como se expõe a seguir: Função de Assistência,
comportando as seguintes atribuições: Assumir o cuidado direto, frente às
dificuldades das alunas; implementar medidas corretivas em situações de crise;
tomar providências imediatas em caso de erro na administração de medicamentos e
prestar primeiros socorros. Função de Ensino, comportando as seguintes
atribuições: Corrigir erros na execução de técnicas; intensificar o
acompanhamento do desempenho de alunas com dificuldades especiais; ensinar pelo
exemplo e organizar um ambiente adequado ao ensino prático. Função de
Administração e Supervisão, comportando as seguintes atribuições: Favorecer
relações interpessoais produtivas; promover melhorias no funcionamento da
unidade; fazer o controle de material e de pessoal; manter a disciplina, a
assiduidade, a pontualidade e o uso correto do uniforme; além de prover a
enfermaria de material, como medicamentos, instrumentos, aparelhos e materiais
de enfermagem.
Apesar de que a competência assistencial fosse uma importante responsabilidade
da enfermeira-chefe da EAN, a assistência direta prestada pela enfermeira-chefe
não consta nos registros das atas de reuniões, talvez porque, no que se refere
a tais atribuições, as enfermeiras-chefes tivessem maior autonomia para
resolver, nos próprios campos de estágio, os problemas surgidos, sem haver a
necessidade de levá-los à consideração da diretora da Escola e de suas
companheiras de serviço.
5 Considerações Finais
O principal órgão de divulgação da ABED, Revista Anais de Enfermagem, e seu
principal evento, em especial o I Congresso Nacional de Enfermagem, foram
veículos de grande importância para a divulgação das funções e atribuições das
enfermeiras-chefes nos campos de estágio hospitalares e nos hospitais em geral.
As enfermeiras-chefes da Escola Anna Nery, no período do estudo, atuavam
simultaneamente como chefes de unidade de internação dos hospitais e como
instrutoras das alunas em campo de estágio. A coordenação centralizadora de
Laís Netto dos Reis foi um dos principais fatores de constituição da imagem da
enfermeira-chefe como figura-tipo dos campos de estágio hospitalares da EAN e
como símbolo a ser seguido pelas alunas de enfermagem. Mediante reuniões
periódicas entre as mesmas, ocorreu o desenvolvimento de normas e rotinas
padronizadas para os diversos campos de estágio da Escola, bem como a
orientação das mesmas sobre o correto desempenho de suas funções e atribuições.
Enfim, em meados do século XX, a enfermeira-chefe representava a enfermeira
modelo e a figura-tipo dos hospitais, que, incumbida de ensinar pelo exemplo,
provocar comportamentos imitativos e positivos, ser responsável pela
assistência de enfermagem a pacientes da unidade onde os estudantes estagiavam,
pelo ensino às alunas de enfermagem e pela administração e supervisão de todos
os fatores que englobavam a enfermaria sob sua responsabilidade, representava a
docente como modelo a ser imitado não apenas no que se relacionava à sua
competência profissional, mas também em relação às suas atitudes e valores
morais e sócio-profissionais.