Contribuição das teorias de enfermagem para a construção do conhecimento da
área
REVISÃO
Contribuição das teorias de enfermagem para a construção do conhecimento da
área*
Contribuction of nursing theories to build knowledge in the area
Contribución de las teorías de enfermería para la construcción del conocimiento
del área
Telma Ribeiro GarciaI;Maria Miriam Lima da NóbregaII
IEnfermeira. Doutora em Enfermagem pela EERP-USP. Professora Adjunto IV do
Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria, Centro de Ciências
da Saúde, Universidade Federal da Paraíba. Pesquisadora CNPq
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem pela UNIFESP/EPM. Professora Adjunto IV do
Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria, Centro de Ciências
da Saúde, Universidade Federal da Paraíba. Pesquisadora CNPq
E-maildo autor: tegarcia@ccs.ufpb.br
1 Introdução
Em Introdução ao pensar, Alfredo Buzzi(1) afirma que a casa primeira que o ser
humano fabrica para morar é a casa do conhecimento, fazendo a ressalva de que,
nem sempre, ele é encontrado satisfeito sob o teto construído. Essa satisfação
prima por ser variável no tempo porque, embora nasça em um mundo já dotado de
uma dada interpretação, ao dialogar consigo próprio, com seus semelhantes e com
as coisas que o cercam, o ser humano, ao ir vivendo, procura um ajuste
intelectual com o contorno, seja para adaptar-se a ele ou para modificá-lo
(2,3). Nessa atividade, vai provocando inovações, evoluções e/ou revoluções
constantes na casa do conhecimento, que não deve ser, portanto, compreendida
como definitivamente concluída.
Tomado no sentido mais consensual acerca do termo no seio da comunidade
lingüística, conhecimento, do ponto de vista filosófico, significa "a
apropriação de algo pelo pensamento, como quer que se conceba essa apropriação:
como definição, como percepção clara, apreensão completa, análise, etc."(4:454)
Pode-se acrescentar, ainda, que todo conhecimento comporta necessariamente: a)
uma competência, ou aptidão para produzir conhecimento; b) uma atividade
cognitiva, que se realiza em função da aptidão para produzir conhecimento; c)
um saber resultante dessas atividades(5).
Conhecer é uma atividade fundamental para o ser humano, através da qual busca
atribuir significado à multiplicidade de fenômenos que o cercam, sejam os
referentes a objetos físicos (cadeira, árvore, bicicleta, etc.), a pessoas
(vizinho, estudante, padre, mãe, amigo, etc.), a eventos (nascimento, vida,
morte, etc.) ou a idéias abstratas (princípios morais, doutrinas filosóficas ou
idéias como justiça, exploração ou compaixão, etc.), entre outras possíveis
classes de fenômenos que se possam citar.
Conforme usado na afirmativa anterior, o termo fenômeno aplica-se a todos os
aspectos da realidade interna e externa, que existem como entidades pré-
lingüísticas e que adotam um significado lingüístico a partir da percepção,
imaginação, reconhecimento e experiência humanos(6); significado, refere-se ao
conceito, isto é, à "imagem mental que temos dos objetos, eventos,
acontecimentos, elementos culturais, etc"(7:32). Por seu turno, atribuir
significação corresponde a efetivar a união entre um significante (o rótulo
lingüístico com que se "batizou" um dado fenômeno) e um significado (a imagem
mental evocada pelo rótulo lingüístico com que se "batizou" o fenômeno).
Atribuir significação pressupõe necessariamente a atividade cognitiva, prévia,
de identificação e de nomeação do fenômeno; pressupõe, também, a necessidade de
definição dos atributos particulares do fenômeno a que se aplicou um
determinado rótulo lingüístico. De modo geral, esses atributos, em uma
atividade analítica de disjunção, separam e distinguem o fenômeno particular
ou, em uma atividade sintética de conjunção, o articulam e associam a outro(s)
fenômeno(s).
Como se pode deduzir, a atividade de nomear e de atribuir significado aos
fenômenos requer o uso da linguagem, ou seja, o uso de um sistema organizado de
signos lingüísticos que, entre outros aspectos, se caracteriza por ser
indefinidamente variável no tempo e no espaço, fruto da elaboração do
pensamento, adquirido por aprendizagem(7), e utilizado para determinados fins.
A linguagem elaborada pelo ser humano funciona como espelho de sua
representação do mundo e do pensamento, como instrumento de comunicação e como
forma de ação ou lugar de interação. Como espelho, possibilita ao ser humano
representar seu pensamento, seu conhecimento, sua visão de mundo; como
instrumento, comunicar-se com os outros, transmitindo-lhes mensagens (ou
informações); finalmente, como forma de ação ou lugar de interação, agir,
reagir e interagir com os outros membros da sociedade, de modo finalisticamente
orientado(8).
Tendo por base a discussão anterior, sintetizamos alguns pontos que
consideramos fundamentais para a continuidade deste texto: a) em um sentido
abrangente, pode-se afirmar que conhecer é operar, com a ajuda do pensamento e
da linguagem, uma intervenção organizadora no caos aparente do mundo fenomenal
que nos cerca; b) a atividade deconhecer é condicionada por fatores físicos,
biológicos, psicológicos, pessoais, interpessoais e coletivos, e plasmada pela
formação sócio-cultural em cujo contexto vamos vivendo; c) o conhecimento,
assim como a linguagem de que nos utilizamos para conhecer, é um fenômeno
evolutivo, sujeito a enriquecimentos progressivos e a alterações mais ou menos
profundas, destinados (os enriquecimentos e as alterações) às nossas
necessidades de ajuste intelectual com o meio ambiente, em um dado espaço e
tempo.
Para finalizar os aspectos introdutórios, vale ressaltar, ainda, as atividades
de disjunção que se operaram sobre o Conhecimento (considerado aqui em sua
forma totalizante), para organizá-lo, em uma primeira instância, em tipos
distintos (popular, filosófico, religioso, científico, etc.). Além dessa
primeira disjunção, "a complexidade do universo e a multiplicidade de fenômenos
que nele se manifestam, aliadas à necessidade do ser humano de estudá-los para
poder entendê-los e explicá-los, levaram ao surgimento de diversos ramos de
estudo e ciências específicas", organizados "quer de acordo com sua ordem de
complexidade, quer de acordo com seu conteúdo: objeto ou temas, diferença de
enunciados e metodologia empregada"(9:22).
A divisão do Conhecimento em conhecimentos, áreas de estudo e ciências
específicos efetuou a organização de diferentes campos (ou domínios) do saber;
efetuou a construção de casas específicas de conhecimento, sob cujos tetos se
abrigam as diferentes disciplinas que produzem conhecimento, seja teórico ou
prático, e as "confrarias" dos cientistas a elas ligados. Entre essas
diferentes casas são, às vezes, construídos muros simbólicos, alguns dos quais
praticamente intransponíveis para aqueles que nelas usualmente não se abrigam,
que não sejam "parentes" ou considerados, no mínimo, "vizinhos desejáveis".
A cada casa de conhecimento corresponde uma subcomunidade científica
relativamente bem definida (a "confraria" dos cientistas a ela ligados), cujos
membros se reconhecem entre si e compartilham uma cultura própria em termos de
objeto, linguagem e arsenal metodológico e técnico, os quais configuram um modo
particular de conhecer, que se pretende seja reconhecido, também, externamente
(10). Cada subcomunidade científica aponta quais são os padrões, formas e
estruturas particulares que lhe servem de guia em termos de construção de
conhecimento e que exemplificam maneiras ou abordagens características de
pensar sobre os fenômenos que estão em seu domínio de interesse.
O saber resultante da atividade de conhecer e de produzir conhecimento de cada
subcomunidade científica particular se materializa com a explicitação dos
conceitos representativos dos fenômenos que indicam e delimitam seu domínio de
interesse; da(s) filosofia(s) que expressa(m) suas crenças e valores em relação
aos fenômenos que estão em seu domínio de interesse; enfim, de teorias que
articulam, em proposições testáveis no mundo empírico, os conceitos
representativos dos fenômenos que estão em seu domínio de interesse. Com a
construção da casa do conhecimento da Enfermagem, não foi ou está sendo
diferente.
2 As teorias de enfermagem e a construção do conhecimento da área
Como resultado da atividade de atribuir significado ao mundo da Enfermagem, as
enfermeiras têm, ao longo do tempo, não só elaborado, como comunicado, de modo
sistemático, um corpo de conhecimento específico, aplicável em qualquer dos
campos da prática profissional - ensino, pesquisa ou assistência. Esse corpo de
conhecimento não é estático; ao contrário, ele vem se transformando, assumindo
modos de expressão diversos em sua trajetória de construção(11). Um desses
modos está representado pelas teorias de enfermagem, expressão formal do padrão
empírico de conhecimento, ou da Ciência da Enfermagem, conforme a classificação
proposta por Barbara Carper em 1978.(12) Para construir esse conhecimento, as
enfermeiras têm identificado e definido conceitos representativos de fenômenos
que estão em seu campo de interesse, e inter-relacionado esses conceitos em
proposições teóricas que refletem visões específicas acerca desses fenômenos e
que determinam, potencialmente, inovações, evoluções e/ou revoluções no saber e
no fazer da Enfermagem.
Falar sobre a contribuição das teorias de enfermagem para a construção do
conhecimento da área nos remete, quase que obrigatoriamente, a Florence
Nightingale, nosso mito de origem, cujas ações e publicações lhe renderam o
reconhecimento como fundadora da Enfermagem moderna. A rigor, não se pode
afirmar que Florence, em seus escritos, tenha elaborado uma teoria de
enfermagem, mas uma filosofia para a prática de enfermagem, que serviu de base
a boa parte dos modelos conceituais ou das teorias de enfermagem
contemporâneas. Em Notes on nursing, seu livro mais amplamente conhecido, ela
reúne os conhecimentos que havia adquirido no trato com doentes, enfermeiras e
hospitais em um certo número de princípios, que deveriam servir de fundamento
para as mulheres que, "em algum período de sua vida", assumissem "a
responsabilidade pessoal pela saúde de alguém"(13:3). Esses princípios se
relacionam aos seguintes fenômenos: ventilação (ou ar fresco), iluminação,
aquecimento, quietude (ou silêncio), limpeza, pontualidade e cuidado na
administração da alimentação. A falta de conhecimento ou de atenção a esses
fenômenos retardaria "o processo restaurador que a Natureza instituiu e a que
nós chamamos doença"(13:8). Em suas palavras, o que se "deve fazer (...) é
colocar o paciente em condições tais que a Natureza possa agir sobre ele"(14:
77). Portanto, atuando sobre esses fenômenos, estar-se-ia favorecendo o sucesso
dos processos restauradores da Natureza e, conseqüentemente, favorecendo a
manutenção da capacidade vital do paciente.
Embora as idéias de Florence Nightingale tenham sido divulgadas na segunda
metade do século XIX, foi somente a partir da década de 1950, que se começou a
articular e sistematizar novas visões teórico-filosóficas acerca da Enfermagem.
Esse fato coincide com a inserção, na década de 1950, nos Estados Unidos, da
Enfermagem entre as carreiras de nível superior(15,16). Em virtude da
exigência, na carreira universitária, de realização de cursos de pós-graduação,
cresce naquele país, a partir de então, o número de profissionais com título de
mestrado e doutorado.
Ao serem introduzidas, durante os cursos de pós-graduação, no mundo da
Filosofia da Ciência, as enfermeiras passaram a refletir, de modo sistemático e
deliberado, acerca da natureza da Enfermagem e dos propósitos para os quais a
profissão existia. Em conseqüência, passou-se a proclamar a urgência da
constituição de um corpo de conhecimento substantivo que pudesse ser
identificado como a Ciência da Enfermagem e que, sobretudo, viabilizasse o
reconhecimento externo da profissão como um ramo específico de estudo e de
produção de conhecimento científico(16). Desenvolver tal corpo de conhecimento
passou a ser visto como uma questão de vital importância para a sobrevivência e
evolução da Enfermagem pois, a profissão não poderia "continuar a existir sem
que tornasse explícitas suas bases teóricas para a prática, de forma que esse
conhecimento pudesse ser comunicado, testado e expandido"(17:204).
Voltado, pois, para o preenchimento da lacuna existente no que diz respeito à
necessidade de descrever, explicar, predizer ou controlar os fenômenos que
pertencessem ao seu domínio de interesse a partir de referenciais próprios,
esse novo enfoque forneceu o ímpeto para o desenvolvimento de teorias de
enfermagem, assim como para o estabelecimento de dispositivos que assegurassem
a utilização desse conhecimento na prática.
Conforme é sabido, o marco inicial para o desenvolvimento de referenciais
teóricos próprios da área foi a publicação, em 1952, do livro de Hildegard
Peplau abordando o relacionamento interpessoal em enfermagem. A partir de
então, outras teóricas norte-americanas desenvolvem e publicam novas teorias de
enfermagem, em que selecionam e inter-relacionam, a partir de diferentes pontos
de vista filosóficos, conceitos que refletem a natureza e o escopo da
Enfermagem.
De acordo com Meleis(18), a análise das teorias de enfermagem permite que sejam
classificadas de dois modos distintos. No primeiro, a classificação é feita a
partir da identificação do foco primário, o que possibilita distinguir quatro
grupos de teorias de enfermagem: 1) as centradas no cliente; 2) as centradas no
relacionamento entre o cliente e o meio ambiente; 3) as centradas nas
interações enfermeira-cliente; e 4) as centrados na terapêutica de enfermagem.
No segundo modo, a classificação das teorias é feita tendo por base o papel que
as enfermeiras desempenham na prática profissional e a escola de pensamento a
que as teóricas que as elaboraram estavam ou estão ligadas. Nesse modo,
distinguem-se três grupos de teorias de enfermagem: 1) as orientadas para as
necessidades dos clientes (o "que" do cuidado de enfermagem), elaboradas por
teóricas identificadas com a escola de pensamento do Teacher's College da
Universidade de Columbia, como Faye Abdellah, Virginia Henderson e Dorothea E.
Orem; 2) as orientadas para o processo de interação enfermeira-cliente (o
"como" do cuidado de enfermagem), elaboradas por teóricas identificadas com a
escola de pensamento da Escola de Enfermagem da Universidade de Yale, como
Imogene M. King, Ida Jean Orlando, Josephine Paterson e Loretta Zderad,
Hildegard Peplau, Joyce Travelbee e Ernestine Wiedenbach; e 3) as orientadas
para os resultados das ações de enfermagem (o "porque" do cuidado de
enfermagem), elaboradas por teóricas identificadas com a escola de pensamento
conhecida como Leste/Oeste (ou Nova Iorque/Los Angeles) e que tem como
representantes principais Dorothy Johnson e Martha Rogers, além de Myra Estrin
Levine e Sister Callista Roy.
Como foi afirmado inicialmente, o conhecimento e o conhecer são fenômenos
evolutivos, sujeitos a enriquecimentos e a alterações progressivos, que se
destinam às nossas necessidades de ajuste intelectual com o meio ambiente, em
um dado espaço e tempo. Assim, a partir do final da década de 1970, observa-se
ter ocorrido uma importante mudança na orientação paradigmática das teorias
elaboradas no âmbito da Enfermagem as quais, ao invés de refletir a perspectiva
funcionalista predominante nas décadas anteriores, passam a incorporar
dimensões qualitativas que caracterizam o papel social da profissão, não a
partir do que as enfermeiras fazem, mas a partir do que se pode afirmar que
seja a essência da Enfermagem(16). Nesse contexto, várias teóricas, como
Madeleine Leininger, Jean Watson, Patricia Benner e Judith Wrubel, Delores
Gaut, Peggy Chinn, entre outras, baseadas em concepções filosóficas humanistas,
elaboraram ou estão elaborando teorias do cuidado, fenômeno esse visto por
essas teóricas como o cerne, o coração ou a própria alma da Enfermagem. Essas
teorias cultivam o reconhecimento tácito da significância dos padrões estético,
ético e pessoal de conhecimento para a Enfermagem, os outros três padrões
fundamentais de conhecimento, além do empírico, que foram descritos por Barbara
Carper em 1978(16).
A divulgação e subseqüente utilização na prática profissional (ensino, pesquisa
e assistência) desses referenciais teóricos não se limitou, como é de se supor,
à cultura de enfermagem norte-americana, extrapolando suas fronteiras para o
âmbito internacional e, inclusive, estimulando elaborações semelhantes por
enfermeiras de outros países.
No Brasil, a primeira enfermeira a falar sobre teoria no campo profissional foi
Wanda de Aguiar Horta, que procurou despertar a Enfermagem brasileira para a
importância do assunto(11). Sua obra reflete inicialmente o empenho na
divulgação do conhecimento acerca de teorias elaboradas pelas enfermeiras
norte-americanas e do processo de enfermagem, entendendo-o como o instrumento
metodológico por meio do qual esses referenciais seriam aplicados na prática
profissional. Posteriormente, faz ela própria o esforço de síntese teórica e
divulga, em 1974, a teoria das necessidades humanas básicas.
A partir do pioneirismo da Dra. Wanda de Aguiar Horta, o conhecimento a
respeito das teorias de enfermagem tem avançado consideravelmente no meio da
enfermagem brasileira(11), para o que têm contribuído os cursos de pós-
graduação stricto sensu da área e a constituição de grupos de estudo e pesquisa
sobre a fundamentação, tecnologia e instrumentação da Enfermagem. Em alguns
desses cursos ou grupos, além de se promover a discussão sobre as teorias de
enfermagem já existentes, ou sobre teorias elaboradas em outros campos do
conhecimento, tem-se estimulado a reflexão teórico-filosófica, seja a de
caráter pessoal/individual ou a grupal/coletiva, e essas atividades têm
resultado em alguns produtos concretos, tais como a teoria sistêmico-ecológica,
que vem sendo desenvolvida por Rosalda Paim(19); o modelo de organização da
enfermagem, proposto por Liliana F. Daniel(20); o referencial do cuidado
holístico-ecológico, elaborado por Zuleica Maria Patrício(21); ou a teoria de
intervenção práxica da enfermagem em saúde coletiva, descrita por Emiko
Yoshikawa Egry(22), entre outros exemplos possíveis.
Além disso, concorrendo para a expansão do arsenal metodológico utilizado pela
área no processo de conhecer, vale destacar a modalidade de pesquisa
convergente-assistencial proposta por Mercedes Trentini e Lygia Paim, que
representa para as profissionais de enfermagem, nas palavras das autoras, "um
instrumento útil para 'aprender a pensar o fazer' no seu cotidiano, pesquisando
as implicações teóricas e práticas do seu fazer"(23:28). Partindo do
pressuposto de que o ambiente concreto da prática profissional é o lugar por
excelência para se testar a validade do conhecimento que tem sido gerado no
âmbito da Enfermagem, pode-se afirmar que a pesquisa convergente-assistencial é
uma modalidade bastante adequada ao teste das teorias de enfermagem disponíveis
na literatura da área.
Pelo exposto, não nos restam dúvidas de que as teorias desenvolvidas no âmbito
da Enfermagem têm concorrido para explicitar a complexidade e multiplicidade de
conceitos representativos dos fenômenos que definem e delimitam seu campo de
interesse, assim como para explicitar as múltiplas perspectivas a partir das
quais é possível expressar as crenças e valores da área em relação a esses
fenômenos. Em seu processo evolutivo, as teorias de enfermagem têm, pois,
contribuído para a formação de uma base relativamente sólida de conhecimento,
que organiza o mundo fenomenal da Enfermagem em torno de quatro conceitos
centrais, ou domínios temáticos, amplamente reconhecidos como os mais
recorrentes na literatura teórica da área - enfermagem, ser humano, meio
ambiente (físico, social e simbólico) e saúde, considerados como a matriz
disciplinar da Enfermagem.
Os quatro conceitos centrais, assim como outros conceitos que a eles se
articulam nas proposições teóricas elaboradas pelas autoras das teorias da
área, participam da construção da linguagem especial da Enfermagem, ou seja, da
construção do vocabulário particular utilizado pelo grupo sócio-profissional
constituído pelos profissionais e ocupacionais de enfermagem, em face do
interesse comum, ou do fim comum de nomear os fenômenos ou as atividades
pertinentes à profissão.
A linguagem é parte da vida social dos grupos humanos(24). Como tal, é sujeita
a acréscimos vocabulares e a alterações dinâmicas no significado discursivo e/
ou denotativo de termos já incorporados a seu léxico. Do mesmo modo que ocorre
com o linguajar de uma determinada formação sócio-cultural, a linguagem técnica
de um campo específico de conhecimento, em sua evolução histórica, está sujeita
a novidades e a modismos vocabulares(25). Isso também ocorre na linguagem
especial da Enfermagem, em que podem ser identificados, além de acréscimos
vocabulares, modismos terminológicos correspondentes a etapas específicas, por
exemplo, da história das políticas públicas e práticas sociais da área da
saúde, do desenvolvimento técnico-científico da área da saúde ou da própria
profissão. Em determinados momentos dessa história alguns termos inflacionam
verdadeiramente nosso vocabulário técnico, mesmo que, sobre alguns deles, paire
uma verdadeira cortina de fumaça semântica obscurecendo seu significado e
dificultando a compreensão e o reconhecimento intersubjetivo dos fenômenos a
que se referem.
Vale ressaltar que garantir a compreensão e o reconhecimento intersubjetivo do
significado dos conceitos incluídos na linguagem especial da Enfermagem é, a
nosso ver, um aspecto básico, pois eleva seu potencial de aplicabilidade
prática, seja no ensino, na pesquisa ou na assistência de enfermagem. Se temos
a pretensão de promover a Ciência da Enfermagem, precisamos tornar objetiva a
linguagem que a expressa; precisamos situar os termos que a constituem em um
universo comum de percepção e de comunicação o universo instituído pela cultura
da Enfermagem. É preciso ter a clareza de que atribuir um nome (rótulo
lingüístico) a fenômenos específicos representa apenas o começo da caminhada
pois, ao nomear uma entidade pré-lingüística, nós estamos admitindo formalmente
sua existência e criando a possibilidade para que se construa e se promova, de
modo sistemático e contínuo, o conhecimento acerca do significado desse
fenômeno(26).
Tomemos como exemplo, entre tantos outros possíveis, o fenômeno cuidado de
enfermagem. Talvez porque esse fenômeno fosse algo tão óbvio, tão internalizado
em nosso mapa conceitual, durante um bom período de tempo nos esquivamos de
examinar, avaliar e promover seu significado no âmbito da prática profissional.
Atualmente, ao contrário, além das teorias que o abordam como tema central, há
disponível uma vasta literatura em que se abordam diferentes fenômenos
subjacentes ao cuidado de enfermagem, tais como conforto, toque, apoio,
esperança, reciprocidade, espiritualidade, confiança, etc.; em que se apontam
que aspectos constituintes da conduta humana são necessários para que o cuidado
se manifeste; em que se descrevem como o cuidado é experimentado pelos
pacientes e pelas enfermeiras(27); e em que, utilizando-se da riqueza vocabular
disponível, se complementa o termo cuidado com uma variedade de adjetivos que o
carregam de dimensões semânticas às vezes distintas, outras vezes semelhantes
ou associadas. Essa reflexão teórica tem resultado em uma ampliação de nosso
entendimento acerca do fenômeno cuidado de enfermagem e tem gerado inovações,
evoluções e/ou revoluções metodológicas e tecnológicas na prática profissional.
Ressalte-se haver, ainda, na atividade de reflexão teórico-filosófica que
focaliza conceitos relacionados a fenômenos particulares de interesse para a
área, a possibilidade de construção de teorias de enfermagem de amplitude
média, mais aderentes à prática profissional porque, via de regra, são
desenvolvidas pari passu com a execução de pesquisas diretamente vinculadas a
questões ou problemas que emergem da própria prática profissional. Há, na
linguagem especial da Enfermagem, um número considerável de conceitos que estão
reclamando por esse tipo de empreendimento.
3 Considerações finais
Pode-se afirmar que as teorias de enfermagem colocam em nossas mãos a
possibilidade de reflexão criativa e o domínio do nosso processo de trabalho,
além de uma possível ruptura com a tradicional execução detarefas
complementares ao ato médico(28). Entretanto, fazer a seleção da teoria de
enfermagem que vai guiar a prática profissional nem sempre é uma tarefa fácil
pois, conforme foi afirmado, cada uma das teorias disponíveis está organizada a
partir de diferentes visões de mundo e descrevem e inter-relacionam de modo
particular os quatro conceitos centrais da disciplina ser humano, meio
ambiente, saúde e enfermagem(29). Essa seleção requer, pois, um conhecimento
suficientemente aprofundado das diversas teorias disponíveis e das variáveis
que definem a situação específica do cliente ou do grupo de clientes de quem se
vai cuidar.
Para finalizar, lembramos que a Enfermagem tem sido proclamada por seus
exercentes como uma ciência e uma arte. Da mesma forma que, em uma galeria de
arte, não é o conhecimento do artista ou o instrumental que utilizou o que
importa, mas a obra artística criada por ele(30), pode-se afirmar que os
referenciais teóricos ou os instrumentos metodológicos e tecnológicos próprios
da área não são a Enfermagem. Enfermagem é o que se cria usando esse
conhecimento e esses instrumentos.