Diagnósticos de medo e ansiedade: validação de conteúdo para o paciente
queimado
PESQUISA
Diagnósticos de medo e ansiedade: validação de conteúdo para o paciente
queimado*
Diagnoses of fear and anxiety: content validation for a burned patient
Diagnósticos de miedo y ansiedad: validez de contenido en el paciente quemado
Ellen Cristina BergamascoI; Lídia Aparecida RossiII; Emilia Campos de
CarvalhoIII; Maria Célia Barcellos DalriIV
IAluna do Programa de Pós-Graduação em Saúde do Adulto da Escola de Enfermagem
da USP e aluna do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE)
IIEnfermeira. Professora Associada junto ao Departamento de Enfermagem Geral.
Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto,Universidade de São
Paulo, (DEGE - EERP, USP)
IIIEnfermeira. Professor Titular junto ao DEGE - EERP, USP
IVEnfermeira. Professora Doutora junto ao DEGE - EERP, USP
E-maildo autor: ecdcava@eerp.usp.br
1 Introdução
A pessoa que sofre um trauma térmico passa a viver uma série de experiências
que fatalmente provocarão ansiedade e medo. A interrupção brusca das atividades
do dia a dia perde a importância frente à luta pela sobrevivência no primeiro
momento. O cuidado ao paciente que sofreu um trauma térmico envolverá mudanças
diárias de curativos, desbridamentos e enxertos. Se por um lado, o enxerto
representa uma esperança da cura da ferida, por outro, pode implicar na
realização de outra ferida bastante dolorosa, a área doadora e, ainda, na
realização de uma anestesia. Assim, um alto nível de ansiedade e de medo,
freqüentemente, acompanha o paciente em todo o período de tratamento e quando o
paciente percebe que a alta hospitalar está próxima, outros aspectos passam a
estar presentes, podendo provocar novo ciclo de ansiedade e medo.
Na revisão de literatura, encontramos estudos que abordaram a ansiedade no
paciente que sofreu queimaduras relacionada à dor, à realização de
procedimentose à adaptação psicológica(1-7). A relação entre ansiedade em
crianças queimadas e o uso da sedação na noite que antecede a cirurgia foi um
dos aspectos estudados. Neste estudo, observou-se redução dos níveis de
ansiedade com o uso de medicação (8).
A incidência de complicações psicossociais em pacientes queimados adultos
graves foi também investigada. As manifestações mais freqüentes de problemas
dessa ordem apresentadas foram labilidade emocional e choro(9). Outros autores
pesquisaram três diagnósticos comuns no tratamento de pessoas em estado crítico
(ansiedade, desesperança e desobstrução ineficaz de vias aéreas) e por meio de
validação multicêntrica internacional, compararam os diagnósticos validados por
enfermeiros de seis países(10). Utilizaram nesse estudo o Modelo de Validação
de Conteúdo(11) (DCV) e concluíram que as características definidoras mais
relevantes para esses diagnósticos são diferentes e que essas diferenças são
atribuídas à variação de linguagem, cultura, práticas de enfermagem e ao
processo de diagnóstico.
No Brasil, os estudos sobre ansiedade, na área de enfermagem, têm enfocado a
situação de estresse vivenciada pelo paciente cirúrgico nos diferentes momentos
do período perioperatório(12-13). Em um estudo sobre diagnósticos de enfermagem
em pacientes que sofreram queimaduras, o diagnóstico de ansiedade foi
identificado em 58,8% dos pacientes estudados(14).
A ansiedade e o medo são definidos respectivamente como: "um estado subjetivo
no qual o indivíduo experimenta um sentimento de incômodo e inquietação, cuja
fonte é, freqüentemente, inespecífica ou desconhecida por ele"(15:134) e como o
"estado no qual o indivíduo apresenta um sentimento de temor relacionado a uma
fonte identificável que ele pode verificar"(15:137).
As características definidoras para o diagnóstico de ansiedade são:
comportamentais: produtividade diminuída, observação atenta e
vigilância, pouco contato olho-a-olho, agitação, olhar em torno,
movimentos estranhos, preocupações expressas devido à mudança em
eventos da vida, insônia, inquietação; afetivas: pesaroso,
irritabilidade, angústia, assustado, nervoso, excessivamente
excitado, desamparo aumentado doloroso e persistente, incerteza,
cautela aumentada, foco em si mesmo, sentimentos de inadequação,
receoso, aflito, apreensão, ansioso; objetivas: tremores das mãos,
insônia, subjetivas: fraqueza, preocupado; fisiológicas: respiração
aumentada, voz trêmula, urgência urinária, pulso aumentado, dilatação
pupilar, reflexos aumentados, dor abdominal, distúrbio do sono,
formigamento nas extremidades, tensão aumentada, excitação
cardiovascular, perspiração aumentada, tensão facial, anorexia,
palpitação, diarréia, hesitação urinária, fadiga, boca seca, pulso
diminuído, rubor facial, vasoconstrição superficial, contração
muscular, pressão sanguínea diminuída, náusea, freqüência urinária,
tontura, dificuldades respiratórias, pressão sanguínea aumentada;
cognitivas: bloqueio de pensamento, confusão, preocupação,
esquecimento, ruminação, atenção prejudicada, campo de percepção
diminuído, medo de conseqüências inespecíficas, tendência a culpar
outros, dificuldade para concentrar-se, capacidade diminuída de
solucionar problemas, capacidade de aprendizado diminuída,
consciência dos sintomas fisiológicos(16:132). .
Já o medo pode ser caracterizado. por:
temor, comportamento de briga - agressão, foco em "algo" lá fora,
estado de alerta aumentado, sujeito a pânico freqüente, comportamento
de briga - retraimento, preocupação, alarme, molhar a cama,
amedrontado, nervoso, impulsividade, capacidade de identificar o
objeto do medo, estimulação física, identifica objeto do medo,
concentração na fonte, assustado, apreensão, resposta imediata ao
objeto do medo, aterrorizado, freqüência cardíaca aumentada,
autosegurança diminuída, amedrontado, olhos arregalados,
comportamento de ataque, tensão aumentada, horror, cautela(16:134).
As diferenças entre os diagnósticos de medo e ansiedade foram examinadas em um
estudo em que se concluiu que o medo é resultado de uma ameaça que pode ser
localizada e identificada. Caracteriza-se pela apresentação pelo paciente de
uma resposta simpática com aumento do estado de alerta. O indivíduo com
ansiedade apresenta ambas as respostas: simpática e parassimpática. As
respostas dependem do nível de ansiedade, mas o indivíduo relata sentimentos de
incerteza(17).
Alguns fatores que podem estar relacionados à ansiedade são:
conflitos inconscientes de valores e metas essenciais da vida, ameaça
do autoconceito, ameaça de morte, ameaça ou mudança no estado de
saúde, ameaça ou mudança na função do papel, ameaça ou mudança no
ambiente, ameaça ou mudança na interação dos padrões, crise
situacional ou existencial, contágio ou transmissão interpessoal,
necessidades não atendidas(15: 131).
Já o medo pode estar relacionadoa:
valores culturais relacionados à morte e doença; possibilidades de
mudanças fisiológicas como: taquicardia, perda da visão, perda da
audição, perda de um membro, paralisia; separação de pessoas
significativas, numa situação potencialmente ameaçadora como por
exemplo, hospitalização, tratamento prolongado, prisão, etc.,
barreiras na comunicação, estímulos fóbicos(15:134).
Considerando que os indicadores clínicos desse diagnóstico podem apresentar
diferenças dependendo de aspectos culturais, sócio-econômicos do paciente e dos
seus problemas de saúde, e que não há trabalhos na literatura que tenham
enfocado as características definidoras desses diagnósticos no paciente vítima
de queimaduras, realizamos esse estudo com os objetivos de identificar e
validar as características definidoras dos diagnósticos de enfermagem medo e
ansiedade, encontradas na literatura, para o paciente que sofreu queimaduras.
2 Metodologia
Foi realizado um levantamento bibliográfico com o objetivo de listar todas as
características definidoras que poderiam, de alguma forma, indicar a presença
dos diagnósticos de medo e ansiedade. Esse levantamento foi realizado mediante
pesquisa nas bases de dados MEDLINE e LILACS, retrocedendo até o ano de 1980.
Iniciamos a busca pelas palavras medo e ansiedade. Foram então construídos dois
instrumentos compostos por 97 características cada um, entre elas,
características definidoras dos diagnósticos de enfermagem de medo e de
ansiedade propostas pela NANDA(15-16), além de outras que foram encontradas na
literatura(13,17-22).
Quando se deseja validar dois diagnósticos semelhantes, deve-se elaborar dois
instrumentos iguais, porém com instruções diferentes(11,23). Neste estudo, um
instrumento continha a definição de medo e orientações para que o entrevistado
respondesse o questionário de acordo com essa definição, ou seja, que
identificasse as características definidoras pertinentes ao diagnóstico de
medo. Um outro instrumento, com as mesmas características definidoras, foi
utilizado para o diagnóstico de ansiedade, com orientações para que nas
respostas fosse considerada a definição desse diagnóstico, ou seja que os
participantes identificassem as características definidoras pertinentes ao
diagnóstico de ansiedade.
Com base na literatura(13,17-22), foram elaboradas definições operacionais para
cada característica. Ao elaborar essas definições, observamos que algumas
características tinham o mesmo significado. Essas características foram
excluídas dos instrumentos. A característica ansiedade também foi excluída do
instrumento por ter sido considerada uma característica definidora óbvia(22).
O estudo foi iniciado após aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e Pesquisa
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo (HCFMRP - USP) e pelo Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFM - USP), locais onde o
estudo foi desenvolvido. Foi solicitado o consentimento de todos os
participantes.
Os instrumentos de coleta de dados foram submetidos à validação de aparência e
conteúdo e a um pré-teste, conforme proposto na literatura(24). Os resultados
obtidos mediante a realização desse procedimento foram utilizados para melhorar
a aparência e conteúdo dos instrumentos. Uma vez elaborados e testados os
instrumentos, iniciamos a realização da validação de conteúdo dos diagnósticos
medo e ansiedade de acordo com o Modelo de Validação de Conteúdo Diagnóstico
(11, 23), conforme os passos descritos a seguir: a) os instrumentos foram
entregues aos enfermeiros das Unidades de Queimados, considerados experientes
na área de tratamento ao paciente que sofreu queimaduras, para que analisassem
as características definidoras contidas nos instrumentos. Foi dada oportunidade
para que sugerissem novas características; b) para cada evidência clínica os
enfermeiros foram orientados a escolher uma entre cinco alternativas que
poderiam indicar o quanto cada característica corresponderia ao diagnóstico de
medo e de ansiedade, a saber, muitíssimo, muito, de algum modo, pouco e nada
característico. Foram atribuídos valores para cada resposta da forma
apresentada a seguir: muitíssimo = 1; muito = 0,75; de algum modo = 0,5; pouco
= 0,25; nada = 0; c) A partir dos escores obtidos para cada característica, foi
calculada a média ponderada. Com base no Modelo de Validação de Conteúdo(11),
as evidências clínicas com peso maior ou igual a 0,80 devem ser consideradas
características definidoras maiores, e as com peso entre 0,50 e 0,79 devem ser
consideradas como características menores e as com peso menor que 0,50 devem
ser desconsideradas. Neste estudo, optamos por apenas desconsiderar as
características definidoras com peso menor que 0,50, e não categorizar as
demais como maiores e menores, uma vez que a desde 1999, a Taxonomia I da NANDA
não apresenta essa classificação para as características definidoras dos
diagnósticos.
Também faziam parte dos instrumentos questões como tempo de formado, tempo de
exercício na profissão, formação (especialização, mestrado, doutorado), curso
para aprendizado de diagnóstico de enfermagem e tempo em que utiliza o
diagnóstico de enfermagem, publicações na área de queimaduras e/ou diagnósticos
de enfermagem, para que fosse possível caracterizar o grupo de participantes.
Os requisitos apresentados pela literatura(11,23) para que uma pessoa seja
considerada um experto para participar de estudos dessa natureza são: anos de
experiência em prática de enfermagem e na condução de pesquisas na área de
diagnósticos de enfermagem, publicações sobre diagnósticos de enfermagem e
participação em cursos ou eventos relacionados com a temática diagnóstico de
enfermagem. Considerando esses critérios(11), procuramos profissionais que
atuassem na área de queimaduras há pelos menos dois anos, que tivessem
experiência na utilização dos diagnósticos de enfermagem propostos pela
Taxionomia da NANDA, que houvessem realizado pesquisas na área de diagnósticos
de enfermagem ou na área de queimaduras, que tivessem participado de cursos na
área de diagnósticos de enfermagem e cursos de pós-graduação. Foram
estabelecidos pontos para os critérios estabelecidos, realizando-se uma
adaptação a partir da proposta por Fehring(23) e a partir de outra adaptação
realizada por outro autor(25), de acordo com a pontuação que pode ser observada
na Tabela_1 a seguir:
Tabela_1-_Clique_para_ampliar
No Brasil, há poucos enfermeiros que atuam na área de queimaduras e que
realizaram cursos de Pós-Graduação e, ainda, que adotam os diagnósticos de
enfermagem propostos pela Taxionomia I da NANDA (16)em sua prática. Esse é um
fator limitante para a realização deste tipo de estudo, por essa razão,
entrevistamos todos os enfermeiros das duas Unidades onde desenvolvemos esse
estudo. Embora dois enfermeiros tenham obtido uma pontuação igual a dois, eles
foram incluídos no estudo, pois demonstraram interesse em participar e tinham
conhecimentos sobre diagnósticos de enfermagem e experiência maior que dois
anos de atuação na área de assistência ao paciente queimado. Apenas um dos
sujeitos, entre os que participaram do estudo, realizou somente pesquisa na
área de queimados, permanecendo na Unidade durante o período em que coletou
dados. Dentre os enfermeiros estudados, três possuíam até quatro anos na área
de assistência a pacientes queimados e onze atuavam há mais de quatro anos
nessa área.
A literatura preconiza que 50 expertos sejam selecionados para participar desse
tipo de estudo(11). Entretanto, considerando a dificuldade de encontrar
profissionais com essas características no Brasil, não foi possível selecionar
o número recomendado de expertos, mas sim 17 profissionais que concordaram em
participar da pesquisa e atendiam pelo menos em parte os critérios
estabelecidos. Um dos instrumentos foi descartado pois o enfermeiro respondeu
ao questionário de maneira incorreta e incompleta, restando portanto apenas 16
participantes.
3 Resultados e discussão
Em razão do grande número de características definidoras apresentadas para os
dois diagnósticos, optamos por apresentar e discutir os resultados,
inicialmente, enfocando as características que obtiveram média de escore maior
ou igual a 0,70, e em seguida as que apresentaram média de escore entre 0,50 e
0,69 e finalmente as características que foram excluídas, ou seja, que
obtiveram média de escore inferior a 0,50.
Observa-se na Tabela_2, que, para o diagnóstico de medo, oito características
definidoras obtiveram média maior ou igual a 0,70, dessas, apenas duas são
descritas pela Taxionomia I da NANDA (16) para esse diagnóstico. Na Tabela 3,
observa-se que dezoito características obtiveram média maior ou igual a 0,70
para o diagnóstico de ansiedade, 14 dessas são descritas na Taxionomia da NANDA
(16)para esse diagnóstico.
Podemos notar que a característica definidora "preocupação expressa devido a
mudanças em eventos da vida" foi a única que apresentou média de escore maior
ou igual a 0,80. Essa característica obteve média de escore de 0,78 para o
diagnóstico de medo (Tabela_2) e 0,81 para o diagnóstico de ansiedade (Tabela
3); os maiores valores encontrados para os dois diagnósticos. É interessante
observar que, embora esta característica esteja relacionada pela Taxionomia I
da NANDA(16)apenas para o diagnóstico de ansiedade, a "preocupação expressa
devido à mudança em eventos da vida", como a hospitalização e a queimadura, por
exemplo, pode se constituir em manifestação do diagnóstico de medo. A mudança
brusca que ocorre na vida de uma pessoa que sofre uma queimadura, tanto no que
tange aos aspectos físicos como emocionais, faz com que o paciente e também
seus familiares, nas primeiras 72 horas após o trauma, permaneçam ansiosos, em
estado de alerta(9). Nessa fase, o foco de atenção está na sobrevivência e,
nessas circunstancias, o medo das possíveis mudanças que podem advir e que são
desconhecidas para essas pessoas é constante.
As características definidoras "nota-se estar preocupado" e "refere ou nota-se
insônia" para o diagnóstico de medo são manifestações freqüentes na pessoa que
sofreu uma queimadura, um trauma que provoca uma mudança brusca na vida de uma
pessoa e que, a cada dia, implicará na necessidade de buscar mecanismos para
enfrentar os procedimentos dolorosos e as mudanças em seu corpo. Vários autores
têm associado a insônia, apresentada pela pessoa que sofre queimaduras, ao medo
dos procedimentos de banho e curativo e das mudanças corporais(9,27).
A característica "nota-se estar preocupado" obteve pontuação 0,78 para o
diagnóstico de ansiedade (Tabela_3) e 0,69 para o diagnóstico de medo (Tabela
4). Lembramos que essa manifestação é descrita pela Taxionomia I da NANDA
(16)para os dois diagnósticos. Outra característica descrita para os dois
diagnósticos é "percebe-se tensão aumentada", que obteve pontuação de 0,73 e
0,75 para os diagnósticos de medo e ansiedade, respectivamente. A
característica "refere estar temeroso" é uma manifestação do diagnóstico de
medo, porém obteve média maior que 0,70 somente para o diagnóstico de
ansiedade.
Em outro estudo, que teve como objetivo diferenciar os diagnósticos de medo e
ansiedade, foram identificadas como críticas para o diagnóstico de ansiedade as
características: "excitação cardiovascular", "apreensão" e "aumento da tensão"
e para o diagnóstico de medo: "amedrontado", "excitação cardiovascular",
"apreensivo" e "assustado"(22). Quando uma característica crítica está presente
ela é suficiente para que se estabeleça o diagnóstico(26). Em nosso estudo,
dentre essas características, "tensão aumentada" e "refere estar apreensivo"
obtiveram pontuação maior ou igual a 0,70 para o diagnóstico de ansiedade.
Dentre essas características, "percebe-se tensão aumentada" foi a única que
obteve pontuação maior que 0,70.
As características "verbaliza desconforto" e "apresenta anorexia" foram
encontradas em outras literaturas(17)e não são apresentadas pela NANDA (16)
para nenhum dos dois diagnósticos estudados; contudo, ambas obtiveram média de
escore maior que 0,70 para os dois diagnósticos. O desconforto e a dor
fatalmente estarão presentes após a ocorrência de um trauma como a queimadura,
mesmo que esta queimadura não tenha atingido uma superfície corporal muito
extensa. Essa situação leva o paciente a ficar inquieto, ansioso e a uma perda
de apetite, cujas conseqüências poderão agravar ainda mais o seu estado. Esses
problemas são freqüentemente apresentados pelos pacientes em uma Unidade de
Queimados e, por essa razão, possivelmente, os enfermeiros atribuíram um escore
maior a essas características.
- Características definidoras que apresentaram média de escores entre 0,50 e
0,69
ATabela_4, a seguir, apresenta as 58 características definidoras que obtiveram
média de escore entre 0,50 e 0,69 para o diagnóstico de medo. Na primeira
coluna estão listadas as características e que são relacionadas pela NANDA(16)
para esse diagnóstico (medo) e na segunda os escores obtidos. Na terceira
coluna, estão listadas as novas características que foram incluídas para esse
diagnóstico (medo) a partir da literatura e de outras características que a
NANDA(16) apresenta para o diagnóstico de ansiedade, mas que os enfermeiros
identificaram como manifestações do diagnóstico de medo.
Podemos observar na Tabela_4 que 58 características definidoras obtiveram média
de escore entre 0,50 e 0,69 para o diagnóstico de medo; dessas, 17 estão entre
as características apresentadas pela NANDA (16) para esse diagnóstico. As 41
características restantes apresentadas nessa Tabela são descritas pela NANDA
(16) para o diagnóstico de ansiedade ou foram encontradas em outras literaturas
(17-22), mas foram incluídas pelos enfermeiros como sendo manifestações do
diagnóstico de medo.
As características que obtiveram menor média de escore para o diagnóstico de
medo foram: "mostra-se cauteloso", "refere sentimentos de inadequação", "relata
fraqueza", "refere dor abdominal", "refere sentir náusea", "refere bloqueio de
pensamento" e "confusão" (0,50 cada). Todas essas características são
manifestações apresentadas pela Taxionomia I da NANDA(16)para o diagnóstico de
ansiedade e a característica "mostra-se cauteloso" é apresentada também para o
diagnóstico de medo. A pontuação máxima para essa faixa de escore foi observada
para as características: "nota-se estar preocupado", "mostra-se
desassossegado", "refere estar amedrontado", "nota-se resposta imediata ao
objeto do medo" (0,69). As duas últimas são manifestações descritas pela NANDA
(16) para o diagnóstico de medo.
A característica "nota-se resposta imediata ao objeto do medo" apresentou uma
pontuação de 0,69 para o diagnóstico do medo e de 0,44 para o de ansiedade. É
importante observar que essa característica pressupõe a identificação do objeto
de medo e, assim, é uma manifestação que está associada à própria definição do
diagnóstico de medo, no aspecto que o diferencia da ansiedade cuja fonte é
"freqüentemente inespecifica ou desconhecida pelo indivíduo"(16). "Nota-se
estar alarmado", "refere estar aterrorizado", "refere estar horrorizado" são
características do diagnóstico de medoapresentadas pela NANDA(16) que também
obtiveram pontuação dentro dessa faixa de escore (0,50 a 0,69).
As características apresentadas pela NANDA(16) para o diagnóstico de medo:
comportamentos de briga - agressão e comportamento de briga - retraimento
obtiveram escore 0,55 e 0,61, respectivamente. A expressão comportamento de
briga pode ser comparada com formas de enfrentamento, dessa forma, em um
comportamento de briga ou o indivíduo responde de forma agressiva ou ele se
retrai. Assim, a Taxionomia I da NANDA(16)não especifica o tipo de
comportamento relacionado a esse aspecto. O paciente queimado pode apresentar
delírio nos primeiros dias após a queimadura e, como conseqüência,
freqüentemente observa-se um comportamento agressivo nesse período.
A Tabela_5 apresenta as características que obtiveram média de escore entre
0,50 e 0,69 para o diagnóstico de ansiedade. Na primeira e segunda colunas
estão listados, respectivamente, as características que são relacionadas pela
NANDA(16) para esse diagnóstico (ansiedade)e os escores correspondentes. Na
terceira e quarta colunas, respectivamente, estão listados as novas
características incluídas para esse diagnóstico (ansedade) a partir da
literatura e outras características que a NANDA(16) apresenta para o
diagnóstico de medo, mas que os enfermeiros identificaram como manifestações do
diagnóstico de ansiedadee escores correspondentes.
Podemos observar, na Tabela_5, que 52 características definidoras obtiveram
pontuação entre 0,50 e 0,69 para o diagnóstico de ansiedade. Dessas
características, 31 já são apresentadas pela NANDA (16) e as demais (21) foram
incluídas a partir de outras literaturas, sendo que dessas, 15 são listadas
pela Taxonomia I da NANDA para o diagnóstico de medo.
As características definidoras com a menor média de escore, para o diagnóstico
de ansiedade,foram: "percebe-se estimulação física", "refere estar
horrorizado", "relata produtividade diminuída", "apresenta tremor das mãos/
tremores" e "relata consciência dos sintomas fisiológicos" (0,50) e a
característica com maior escore foi "verifica-se freqüência cardíaca aumentada"
(0,69). Muitas dessas características podem ser manifestadas com freqüência por
uma pessoa que sofreu uma queimadura. Entretanto, pode ser difícil para o
enfermeiro associar a presença de alguns sintomas, como por exemplo freqüência
cardíaca aumentada, tremores e relatos de consciência dos sintomas
fisiológicos, com o diagnóstico de ansiedade, já que essas são também
manifestações de outros diagnósticos de enfermagem. Por essa razão, é preciso
analisar cada caso individualmente e considerar as manifestações que o paciente
apresenta em seu conjunto.
A característica "medo de conseqüências inespecíficas", obteve pontuação de
0,62 para o diagnóstico de ansiedade e essa é uma das manifestações que melhor
o caracteriza, considerando que esse diagnóstico tem causa inespecífica ou
desconhecida pelo paciente (16). A ansiedade é freqüentemente apresentada pelo
paciente principalmente associada às incertezas que caracterizam a experiência
da queimadura.
As características "refere estar assustado" e "refere estar apreensivo" são
apresentadas pela NANDA(16) para ambos os diagnósticos e, obtiveram médias de
escores de 0,66 e 0,70 respectivamente, para o diagnóstico de ansiedade e
escore de 0,66 e 0,61 respectivamente para o diagnóstico de medo.
- Características definidoras excluídas
Das 97 características definidoras estudadas, 31 apresentaram média de escore
inferior a 0,50 para o diagnóstico de enfermagem de medo. Dessas, 24 são
características apresentadas pela NANDA (16) para o diagnóstico de ansiedade;
três características foram encontradas em outras literaturas e quatro são
características apresentadas pela NANDA (16) para o diagnóstico de medo.
Dentre as características excluídas em nosso estudo, como manifestações do
diagnóstico de medo, as manifestações "verifica-se pressão sanguínea
diminuída", "verifica-se pulso diminuído", "relata urgência urinária" e
"apresenta movimentos estranhos" foram também excluídas em outro estudo em que
se buscou identificar as diferenças dos dois diagnósticos(22).
Das 97 características definidoras estudadas, 27 obtiveram média de escore
menor que 0,50 para o diagnóstico de ansiedade, dentre essas, 19 são
características definidoras apresentadas pela NANDA (16)para esse diagnóstico,
seis são características apresentadas pela NANDA(16) para o diagnóstico de medo
e duas foram encontradas em outras literaturas. A associação da característica
definidora "molhar a cama" - por diurese ou sudorese - aos dois diagnósticos
(medo ou ansiedade) no paciente que sofreu uma queimadura, por exemplo, pode
ser difícil, principalmente se considerarmos que, nos primeiros dias de
internação, o paciente é mantido com sonda vesical e apresenta perdas de
líquidos pelas queimaduras.
A característica "observa-se capacidade de identificar o objeto do medo",
obteve menor pontuação para o diagnóstico de ansiedade. Podemos relacionar a
sua exclusão como uma característica do diagnóstico de ansiedade pelo fato de
que na Taxionomia I da NANDA(16), essa característica é apresentada como
definidora do diagnóstico de medo e não da ansiedade. Da mesma forma, observa-
se que a característica "concentração na fonte" que obteve pontuação de 0,42
como manifestação de ansiedade foi excluída, o que está de acordo com a
definição desse diagnóstico(16), que diferentemente do medo, nem sempre tem
fonte específica(16).
4 Conclusões
Das 97 características definidoras apresentadas em nosso instrumento, os
dezesseis enfermeiros entrevistados, excluíram 31 para o diagnóstico de
enfermagem de medo e 27 para o diagnóstico de ansiedade. Oito características
definidoras apresentaram média de escores maior ou igual a 0,70 para o
diagnóstico de medo e 18 apresentaram média de escore maior ou igual a 0,70
para o diagnóstico de ansiedade. As características que obtiveram maior
pontuação foram "preocupação expressa devido a mudanças em eventos da vida"
para o diagnóstico de ansiedade e "refere ou nota-se insônia" para o
diagnóstico de medo. Essas manifestações são freqüentes na pessoa que sofreu
queimadura, e que a cada dia implicará na necessidade de enfrentamento de
procedimentos dolorosos que geram medo.
Cinqüenta e oito manifestações apresentaram média de escores entre 0,50 e 0,70
para o diagnóstico de medo e 52 para o diagnóstico de ansiedade. Vale lembrar
que encontramos apenas uma característica definidora com média de escore maior
ou igual a 0,80 para o diagnóstico de ansiedade.
Observamos ainda que algumas características definidoras propostas pela
Taxionomia I da NANDA (16) para o diagnóstico de medo, obtiveram maior média de
escore para o diagnóstico de ansiedade; o contrário também foi observado. Fato
esse que pode estar relacionado à especificidade dos diagnósticos, já que ambos
se caracterizam por um maior número de características subjetivas que objetivas
ou às características dos pacientes queimados.
Os resultados desse estudo podem fornecer uma base para estudar a diferenciação
entre esses dois diagnósticos, realizada apenas em um outro país (17). Apesar
de considerarmos que a diferenciação desses dois diagnósticos é difícil, pois
freqüentemente são apresentados concomitantemente pelo mesmo paciente,
entendemos que a realização de estudos desse tipo no Brasil é importante, já
que os indicadores clínicos desses diagnósticos podem apresentar diferenças
dependendo das condições do paciente, dos problemas de saúde e do contexto
cultural em que ele vive. Destaca-se que a validade de estudos dessa natureza
depende do instrumento que deve conter indicadores precisos e também de
aspectos que envolvem a competência técnica e responsabilidade dos próprios
enfermeiros sujeitos do estudo. Esses aspectos podem ter interferido nos
resultados obtidos. Um outro aspecto a ser ressaltado é o grande número de
características definidoras apresentadas nesse estudo para os dois
diagnósticos, o que implica necessidade de agrupamentos para uma melhor
compreensão dos enfermeiros.