A formação do enfermeiro e a estratégia atenção integrada às doenças
prevalentes na infância
DIRETRIZES CURRICULARES - IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO - RELATOS DE EXPERIÊNCIA
DAS DCN
A formação do enfermeiro e a estratégia atenção integrada às doenças
prevalentes na infância
Nurse education and the strategy of integrated management of childhood
prevalent illnesses
La formación del enfermero y la atención integrada a enfermedades de la
infancia
Maria De La Ó Ramallo VeríssimoI; Débora Falleiros de MelloII; Maria Rita
BertolozziIII; Anna Maria ChiesaIII; Cecília Helena de Siqueira SigaudI;
Elizabeth FujimoriIII; Regina Aparecida Garcia de LimaII
IProfessora Doutora do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola
de Enfermagem da USP - São Paulo/SP
IIProfa Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública
da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP - Ribeirão Preto/SP
IIIProfessora Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e
Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da USP - São Paulo/SP, E-mail:
1 Introdução
As diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação em Enfermagem(1)
definem que o profissional dessa área dever ser capaz de conhecer e intervir
sobre os problemas/situações de saúde-doença mais prevalentes no perfil
epidemiológico nacional, com ênfase na sua região de atuação, identificando as
dimensões bio-psico-sociais dos seus determinantes. Capacitado a atuar, com
senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor
da saúde integral do ser humano.
Nesse sentido, para a população de 0 a 5 anos de idade em nosso país, os
problemas de saúde prioritários são a diarréia, as infecções respiratórias
agudas, a desnutrição e a anemia, agravos que são passíveis de controle e
assistência no nível primário de atenção.
A Atenção Primária em Saúde caracteriza-se pela necessidade de articular ações
de prevenção, curativas e paliativas, e pelo vínculo entre profissionais e
população. Nesse âmbito, é mais apropriado classificar problemas identificados
do que buscar a elucidação de diagnósticos clínicos, como ocorre,
tradicionalmente, no âmbito da prática de especialidades(2).
Para atender a esses princípios, a estruturação da atenção básica demanda a
construção de processos de trabalho que incorporem inovações tecnológicas e
novas formas de organização além de depender de profissionais de saúde
devidamente capacitados.
É nessa dimensão que se coloca o uso de protocolos para o manejo padronizado de
agravos prevalentes na população, tal como a estratégia de Atenção Integrada às
Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI).
Este artigo tem por objetivo apresentar elementos de reflexão sobre a formação
do enfermeiro, focalizando a introdução da estratégia AIDPI no ensino de
graduação, a partir das experiências desenvolvidas nas duas Escolas de
Enfermagem da Universidade de São Paulo.
2 Aspectos históricos e princípios da estratégia AIDPI
Até a década de 70, os programas de assistência à saúde nos países em
desenvolvimento priorizavam o tratamento da doença e, nessa ótica,
caracterizavam-se por ações e atividades essencialmente hospitalocêntricas.
Em 1978, a Declaração de Alma-Ata introduziu a discussão sobre a inter-relação
entre doença, pobreza e desenvolvimento sócio-econômico, fomentando o
desenvolvimento da atenção primária à saúde em nível mundial.
No Brasil, com o objetivo de responder ao desafio de enfrentar os fatores
condicionantes e determinantes da morbi-mortalidade infantil e atingir melhores
indicadores de saúde, em 1984, o Ministério da Saúde, em conjunto com o
Ministério da Previdência e Assistência Social, propôs a criação do Programa de
Assistência Integral à Saúde da Criança (PAISC). Esse programa buscava promover
a saúde das crianças de forma integral, melhorar a qualidade do atendimento e
aumentar a cobertura dos serviços de saúde através de cinco ações básicas:
acompanhamento sistemático do crescimento e desenvolvimento, estímulo ao
aleitamento materno e orientação alimentar para o desmame, assistência e
controle das infecções respiratórias agudas, controle das doenças diarréicas e
controle de doenças preveníveis por imunização(3).
Apesar das ações preconizadas no PAISC terem sido propostas para atender aos
agravos mais freqüentes e importantes das crianças com menos de 5 anos de
idade, e o programa apresentar diretrizes para o atendimento da população
infantil nos serviços de saúde em todos os níveis de governo, federal, estadual
e municipal, o perfil da saúde infantil no Brasil continuou a representar um
grande desafio.
Em 1990, o 1º Encontro da Cúpula Mundial em Favor da Infância, realizado em
Nova Iorque pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), constatou
que as metas traçadas na Declaração de Alma Ata não haviam sido atingidas. Esse
fato marcou o reconhecimento e a preocupação dos governantes em estabelecer
prioridades concretas para a redução da morbi-mortalidade infantil por
diarréia, infecções respiratórias e doenças imunopreveníveis até o ano 2000.
Para alcançar tais metas, os aspectos propostos incluíram a necessidade de se
investir na melhoria do acesso da população a medidas de prevenção e promoção
da saúde, na melhoria da qualidade da atenção prestada na rede de serviços e a
necessidade de promover maior integração das estratégias e ações(4).
Na tentativa de enfrentar esse conjunto de problemas, organismos internacionais
como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde
(OPAS) e o UNICEF passaram a se mobilizar no sentido de unir esforços na busca
de novos enfoques e ferramentas para a construção de um sistema eficiente de
atenção primária à saúde infantil. Esse esforço conjunto resultou na estratégia
de Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI), adotada
oficialmente no Brasil pelo Ministério da Saúde em 1996.
A estratégia tem como finalidade reduzir a mortalidade infantil, reforçar o
conceito de integralidade da atenção à saúde da criança e fortalecer a
capacidade de planejamento e resolução dos problemas no nível primário de
atenção, colocando à disposição do pessoal da saúde, as ferramentas mais
adequadas. Especificamente, a AIDPI tem como objetivos: reduzir a mortalidade
em crianças com menos de cinco anos; reduzir o número e a gravidade de casos de
infecções respiratórias agudas, diarréias e desnutrição; e melhorar a qualidade
da atenção prestada à criança nos serviços de saúde, diminuindo o uso de
tecnologias de diagnóstico e tratamento inadequados(5, 6).
Introduzindo o conceito da integralidade, a estratégia AIDPI propõe
"olhar" a criança como um "todo" e não apenas o
"problema", motivo da consulta. Esse conceito propicia a aplicação de
todas as ações de controle específico já existentes no PAISC a um só tempo(7,
8).
Como a estratégia propõe avaliar, de maneira sistemática, os principais
problemas que afetam a saúde infantil, na tentativa de detectar e tratar
qualquer "sinal de perigo" ou doença específica, essa abordagem
permite que o profissional de saúde não perca de vista a avaliação e a
identificação de problemas ou sinais de enfermidade que, por não terem se
constituído na principal causa da consulta, poderiam não ser percebidos pelo
pessoal de saúde(6).
É também parte da estratégia AIDPI reconhecer que as crianças, saudáveis ou
doentes, devem ser consideradas dentro do contexto social no qual se
desenvolvem. Assim, a estratégia enfatiza a necessidade de se melhorar tanto as
práticas relacionadas à família e à comunidade, quanto a atenção prestada pelo
sistema de saúde, visando melhorar as habilidades dos profissionais de saúde, a
organização dos serviços e as práticas familiares e comunitárias de cuidado
infantil.
A estratégia consiste em um conjunto de critérios simplificados para avaliar,
classificar e tratar as doenças prevalentes nas crianças menores de cinco anos.
Está estruturada sob a forma de árvores decisórias, ou guias que orientam a
avaliação, classificação e manejo padronizado em tais situações, o que
possibilita maior resolutividade da assistência. Nesse sentido, a AIDPI busca
acelerar o tratamento de urgência em crianças gravemente doentes, envolver os
pais no cuidado efetivo da criança no lar, monitorar o crescimento, recuperar
nutricionalmente a criança desnutrida, e incentivar o aleitamento materno
exclusivo e a imunização.
É importante observar que a estratégia não tem como objetivo estabelecer
diagnóstico específico de doenças, mas avaliar sinais clínicos preditivos
positivos que possam definir a necessidade de encaminhamento urgente para uma
unidade de maior resolutividade ou se proceder ao tratamento no nível primário
de saúde, constituindo-se num enfoque altamente efetivo que integra ações
curativas com medidas de prevenção e promoção da saúde(9).
3 A estratégia AIDPI no currículo de Graduação da EEUSP
Os docentes da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) vêm
abordando os Programas de Saúde adotados pelo Ministério da Saúde e pelas
Secretarias de Estado e do Município de São Paulo ao longo dos anos, não só
incorporando-os ao currículo de Graduação, como também analisando-os através do
desenvolvimento de estudos sobre suas potencialidades e pontos de
estrangulamento.
O grupo de docentes teve conhecimento da estratégia AIDPI em 1996, em reunião
nacional promovida pela Coordenação Materno-Infantil do Ministério da Saúde e,
mais profundamente, em 1997, quando alguns membros desse grupo foram
capacitação para sua aplicação. A partir de então, definiu-se como uma das
metas de trabalho a incorporação da AIDPI no ensino de graduação da EEUSP.
As docentes reconhecem que a Estratégia está apoiada em fundamentos técnico-
científicos comprovados, que lhe conferem racionalidade e a respaldam, tanto no
que respeita à identificação da situação de saúde quanto às intervenções
propostas(6). Desse modo, possibilita ao graduando, bem como ao profissional,
organizar suas ações de forma a priorizar e hierarquizar os problemas e
necessidades de saúde. Tais ações tornam a assistência também racionalizada,
garantindo que as crianças sejam avaliadas integralmente, sem negligenciar os
problemas mais graves, graças ao emprego de sinais clínicos preditivos
positivos, que permitem resposta adequada aos perfis epidemiológicos da
população infantil em nosso meio(10).
Assim, em 1997, as docentes elaboraram o Projeto RESPIRA-AIDPI, que tem como
finalidades:
- Contribuir para a redução da morbi-mortalidade na infância, em algumas áreas
de risco do Município de São Paulo, mediante o aprimoramento de tecnologias de
intervenção em Saúde Coletiva e atuando sobre as doenças prevalentes na
infância.
- Promover a articulação e ação conjunta entre as instituições de formação de
recursos humanos e de prestação de assistência à saúde, com relação ao controle
das doenças prevalentes na infância.
- Incrementar a produção de conhecimentos, a qualificação de recursos humanos e
a atenção às doenças prevalentes na infância, para subsidiar o ensino de
graduação e pós-graduação e o planejamento de experiências similares em outras
regiões.
No que diz respeito à inclusão da Estratégia no currículo de Graduação, o
primeiro passo foi a parceria das docentes dos Departamentos de Enfermagem em
Saúde Coletiva (ENS) e de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica (ENP) para
a revisão dos programas de ensino das Disciplinas Enfermagem na Saúde da
Criança I (ENP) e Enfermagem em Saúde Coletiva e a Saúde da Criança e do
Adolescente (ENS). A primeira Disciplina tem carga horária total de 105 horas
e, a outra, 60 horas. Ambas são obrigatórias e complementares, ocorrendo
simultaneamente para grupos de alunos que variam de 40 a 48 por semestre.
O currículo de graduação da EE, na área de Saúde da Criança, há vários anos tem
como base os perfis epidemiológicos da população infantil no país. Dessa forma,
a incorporação da Estratégia foi facilitada, pois não houve necessidade de
mudança radical do conteúdo programático. Na verdade, foi possível reorganizar
o ensino, integrando os conteúdos e práticas das Disciplinas. Assim, todas as
vezes que são abordados os problemas prevalentes, dá-se ênfase aos sinais,
classificações e condutas preconizados na Estratégia.
Somando-se os períodos ministrados nas duas disciplinas, são utilizadas 45
horas para a abordagem teórica dos conteúdos da estratégia AIDPI, incluindo-se
as bases técnico-científicas que a fundamentam. Para tanto, ocorrem aulas
expositivas com apoio de recursos áudio-visuais, como as fitas de vídeo do
Curso Clínico de AIDPI, e os alunos realizam exercícios dos módulos auto-
instrutivos.
O ensino da AIDPI tem como objetivo disponibilizar aos alunos instrumentos para
a identificação e manejo das doenças prevalentes na infância. Para tanto, são
ministrados conteúdos referentes à integralidade da assistência em saúde
infantil, além da caracterização epidemiológica e sua distinção segundo os
diferentes grupos sociais. Abordam-se também as doenças prevalentes, quais
sejam, infecções respiratórias agudas, doenças chiadoras, doenças diarréicas e
distúrbios nutricionais. Nesses temas, enfatizam-se a identificação das
crianças de risco e os cuidados para a prevenção e tratamento. Dentre os
conteúdos referentes à intervenção de Enfermagem em Saúde Coletiva, destaca-se
a abordagem da comunicação interpessoal com vistas à promoção de um processo
educativo emancipatório.
O ensino teórico-prático é realizado em Unidades Básicas de Saúde, em Unidades
Hospitalares e em visitas domiciliares às famílias cadastradas no Programa de
Saúde da Família, somando cerca de 20 horas para todos os alunos. Os alunos
utilizam o instrumento padronizado da AIDPI e avaliam e classificam pelo menos
cinco crianças, nos diferentes campos de prática.
Visando incrementar o ensino da Estratégia, o grupo de docentes tem investido
na divulgação de seu trabalho, através de publicações e apresentações em
eventos, e no desenvolvimento de recursos de apoio didático. A exemplo, cabe
destacar: em 2000, produziu o vídeo Conversando com as mães sobre problemas
respiratórios; em 2001, incluiu conteúdos da AIDPI em três capítulos do Manual
de Enfermagem _ Programa de Saúde da Família organizado pelo Instituto de
Desenvolvimento da Saúde e adotado pelo Ministério da Saúde; em 2002, produziu
o cd-rom Bases Técnicas da Estratégia AIDPI; em 2002/2003 utilizou conteúdos da
AIDPI nos instrumentos e textos de apoio de um projeto de acompanhamento dos
cuidados domiciliares para a promoção do desenvolvimento infantil para as
equipes de saúde da família.
Além de ser aplicada como recurso na metodologia de assistência à criança, a
abordagem da Estratégia tem se constituído como fertilizador da compreensão
sobre a determinação social das enfermidades prevalentes na nossa população
infantil. Outro aspecto que tem sido particularmente enfatizado durante o
processo de ensino refere-se ao processo de comunicação e educação em saúde.
Ao longo do trabalho que o grupo de docentes tem desenvolvido, podem-se apontar
como principais fortalezas as que se seguem:
- Articulação e integração entre duas áreas de conhecimento (Saúde da Criança e
Saúde Coletiva) que, na EEUSP, vinculam-se a Departamentos diferentes.
- Integração com profissionais médicos de uma unidade básica de saúde, na qual
está implementada a Estratégia, o que facilita sobremaneira a interlocução na
equipe de saúde a respeito dos problemas das crianças, assim como potencializa
o desenvolvimento do ensino.
- Melhora do desempenho dos alunos, graças à organização de seu raciocínio nos
passos de avaliação e classificação do estado de saúde infantil e priorização
dos problemas.
- Avaliações positivas dos alunos em relação ao recorte do conteúdo, recursos
pedagógicos utilizados, experiências práticas e integração das Disciplinas.
Ancorado no êxito dessa experiência, o grupo de docentes assumiu o compromisso
de ampliar esse processo para o âmbito nacional, com a realização de fóruns com
docentes de enfermagem. O primeiro contou com 38 participantes de escolas das
regiões Sudeste, Nordeste e Norte e destinou-se à sensibilização e discussão
sobre as possibilidades de inserção desse conteúdo nas grades curriculares,
resultando em compromisso de incorporar a AIDPI nos currículos de graduação de
suas instituições. O segundo teve 22 participantes, incluindo docentes de
outros países da América Latina, e destinou-se à capacitação clínica, tendo
sido ainda abordadas também bases técnicas que fundamentam a Estratégia.
Até o momento, não foi possível realizar, de forma sistematizada, o seguimento
da implantação da AIDPI nos cursos de graduação, principalmente devido aos
limites orçamentários do Ministério da Saúde que não têm propiciado o apoio
necessário à continuidade da articulação das Escolas de Enfermagem do País.
Ainda assim, o grupo de docentes vem contribuindo para o fortalecimento do
ensino da AIDPI nos cursos de Graduação, através do relato de sua experiência
em eventos de sensibilização e atuando como facilitadoras em cursos de
capacitação de docentes no Brasil.
É importante salientar que, ao assumir esse compromisso, a EEUSP responde a uma
das missões da Universidade, qual seja, a de apoiar projetos de cooperação
técnica de âmbito nacional e internacional, principalmente ao levar adiante um
esforço comum para o controle de enfermidades que poderiam ser evitadas, mas
ainda consomem vidas e causam importantes seqüelas. Dessa forma, a EEUSP
contribui para melhorar a saúde da população infantil, principalmente dos
grupos mais pobres e que, em grande monta, não têm acesso à qualidade de vida.
4 A Estratégia AIDPI no ensino de graduação da EERP-USP
Os docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo (EERP-USP), vinculados à área de ensino Enfermagem em Saúde da Criança e
do Adolescente, vêm desenvolvendo suas atividades de ensino, pesquisa e
extensão com base nas discussões no Grupo de Estudos em Saúde da Criança e do
Adolescente (GESCA), do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde
Pública da EERP-USP. O GESCA tem por objetivos: promover estudos e pesquisas
sobre o processo saúde-doença e o cuidado de recém-nascidos, crianças e
adolescentes, apreendendo-os em suas dimensões individual e coletiva e em suas
relações com a família, a escola, o setor saúde e a comunidade; analisar a
inserção da enfermagem nas diferentes modalidades das práticas em saúde,
referente a essa população; programar o ensino de enfermagem para a graduação,
pós-graduação e extensão universitária(11).
As atividades de ensino, pesquisa e extensão de serviços à comunidade partem da
definição de que as crianças: são seres em crescimento e desenvolvimento, com
necessidades específicas em cada fase, pertencendo a diferentes classes
sociais, apresentando desigualdades não apenas biológicas, ditadas pelas etapas
de amadurecimento de suas funções orgânicas, mas socialmente determinadas,
havendo uma relação diretamente proporcional entre suas vulnerabilidades,
riscos de adoecer, danos e suas condições de existência e qualidade de vida
(12).
O ensino de graduação da EERP-USP, em relação à criança e ao adolescente, toma
o seguimento do crescimento e desenvolvimento como fio condutor. Para tanto,
oferece as disciplinas ERM-236: Enfermagem em Saúde da Criança e do Adolescente
(4º semestre-90horas) e ERM-424: Enfermagem pediátrica e neonatal (7º semestre-
120 horas), contemplando, dessa forma, os diferentes níveis de complexidade da
atenção primária, secundária e terciária. Além dessas, há a disciplina ERM-456:
Estágio Curricular Enfermagem em Saúde Coletiva, com 390 horas, no 8º semestre,
com caráter de estágio supervisionado.
Para o desenvolvimento das disciplinas do 4º semestre, os responsáveis pelo
ensino de enfermagem em saúde da criança e do adolescente, enfermagem em saúde
da mulher, enfermagem em saúde pública e nutrição vêm trabalhando com uma
programação integrada, tendo como diretriz a saúde da família. Essa iniciativa
apresenta limites a serem superados, mas os resultados das avaliações discentes
e docentes são positivos, levando-nos a buscar outras estratégias metodológicas
para esse processo ensino-aprendizagem.
O conteúdo programático sobre saúde da criança e adolescente aborda indicadores
epidemiológicos de morbi-mortalidade na infância e adolescência, diretrizes das
políticas de saúde da criança e do adolescente, atenção integrada às doenças
prevalentes na infância, observação sistematizada e medidas de proteção na
infância e adolescência. O ensino teórico-prático é realizado nos núcleos de
saúde da família, unidade básica de saúde, creches e escolas de ensino
fundamental. A programação também incorpora a discussão sobre os programas de
saúde adotados pelo Ministério da Saúde e pelas Secretarias da Saúde do Estado
de São Paulo e do Município de Ribeirão Preto. Assim, os docentes dessa área
consideram de extrema importância a introdução da estratégia AIDPI no currículo
de graduação, reconhecendo suas potencialidades para a redução da mortalidade
na infância, diminuição da incidência e/ou gravidade das doenças prevalentes,
melhoria da qualidade da atenção à saúde, fortalecimento da promoção à saúde e
de ações preventivas nos serviços de saúde, no domicílio e na comunidade.
No ensino teórico, a estratégia AIDPI direciona o processo ensino-aprendizagem,
a partir dos seus princípios norteadores, das bases técnico-científicas, dos
instrumentos de avaliação da criança, da classificação e das medidas
terapêuticas, contemplados em discussões, aulas expositivas, apresentação de
vídeos ilustrativos, exercícios teórico-práticos, estudos de caso e avaliações
escritas.
O ensino teórico-prático, atualmente, tem sido desenvolvido em consonância com
algumas atividades do Programa de Saúde da Família do Centro de Saúde
Escola_Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP, em que oito grupos de 7 a
10 alunos do 4º semestre e 2 alunos do 8º semestre, acompanhados por docentes e
pela enfermeira do Núcleo de Saúde da Família IV, vivenciam a assistência de
enfermagem em atendimentos individuais e grupais, visitas domiciliares,
recepção da clientela, educação continuada dos membros da equipe de saúde da
família, entre outras, direcionando para as etapas de avaliação da criança e
classificação das doenças prevalentes.
Os docentes dessa área também vêm incorporando esse conteúdo no ensino de
especialização em saúde da família, curso multiprofissional oferecido, em 2002-
2003, pelo Pólo Norte/Oeste Paulista de Formação e Capacitação de Recursos
Humanos em Saúde da Família. A estratégia AIDPI também faz parte de discussões
em disciplinas de pós-graduação e tem sido objeto de estudo de algumas
pesquisas sobre a prática de enfermagem em atenção primária à saúde da criança.
Outra frente que vem sendo enfatizada é a articulação com a Secretaria
Municipal da Saúde de Ribeirão Preto-SP, visando a sensibilização de
coordenadores programáticos, gerentes de unidades e profissionais de saúde para
a capacitação e implementação da estratégia na rede básica de serviços públicos
de saúde.
Entendendo que a estratégia AIDPI possibilita a apreensão da saúde da criança
em seus aspectos epidemiológicos, biológicos, sociais, afetivos e políticos,
compreende-se que ela enriquece sobremaneira o processo ensino-aprendizagem.
5 Possibilidades de aplicação da AIDPI em diferentes contextos de atendimento à
criança
No Brasil, a tarefa de capacitação dos enfermeiros em AIDPI iniciou-se pelos
profissionais que já atuam nos serviços, a partir da realização de cursos
clínicos promovidos pelo Ministério da Saúde e destinados a médicos e
enfermeiros. No entanto, a inserção da AIDPI nos cursos de graduação pode
favorecer muito sua implementação, uma vez que dispensa a necessidade de
reconstruir o processo de raciocínio do profissional para o atendimento da
criança, segundo a metodologia da Estratégia. Cabe destacar que a capacitação
do graduando não se faz nos mesmos moldes do curso clínico operacional para
profissionais, uma vez que precisa incluir obrigatoriamente conhecimentos e
habilidades que o profissional formado já domina, tais como fisiopatologia e
semiotécnica.
É fundamental ressaltar que, além do aspecto técnico da capacitação, cabe aos
gestores municipais a assunção da Estratégia como um protocolo oficial das
instituições de saúde, para respaldar legalmente a atuação dos enfermeiros (LEP
749.86 e Resoluções COFEN 195/97 e 271/2002). Nesse sentido, a Secretaria
Municipal de Saúde de São Paulo adotou a AIDPI como protocolo a ser assumido
por médicos e enfermeiros capacitados, na rede de serviços.
O enfermeiro capacitado para a aplicação da estratégia AIDPI pode atuar na
avaliação, classificação e tratamento das crianças com doenças prevalentes,
particularmente no âmbito das unidades básicas de saúde. Esse profissional é
protagonista fundamental na operacionalização da Estratégia, dado que, na maior
parte das vezes, está instrumentalizado para apreender as necessidades de saúde
dos usuários das unidades de atenção primária, além de, potencialmente,
conhecer mais profundamente as carências do território de referência dessas
unidades.
Cabe destacar que a atuação do enfermeiro não se restringe ao emprego do
instrumental clínico, mas abarca a dimensão dos demais componentes que integram
a Estratégia(13), tais como a vigilância em saúde, entendida como o
monitoramento dos principais problemas e necessidades das crianças, bem como a
organização dos processos de trabalho, com ênfase à melhoria dos cuidados
prestados na unidade de saúde. Ressalta-se, ainda, o papel do enfermeiro no
fortalecimento das práticas familiares para a promoção da saúde infantil,
prevenção de agravos e identificação precoce de sinais de gravidade.
No cenário atual da Atenção Primária, assume especial relevo a atuação do
enfermeiro na orientação e apoio ao trabalho dos agentes comunitários de saúde,
que têm se constituído como sujeitos catalisadores para a transformação das
condições de saúde das famílias que habitam o território de abrangência das
unidades de saúde.
Além disso, a estratégia AIDPI pode ser útil aos enfermeiros na orientação do
trabalho de cuidadores que atuam em vários locais de atendimento infantil, como
creches e abrigos, bem como de outras pessoas que atuam na comunidade, tais
como agentes da pastoral da criança. Nesses locais, os enfermeiros podem
preparar os cuidadores para realizarem diversas intervenções de saúde baseadas
nos princípios básicos da Estratégia como:
- Promoção de saúde e prevenção de doenças: incentivo ao aleitamento materno e
à imunização, e práticas alimentares adequadas, dentre outras.
- Reconhecimento precoce de sinais de doenças infantis e da necessidade de
procura de serviços de saúde apropriados.
- Prestação de cuidados de qualidade às crianças doentes: cuidados corretos
durante e após o período de doença que favoreçam o pronto restabelecimento da
criança, bem como a manutenção de seu processo saudável de crescimento e
desenvolvimento.
- Abertura para diálogos com a família sobre o processo de crescimento e
desenvolvimento infantil.
Tais práticas podem ser implementadas pelos cuidadores à medida que esses
tenham sido instrumentalizados, o que pode ocorrer mediante processos
educativos promovidos pelo enfermeiro.
Cabe destacar, ainda, que o enfermeiro é responsável por processos de educação
permanente da equipe de enfermagem, mediante supervisão direta das atividades e
realização de cursos e oficinas de capacitação e atualização, difundindo
conhecimentos relevantes para a prática assistencial e conseqüente melhoria da
realidade de saúde.
A incorporação da Estratégia AIDPI permite a sistematização da assistência à
criança, englobando atividades de educação em saúde, habilidades comunicativas
com a família e promoção do crescimento e desenvolvimento infantil. O
envolvimento de profissionais de saúde capacitados e que buscam proximidade da
clientela no cotidiano, por meio de atividades e intervenções numa abordagem
integral do processo saúde-doença-cuidado, constitui um desafio e pode
contribuir para a transformação das práticas de saúde.
6 Considerações finais
No presente artigo foi possível abordar elementos importantes para a formação
do enfermeiro, particularmente na área de enfermagem em saúde da criança,
ressaltando os aspectos históricos e princípios que fundamentam a Estratégia
AIDPI e experiências de introdução no ensino de graduação.
As Escolas de Enfermagem da USP estão compromissadas com a necessidade de
mudanças no cenário epidemiológico e social e nas práticas de saúde, assim como
com a implementação do Sistema Único de Saúde e reconhecem as potencialidades
que a estratégia AIDPI oferece para a melhoria da atuação do enfermeiro em
Saúde Coletiva nos serviços de saúde, no domicílio e na comunidade.