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Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672003000500008

variedadeBr
ano2003
fonteScielo

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A equipe de saúde, a pessoa com doença renal em hemodiálise e suas relações interpessoais A equipe de saúde, a pessoa com doença renal em hemodiálise e suas relações interpessoais1

The professional health team, the renal patient undergoing hemodialysis and interpersonal relationships

El equipo de salud, el enfermo renal en hemodialisis y sus relaciones personales

Claudinei José Gomes CamposI;Egberto Ribeiro TuratoII IEnfermeiro, Doutor em Ciências Médicas / Saúde Mental, Professor Colaborador do Departamento de Enfermagem da FCM / UNICAMP, Membro do Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa da Unicamp IIPsiquiatra, Doutor em Saúde Mental, Professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM / UNICAMP, Coordenador do Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa e orientador da tese. E-mail doautor: cjcampos@fcm.unicamp.br

1 Introdução As relações entre uma equipe multidisciplinar de saúde e o doente renal crônico em hemodiálise suscitam-nos amplas discussões em diversos pontos de vista. Uma nova concepção - que pudesse demonstrar uma maior integração dos diversos profissionais que a compõe - pode ser cogitada, respeitando, evidentemente, a legislação e as competências especificas. Como exemplo, temos a pri'ltica em consonância com a interdisciplinaridade, que consiste, justamente, em fazer cada ramo do conhecimento - a disciplina - se interpenetrar com tantas outras num processo contínuo, caminhando contra a fragmentação do saber.

Num dos pólos deste relacionamento encontra-se o doente, na maior parte das vezes fragilizado pela sua própria condição física e nem sempre tendo consciência da importância que ele próprio tem para o bom êxito de seu tratamento, fato muitas vezes também negligenciado pela própria equipe cuidadora.

A doença renal crônica e o tratamento de hemodiálise impõem restrições das mais variadas, como as de ordem física, emocional e social. Sobretudo os pacientes que não estão internados e que, após as sessões de hemodiálise, voltam para suas casas, têm controle rigoroso de ingestão hídrica e salina, demonstrando assim que o mesmo deve apresentar uma posição participativa no seu tratamento, entre outras de obediência.

A relação médico-paciente é discutida, na maioria das vezes, por profissionais de postura teórica e distantes do cuidado direto, carregado assim de conceitos idealizados e longe da realidade intrínseca às condições em que se processa este encontro. Afirma que, ao se discutir a relação médico-paciente como equivalente somente aos aspectos das trocas afetivas, confere a esta um caráter reducionista, apesar de importante para tal enquadre(1).

Em se tratando de uma relação humana entre um profissional e o doente, é concebível que existam impressões construídas na reciprocidade. Desta forma, as relações humanas são reguladas com extrema rapidez pelas impressões recíprocas que os elementos participantes fazem, diferindo-as das outras modalidades de relação. Como o indivíduo forma uma figura complexa (tem a sua gestalt)em permanente modificação, o contato deste com outros produzem diversos conjuntos ou combinações, apesar de cada indivíduo manter suas características básicas ou sua identidade(2).

A relação médico-paciente para este autor, engloba uma compreensão da pessoa do paciente e também do sentido que este à sua enfermidade. Afirma, ainda, a importância da atitude de escuta. Refere à oportunidade que este profissional tem para compreender o paciente como uma pessoa, diferente de todas as outras, com seu próprio modo de vida, seus modos diferentes de adoecer e de conviver em comunidade, numa relação humana que chamou de transpessoal.

Um dos grandes estudiosos da relação médico­paciente, o psicanalista Balint(3), referiu em seus trabalhos as diversas situações que podem bloquear uma real compreensão do ser doente. Através de estudos em grupo, examinando casos clínicos, o autor relatou situações tais como a que denominou "conluio do anonimato", em que os profissionais encaminham o paciente para outros especialistas, sucessivamente, impedindo assim um contato mais prolongado e mais profundo com os verdadeiros problemas psicológicos dos pacientes, diluindo a relação(3).

Segundo o autor, a centralização do atendimento do médico voltado apenas para o órgão afetado, impede-o de ver situações psicossociais conflitantes que podem estar alimentando este processo. Tal negação por parte do profissional pode causar o desenvolvimento de quadros mais complexos e graves com o passar do tempo.

Balint(3) também menciona a "função apostólica" do médico, quando este tenta impor a seu paciente suas crenças e valores; anulando, de certa forma, a expressão e o conhecimento, mesmo que empírico, que o paciente tem de si próprio e de sua situação.

Por sua vez, o paciente costuma experimentar estados de regressão durante sua doença, reeditando ansiedades, fantasias e expectativas próprias da época de infância. O surgimento da doença física traz ao indivíduo profundos significados simbólicos, comuns na formação de sua imagem corporal, podendo causar-lhe sofrimento psíquico, desamparo, medo, confusão, culpa ou humilhação por sua "fraqueza" em ficar doente ou pela ferida narcísica ao ter de reconhecer a sua não imortalidadel(4).

Como pontuou, a relação profissional de saúde ­paciente é uma interação humana e, como tal, os mecanismos mentais, às vezes utilizados nos primeiros estágios do desenvolvimento como a introjeção e projeção, são reutilizados nesta relação. O ato de projetar ou introjetar tem uma importante função no relacionamento profissional-paciente. Refere ainda que tanto o profissional, como o paciente podem introjetar ou projetar no outro aspectos parciais, como por exemplo, o profissional de saúde que costuma avaliar apenas o órgão adoecido ou uma certa parte do doente(5).

O uso dos mecanismos projetivos e introjetivos guarda íntima relação com o fenômeno psicanalítico da transferência no qual o paciente repete, agora com seu terapeuta, os mesmos modelos de relacionamento que tinha com pessoas importantes de seu passado, como as figuras parentais, embora em graus e níveis diferentes. Essa reação transferencial pode ser positiva ou negativa, dependendo de como o paciente encara a figura do terapeuta. Da mesma forma, existe uma reação de contratransferência do terapeuta para com o paciente. Tais reações são normais em uma relação, mas precisa atentar­se para a forma com que o profissional lida psicologicamente com este fenômeno(4).

No caso específico da relação entre profissionais de saúde e o paciente renal crônico em hemodiálise, a tensão causada pelo tratamento é muito particular e todos os pacientes precisam conciliar sua realidade de vida anterior com a atual, com mudanças em sua vida psicossocial. Fica dificultada a manutenção de um equilíbrio físico-emocional, sendo importante haver um reforço da confiança do paciente para com a equipe de profissionais, através de um relacionamento emocional positivo. Afirma que as reações de transferência e contratransferência são intensas e peculiares neste settingterapêutico(6).

A presença do profissional de enfermagem é de grande importância no atendimento ao doente renal crônico em hemodiálise, se levar em conta que este é o profissional que passa a maior parte do tempo com o paciente. Assim, reforçamos a necessidade de um pessoal de enfermagem selecionado e preparado para o atendimento ao doente renal crônico e apontamos que os mesmos têm como função relevante a ajuda ao paciente na manutenção do equilíbrio emocional, a motivação e o apoio na união da experiência da enfermidade e tratamento, criando situações que reduzam a tensão e auxiliando-o na adaptação ao processo da doença(7) . Desta forma, receber apoio da equipe que cuida das pessoas que vivenciam a doença renal propicia uma melhoria na sua qualidade de vida(8).

O ato do indivíduo doente renal compartilhar seus problemas com outras pessoas, sejam familiares ou profissionais da equipe de saúde e por estes serem acolhidos em sua angústia, apreensões, por si traz um certo alívio para suas tensões cotidianas(9).

É necessário salientar que o enfermeiro e todos os demais membros de sua equipe devem se conscientizar de que, na assistência ao paciente, cada um estará interagindo com sua carga própria de emoções, preconceitos, capacidades, conhecimentos, habilidades e deficiências. Na situação de hemodiálise em particular, as cargas emocionais vêm acrescidas de níveis mais altos de tensão, gerada pela própria situação.

A terapêutica prolongada e de contato pessoal freqüente gera vínculos afetivos que podem dificultar os momentos de perda, e existe a necessidade de apoio psicológico especializado também para a equipe de profissionais que prestam assistência a estes pacientes.

O uso da comunicação dentro de qualquer relacionamento interpessoal é imprescindível. O profissional de enfermagem deve manter com o doente renal e a família uma comunicação adequada, observando as expressões verbais e não- verbais existentes em um relacionamento interpessoal e interagindo segundo estes sinais(10). Ao fazer o uso correto da comunicação, o enfermeiro estará se capacitando para perceber o paciente como pessoa que sente, pensa e está imerso num contexto humano complexo e não apenas como um objeto de seu cuidar.

2 Objetivo Analisar, sob o ponto de vista do doente renal em hemodiálise, como este percebe o atendimento dispensado a si, por parte dos profissionais de saúde, e como vivenda essas relações interpessoais.

3 Recursos Metodológicos 3.1 A opção pelo método clínico-qualitativo Optamos naturalmente por um método qualitativo que o objeto de estudo deste trabalho - as significações da relação entre equipe de saúde e pacientes com insuficiência renal crônica em hemodiálise - consiste num conjunto de fenômenos altamente polissêmico. Desta forma, a compreensão dos significados, no âmbito biopsicossocial, que o indivíduo atribui a esta experiência, necessitaria de um método capaz de dar respostas a estes vértices.

3.2 Definição e características do método clínico-qualitativo O chamado método clínico é essencialmente empregado nas ciências da saúde, bem como nas ciências humanas, em particular nos estudos psicológicos. Muitos procedimentos podem ser empregados conforme o objetivo na construção do conhecimento. Ferrari(11) destaca, como característica do método, a relação íntima e pessoal entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa, com o emprego de técnicas de entrevista e de história de vida, entre outras. Aplica­se a situações ou settingsconcretos, onde estão os indivíduos cujos sentimentos, pensamentos e comportamentos são dotados de sentidos que procuramos compreender ou interpretar.

O método visualiza o indivíduo na sua totalidade, num ambiente não controlado em variáveis, onde o pesquisador entra em contato com as manifestações humanas normais ou doentes e que lhe são reveladoras. Permite, destqa forma, emergir um conjunto complexo, gestáltico. De modo particular e rico, "o ruído ligado à patologia de uma conduta permite apreendê-la"(12).

A seguir, transcrevemos a definição do método clínico-qualitativo: [ ... ] é o estudo teórico - e o correspondente emprego em investigação - de um conjunto de métodos científicos, técnicas e procedimentos, adequados para descrever e interpretar os sentidos e significados dados aos fenômenos e relacionados à vida do indivíduo, sejam de um paciente ou de qualquer outra pessoa participante do setting dos cuidados com a saúde (equipe de profissionais, familiares, comunidade)(13:93).

O pesquisador, utilizando este método, é movido para uma atitude de acolhida das angústias e ansiedades da pessoa em estudo, com a pesquisa acontecendo em ambiente natural (no caso, settingsda saúde), mostrando-se particularmente útil nos casos em que tais fenômenos tenham estruturação complexa por serem de foro pessoal íntimo ou de verbalização emocionalmente difícil. O pesquisador também procura um enquadramento da relação face a face, valorizando as trocas afetivas mobilizadas na interação pessoal e escutando a fala do sujeito, com foco sobre tópicos diversos ligados ao binômio saúde-doença, aos processos terapêuticos, aos serviços de saúde e/ou sobre como os sujeitos lidam com suas vidas. Por fim, observa a globalidade de sua linguagem corporal/ comportamental no sentido de complementar, confirmar ou desmentir o falado(13).

Além das características gerais dos métodos qualitativos(14), haja vista que a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento chave, este modo de pesquisa apresenta: natureza predominantemente descritiva, preocupação com o processo maior do que com o produto, enfoque dos dados pesquisados sempre demonstrando a perspectiva dos significados atribuídos pelos participantes e a análise dos dados seguindo um processo indutivo. Por sua vez, o método clínico-qualitativo apresenta outras características que são específicas (13) , o que passo a comentar sucintamente as mais importantes: A - Significados como preocupação maior O termo significado é proveniente do latim signifiéatio­onis,a representação da linguagem, advindo de signo, sinal, do latim signum,aquilo que é constituído pelo símbolo e pelo sinal, integrando a significação das formas lingüísticas, assim, a essência da linguagem(15).

Em especial, no campo da saúde, a vivência do processo da doença pode trazer ao indivíduo enfermo uma gama de reações psicológicos e sociais. O indivíduo pode atribuir a essa experiência significados muitas vezes diferentes do esperado pelo senso comum, se é que se pudesse esperar reações iguais entre seres humanos. As significações conscientes e inconscientes dos fenômenos da saúde ou doença e a valoração que este indivíduo atribui ao processo frente à sua vida tornam­se um veio a ser explorado como um ponto essencial para a compreensão científica da vivência destes fenômenos.

B - Importância da valorização das angústias e ansiedade A acolhida ao indivíduo no settingdos cuidados à saúde e a valorização das angústias e ansiedades da pessoa entrevistada pelo pesquisador, numa atitude clínica durante a coleta de dados são também elementos fundamentais na mobilização do interesse do entrevistador.

C - Pesquisador como bricoleur O antropólogo francês Claude Levi-8trauss utilizou a palavra bricolagem, que nos costumes franceses se refere a afazeres domésticos sem rígido planejamento prévio, para explicar o trabalho para a composição do entendimento de mitos nas sociedades ditas selvagens. Segundo este estudioso, o bricoleuré aquele que faz um objeto novoa partir de pedaços ou fragmentos de outros objetos. Assim, reunindo tudo que encontra, servepara o objeto que se está compondo. O pensamento mitico faz o mesmo, ou seja, vaireunindo fragmentos de experiências, narrativas, relatos até compor o mito em sua complexidade(16).

O uso de multimétodos dentro da pesquisa qualitativa pode ser visto como um tipo de bricolagem e o pesquisador que dele se vale,é o bricoleur.Esta característica de atividade do pesquisador-bricoleurnão se atém apenas na fase de colheita de dados para o estudo, mas também no momento de analisá-Ios e interpretá-Ios na multiplicidade de referenciais teóricos que possam embasá-los (17).

4 Procedimentos O local escolhido para a realização do presente estudo foi a Unidade de Hemodiálise de um hospital público de ensino. Sua população global de doentes renais crônicos, inscritos no programa de hemodiálise, no momento do início da coleta de dados, era de trinta e seis pacientes. A amostra final desta pesquisa constou, no entanto, de sete informantes, incluídos na amostragem por meio de seleção intencional até que se cumprisse o critério chamado de saturação dos dados, momento em que tais achados passam a se tornar repetitivos.

Dentre os procedimentos éticos utilizados na realização deste trabalho, tivemos a obtenção de aprovaçãodo projeto de pesquisa por Comitê de Pesquisa competente, além da concordância explícita da participação dos sujeitos mediante leitura, entendimento e assinatura de um termo de consentimento pós- informado.

4.1 A entrevista semi-estruturada como instrumento de coleta de dados Levando-se em consideração, não os objetivosde trabalho, mas também o tipo mais adequado de coleta de dados no método clínico-qualitativo, optamos pelo uso da técnica de entrevista semi-estruturada, por proporcionar uma relação interativa com o sujeito da pesquisa. Utilizamos um roteiro de perguntas semi- estruturadas, previamente aplicado e avaliadoem pré-teste em pacientes da própria unidade, os quais foram excluídos da amostra final. Os participantes da amostra foram entrevistados num período aproximado de cinco meses, tempo de permanência em campo que julgamos satisfatório para apreensão de sua dinâmica.

As entrevistas foram gravadasem fitas cassete e posteriormente transcritas literalmente, conformando nosso corpus(dados brutos) de análise.

Por fim, escolhemos como técnica para tratamento dos dados coletados, a análise de conteúdo, especificamente a análise temática(18).

5 Resultados e discussão 5.1 A necessidade de ser ouvido [ ... ] para ser terapeuta, precisará ao menos ter apreço pelo paciente e para isso é preciso algo mais do que fazer perguntas, examiná-Io e receitar-lhe medicamentos. É preciso respeitar a sua individualidade, sua pessoa, começando por ouvir o que a pessoa tem a dizer. Portanto, ao lado das perguntas referidas, as quais constituem o interrogatório dirigido, que deixar o doente falar e - importantíssimo - ouvi-lo(2).

Não ao acaso, iniciamos a discussão desta categoria com uma citação contida na obra A Medicina da Pessoa, por ser pertinente e ir ao encontro do que ouvimos claramente de alguns pacientes com quem tivemoscontato na convivência informal e mais fortemente durante as entrevistas de trabalho. A necessidade de ser ouvido pode expressar-se de diferentes maneiras pelo paciente: através de queixas que não são atendidas durante a sessão, seja pela necessidade de se saberem os resultados de um exame laboratorial importante, seja pela necessidade de relatar algo, mesmo que aparentemente sem importância.

[...] com os médicos, cada mês é um ... então cada mês é um jeito que a gente é tratada. As vezes vem um médico que você chama, ele vem rapidinho, às vezes é um outro que você chama e demora um pouco para vir [...] As vezes ele gosta mais de explicar as coisas para você [...] de te ouvir mais [...] outro gosta mais de falar do que ouvir. (E1) [...] o meu problema [...] com o médico é [...] todo mês tem um [...] cuidando da hemo. Eu gosto que eles venham fala [...] por exemplo [...] eu colho os exames na primeira quarta-feira do mês. Então eu gosto que eles venham falar comigo logo a seguir [...] quando pegou nos meus exames [...] Porque às vezes eles vão falar comigo no outro mês, que aumentou o meu potássio. (E3) Pelas citações literais acima, percebemos o problema sentido frente aos programas institucionais do rodízio do profissional médico. Por se tratar de uma unidade de hemodiálise pertencente a um hospital universitário, as equipes de médicos-residentes não permanecem fixas no serviço. A essa situação, trazendo prejuízos à formação de vínculos entre estes profissionais e os pacientes, acresce-se o fato de haver uma formação acadêmica envolvida com alto grau de tecnologia, o que se constitui em barreira significativa na busca de uma relação interpessoal humanizada, na qual o doente possa ser ouvido e atendido em suas necessidades e expectativas.

uma impossibilidade de formação de vínculos quando a medicina de massa é exercida, citando como exemplo o tempo sugerido pela OMS - presente na Portaria 3.046/82 do Ministério da Previdência e Assistência Social e na Resolução 03/01 do Ministério da Saúde, que preconiza uma consulta de duração de quinze minutos, na qual dificilmente podem ser contempladas muitas demandas do paciente(19).

Nos hospitais universitários, uma tendência de as consultas serem mais prolongadas, levando-se em consideração seus aspectos formativos. No entanto, aqui o problema deixa de ser a duração da mesma, mas sim a questão da rotatividade dos residentes nas enfermarias e, frente aos casos ambulatoriais, o problema seriam os intervalos de tempo demasiado prolongados entre uma consulta e outra(19).

No caso específico da unidade em hemodiálise em questão, também que se considerar o grande volume de atividades técnicas exercidas pelo profissional médico, como elemento de limitação da convivência com o doente. Na formação médica amparada pela abordagem naturalista­mecanicista, o paciente deixa de ser o centro da atenção, sendo então encarado como parte de uma engrenagem e assim passa a ser tratado(2).

É importante lembrar aqui a relevante influência do pensamento cartesiano, levando-nos à concepção do dualismo mente-corpo, com a supremacia do segundo elemento sobre o primeiro. Lembremos que a forma de funcionamento do corpo humano, assemelhando-se a uma máquina, parece ter-se fortalecida, dentre outros momentos da história da medicina, pela descoberta acerca da existência da circulação sanguínea(20).

A formação de vínculos, apesar de imprescindível para um relacionamento profissional-paciente, não basta para que se tornem efetivos e atendam seus relevantes objetivos, dentro de um modelo assistencial de saúde. Percebemos que este vínculo é mais facilmente obtido pelos profissionais da área de enfermagem, que assistem o paciente de modo peculiarmente reconhecido. Tal fato pode ser explicado pelo contato de tempo mais prolongado que o enfermeiro tem junto ao paciente, desde sua recepção na unidade, o momento da pesagem, da punção de uma fístula e de manutenção. Um relato ilustra, de certa forma, esta questão: [...] que nem a enfermeira [...] eu passo mal na máquina por exemplo [... ] ela vai [...] minha pressão, baixa, passa um sorinho, pergunta pra mim: - Você melhorou? Então bom! Não, elas não são assim [...] Passa um sorinho, olha para mim e fala assim: - Quantos (dedos) tem aqui? [...] é uma conversa diferente, isso te anima mais.

(E1) Este vínculo é um passo inicial importante na medida que promove uma maior confiança entre as partes envolvidas, embora possa também servir de subterfúgios inconscientes ou mesmo conscientes para uma imposição ao paciente de uma certa doutrina hospitalar mais rígida.

A presença fixa do profissional de enfermagem, naquele local, poderia servir como um elo de ligação na equipe. O desenvolvimento deste elo poderia facilitar a comunicação deste paciente, além de melhorar muito a assistência prestada, extrapolando a atenção ao somático, altamente valorizado.

O privilégio da competência clínica (biológica) e o relacionamento humano Como vimos na introdução deste trabalho, o tratamento e a doença podem trazer inúmeras complicações para o indivíduo. Tais eventos podem necessitar monitoramento efetivo e contínuo. A realização da sessão de hemodiálise fornece um componente a mais que, geralmente, fica a cargo dos membros da equipe de enfermagem, ou seja, o controle das funções vitais dos pacientes, bem como a operação da máquina de hemodiálise. Esta tarefa, amiúde, começa bem antes do paciente sentar-se à poltrona e de se começarem os preparativos para que ele seja ligado à máquina.

Interessante observação feita por Matta(21) sobre os termos utilizados correntemente no jargão da equipe de saúde, tais como: ligar, instalar e retirar o paciente. Instalar significa a preparação dos enquadres arteriovenosos e do capilar, responsáveis pela filtragem do sangue, a punção da fístula ou de um outro acesso e o início do procedimento de diálise . Retirar não significa exatamente, do ponto de vista técnico, o procedimento oposto, mas, de qualquer forma, o uso corrente destes termos aponta para uma concepção muito mecânica da atividade.

Percebemos, como na fala abaixo, que este jargão foi também incorporado ao vocabulário dos pacientes que se submetem ao tratamento: [...] enquanto eu não ligo, eu não me sinto bem. a partir do momento que eu estou ligado na máquina eu começo a me sentir melhor. (E2) [...] o meu tratamento, na salinha [...] o pessoal vem e me liga [...] e vai ligar fora, no salão [...] (E2) O caráter eminentemente técnico do procedimento acaba por exigir do profissional uma especialização e um treinamento específicos que o capacitam no manuseio da máquina e, principalmente, no atendimento dos efeitos colaterais (físicos) do pacientes. Essa competência técnica tem uma característica importante: a confiança depositada no profissional e a percepção do lado humano do tratamento, como podemos atestar abaixo.

[...] eles são muito atentos, eles são muito bons [...] inclusive eu estou com um pouco de dor nessa mão agora [...] eu esfrego ela, não melhora a dor. eu peço para elas virem fazer massagem, elas sentam perto de mim, fazem massagem, um pouquinho de cada uma [...] então eu acho que é bom o relacionamento assim na parte humana deles. (E7) [...] eu acho muito bom o atendimento deles, que eu vejo assim [...] a gente vai ter um cuidado [...] suponhamos que eu tenha uma parada [...] você o atendimento deles, eles correm, eles socorrem [...] busca socorro para a pessoa correndo, todo mundo se trombando um no outro ... Então, a gente se sente seguro com eles porque eu acho que se acontecer comigo ela também vai me socorrer .. eu vou morrer se for a minha hora .... por eles, eu acho que eles ajudam a gente a sobreviver. (E7) O paciente, muitas vezes, confere ao profissional poderes que vão além de sua capacidade. A paciente El, ao mencionar que morrerá se chegar a sua hora, de certa forma reforça a idéia da boa formação profissional da equipe. Esta seria composta por pessoas que receberam treinamento adequado para lidar com doenças, a favor da vida e contra a morte.

[...] se eu vejo alguma coisa errada na minha máquina, eu chamo elas (enfermeiras) numa boa [...] elas vêm numa boa. Eu não posso falar pelos outros [...] pelo menos por mim a parte humana elas me tratam muito bem. (E1) [...] às vezes você chama um médico [...] vem assim daquele jeito .... às vezes nem põe a mão no paciente [...] é falta de humanidade.

(E3) Agora, tem médico aqui que eu vou te falar [...] é atencioso, você chama ele te examina [...] essa parte de humanidade é isso, você chamar o médico, o médico não se preocupar. (E3) É importante observar, nas falas anteriormente citadas, que o atendimento mais humanizado acaba se confundindo com certo caráter prestativo com que os membros da equipe atendem às demandas físico-biológicas ou aos procedimentos referentes à máquina. Acreditamos que tal fato seja uma conseqüência daquilo que Balint(3) chamou de função apostólica: como se os profissionais de saúde possuíssem o conhecimento revelado do que os pacientes deviam e não deviam esperar e suportar como se tivesse o sagrado dever de converter a sua todos os incrédulos e ignorantes entre os pacientes.

Assim sendo, o objetivo - e freqüentemente o efeito da resposta - é induzir o paciente a adotar as normas da equipe, isto é, convertê-Io à prática de tal .

Os pacientes, de certa forma, respondem como seres humanos àqueles cuidados biológicos, pois teriam sido convertidos a aceitarem-nos como únicos, a despeito de um atendimento que envolva uma assistência mais globalizada em que os aspectos psicológicos e sociais também sejam privilegiados.

6 Conclusões A questão do vínculo entre equipe de saúde e paciente. segundo a ótica do segundo, apresentou-se deficitária em nossos resultados de pesquisa, sendo que os pacientes atribuíram o problema, em grande parte, à rotatividade dos médicos- residentes, uma situação peculiar em hospitais universitários.

A necessidade de ser ouvido e de receber maior atenção, mencionadas pelos pacientes, consistiu num fator associado à alta tecnologia e à diversidade de procedimentos técnicos exercidos pelos profissionais da equipe de saúde. O profissional de enfermagem, segundo a fala dos sujeitos da pesquisa, demonstrou apresentar uma maior vinculação com os pacientes, em razão do contato habitualmente mais prolongado com este profissional. Constatamos que o vínculo mantém-se num nível afetivo também importante, mas, mesmo assim, ainda carecendo de maior percepção das questões subjetivas existentes neste enquadre.

Existe uma compreensível assimilação, por parte dos pacientes, do modelo de comunicação geralmente adotado pela equipe de saúde, no qual o jargão do enfermeiro passa também a ser utilizado pelos pacientes, como no exemplo da expressão "estar ligado à máquina". Este fenômeno, fruto de uma "função apostólica" do profissional, pôde ser evidenciada em nossos achados. Pode representar para o paciente, de certa forma, um caráter de defesa a sentimentos de desproteção ou medo, na medida em que este vai reconhecendo a capacidade técnica do profissional, o que confere certo poder à equipe. não raro, além de suas possibilidades.

O atendimento mais humanizado é entendido pelos pacientes como sendo aquele prestado segundo a qualidade das atividades técnicas que possam ser dispensadas pelo profissional de saúde, havendo, desta forma, limitada discriminação entre relação interpessoal e competência puramente técnica.


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