Saúde do trabalhador: condições de trabalho do pessoal de enfermagem em
hospital psiquiátrico
Saúde do trabalhador: condições de trabalho do pessoal de enfemragem em
hospital psiquiátrico
Worker's health: work conditions of a psychiatric hospital nursing staff
La salud del trabajador: condiciones de trabajo del personal de enfermería en
hospital psiquiátrico
Edilene Lima VianeyI; Marislei Espíndula BrasileiroII
IEnfermeira, Professora Convidada do Departamento de Enfermagem da Universidade
Católica de Goiás
IIEnfermeira Professora da Universidade Paulista-UNIP/Goiânia. E-mail do autor:
edilenevianey@hotmail.com
1 Introdução
O interesse pelo tema proposto neste estudo é proveniente da nossa experiência
profissional em enfermagem psiquiátrica. Essa experiência somada à trajetória
de vida possibilitou-nos a reflexão acerca da saúde dos trabalhadores em
enfermagem psiquiátrica que atuam cotidianamente com situações ansiogênicas.
O interesse pela própria saúde, dentro da enfermagem no Brasil não é recente.
Provavelmente esta preocupação vem crescendo devido às mudanças das leis
trabalhistas ou até mesmo pelas lutas para melhorar as condições de trabalho
tanto em hospitais públicos quanto em instituições particulares.
Dentro da enfermagem percebemos uma dificuldade muito grande em unir carga
horária rotativa com presença de fatores de risco, mesmo que estes sejam
mínimos.
Sabe-se que muitos acidentes podem ser evitados através do conhecimento
profundo das causas geradoras de tais transtornos. Entretanto, percebe-se que,
dentro da enfermagem, mesmo em nosso cotidiano é comum acontecer acidentes com
materiais perfuro-cortantes num ambiente hospitalar psiquiátrico onde não há,
praticamente, nenhum procedimento invasivo.
O trabalho em ambiente hospitalar é considerado dinâmico, estimulante e
heterogêneo mas abarcando, simultaneamente, atividades insalubres, penosas e
difíceis para todos os atores de saúde(1). Neste contexto, os trabalhadores de
enfermagem que atuam com doentes mentais na fase aguda da doença parecem estar
ainda mais expostos a situações estressantes que podem acarretar agravos à sua
própria saúde.
A elevada tensão emocional advinda das relações de subjetividade que se
estabelecem entre o pessoal de enfermagem, o paciente, familiares e demais
trabalhadores no processo do cuidado direto de pessoas fisicamente doentes ou
lesadas, associada às longas jornadas, à baixa remuneração, ao freqüente
emprego duplo, ao desenvolvimento de tarefas desagradáveis e repulsivas têm
sido enfatizados em vários estudos(2). Alguns pesquisadores têm se dedicado a
demonstrar de que forma o trabalho pode estar relacionado ao estresse ou ao
sofrimento psíquico, preocupando-se com o desempenho do trabalho que é
negativamente afetado pelo emprego com problemas nas inter-relações entre
ambiente de trabalho, relações de produção, o lidar prolongado e estreito com
portadores de transtornos mentais. Assim, os agentes agressores psicossociais
são tão potentes quanto os microorganismos e a insalubridade no desencadeamento
de doenças(3).
Dejours(4) enfatiza a centralidade do mesmo na vida dos trabalhadores,
analisando os aspectos dessa atividade que podem favorecer a saúde ou a doença.
Reforça o papel da organização do trabalho no que se refere aos efeitos
negativos ou positivos que aquela possa exercer sobre o funcionamento psíquico
e a vida mental do trabalhador.
Dejours et al.(5)descrevem que a relação entre organização do trabalho e o ser
humano encontra-se em constante movimento. Do ponto de vista da ergonomia a
análise da organização do trabalho deve-se considerar a organização do trabalho
prescrita e real, sendo a primeira formalizada pela empresa e a última, o modo
operatório dos trabalhadores.Os autores enfatizam que o desequilíbrio entre as
duas favorecia o aparecimento do sofrimento mental, uma vez que levaria o
trabalhador a necessidade de transgredir para poder executar a tarefa. Descreve
em seu estudo que a segunda corrente dedicada à inter-relação saúde mental e
trabalho privilegia a relação entre estresse e trabalho.
Quando derivado do ambiente social o estresse é chamado psicossocial e uma das
formas de estudá-Io tem sido pelos eventos vitais que são mudanças inesperadas
no ambiente social do sujeito, mas a falta de mudança é considerada,
igualmente, estressante. Os eventos vitais são apenas parte do estressores que
o individuo enfrenta.
Qualquer mudança da vida do indivíduo gera um certo de nível de estresse e à
medida que o estresse aumenta o desempenho melhora, sendo portanto, chamado
"eutress". Por outro lado, aumentos excessivos podem ameaçar a capacidade de
desempenho da pessoa que é o "distress".Os profissíonaís de enfermagem se
submetem no seu cotidiano de cuidados a uma série de tensões
fortes,persistentes e inesperadas o que além de gerar constantes falhas no
processo de produção,reduz a motivação no desempenho de suas tarefas e nas
relações interpessoais.
Para ampliar o conhecimento sobre a relação das condições de trabalho e o
desgaste psíquico do trabalhador de enfermagem que lida cotidianamente com
pacientes em fase aguda do transtorno mental, propõe-se o presente
artigo,sustentado em revisão bibliográfica sobre o tema. Neste artigo parte-se
da preocupação de que relações de trabalho com pacientes agudos parecem levar
os profissionais de enfermagem a desgaste psíquico,emocional e profissional que
transparece em agressividade, queixa de insônia e depressão. Seria oportuno
refletir por exemplo se o contexto profissional é considerado pelos
profissionais de enfermagem como favorecedor de desgaste psíquico. Para tanto
foi estabelecido o seguinte objetivo: Discutir o trabalho do pessoal de
enfermagem como fator desencadeante de estresse e conseqüentemente de doenças
psicossomáticas.
2 A saúde do trabalhador e as condições de trabalho do pessoal de enfermagem em
hospital psiquiátrico
Os estressores podem ser encontrados no local de trabalho, ou estarem ligados a
assuntos pessoais ou do meio ambiente. No primeiro caso considera-se como
exemplo a pressão sobre o trabalhador quanto ao tempo de execução de tarefas,
os aspectos físicos negativos do local de trabalho' e os conflitos inter-
intrapessoais .
O ambiente laboral pode ser entendido como um conjunto de condições de vida dos
trabalhadores no local de trabalho, englobando tanto as características do
próprio lugar quanto os elementos relacionados a atividades em si (tipo,
posição, ritmo do trabalho, ocupação do tempo, horário, alienação, não
valorização do patrimônio intelectual e profissional), e ao longo da história
tem sido causa de mortes, doenças e incapacidade para uma considerável parcela
de trabalhadores(6).
Os agentes da enfermagem psiquiátrica não são articulados no que se refere ao
exercício da organização e prática política desta categoria(2). Há um baixo
nível de participação em greves, em outros movimentos reivindicatórios e no
sindicato, o que demonstra a alienação dos trabalhadores desta especialidade,
pois não conseguem identificar esses mecanismos como instrumentos adequados e
necessários para defesa dos seus interesses de classe.
O projeto de Lei do Senador Lúcio Alcântara nO 161/99 dispõe sobre a jornada de
trabalho dos enfermeiros, técnicos e auxiliares propondo a redução pra 30 horas
semanais. Poucos são os trabalhadores em enfermagem psiquiátrica que acompanham
os projetos de leis em interesse da categoria. A aprovação deste projeto é de
vital importância para os atores envolvidos, uma vez que estes, devido à baixa
remuneração, recorrem a freqüentes empregos duplos, com jornada de 44horas
semanais, privando-os do seu Jazer e do convívio social.
A Convenção Coletiva do Sindicato doa trabalhadores de enfermagem do Estado de
Goiás ocorrida em setembro de 2001, na sua cláusula 3a assegura aos enfermeiros
um acréscimo de 5% do salário base para aqueles que exercem função em
psiquiatria. Esta conquista não é extensiva aos técnicos e auxiliares de
enfermagem.
A relação entre trabalho e adoecer é complexa, pois é um processo especifico
para cada trabalhador envolvendo sua história de vida e de trabalho, para que
haja uma interligação consistente é necessária a descrição detalhada das
atividades desenvolvidas, do ambiente, à organização e à percepção da
influencia do trabalho no seu adoecer.
No cotidiano do cuidado, a enfermagem percebe que o ambiente ansiogênico, as
atitudes insalubres e penosas são situações agressivas ao psiquismo. Isso gera
problemas tanto no próprio indivíduo, nas relações interpessoais, como no
desempenho do seu trabalho.
Em estudo a respeito da percepção dos trabalhadores da enfermagem psiquiátrica
sobre estresse, verificou-se que os mesmos conhecem os fatores desencadeantes
do estresse negativo, porém eles não associam estes fatores com enfermidades,
problemas de saúde, de alterações psicofisiológicas que indicam estresse(7).
Quando se observam conseqüências no comprometimento do estudo da vida social,
com dificuldades de resolver as próprias necessidades vem a tristeza, a
saudade, a sensação de vazio emocional, a presença de várias alterações
psicofisiológicas e a presença de enfermidades crônicas e sérias tais como:
artrose, hipertensão e cardiopatia, além de úlcera e bronquite. Dados que
indicam a possibilidade de ocorrência do Burnout,porque a maioria informou
sentimentos de insuficiência, vazio emocional e indiferença para as atividades
que faz.
Com base nos resultados o autor, percebe que é preciso criar um programa de
prevenção e redução de estresse tais como: despertar sentimentos de grupo,
gostar do que faz, opção por atuar na área que escolher, melhorar as condições
de trabalho, sendo que essas melhorias se estendam à vida pessoal.
Outro estudo(2) mostra que entre pessoal de enfermagem (técnicos, auxiliares e
atendentes) e pacientes existe uma grande proximidade. E isso se dá não só pelo
tipo de trabalho que é executado,mas porque suas condições de existência são
semelhantes. O que faz com eles temam adoecer e a doença mental aparece - lhes
como algo muito próximo, eles não percebem muita diferença entre a realidade
deles e a dos pacientes. A única clareza que têm é que ainda podem ajudálos o
que lhes garante a permanência no mundo dos sadios.
A maioria do pessoal de enfermagem psiquiátrica ingressa no mercado de trabalho
específico, apenas com o incipiente conhecimento adquirido nas escolas,sem o
devido preparo e um treinamento formal que essa especialidade requer, além
disso a única motivação se dá é pelo medo do desemprego.Assim, ele se submete a
papeis indefinidos, a condições degradantes e as longas jornadas de trabalho
,essas,são conseqüências da baixa remuneração o que para compensar recorre ao
freqüente emprego duplo,sendo portanto privado do seu lazer, do convívio social
saudável tão necessário à saúde mental.
Portanto esses profissionais vivem atualmente sob contínua tensão, não só no
trabalho mas na sua própria vida em geral, associado às condições de trabalho,
os trabalhadores enfrentam a competitividade de mercado de trabalho, e as
necessidades de aprendizado constante,principalmente por parte dos enfermeiros.
Contudo, esses são fatores predisponentes à aquisição de transtornos
relacionados ao estresse, como depressão, insônia, enxaqueca ou seja, doenças
psicossomáticas. Assim, o estresse pode ser entendido como um desequilíbrio da
pessoa, quando esta é submetida a uma série de tensões fortes e persistentes
(3).
Pesquisas atuais mostram que esse tipo de estresse se refere a uma síndrome
definida por alguns autores como uma das conseqüências da tensão profissional,
e se caracteriza por exaustão profissional, sentimento de desqualificação,
depressão, cinismo, conflito entre trabalho e família; trata-se da Síndrome de
Burnout.
A Síndrome é descrita como um tipo de estresse ocupacional e institucional, e
os profissionais (médicos, enfermeiros, professores) que mantêm uma relação
constante e direta com pessoas, estão mais vulneráveis na aquisição dessa
Síndrome, principalmente quando esta atividade é considerada de ajuda(3).
Ainda o aparecimento dessa Síndrome foi observado naqueles profissionais cuja
interação se deu de forma ativa com pessoas que necessitam de cuidados e ou de
solução de seus problemas, bem como a rígida execução de técnicas e métodos(3).
O desenvolvimento de tarefas superpostas e repetitivas, somado as solicitações
contínuas e inesperadas impõem um ritmo cansativo de trabalho levando a um
esgotamento físico e mental. Esse fato é claramente percebido entre
profissionais de enfermagem, que muitas vezes nem sabem identificar seus
problemas, queixam de dores nas costas, dores na coluna, falta de ânimo ou
prazer em ir trabalhar, surgem os conflitos no ambiente laboral e familiar
aumentando o absenteísmo,e a rotatividade no emprego. Parece contraditório que
pessoas que lidam cotidianamente com outras enfermas, estão na maioria das
vezes, fragilizadas e vulneráveis à aquisição de doenças.
Confirma-se essa idéia quando diz que se de um lado o hospital tem como missão
salvar vidas e recuperar a saúde dos indivíduos enfermos, por outro, favorece o
adoecer das pessoas que nele trabalham(1). E dificilmente têm a preocupação de
promover e manter a saúde de seus funcionários.Tal contradição é verificada em
outras profissões, porém a enfermagem parece ser a mais afetada neste aspecto
onde trabalhar para cuidar/tratar/curar/ versus trabalhar para sobreviver afeta
de forma profunda a identidade do trabalhador de enfermagem. Portanto
identificamos uma profissão repleta de contradições, relevante,porém ainda não
é capaz de gerar reconhecimento social;um fazer eficiente mas incoerente;um
fazer necessário,mas desvalorizado e fragmentado;um saber importante mas
insignificante.
O pessoal de enfermagem representa a maior e mais complexa força de trabalho de
uma instituição hospitalar, tanto pelo seu contingente numérico como pela
heterogeneidade de sua composição, estando presente 24 horas com os
pacientes,estando mais vulneráveis a erros e cobranças e, portanto, ao
estresse, tudo isso somado a um ambiente ansiogênico elevamo índice de
rotatividade de pessoal.
3 Considerações finais
Reduzir as falhas, minimizar o estresse e transformar o local de trabalho num
ambiente salubre é tarefa para todas as profissões. Entretanto, torna-se
necessário a união de esforços, especialmente do pessoal de enfermagem em
construção de um novodesenho da categoria, almejando o incremento nas escolas,
a valorizaçãodo estatuto profissional, a participação ativanos sindicatos, a
fim de se obter o reconhecimento social, e a motivaçãodos trabalhadores
tornando-os capazes de buscar soluções para seus problemas e de sua comunidade,
sujeitos atuantes e participantes das decisões políticas do seu País e não
objetos de manipulação.