Análise das dissertações e teses de enfermagem sobre adolescência, Brasil,
1979-2000
REVISÃO
Análise das dissertações e teses de enfermagem sobre adolescência, Brasil,
1979-2000
Analyse of nursing dissertations and theses on adolescence - Brazil, 1979-2000
El análisis de las disertaciones y tesis sobre la adolescencia, Brasil, 1979-
2000
Thereza Maria Magalhães MoreiraI;Maria Salete Bessa JorgeII; Francisca
Elisângela Teixeira LimaIII
IEnfermeira. Doutora em Enfermagem, Professora da Universidade Estadual do
Ceará (UECE)
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem, Professora Titular da Universidade
Estadual do Ceará (UECE)
IIIEnfermeira. Doutoranda em Enfermagem, Professora da Universidade Estadual do
Ceará (UECE)
E-mail do autor: tmoreira@uece.br
1 Introdução
A faixa adolescente representa 34 milhões de indivíduos no Brasil(1). Este
grande contingente de jovens brasileiros evidencia a necessidade de políticas
públicas que lhes garantam saúde, educação, bem-estar e o desenvolvimento de
suas potencialidades.
No enfoque de saúde integral, é necessário que seja priorizado o modo de vida
das pessoas e seus vínculos(2), respeitando a saúde no contexto cultural.
A adolescência constitui um processo biológico de vivências orgânicas, no qual
se aceleram o desenvolvimento cognitivo e a estruturação da personalidade,
abrangendo a faixa etária dos 10 aos 19 anos(3).
O adolescente pode ser definido como alguém que teve o tempo necessário para
assimilar valores na comunidade; alguém cujo corpo chegou à maturação
necessária para que possa se consagrar às tarefas que lhe são apontadas por
esses valores, competindo no mundo em condições de igualdade(4).
O Ministério da Saúde considera adolescência como a faixa etária que vai dos 12
aos 19 anos5, abrangendo nesta faixa os conflitos enfrentados por estes
indivíduos, as mudanças físicas, sexuais, emocionais e relacionais como sendo
um processo natural do desenvolvimento e da firmação de sua personalidade.
A adolescência pode ainda ser considerada uma fase do desenvolvimento humano
situada entre a infância e a vida adulta, marcada por transformações biológicas
da puberdade e relacionada à maturidade biopsicosocial. Um período crítico
frente a tais mudanças, sujeito a crises características dessa fase. É um
momento de definição sexual, profissional e social; onde o ser adquire ou
descobre novos valores e adota novas responsabilidades(3).
Diante de tais definições, temos que na implementação das políticas públicas
necessárias pesam as pesquisas feitas na área. O interesse dos estudiosos sobre
a adolescência tem aumentado muito nos últimos anos. Temas como o conceito de
adolescência, a faixa etária que abrange, seus comportamentos característicos,
os agravos e as condições de saúde dessa clientela têm chamado a atenção dos
pesquisadores e ilustrado as páginas dos periódicos nos últimos anos.
Essa valorização do adolescente, no entanto, é recente. Há cerca de um século,
a adolescência não era tema reconhecido, compondo um grupo social sem destaque
na sociedade, o que tem se revertido na modernidade, rendendo um vasto campo de
produção científica(4).
O Programa de Saúde do Adolescente (PROSAD), criado em 1989 pelo Ministério da
Saúde brasileiro, prevê a interação com outros setores no sentido de promoção
da saúde, identificação de grupos de risco, detecção precoce de agravos,
tratamento adequado e reabilitação dos indivíduos nesta faixa etária, de forma
integral, multisetorial e interdisciplinar. Propõe ainda, entre muitas ações, o
exercício de uma rede de referência e contra-referência no setor saúde, em
centros culturais e organizações comunitárias; o apoio à implementação do
Estatuto da Criança e do Adolescente; a discussão de assuntos do interesse dos
adolescentes; o intercâmbio de informações sobre a adolescência; e a
participação do adolescente como agente multiplicador na promoção de saúde de
seus pares(3).
O enfermeiro, como profissional de saúde, é responsável pela promoção e
proteção da saúde dos adolescentes, com ações vinculadas às globais,
considerando aspectos políticos, sociais e econômicos que envolvam a saúde como
respeito à sua cidadania; e pela publicação desses trabalhos(6). Assim, a
produção de conhecimentos pela enfermagem em saúde do adolescente é processo
recente, como também a atuação do profissional junto a esse grupo, que vem se
configurando como objeto da assistência de enfermagem nas últimas décadas(7).
A produção científica nas várias áreas do conhecimento é meio indispensável
para o alcance do conhecimento científico. Os enfermeiros necessitam de
conhecimento que proporcione base sólida ao desenvolvimento de sua prática, o
que é exigência para sua plena autonomia(8). O processo da produção do
conhecimento, incluindo sua caracterização, tipo, organização, padrões e formas
têm se constituído em um tema de constante preocupação desta ciência(9).
A enfermagem tem estruturado princípios, normas, significados e formulado um
corpo de conhecimentos próprio. Tais esforços se concentram a partir de
experiências em sua prática, aperfeiçoando ou recriando um significado
conceitual do pensar o fazer em enfermagem. As informações decorrentes dessas
pesquisas têm contribuído na definição de seu papel institucional e social.
O atual momento de desenvolvimento do conhecimento de enfermagem no campo
empírico, em detrimento do clínico, favorece a criação de um espaço de
abstração e de construção de conceitos que representam o âmbito da enfermagem
(9).
As pesquisas em enfermagem devem ser desenvolvidas disciplinadamente, com ações
específicas e decisões apropriadas, custo-efetivas e que resultem em melhoria
do cuidado. As pesquisas de enfermagem na área de saúde do adolescente devem,
portanto, resultar em melhoria da atenção à saúde desse grupo. Mas que
conhecimentos estão sendo produzidos na enfermagem sobre adolescência? Qual
abordagem de conhecimento está sendo produzida? Há modelos teórico-referenciais
que fundamentam esta produção? Em que ambientes os dados foram colhidos?
A proposta deste trabalho tem vínculo com o desenvolvimento do ensino de
enfermagem em saúde coletiva na universidade pela autora, onde uma das áreas de
estudo é a saúde do adolescente, além do constante convívio com esta clientela
nos serviços de saúde e na universidade, e da realização de curso de
especialização na área, chamando sua atenção para a referida temática. A
intenção foi de buscar maior conhecimento acerca das dissertações e teses
realizadas na área nos últimos anos, para realizar um diagnóstico do que está
sendo publicado, mostrando caminhos para novos enfoques.
A partir do exposto, traçamos como objetivo geral: Averiguar o conhecimento
produzido na enfermagem brasileira sobre a temática adolescência no período de
1979 a 2000. E como objetivos específicos: 1)traçar um perfil das dissertações
e teses relacionadas no período; 2)analisar as tendências teórico-metodológicas
relativas a esta produção e 3)sugerir áreas prioritárias no trabalho dos
enfermeiros com adolescentes a partir do encontrado na coleta de dados.
2 Procedimentos metodológicos
O estudo é de natureza documental, que pode se constituir de uma abordagem
valiosa(10) seja complementando as informações obtidas por outras técnicas,
seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema.
A pesquisa documental compreende as seguintes fases: escolha do tema,
delimitação dos objetivos, elaboração do plano de trabalho, identificação e
localização das fontes a serem pesquisadas, obtenção e leitura do material
identificado, apontamento deste material por meio de fichas, análise,
interpretação dos dados e redação final do estudo. Essas fases ocorrem numa
seqüência natural e de forma articulada(11).
Os documentos utilizados para o desenvolvimento do estudo foram os contidos no
CD-room do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEN), compreendendo
os resumos das dissertações e teses desde 1979 a 2000, limites de catalogação
do CD-room e tempo considerado adequado para o desenvolvimento de pesquisas
documentais.
Foram selecionadas as dissertações e teses cujas temáticas eram adolescência ou
adolescente. Uma vez de posse dessas pesquisas, as mesmas foram submetidas a
leituras exaustivas, exploratórias, seletivas e analíticas, nas quais
procuramos identificar e responder os questionamentos previamente determinados
em um instrumento, que foi submetido à testagem para sua melhor adequação ao
estudo.
De posse da análise das produções, os resultados foram apresentados em
gráficos, de modo a permitir melhor compreensão dos mesmos. A partir daí,
buscamos discutí-los respaldadas em fundamentação teórica, sendo escolhido para
esta análise os conceitos de Meleis(12), além da literatura pertinente. O
referencial proposto pela autora refere três tipos de abordagens do
conhecimento:
- Clínica, com a descoberta de fenômenos e o emergimento de
conceitos, sua proposta é explicar, prescrever, desenvolver teorias e
a prática clínica. Sua evolução é guiada para situações práticas e
suas proposições envolvem a linguagem da experiência;
- Conceitual, com descoberta de fenômenos, seus conceitos são
utilizados ou redefinidos em teorias, sua proposta visa o
desenvolvimento da teoria e sua aproximação é com a conceitualização.
Sua evolução é guiada para a teoria;
- Empírico, com a criação de fenômenos. Seus conceitos são
utilizados, redefinidos e modificados para a pesquisa. Propõe
descrever, prever, explicar, desenvolver a teoria. Tem aproximação
com testes de mensuração e sua evolução é guiada à pesquisa.
A escolha por essa proposta se deu pelo fato desse modelo ser claro, simples e
suficientemente abrangente no foco em questão.
3 Resultados e discussão
Na análise, detectamos que o número de autores e o do somatório de dissertações
e teses foi de 46. A seguir, apresentaremos algumas características dessa
produção.
No Gráfico_1, observamos que 20% (nove) dos estudos realizados no período de
1979 a 2000, acerca da temática adolescente registrados no CD-room são teses de
doutorado e 80% (37) são de dissertações de mestrado.
Esses dados podem ser decorrentes do maior acesso dos enfermeiros ao mestrado
que ao doutorado, pois os programas de pós-graduação em enfermagem que
contemplam o doutorado ainda são restritos, privilegiando alguns estados do
Brasil, em geral, os localizados na região Sudeste.
A enfermagem, ao longo das últimas décadas, tem se empenhado na construção de
um corpo de conhecimento marcado por conceitos amplos, focalizando a
sistematização da assistência(13).
Essa afirmação condiz com o elevado número de dissertações e teses pesquisadas
sobre a adolescência, e nos leva a refletir que essa fase da vida tem merecido
a atenção de vários estudiosos e tem sido descrito como uma fase de
desenvolvimento do ser humano(14), onde ocorrem grandes transformações no
indivíduo em nível corporal, mental e social.
Dessa forma, reiteramos a necessidade de estudo da saúde do adolescente nos
programas de pós-graduação em enfermagem.
No Gráfico_2, verificamos que há uma predominância de apresentações de
dissertações e de defesas de teses sobre a temática adolescente na região
Sudeste, totalizando 32 dos 46 estudos encontrados sobre adolescente.
Ressaltamos que houve uma predominância no Rio de Janeiro, na Escola de
Enfermagem Anna Nery, com 13 estudos; seguida de São Paulo, na Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto, com oito estudos.
Destacamos, ainda, a produção da Região Nordeste na temática, que foi de 11
trabalhos, entre dissertações e teses, sendo cinco na Universidade Federal da
Paraíba (UFPB), três na Universidade Federal do Ceará (UFC) e três na
Universidade Federal da Bahia (UFBA), o que já pode ser um resultado do
incentivo às pesquisas nessa região nos últimos anos. Ressalte-se, ainda, a
contribuição da Rede de Enfermagem do Nordeste (RENE) na elevação da produção
científica nessa região. Esse número é considerado ainda mais relevante se
comparado com a produção da Região Sul, que foi de apenas três estudos.
Os achados podem ser decorrentes de a maioria dos cursos de pós-graduação
estarem localizados na Região Sul e Sudeste, o que vem contribuir com a
formação de massa crítica para criação desses programas, dificultando, assim, a
ampliação dessa formação para outras regiões do país.
Nos últimos anos, uma política de incentivo à pesquisa tem se estabelecido nas
Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, numa tentativa de melhor distribuição
dos centros de pesquisa no país, podendo haver melhoria nessas regiões nos
próximos anos.
No Gráfico_3, observamos que o interesse sobre o adolescente é recente e tem
aumentado significativamente nos últimos anos. A prova disso é que até o início
da década de 90 somente dois trabalhos foram registrados no CEPEn sobre a
temática. No período de 1990 a 1994 houve um aumento nessa produção de 450% em
relação à época anteriormente citada, elevando de dois para nove estudos na
área. Esse aumento é, numericamente, ainda mais notório no período de 1995 a
1999, quando houve um total de 35 trabalhos desenvolvidos na área, numa clara
ascensão do interesse dos pesquisadores pela temática.
Portanto, percebemos que há uma necessidade cada vez maior de se pesquisar
sobre o tema devido às peculiaridades próprias da adolescência, que requerem um
cuidar e um pesquisar sistematizado e direcionado para essa clientela.
A cada dia a enfermagem amplia o seu campo de conhecimento como forma de
otimizar a prática profissional, adquirir reconhecimento social e reforçar o
caráter de cientificidade da profissão(13). Tal afirmação corrobora com o
demonstrado no gráfico 3, ao se observar o crescimento da pesquisa sobre
adolescência nos últimos anos.
Acreditamos que a atualização desses resultados até o ano de 2003 continuaria
demonstrando uma curva ascendente do interesse pelo assunto, devido ao atual
momento em que se encontram as políticas públicas voltadas ao adolescente no
país em fase de delimitação e aprimoramento.
Em relação à temática, vemos no Gráfico_4 que as dissertações e teses se
voltaram ao estudo do tema, abordando questões como a adolescência de forma
genérica, com nove pesquisas; a pessoa do adolescente em si, com 25 estudos;
mãe adolescente, com sete trabalhos desenvolvidos; e criança e adolescente, com
cinco pesquisas.
Inseridos nestas questões, foram focalizados os assuntos: Processo saúde-doença
(12), sexualidade (7), atendimento ao adolescente (5), ação ou processo de
enfermagem (4), educação em saúde (3), saúde mental do adolescente (2),
contracepção (2), aleitamento materno na adolescência (2), meninos de rua (2),
cuidado com a família (1), desnutrição (1), violência no trânsito (1), trabalho
(1), álcool (1), abuso sexual (1) e aborto (1).
Percebemos, então, a grande abrangência temática em que está inserida a
adolescência. Nesta fase, o adolescente tem que encarar diversas mudanças - a
menina é obrigada a lidar com um novo corpo que ainda desconhece e a adequar-se
ao novo papel de mulher, e o menino sofre mudanças no tom da voz e no corpo,
entre outras modificações significativas, como as alterações psicológicas,
caracterizadas pela rebeldia, configurando a adolescência como um período
envolto na necessidade de auto-afirmação.
De um modo geral, o comportamento dos jovens sofre influência de fatores
socioculturais e econômicos, freqüentemente com características regionais.
Muitas vezes, na ânsia de se adaptarem às mudanças, os adolescentes não
encontram respostas para suas indagações, procurando compensação por meio da
agressividade, da gravidez na adolescência, do desinteresse pelos estudos,
envolvimentos com álcool e outras drogas. Estes problemas têm se tornado
freqüentes na sociedade e uma das formas para tentar prevení-los é orientá-los
sobre os assuntos de seu interesse e ocupá-los em atividades recreativas,
educativas e profissionalizantes, acompanhando-os sob uma ótica sistematizada
das ações de enfermagem, observada nos estudos desenvolvidos, que relacionam
atendimento ao adolescente, ação ou processo de enfermagem, educação em saúde,
saúde mental do adolescente, entre outros, conforme narrado anteriormente. Cabe
aos demais profissionais de saúde também estudar meios apropriados de
acompanhamento.
Percebemos que atualmente a literatura tem estudado, entre outros enfoques,
questões inerentes à convivência dos adolescentes com os familiares, indo ao
encontro de necessidades observadas na observação de que a família ressente-se
dos momentos de viver com o aconchego do espaço reservado para seus membros, o
que conduz ao distanciamento entre as pessoas e dificulta o encontro familiar
tão importante nessa fase de vida(14). Observamos também o grande interesse por
temas ligados à vida reprodutiva dos adolescentes - sexualidade, contracepção,
abuso sexual e aborto. E, ainda, sobre as práticas de enfermagem voltadas a
esse grupo.
A atuação da enfermagem com o público adolescente é freqüente e deve utilizar
estudos teóricos para embasar sua prática visando o pleno desenvolvimento das
potencialidades dos adolescentes..
No Gráfico_5, observamos que 22 dos 46 estudos são ligados à área clínica, ou
seja são estudos relacionados a doenças, formas de tratamento, entre outros.
Nove estudos são empíricos, relacionados a experiências, e 15 são conceituais,
que refletem sobre o fazer da enfermagem, para posteriormente aperfeiçoar a
prática.
Apreendemos, portanto, que o modelo biomédico ainda se encontra fortemente
arraigado nos estudos desenvolvidos pelos enfermeiros sobre a adolescência. O
atual estágio de desenvolvimento do Sistema Único de Saúde (SUS) faz com que
essa seja uma visão ultrapassada na compreensão do processo saúde-doença,
tornando necessário o desenvolvimento de mais pesquisas empíricas e
conceituais. Os estudos conceituais são indispensáveis ao aprimoramento e
aprofundamento da prática de enfermagem no sentido de explicar, desenvolver
teorias e a prática clínica, redimensionando situações práticas e suas
proposições(12), as quais envolvem a teoria e a prática de enfermagem.
Quanto à natureza das dissertações e teses sobre adolescência, há uma nítida
predominância de estudos qualitativos (34), em detrimento dos quantitativos
(12).
Os estudos qualitativos citados foram etnográfico (4), fenomenológico (7),
interacionismo simbólico (1), representação social (5), materialismo histórico/
dialético (5) e outros estudos qualitativos sem fundamentação teórica descrita
no resumo do CEPEn (12).
No total, foram 43 estudos exploratório-descritivos, dois experimentais e um
estudo bibliográfico. As pesquisas qualitativas direcionam a uma experiência
social, valem-se da fonte oral e se encaminham na busca dos significados de
vivências para os sujeitos(15). Essa aproximação da enfermagem com as ciências
humanas é justificada pelo seu direcionamento ao cuidar de seres humanos, dos
quais necessita conhecer as nuanças e subjetividades a fim de traçar linhas de
ação para o cuidar.
Por outro lado, a realidade não tem apenas sua versão qualitativa, mas também
uma quantitativa, como observamos nos 12 trabalhos apresentados nessa vertente.
Quanti e qualitativo, ao mesmo tempo em que se opõem, complementam-se, dando
corpo a uma compreensão totalizadora da realidade(16)).
Quanto aos sujeitos envolvidos nas dissertações e teses analisadas, 30
pesquisaram somente os adolescentes, cinco a família do adolescente, três os
adolescentes e os profissionais, sete pesquisaram mães adolescentes e um fez
pesquisa bibliográfica do tema.
Uma compreensão ampliada das vivências desse adolescente é necessária na busca
da melhor delimitação de intervenções para sua saúde, requisitando o estudo não
somente do adolescente, mas também das pessoas que compartilham seu cotidiano e
interferem no cuidar de sua saúde, como sua família e comunidade.
A necessidade da existência de serviços de saúde de qualidade tem sido
defendida como um desafio ao alcance de melhores condições de vida e saúde dos
adolescentes, o que também significa compreender a importância das dimensões
econômica, social e cultural que permeiam a vida desse grupo(5).
Portanto, é nítida a necessidade de estudos que envolvam mais a família do
adolescente e a comunidade na qual ele vive, tornando-os sujeitos partícipes e
atuantes em todo o processo de saúde-doença e capacitando-os à promoção da
saúde e ao gerenciamento de suas necessidades de saúde, nos casos em que isso é
possível.
No Gráfico_8, percebemos que 22 autores não referem o local de coleta de dados,
nove a escola, sete citam o hospital, seis o ambulatório ou centro de saúde, um
o Instituto Médico Legal (IML) e um o domicílio como local de coleta de dados.
Dos locais de estudo descritos, ainda observamos uma elevada concentração de
pesquisas nas unidades de saúde (13) e poucas no habitat desse adolescente
(01), sendo que uma importante referência de elo entre esses tem sido a escola,
com nove estudos.
A escola se constitui, indiscutivelmente, um espaço importante e privilegiado
para o desenvolvimento pessoal e social dos adolescentes e para seu
direcionamento aos serviços de saúde5. Educação e saúde historicamente têm
caminhado de mãos dadas na busca de melhores condições de vida e saúde à
população, especialmente entre adolescentes, clientela largamente encontrada
nas escolas e alvo de muitas ações em saúde. Essa intersetorialidade é
importante e pode ser útil na elaboração e implementação de políticas públicas
mais próximas do cotidiano do adolescente, facilitando o alcance dos objetivos
traçados por essas e conduzindo a um movimento maior de cidadania e autonomia
em saúde.
4 Considerações finais
A partir do exposto, podemos concluir que, das 46 dissertações de mestrado e
teses de doutorado cadastradas pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem
(CEPEn) como referentes ao período 1979-2000 sobre a temática saúde do
adolescente, a maioria (37) são de dissertações, constituindo 80% do total
encontrado, enquanto 20% são de teses.
Boa parcela teve sua defesa na Região Sudeste (32) e foi desenvolvida,
prioritariamente, no período de 1995 a 1999 (35), o que demonstra um interesse
recente por essa área e, ao longo do estudo, foi observada também uma elevação
contínua dos números de pesquisas em enfermagem sobre adolescência.
Quanto às tendências teórico-metodológicas relativas a essa produção, foi
observada a prevalência de estudos clínicos (22) e conceituais (15), ligados à
pessoa do adolescente (25), à adolescência de forma genérica (9) e às mães
adolescentes (7). Em sua maioria, constituíram estudos de natureza qualitativa
(34) e foram desenvolvidos em unidades de saúde (13), tendo como alvo somente
os adolescentes (30), não considerando, muitas vezes, o aspecto contextual da
saúde nesse grupo.
Com base nos espaços sugeridos pela produção científica encontrada, passamos a
sugerir como áreas prioritárias para o trabalho do enfermeiro com adolescentes:
o desenvolvimento de pesquisas que considerem o adolescente em seu contexto,
destacando o papel da família e da comunidade em que vive esse adolescente; a
realização de pesquisas que tenham como cenário o universo comunitário,
praticamente não relatado na produção encontrada; e o desenvolvimento de
pesquisas empíricas e conceituais, que venham a equilibrar a totalização de
pesquisas nos três tipos de abordagens do conhecimento apresentados.
Ressaltamos, ainda, que o desenvolvimento de teses de doutorado deve ser
incentivado, em especial nas regiões mais carentes do país, valorizando a
contribuição de tais pesquisas para a melhoria da condição social do povo
brasileiro, numa assertiva clara aos preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS).