O trabalho e o alcoolismo: estudo com trabalhadores
PESQUISA
O trabalho e o alcoolismo: estudo com trabalhadores
Labor and alcoholism: study with civil servants
El trabajo y el alcoholismo: estudio con trabajadores
Verginia Medianeira Dallago RossatoI; Ana Lúcia Cardoso KirchhofII
IEnfermeira. Mestre. Coordenadora da Unidade Psiquiátrica do Hospital
Universitário da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM/RS; Docente do
Departamento de Enfermagem da Universidade de Cruz Alta - UNICRUZ/RS
IIProfessora. Enfermeira. Doutora. Docente do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC/SC
E-mail do autor: verginiar@terra.com.br
1 Introdução
O alcoolismo tem persistido como um sério problema social, que afeta a todas as
classes indistintamente e tem se tornado um desafio para a Saúde Pública em
especial, à medida que o coeficiente de prevalência do alcoolismo na população
adulta brasileira é de 3 a 10%(1) .
O estudo do alcoolismo na esfera do trabalho neste estudo teve por propósito
ressaltar esse problema social como uma área de conhecimento e intervenção a
ser melhor compreendida por todas as pessoas que interagem no contexto da saúde
de uma instituição pública.
A avaliação de um programa de tratamento para alcoolismo, com funcionários de
uma universidade pública trouxe o alcoolismo como o terceiro motivo de
absenteísmo no trabalho, sendo a causa mais freqüente de aposentadorias
precoces e acidentes de trabalho e a oitava causa de concessão de auxílio-
doença pela Previdência Social(1).
No campo profissional, o alcoolismo tem maior incidência em ocupações que
exigem pouca ou nenhuma qualificação(2). Há, porém, algumas atividades que
apresentam um alto índice de usuários de álcool, entre os profissionais
autônomos, liberais e empresários(2). Essa tendência para o alcoolismo talvez
esteja relacionada aos modelos tradicionais de beber desses grupos.
A possibilidade de identificação do alcoolismo no trabalho requer um contato
mais prolongado com esse ambiente, podendo ser percebidas as infrações das
normas que passam a ocorrer em relação a horários, atribuições,
responsabilidade no desempenho e qualidade da produção(3).
Os trabalhos publicados sobre os resultados de programas voltados para os
trabalhadores dependentes mostram um índice de recuperação entre 50% e 70% em
empresas, comparando com cerca de 30% em egressos de tratamento hospitalar(4).
Sendo assim, esta pesquisa trata de pontuar situações produtoras e reprodutoras
do comportamento alcoolista, ou seja, comportamentos sociais que legitimam e
incentivam a utilização do álcool no contexto do trabalho. O ambiente de
trabalho, local onde as pessoas passam grande parte de suas vidas, pode
refletir a construção de relações que repetem comportamentos produtores/
reprodutores do alcoolismo, facilitando o uso do álcool. Ao mesmo tempo, há a
possibilidade de serem identificados comportamentos de resistência, os quais
direcionam para a transformação desse comportamento. A perspectiva adotada, no
entanto, por ser esse trabalho em uma universidade pública, é a de que o
alcoolismo pode ser produtor de processos próprios de interação entre os
trabalhadores, de tal modo que produza uma cultura alcoolísta.
Na intenção de contribuir de maneira mais efetiva para ações profissionais,
delineamos este estudo, o qual apresenta como objetivos: analisar as
influências do contexto do trabalho na produção/reprodução e transformação do
comportamento alcoolista; analisar os nexos entre produção/reprodução e
transformação do comportamento alcoolísta nos três contextos de trabalho
estudados; propor alternativas para a transformação do comportamento alcoolísta
no trabalho, mediante os nexos identificados.
2 Referencial teórico do estudo
A maioria das abordagens de intervenção com o alcoolista o define como aquele
indivíduo que desenvolve o hábito de utilizar excessivamente o álcool por um
tempo prolongado(5). Outra abordagem, adotada por esse estudo, se vincula à
compreensão de que as relações são reguladas por meio de estratégias que
incorporem uma conduta interacional de embriaguez(6). Nesse sentido, destacamos
que existem diferenças na compreensão entre a família alcoolista e a família
com membro alcoólico. Neste último caso, a família se caracteriza por ter um
membro usuário de álcool, mantendo, porém, seu funcionamento independente deste
indivíduo, o que já não ocorre com a família alcoolista(6).
Ao se estudar o alcoolismo no trabalho foi considerada a possibilidade do
trabalho, (tanto quanto a família) funcionar de uma maneira alcoolista, ou
seja, produzindo/reproduzindo um modo alcoolísta de funcionar. Considerou-se,
ainda, o alcoolismo sob uma abordagem cultural, que ressalta seu caráter
heterogêneo, assim como sua construção e influência nos diferentes contextos,
em suas diversas formas de interação entre os indivíduos(7) . É na inter-
relação entre pessoas que se compõe um cenário social e, por isso se reconhece
a necessidade de considerar o contexto das interações, ou seja, cada contexto
constrói as suas regras e suas convenções, e supõe expectativas particulares
entre os indivíduos. Embora a palavra cultura seja usada de forma generalizada,
ela tem relação com processos complexos e, na maioria das vezes, inconscientes
(7).
Ao se pesquisar o trabalhador no seu ambiente de trabalho houve a intenção de
delinear possibilidades para interferir nessa cultura, onde as pessoas se
mantêm unidas, funcionando em torno do álcool de um jeito repetitivo, sem
evidenciarem outras maneiras de se relacionar. Ainda há que se considerar as
características culturais que envolvem o servidor público, os quais podem
sugerir um perfil de alcoolista diferente.
As terminologias produção/reprodução e transformação são adotadas para explicar
situações que envolvem comportamentos em relação ao uso do álcool. Ao referir-
se à produção/reproduçãodo comportamento alcoolista, utiliza-se o conceito de
produção social e reprodução das estruturas formais(8). Entende-se que, do
ponto de vista de profissionais da saúde, o trabalho pode ser abordado nessa
perspectiva, pois produção social se refere apenas à circunstância trivial de
que o processo vital dos sistemas sociais sempre se desenrola nas trilhas de
determinadas condições paramétricas de cunho institucional e cultural, sendo
assim determinado por formas que, mesmo variáveis, se pretendem impositivas(8).
Quanto ao conceito de reprodução das estruturas formais, compreende-se a
manutenção das condições físicas da vida social, dos sistemas de normas
culturais e legais, a transmissão e o desenvolvimento do acervo de conhecimento
de uma sociedade, seus sistemas de informação e circulação(8).
Enquanto profissionais e participantes/atores de um sistema de saúde, não se
ignora a tarefa de cuidar da produção continuada das condições necessárias para
que os membros da sociedade possam atuar como tais, permitindo, por exemplo,
que trabalhadores se apresentem no mercado de trabalho e possam corresponder às
demais regras e expectativas a eles dirigidas(8). No entanto, para elucidar
melhor essa questão, são indicados comportamentos que facilitam o uso do
álcool, ou seja, qualquer comportamento que, mesmo vindo com boas intenções,
serve para proteger o dependente das conseqüências do uso da droga,
contribuindo para que a doença do dependente e a situação do co-dependente
piorem(9).
Compreende-se por transformaçãoas soluções que têm que ser mais do que
transitórias, e que devam levar em conta a complexidade de sistemas mais amplos
ao longo do tempo(10). Nesse caso, o olhar deve ser direcionado a todas as
situações passíveis de serem exploradas, refeitas, reconsideradas, ampliadas,
de maneira gradual, sensata, respeitosa e perseverante, já que mudanças
assustam e o mais fácil e cômodo é a continuidade de um jeito conhecido de ser
do que mudar para algo desconhecido.
Ao buscar visualizar no trabalho atitudes de transformação do comportamento
alcoolista, são abordados alguns aspectos que se consideram relevantes sobre o
alcoolismo no contexto do trabalho.
O trabalho enquanto uma operação humana de transformação da matéria em objeto
de cultura(11), pode significar, para o trabalhador, tanto a realização de uma
obra que possa ser uma forma de expressão individual e por meio da qual, ele
alcance um certo reconhecimento social, quanto um esforço diário repetitivo no
qual as pessoas podem ser privadas da sua liberdade, ainda que o trabalho
humano seja consciente e proposital(11).
Em uma sociedade complexa como a nossa, os trabalhos socialmente necessários
não são necessários para o indivíduo, mas para o funcionamento de um sistema
material, ou seja, são atividades heterônomas, determinadas pelas necessidades
exteriores e não pelos objetivos que os indivíduos se atribuem(12).
Considerando que o alcoolismo é uma patologia que apenas depois de algum tempo
de conflitos e recaídas pode retirar o alcoolista da vida produtiva, é
imprescindível o estudo das implicações dessas relações no trabalho. Entende-se
relação no trabalho como todos os laços humanos criados pela organização do
trabalho: relações com a hierarquia, com as chefias, com a supervisão, com
outros trabalhadores - e que são, às vezes, desagradáveis, até insuportáveis
(13), podendo trazer muita ansiedade em relação à produtividade. Pode-se somar
a isso, ainda, táticas utilizadas pelas chefias como repressões e favoritismos,
dividindo os trabalhadores, gerando revolta, agressividade e frustração, que
muitas vezes não são liberadas. Táticas de conversas individuais nas quais as
ameaças feitas em situações grupais são substituídas por uma atitude
benevolente e paternalista; podendo também haver a exposição das questões
pessoais e sua utilização para manipulação psicológica ou exposição ao grupo,
as quais podem gerar conflitos entre os colegas, configurando essas relações
interpessoais no trabalho como jogos, uma vez que uns estão fadados a ganhar e
outros a perder.
Uma confusão que pode ocorrer com pessoas próximas e importantes na vida de um
alcoolista é o que se chama de facilitação(9). A facilitação é um comportamento
que, mesmo tendo boas intenções, serve para proteger o dependente das
conseqüências do uso de droga, ou seja, há negação do alcoolismo, trazendo com
isso o agravamento da situação. Muitos chefes são facilitadores(9) na medida em
que acham que não têm nada a ver com isto; tal postura favorece a perda de
trabalhadores, uma vez que o desempenho no trabalho e a produtividade são cada
vez mais comprometidos, e não consideram que uma boa administração requer a
assistência aos trabalhadores dependentes químicos e, ainda, que na maioria dos
casos, a despesa com o programa de reabilitação é menor do que demiti-lo e
treinar outro(4).
3 Metodologia
Este é um estudo exploratório e descritivo, para o qual foi utilizada uma
abordagem qualitativa. Os trabalhadores foram selecionados a partir de um
estudo anterior, no qual estavam envolvidas três famílias de trabalhadores
alcoolistas de uma instituição de ensino pública. Para este estudo foi
priorizado o contexto do trabalho, na tentativa de dar continuidade ao estudo
com esses mesmos trabalhadores, observando também o ambiente de trabalho e a
sua especificidade na produção/reprodução e transformação do comportamento
alcoolísta.
3.1 Coleta e análise dos dados
Os trabalhadores envolvidos assinaram um termo de consentimento livre e
esclarecido da participação no estudo.
Foram utilizadas três técnicas para coletas de dados: a análise documental, a
observação participante e a entrevista, tendo em vista que fontes
diversificadas de informações proporcionam uma perspectiva compreensiva à
pesquisa e a combinação destes três métodos habilita o pesquisador a validar e
complementar os dados(14).
Na análise documental, utilizou-se como objeto de análise a ficha funcional do
funcionário na instituição pública, na qual se registram as ocorrências da vida
funcional dos trabalhadores. A análise teve como objetivo constatar se os
alcoolístas em estudo possuem um registro compatível ao comportamento
alcoolísta no trabalho, tais como absenteísmo, licença para tratamento de
saúde, faltas injustificadas, acidentes de trabalho.
Para a realização dessa etapa, utilizou-se um roteiro para a coleta de
informações. A consulta de documentos representa uma fonte natural de
informações e proporciona olhar experiências passadas que não podem ser
observadas diretamente, e sobre as quais as entrevistas não oferecem perguntas
apropriadas(14,15).
A observação participante foi feita no ambiente de trabalho em parte do tempo
destinado à coleta dos dados, numa convivência e participação do investigador e
investigados. Dentro dessa perspectiva foram observados os três trabalhadores
alcoolistas no contexto do trabalho. Foram observadas as relações de trabalho e
as questões que envolvem o alcoolismo nesse ambiente. Esse período foi
proveitoso para elucidar aspectos até então desconhecidos dentro da abordagem
já estudada. São fundamentais ao pesquisador as atitudes de abertura,
flexibilidade, capacidade de observação e de interação com o grupo(16). Nesta
perspectiva, na qual o observador acompanha in loco as experiências dos
sujeitos, foram registradas observações referentes ao convívio com os problemas
do alcoolismo.
Para realizar essa etapa, foram programados períodos de acompanhamento a cada
um dos três contextos de trabalho dos trabalhadores alcoolístas selecionados
para este estudo, os quais eram lavanderia, serviço de nutrição e um
departamento didático. Foi sinalizador para suficiência dos dados a repetição
no decorrer das observações(16).
Como estratégia de entrada nos locais de trabalho foi feita a apresentação da
proposta de pesquisa e apresentação do pesquisador ao grupo. Foi priorizada a
observação em horários em que os alcoolistas já acompanhados desenvolvessem
suas atividades, sem nenhuma identificação dos mesmos.
Quanto às entrevistas, foram feitas duas, pois foram necessárias para a
complementação das informações.
Foram consideradas para análise dos dados categorias gerais e categorias
específicas(15). As categorias gerais foram definidas pelo referencial teórico
adotado: produção/reprodução e transformação do comportamento alcoolista e as
específicas advieram da análise dos dados de cada campo, constituindo-se as
categorias contexto cultural, relações de trabalho alcoolistas e funcionário
público alcoolista.
4 Resultados
A análise dos dados foi construída a partir das categorias de produção/
reprodução e transformação do comportamento alcoolista, organizando-se seis
categorias: contexto cultural, relações de trabalho alcoolista, funcionário
público alcoolista, produção e reprodução do comportamento alcoolista e
transformação do comportamento alcoolista.
Quanto ao Contexto Cultural,os ambientes de trabalho apresentaram algumas
características interessantes: há uma queixa quanto à produtividade no ambiente
de trabalho. O alcoolista é visto como alguém negligente, que mantém uma
distância emocional e física dos papéis que deveria desempenhar. Nos seus
locais de trabalho são oferecidas oportunidades para que essas pessoas venham a
dar respostas mais adequadas às exigências feitas, mas observa-se que estas
atitudes denotam tolerância, complacência e, em outras ocasiões, raiva e
sentimento de exploração. Raiva, porque o alcoolista recai, não respondendo às
expectativas. As recaídas trazem o medo, muitas vezes, da violência e uma
sobrecarga de tarefas para os colegas e chefias no trabalho. Há tolerância,
quando situações de negligência dos alcoolistas são facilitadas. Esse movimento
se observa quando, nesses meios, alguém serve para intermediar a frágil relação
dos alcoolistas.
No trabalho, cabe à chefia e a alguns colegas tentar, de várias formas, exercer
em parte a função dos alcoolistas e, quando a situação fica insustentável,
ocorre o remanejo para locais onde possam ser dispensáveis.
Na categoria Relações deTrabalho Alcoolísta foram incluídas as dificuldades das
chefias de lidarem com as situações que envolvem o uso do álcool, não só em
relação ao conhecimento da doença como nas formas de tratá-la, mas
principalmente, por suas próprias histórias pessoais e familiares de uso do
álcool. Essa situação pode provocar confusão nos papéis a serem desempenhados
por cada um, trazendo prejuízo aos envolvidos. A falta de informação facilita a
manutenção do circulo vicioso(17), e somando-se a isso, esses locais reúnem
mais de um funcionário alcoolista em um clima de convivência, como se
repetissem a história de vida de cada um deles, que geralmente inclui a
presença de outros alcoolístas.
Em um dos ambientes de trabalho foram observadas desorganização, sujeira, pouca
ventilação e aparência desleixada dos funcionários, dando um aspecto
desagradável ao setor de trabalho, e isso pode favorecer o aumento do consumo
de bebida alcoólica(2). Em apenas um dos locais observou-se a preocupação das
chefias em criar um ambiente de trabalho agradável, organizado, iluminado,
limpo, incentivando a confiança entre os colegas e a participação do
trabalhador na equipe.
Uma situação observada em um dos ambientes foi a despreocupação da chefia em
fornecer e exigir o uso de equipamento de proteção para o trabalho, denotando
precariedade na manutenção da saúde dos trabalhadores. Sobre isso, tais
situações podem gerar a chamada ansiedade relativa à degradação do organismo
(13), podendo esta estimular a ingestão de álcool.
Notou-se que as relações estabelecidas no trabalho são adaptadas às
dificuldades de desempenho da função que o alcoolista apresenta. E, conforme
isto, as perdas podem contribuir para o alcoolísta vir a se tratar(18).No que
tange ao comportamento alcoolista nesses ambientes, as situações que poderiam
ser utilizadas para pressionar o tratamento, como o não cumprimento de horário,
ausentismo, faltas, mau relacionamento, são omitidas ou minimizadas. Quando há
um conflito maior os alcoolistas são encaminhadas para locais considerados como
de isolamento social, oportunizando um maior afastamento do trabalho e
favorecendo um maior consumo de álcool(2). O direcionamento dado a essas
questões traz a preocupação em não causar prejuízos financeiros e de
relacionamento, provocando descontentamento tanto no alcoolísta como nos
colegas, que costumam encobrir a situação.
Tratando-se esse ambiente de trabalho de um serviço público, emerge a categoria
Funcionário Público Alcoolista.Percebe-se que há uma facilitação para que o
alcoolista não tenha prejuízo, nem mesmo no estágio probatório, e nos anos
posteriores, nos quais aparece cada vez mais a cronicidade da doença e o
conseqüente prejuízo no desempenho. Tratando-se do alcoolista, é provável que
busque um emprego para ter suas necessidades satisfeitas, mostrando preocupação
com o que tem para receber no final do mês para logo poder gastar, sem, no
entanto, estar comprometido em buscar realização pessoal e profissional .
Quanto a instituição, parece que não há nenhum esforço para incentivar o
funcionário a se tratar, como se a responsabilidade da direção do serviço
público se diluísse, cabendo a ninguém, nem mesmo aos dirigentes, o papel de
gerenciador de recursos humanos e responsável pelas pessoas e relações nesses
ambientes. Pelo contrário, os colegas dos alcoolistas entendem a situação que
envolve o uso do álcool como vantajosa; fazendo com que a facilitação da chefia
para contornar as situações provoque um descontentamento nos não-alcoolístas.
Considerando que estão sendo injustiçados, defendem a posição de que as
facilidades devam ser ampliadas a todos os trabalhadores. Ao que parece, a
situação se inverte e, ao invés de ser corrigida, passa a ser reivindicada para
que seja estendida aos demais.
Com o olhar voltado para a Produção/Reproduçãodo comportamento alcoolísta,
salientam-se as distorções feitas pelos interessados na forma de cumprir a lei,
a serviço de abono e negociação de faltas mesmo no período de estágio
probatório, não sendo tomada nenhuma providência administrativa na época.
Curioso é que se constata a ausência de investigação, acompanhamento, avaliação
e encanhaminhamento das questões relacionadas a situações que comprometem a
produtividade, não só nesse período mas ao longo da vida profissional desses
trabalhadores.
Ainda é comum a eleição das chefias segundo critérios de condescendência,
centralização, despreparo com a gerência de serviços e comprometimento com o
grupo. O exposto se reflete nas situações que dizem respeito ao frequente
número de Licenças para Tratamento de Saúde e Licenças por Acidente de
Trabalho, sem aparentes consequências, como a adoção de medidas de controle ou
investigação das condições em que ocorreram as situações.
A análise documental leva a constatar o não cumprimento do dever funcional,
pelo registro de um único caso de repreensão registrado. Paradoxalmente, a
progressão funcional é automática, ao invés de progressão funcional por mérito
e por cursos de aperfeiçoamento, como prevê a legislação.
Isso aparece mais visível quando se observa o considerável número de servidores
alcoolistas agrupados no mesmo ambiente de trabalho, bem como o considerável
número de servidores em um setor sem trabalho em grupo, ou seja, sem uma
divisão democrática de direitos, deveres, responsabilidades e sem uma política
clara de trabalho.
Outros fatores característicos na interação desse grupo, é a resistência ao uso
de equipamento de segurança no trabalho e à figura da autoridade hierárquica,
indicadores que ratificam as características dos alcoolistas.
Na equipe de trabalho, embora houvesse um relativo equilíbrio no que tange ao
número de homens e mulheres, observou-se diferenciação relativa ao tipo de
atividade, sendo as mais sujas e pesadas destinadas aos homens. A queixa de
sobrecarga de trabalho não foi comprovada. Por outro lado, observou-se maior
concentração de atividades no turno da manhã, gerando ansiedade nos
funcionários por terem que se adaptar ao ritmo das máquinas. Quando se planejam
e se distribuiem os diferentes turnos, poderia ser evitada a sobrecarga em
determinados horários.
Há discriminação no tratamento quanto aos direitos e deveres dos servidores por
parte do chefe, que encaminha de forma diferente questões relativas ao uso do
álcool, ou seja, o encaminhamento administrativo depende da relação que o
alcoolísta tem com a chefia. Tais fatos podem desencadear ansiedade e
degeneração das relações psico-afetivas(13). Exemplo disso é o não cumprimento
da jornada de trabalho e das respectivas tarefas com contínuos ausentismos,
atribuindo aos alcoolístas uma posição de vítima e expondo as chefias, quando
adotam atitudes tendenciosas.
A comunicação que circula é obscura, constrangedora, metafórica, dúbia, pois
acontece em forma de brincadeira, mas fere, causa desconforto, caracterizando-
se como paraverbal(19).
A escala de serviço fixa propicia repetitividade nas funções do grupo de
trabalho, agravada pelo horário noturno, que causa situação de isolamento, com
consequente limitação nas relações de trabalho. Acentuando isso, ainda se
constatam dificuldades nas relações interpessoais, que são acomodadas pelos
responsáveis assim como remanejos protecionistas para locais onde permanecem
dispensáveis, com menor volume e exigência de trabalho.
Na relação entre chefias diretas de grupos setoriais e coordenadores de área,
observa-se pouco ou nenhum contato que propicie uma mínima participação e
comprometimento do grupo que trabalha à noite com a política atual da chefia.
Como atitudes que viabilizam a Transformaçãodo comportamento alcoolista,
aparecem timidamente o registro de repreensão encaminhados para arquivo em
pasta funcional e alguns encaminhamentos de faltas não justificadas para
desconto salarial. Aparece também a limitação de injestão de álcool por um dos
pesquisados, quando refere que nos dias que trabalha não ingere bebida
alcóolica, devido ao risco em comprometer seu vínculo empregatício. A
existência de legislação que prevê demissão nos casos de prevaricação, faltas
ao trabalho, entre outros, mesmo que de forma indireta, serve de argumento para
a chefia na contenção dos comportamentos alcoolistas.
De maneira geral percebeu-se uma boa receptividade ao trabalho de pesquisa
entre os trabalhadores envolvidos.
De maneira particular, observou-se que o fato de uma das chefias ser indicada
pela direção geral do serviço proporcionou condições de adoção de uma meta-
posição grupal, sendo possível uma política de trabalho voltada para o
envolvimento dos funcionários com seu trabalho. Nesse caso, apareceu a
seriedade da chefia no encaminhamento de questões que valorizam o trabalho com
qualidade, organização e melhoria do ambiente.
Um aspecto considerado como "transformador" e, possivelmente, decorrente do
trabalho anterior realizado com as famílias, foi a constatação de um
trabalhador demonstrar comprometimento com a educação do filho e desejo de
voltar a estudar para melhorar de função no trabalho. Observou-se, também, o
receio em ter complicações clínicas e a preocupação em manter seu trabalho,
chegando a aconselhar um colega alcoolista para que não abuse no uso de álcool.
Um outro ganho diz respeito à situação de um dos pesquisados, que começou a
participar em um programa institucional para trabalhadores dependentes,
aceitando a internação para desintoxicação, a opção pelo tratamento e, após,
ficou vinculado a um programa para tratamento.
5 Considerações finais
Neste estudo, percebe-se um maior número de situações que se caracterizam como
de produção/reprodução do comportamento alcoolísta. O protecionismo em relação
aos alcoolístas aparece e é exercido pelos chefes e colegas.
Estudando as relações dos alcoolistas no contexto do trabalho, foi possível
traçar um paralelo entre as pessoas que os rodeiam no cotidiano e verificar que
os colegas de trabalho enfocam o alcoolismo como sendo o único problema que
realmente incomoda. Foram ressaltadas observações e comentários como, é bom
pai, boa pessoa, bom marido, não fosse o álcool, bem como situações no
trabalho, que descrevem os alcoolístas como bons trabalhadores, não fosse o uso
do álcool. Talvez o conceito de ser bom para a família seja de alguém que não
provoque raiva, vergonha e que não incomode, independentemente de estar ou não
comprometido com a família. A figura de bom trabalhador talvez esteja associada
à disponibilidade em realizar as tarefas, ou mesmo auxiliar o chefe a contornar
situações que se apresentam difíceis.
Percebe-se um contexto cultural carregado de esperanças de que talvez o
alcoolista em questão tome jeito e pare de beber. Contudo a esperança de poder
contar e estar mais próximo ao alcoolísta também é acompanhada, no período de
abstinência, por uma estruturação rígida dos sistemas que continuam, de uma
forma clara ou velada, mantendo o alcoolista periférico e dispensável.
No trabalho, as chefias resolvem as faltas e falhas dos trabalhadores
alcoolistas e fazem atividades por eles, cabendo aos colegas queixar-se da
falta do cumprimento do dever e de parceria no trabalho e reivindicando
igualdade de direitos ou privilégios. Percebe-se os alcoolístas próximos,
aceitos e dependentes das chefias, porém distantes dos colegas de trabalho,
como se fossem filhos com tratamento diferenciado. Com esse panorama é provável
que ocorram dificuldades para que um grupo funcione de forma integrada,
comprometendo assim o trabalho em equipe. Por vezes, o afastamento dos
alcoolístas das pessoas pode ser pela baixa tolerância ao convívio com o grupo,
tendendo à irritabilidade, revolta e ao isolamento.
Os três alcoolistas observados estão em atividades ligadas à execução de
tarefas, dentro do cumprimento de um esquema pré-determinado e parecem não
responder adequadamente quando o roteiro não está previsto ou quando exige
reflexão, planejamento ou envolve o imprevisível e a emoção, funcionando como
se fossem máquinas. Demonstram dificuldade de envolvimento emocional nas
relações interpessoais, pois parecem protegidos por uma barreira, um jeito de
ser que os impede de viver uma relação próxima, comprometida e íntima. Tal
situação é evidente quando eles revelam preferência em estar nos ambientes
isolados, que não necessitem de troca de opiniões para as tomadas de decisão. O
estranho é que os alcoolístas evitam pessoas da mesma hierarquia, enquanto com
seus superiores procuram manter um relacionamento que permita que sejam aceitos
ou tolerados.
A reprodução também aparece no ambiente de trabalho, quando se agrupam colegas
alcoolistas e chefes com história pessoal ou familiar de alcoolismo. Parece que
no trabalho as pessoas reconstituem suas famílias ou se aproximam de ambientes
que se assemelham à sua história de vida. E as situações distantes consideradas
sob controle, principalmente, pelas chefias, fazem renascer nelas a vontade de
resolver o problema de uma forma solitária e repetitiva, no qual é envolvida
uma grande carga emocional, como se, provavelmente, estivessem em suas famílias
de origem.
O trabalho, para os alcoolistas, parece não ser significativo no sentido de
buscar satisfação pessoal, prazer e realização. No entanto, há uma preocupação
em poder ir embora ou sair para a rua, quando terminar a jornada, ou mesmo
antes disso. Há uma corrida atrás dos direitos trabalhistas, dos cálculos
salariais e do recebimento do salário. Mas também demonstraram incapacidade de
administrar o dinheiro que ganham, cabendo, nos três casos, esse papel às suas
esposas.
Ao abordar a transformação do comportamento alcoolista, não se trata aqui
apenas da abstinência do membro alcoólico, mas da mudança de uma realidade
cultural, de forma que o meio passe a ser o facilitador da produção/reprodução
da saúde mental e qualidade de vida, ao invés de estar a serviço da doença.
Essa inversão de comportamentos para diferente fim exige a melhoria no processo
de comunicação, tanto na atualização de conhecimentos quanto nas relações
interpessoais, formando parcerias entre chefias, famílias e profissionais
envolvidos.
Este estudo proporcionou observar que há aproximação e vínculo, que poderia ser
chamado de envolvimento, troca de favores, ganhos secundários entre o
alcoolista e as pessoas que exercem papel de poder resultando no distanciamento
dos colegas que estão na mesma posição hierárquica.
Vários setores envolvidos com as questões do alcoolismo na instituição
pesquisada, formam uma verdadeira cumplicidade, quase inconsciente, quando cada
grupo apresenta-se autônomo nas tomadas de decisão, criando divergências e,
conseqüentemente, uma redistribuição da responsabilidade. Enquanto os setores
que objetivam a saúde destes trabalhadores divergem entre si, o alcoolista
pode, cada vez mais, circular nesse meio como vítima, queixando-se de um ou de
outro, sem o compromisso de assumir sua própria recuperação.
Como aspectos prioritários na construção de um trabalho público não-alcoolista,
indicam-se algumas diretrizes a serem seguidas. A generalidade trazida neste
momento tem por parâmetro que cada trabalhador pode fazer sua autocrítica,
podendo-se valer do relato desta experiência particular, trazida ao longo deste
estudo, sem, contudo, se fazer uma apologia do que poderia ser um trabalho não-
alcoolista. Por isso, apresenta-se o que se concebeu como principais
diretrizes: o resgate do papel, da importância e da responsabilidade do serviço
público com a sociedade e do servidor alcoolista como participante dela; o
cumprimento de normas/rotinas, direitos e deveres em condições de igualdade
entre todos os trabalhadores públicos, não abrindo exceção para os servidores
alcoolistas; a produção de uma nova cultura institucional e profissional que,
mesmo reconhecendo o caráter de doença do alcoolismo, reconheça com a mesma
força o caráter que a diferencia das outras enfermidades, a qual coloca a
vontade e o poder de decisão individual, familiar e do contexto de trabalho
como pré-requisitos de recuperação; a transformação das relações institucionais
em um sistema aberto, possibilitador de um trabalho em rede multiprofissional
horizontal, com as necessárias trocas, acréscimos, modificação e atualização de
condutas terapêuticas.
Os profissionais de saúde devem estar atentos para a problemática trazida pelo
alcoolismo aos processos de trabalho, educação e assistência, para não serem
coniventes na produção/reprodução de comportamentos alcoolistas, muito
freqüentes nos ambientes de trabalho. Esse compromisso deve estar alicerçado na
busca do autoconhecimento e na interação com outros trabalhadores, na
perspectiva de alcançar a integridade de um cuidado de qualidade ao cliente.
Manifesta-se ainda o desejo de que este estudo provoque novos desafios, na
tentativa de construção de espaços que possam ser realmente não-alcoolistas, a
serviço de maior saúde mental para os servidores públicos em geral.