Educação sem distâncias: utilização do WebCT como ferramenta de apoio para o
ensino da Terapia Intravenosa na graduação em Enfermagem
REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS
Educação sem distâncias: utilização do WebCT como ferramenta de apoio para o
ensino da Terapia Intravenosa na graduação em Enfermagem
Distance education: use of WebCT as a support tool for teaching Intravenous
Therapy in Nursing undergraduate programs
Educación sin distancias: uso de la WebCT como apoyo a la enseñanza de la
Terapia Intravenosa en la Graduación en Enfermería
Denise Costa DiasI; Silvia Helena De Bortoli CassianiII
IProfessora doutora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, E-mail:
denisedias@brturbo.com
IIProfessora Associada DEGE-EERP- USP. Escola de Enfemagem de Ribeirão Preto -
Universidade de São Paulo
1 Introdução
O cenário educacional contemporâneo mostra uma forte tendência à crescente
inserção dos métodos e tecnologias da Educação a Distância em um sistema
integrado, permitindo o estabelecimento de cursos com combinação variável de
recursos de ensino-aprendizagem, presenciais ou não presenciais.
Consideramos importante esclarecer o conceito que intitula nossa investigação,
ou seja, Educação sem distâncias. Este título pode parecer inicialmente um
paradoxo, mas o próprio Ministério de Educação e Cultura já reconhece que o
conceito de Educação a Distância - EAD ganha uma dimensão renovada, tornando-se
na verdade, uma educação sem distância.
A denominação Educação a Distância começa a ficar ultrapassada. É ressaltado
que na educação, a distância, além de relativa pode ser vista sob diferentes
enfoques. O que realmente importa é a sensação de distância percebida pelo
aprendiz(1).
Com a telemática, surge uma nova fase de sistemas de EAD, caracterizando-se
como sistemas interativos abertos que utilizam recursos das telecomunicações e
da informática, e podem fazer uso de mensagens de texto, áudio e vídeo.
A educação em um ambiente de rede (on-line) ocorre num outro tempo e num outro
espaço. O espaço é chamado de virtual e o tempo é de natureza diversa,
permitindo encontros síncronos e assíncronos, possibilitando que o processo de
ensino-aprendizagem ocorra em diferentes locais e em diferentes momentos, de
acordo com a conveniência de alunos e professores(2).
No espaço virtual o ponto de articulação entre professores e alunos não é mais
a sala de aula e o tempo determinado para as aulas. É preciso aprender a
transitar nesse ambiente digital de aprendizagem, que é puramente relacional.
Acredita-se que esse espaço oferece soluções aos problemas de interatividade e
individualização que ocorriam em outras modalidades de EAD. A Internet
possibilita que os alunos, não só acessem ao conteúdo, mas também permite que
estes se comuniquem com os colegas e com o instrutor.
A informática aplicada especificamente no setor da saúde é fato consumado,
tanto internacional, como nacionalmente, e encontra-se em processo de acelerado
desenvolvimento. Acompanhar esse crescimento vertiginoso requer compromisso com
o desenvolvimento profissional(3).
Assim, propiciar a educação de enfermagem por meio de um ambiente digital vem
ocupar um espaço importante, contribuindo com o preparo dos alunos para que
estes adquiram um perfil compatível com a cultura tecnológica, para que possam
contribuir em ambientes informatizados na assistência, no ensino e na pesquisa.
Como qualquer outra proposta educativa, a EAD tem diferentes perspectivas de
ação filosófica, onde princípios e valores estão postos em jogo. Conforme a
perspectiva de ação pode-se cair no extremo da massificação, onde a tecnologia
é usada apenas para transmitir informações ou no extremo da individualização.
Porém, coloca-se uma terceira possibilidade, que se estabelece pela
individualização voltada para a integração e cooperação social. Aqui se insere
o conceito de aprendizagem colaborativa, considerado fundamental para o
desenvolvimento da educação em ambientes de rede.
A noção de aprendizagem colaborativa é de que a aquisição de conhecimentos não
é um processo inerentemente individual, mas resulta de interação grupal e
baseia-se nas seguintes premissas:
- cada participante tem conhecimentos e experiências individuais para oferecer
e compartilhar com o grupo;
- quando trabalham juntos como um time, um membro ajuda o outro a aprender;
- a compreensão é ampliada por meio da exposição a diferentes pontos de vista
(4,5).
A EAD na enfermagem já tem sido bastante utilizada em outros países com
resultados satisfatórios(6-12). No entanto, no Brasil ainda são incipientes as
atividades relacionadas a essa modalidade educacional e, portanto, ressaltamos
a necessidade de investimentos em pesquisa nessa área.
Este estudo justifica-se na medida em que a educação de enfermagem poderá
beneficiar-se amplamente dessa nova tecnologia de ensino. Dentre os vários
conteúdos que podem ser ministrados por meio da Internet, foi escolhido o tema
Terapia Intravenosa(TIV) por se tratar de assunto complexo, abrangendo não
apenas técnicas que devem ser aprendidas em ambientes de laboratório e em
situações reais, mas também vários aspectos conceituais que podem ser
discutidos em um ambiente digital de aprendizagem.
É reconhecido que novas tecnologias devam ser empregadas na educação de
enfermagem, trazendo potenciais benefícios. Para tanto, existe a necessidade de
ajudar alunos e professores a construírem uma relação sadia com essas
tecnologias, pois ao mesmo tempo que trazem grandes benefícios, acrescentam
muita complexidade ao processo.
O objetivo de um ambiente digital de aprendizagem, por meio da Internet, é
apoiar a comunicação, a colaboração e a coordenação das atividades de um grupo.
O grande desafio reside em conseguir comunicar e aproximar as pessoas
utilizando apenas ferramentas que, embora não propiciem o contato físico, ou
face-a-face direto, não eliminam fatores como a afetividade na interação e
podem propiciar contato virtual, que algumas vezes poderão ser mais próximos do
que contatos presenciais(12).
Novas tecnologias educacionais, sendo novidade, requerem uma adaptação em
termos operacionais, neste sentido são fornecidas orientações(5) para a
implementação do ambiente digital de aprendizagem:
1. Identificação das necessidades: o primeiro passo é identificar atividades
educacionais que podem beneficiar-se do ambiente on-line e determinar que tipo
de abordagem será utilizada;
2. Garantir a acessibilidade: Recursos apropriados de hardware e software
precisam ser considerados;
3. Apoio administrativo: os recursos necessários para a implementação devem ser
obtidos por meio da instituição de ensino ou por financiamento de agências de
fomento;
4. Planejamento do curso: devem ser definidos os objetivos educacionais em
termos de conteúdo, conhecimentos e habilidades a serem adquiridos;
5. Capacitação do docente: para familiarização com o ambiente com as
ferramentas disponíveis;
6. Orientação aos alunos: para que estes compreendam os princípios da
aprendizagem colaborativa;
7. Avaliação: especialmente em projetos pioneiros precisa medir não apenas os
resultados, mas sim o contexto ambiental e as possibilidades de melhoria da
educação nesse ambiente.
Como qualquer ferramenta, a Internet oferece vantagens e desvantagens, o quadro
abaixo mostra uma compilação destas(13).
Para abordarmos a utilização da Internet, e mais especificamente, do ambiente
WebCT, para disponibilizar conteúdos educacionais, optamos pela teoria da
atividade. Esta teoria diz respeito a relação homem-mundo enquanto construída
historicamente e mediada por instrumentos.
As atividades humanas são consideradas como formas de relação do homem com o
mundo, dirigidas por motivos, por fins a serem alcançados. A idéia de atividade
envolve a noção de que o homem orienta-se por objetivos, agindo de forma
intencional, por meio de ações planejadas(15).
Os objetivos deste estudo foram desenvolver material educacional sobre Terapia
Intravenosa e disponibilizar na Internet, dentro do ambiente WebCT. Avaliar o
material educacional desenvolvido envolvendo especialistas no ensino de
enfermagem. E avaliar a utilização do material pelos alunos em termos de
dificuldades e/ou facilidades, das ferramentas disponíveis no ambiente WebCTe a
participação/interação.
2 Metodologia
Optamos por um estudo descritivo, desenvolvido em duas etapas, a saber:
- etapa 1: Construção dos módulos do curso sobre TIV, avaliação preliminar e
disponibilização no ambiente WebCT.
- etapa 2: Avaliação formativa e final pelos alunos que participaram do curso
on-line sobre TIV.
O estudo foi desenvolvido em escolas e cursos de graduação de enfermagem de
três localidades: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo - USP, Faculdade de Enfermagem do Centro Educacional Barão de Mauá, de
Ribeirão Preto - SP; Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, de Porto Alegre - RS; e cursos de enfermagem da Universidade Estadual
do Oeste do Paraná - UNIOESTE e da Universidade Paranaense - UNIPAR, ambas de
Cascavel - PR.
Na etapa 1, a população foi constituída por 4 enfermeiros, professores do
ensino superior, mestres em enfermagem, que voluntariamente avaliaram o
conteúdo dos módulos.
Ainda nessa etapa contamos com 15 alunos do curso de enfermagem da Universidade
Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE que participaram da versão piloto do
curso on-line sobre TIV e o avaliaram.
Na etapa 2, a população foi constituída por alunos de graduação em enfermagem,
preferencialmente do 5º semestre em diante, pois era importante que já tivessem
alguma exposição ao conteúdo sobre terapia intravenosa para que pudessem
participar discutindo suas experiências e dificuldades relacionadas ao tema.
Fizeram parte da amostra 25 alunos que completaram até 50% das atividades do
curso, de acordo com critérios de inclusão estipulados.
O WebCTé um ambiente para a criação, aplicação e administração de cursos
baseados na Internet, desenvolvido originalmente na Universidade de British
Columbia, Vancouver, Canadá, em 1995, com o objetivo de atender as necessidade
do mercado acadêmico. Este software (WEBCT- Web Course Tools) auxilia o docente
na tarefa de disponibilizar o conteúdo de seu curso na Internet, sem que este
necessite aprender html (hiper text protocol = linguagem computacional
utilizada para formatação de textos para serem veiculados na Internet) ou
outras habilidades computacionais mais complexas.
O projeto de pesquisa foi submetido a análise da Comissão de Ética em Pesquisa
da EERP-USP e considerado aprovado em 17 de abril de 2002, após o que foi
iniciada a coleta de dados. Os alunos participantes foram orientados sobre os
objetivos da pesquisa e consentiram em participar assinando termo de
consentimento informado.
3. Resultados e discussão
3.1 Resultados da Etapa 1
Inicialmente foi realizado levantamento bibliográfico relacionado ao tema e o
desenvolvimento do conteúdo foi organizado em módulos, em seqüência lógica, com
definição dos objetivos para o aprendizado de cada módulo. Na elaboração de
cada módulo tentou-se incluir atividades que demandaram a participação ativa do
aluno.
A avaliação preliminar destes módulos foi realizada por especialistas no ensino
de enfermagem, que, de maneira geral, consideraram o conteúdo abrangente,
pertinente, organizado, obedecendo a uma seqüência lógica, claro, com objetivos
instrucionais adequados e exercícios que respondiam a esses, atualizado e com
conceitos corretos.
Ao disponibilizarmos os módulos do curso no ambiente WebCTrealizamos um teste
piloto com alunos de graduação em enfermagem. Estes alunos, de maneira geral,
concordaram com a apropriação da apresentação do conteúdo em termos de texto e
ilustrações, clareza dos comandos do programa (conexão e ícones),
interatividade do material, adequação do relacionamento interpessoal entre os
alunos e entre estes e a instrutora, e relataram que sentiram-se estimulados
pela novidade. Esta experiência propiciou, sobretudo, experiência para a
docente sobre a utilização das ferramentas do ambiente.
3.2 Resultados da etapa 2
Os alunos que completaram o curso, de maneira geral, avaliaram a oportunidade
de aprendizagem no ambiente on-line positivamente, como vemos abaixo na
avaliação de uma aluna:
De primeira mão, posso dizer que adorei a idéia do curso on-line! Foi muito
tranqüilo para mim, li aos poucos, voltei quando precisei, acessei os sites
sugeridos e respondi às perguntas, tudo ao meu tempo. É bem diferente de um
curso com palestras, exposições de slides e transparências em que a gente não
sabe se presta atenção no palestrante ou faz anotações. Jóia demais [...](A5)
Embora os alunos tenham valorizado a experiência, percebeu-se uma elevada
evasão(49%)durante o curso, e ao serem contatados a maioria informou que a
dificuldade maior era falta de tempo, seguida de dificuldade de acesso. Outros
estudos sobre a modalidade de educação via Internetconstataram taxas elevadas
de evasão, e foi observado que entre os fatores determinantes para a
desistência as respostas revelavam a falta de tempo(16, 17). Aparentemente os
participantes não anteciparam a necessidade real de tempo ou não gerenciam o
tempo de estudo com autonomia.
Foi avaliada a utilização do material disponibilizado no WebCTe utilizado por
alunos de graduação de enfermagem de três diferentes localidades. Estes
mencionaram aspectos limitadores e aspectos facilitadores da ferramenta.
Colocaram suas opiniões sobre a sua participação, assim como a de seus colegas
e da instrutora, no ambienteon-linede aprendizagem.
Verificamos que entre os aspectos facilitadores, houve destaque para a
flexibilidade espaço-temporal possibilitada pelo ambiente virtual, acesso a
recursos técnicos, a interação positiva com a instrutora e aspectos
relacionados à organização e clareza do conteúdo do curso. E entre os aspectos
dificultadores destacaram-se problemas técnicos, falta de tempo por parte dos
alunos e falta de interação pessoal.
Sobre os aspectos que facilitaram houve destaque para a conveniência (qualquer
hora e qualquer local) desta modalidade educacional, sendo esta também
ressaltada na literatura como uma das principais vantagens. Em estudo realizado
anteriormente, os alunos mencionaram esta vantagem, e quanto mais distante do
campusresidiam, mais conveniente acharam o curso via Internet(18).
Ao avaliarmos a utilização do material disponibilizado no WebCTtambém
questionamos os alunos quanto a aspectos relacionados a utilização das
ferramentas disponíveis no ambiente. E, de maneira geral, os alunos avaliaram
positivamente aspectos como clareza dos comandos para conexão e ícones;
interatividade do material, velocidade de carregamento das telas e a ajuda
oferecida pelo programa.
Esta investigação concebeu a educação na abordagem da Teoria da Atividade onde
existe a necessidade de desconstrução do paradigma tradicional de ensino, do
qual os alunos e a própria instrutora/pesquisadora foram alvo ao longo de sua
vida estudantil. Existe a necessidade de participação ativa tanto dos alunos,
como do instrutor que deve atuar como mediador, com o intuito de viabilizar a
aprendizagem.
4 Considerações finais
Acreditamos que, ao oferecer cursos baseados na Internet, ou apoiados pela
Internet, na educação de enfermagem, estaremos propiciando aos alunos uma
familiarização maior com tecnologias de informação atuais. No entanto, não
podemos utilizar essas novas tecnologias de forma ingênua e precisamos buscar
espaço dentro da enfermagem para reflexões críticas sobre essas. Para que esta
geração não assista à simples substituição do ensino por correspondência pelo
ensino pela "telinha", nem a substituição do quadro-negro pelo
monitor. Cabe a todos os envolvidos com a EAD buscar formas que possam com
certeza significar o "E" como "Educação", comprometida com
a aprendizagem e a formação do aluno e não simplesmente como
"ensino", mera transmissão de informações(19).
Vislumbramos que a Internetpode somar-se a outras estratégias de ensino,
funcionando como instrumento de auxílio a uma prática pedagógica diferenciada,
como elemento catalisador e transformador da estratégia de educação na
enfermagem, permitindo maior flexibilidade, tanto para docentes, como para
discentes.
Os achados que emergem desta investigação despertam reflexões que consideramos
de valor para nortear trabalhos futuros, contribuindo com subsídios para
futuros cursos na área de enfermagem, tanto na graduação, como na pós-graduação
e na educação continuada.
A utilização de ambientes de aprendizagem colaborativa via Internet pode
motivar o aluno já familiarizado com ambientes digitais e facilitar a inclusão
digital daqueles que não tiveram oportunidades de familiarização prévia.