Assistência humanizada ao cliente oncológico: reflexões junto à equipe
RELATO DE EXPERIÊNCIA/ EXPERIENCE REPORT/RELATO DE EXPERIENCIA
Assistência humanizada ao cliente oncológico: reflexões junto à equipe
Humanized assistance with an oncology patient: reflections with the health team
Asistencia humanizada al cliente oncológico: reflexiones junto al equipo
Cleonice Antonieta CostaI; Wilson Danilo Lunardi FilhoII; Narciso Vieira
SoaresIII
IEnfermeira da Unidade de Oncologia da A.C.S.C do Rio Grande e da Rede Básica
de Saúde do Município do Rio Grande/RS, Especialista em Projetos Assistenciais
de Enfermagem, Docente do Curso Profissionalizante de Técnico de Enfermagem do
SENAC, Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde - NEPES/FURG
IIEnfermeiro, Professor Adjunto IV do Departamento de Enfermagem da Fundação
Universidade Federal do Rio Grande, Doutor em Enfermagem, Membro do Núcleo de
Estudos e Pesquisas em Saúde - NEPES/FURG, E-mail: lunardifilho@terra.com.br
IIIEnfermeiro, Professor do Curso de Enfermagem da Universidade Regional
Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Santo Ângelo, Mestre em
Enfermagem, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem, Saúde e
Educação - GEPESE/URI, E-mail: nvsoares@urisan.tche.br
1 Introdução
Cada vez mais, vivencia-se o aumento significativo das neoplasias malignas. No
quadro sanitário brasileiro, esta realidade tem ampliado a discussão sobre o
controle desse grupo de doenças, incluindo-as como uma das prioridades em
saúde. Apesar de ainda haver áreas obscuras na compreensão da etiologia do
câncer, já se tem conhecimentos suficientes para embasar ações de controle
capazes de diminuir a sua incidência e mortalidade.
A possibilidade de cura do câncer, na maioria de suas formas, está diretamente
relacionada à sua extensão, quando é instituído o primeiro tratamento, assim
como a qualidade e disponibilidade dos recursos para tratá-lo. No Brasil, as
doenças crônico-degenerativas, entre elas o câncer, vêm recebendo atenção
caracterizada por ações essencialmente terapêuticas, de alta tecnologia e alto
custo, dirigidas a pacientes com doenças sintomáticas e, na maioria das vezes,
avançadas. Esta situação, com freqüência é agravada pela falta de definição
sobre o caminho a ser seguido pelo paciente, desde a primeira queixa até a
confirmação do diagnóstico e o início do tratamento especializado.
Assim, a assistência ao paciente oncológico dá mostras de sua complexidade,
pois precisa envolver a consideração de múltiplos aspectos, tais como: físicos,
psicológicos, sociais, culturais, espirituais e econômicos, bem como os
preconceitos e tabus existentes, pois a palavra câncer, ainda, vem carregada da
idéia de maldição e morte. Como a maioria dos pacientes tem confirmado o seu
diagnóstico somente em fase avançada, além da cura de muitos tipos de câncer
ainda não ser possível e como o quadro que grande parte dos pacientes
apresenta, geralmente, é doloroso de se ver e acompanhar, os subterfúgios
aumentam, decorrendo daí o emprego de termos substitutos ou sinônimos: "a
doença ruim", "aquela doença", "tumor", "neo", dentre tantos outros. Ao ser
abordada a questão do câncer como uma perspectiva de finitude, pode-se afirmar
que se mostra tão ameaçador porque representa não apenas uma ameaça de morte,
mas uma tríplice ameaça: de dor física, de mutilação e de morte(1).
2 A equipe e a assistência ao cliente com câncer
O paciente com câncer não deve ser considerado, apenas, como mais um caso.
Nessa perspectiva, precisa ser empreendida uma visão holística e
multidisciplinar, buscando compreendê-lo nas suas múltiplas relações para
proporcionar uma abordagem profissional humanizada profundamente solidária,
geradora não só de saúde, mas, principalmente, de vida(2). Os profissionais que
trabalham em oncologia estão expostos, no seu dia-a-dia de trabalho, a
situações geradoras de conflitos. Os fatores que predispõem aos conflitos são,
dentre outros, as freqüentes perdas por morte; as pressões que expõem o modelo
médico tradicional de responsabilidade em relação à cura e à longevidade; o
trabalho constante com doenças graves e com a tristeza dos familiares, o
contato freqüente com os familiares e paciente, levando à criação de vínculo
com maior envolvimento com o problema vivido(3).
Não raro surge o sentimento de impotência do profissional diante da doença,
principalmente em sua fase terminal, que pode traduzir-se em revolta ou em
abatimento. De suma importância e, provavelmente, a mola mestra que vai
mobilizar toda a assistência emocional que será prestada ao paciente com câncer
e sua família, é a forma como a equipe comunica-se e interage com eles. A
comunicação, portanto, não deve ser vista, apenas, como um processo de
transmissão de informações, mas compreendida como uma possibilidade de
entendimento entre as pessoas(4). Desse modo, pode ser considerada como sendo
um dos elementos fundamentais no processo de autonomia do ser humano(5).
Considera-se de grande ajuda, neste sentido, a interação multiprofissional,
tendo clara a possibilidade de visualizar o cliente como um todo, nos seus
aspectos bio-psico-sócio-espirituais, pois o cuidado à saúde transcende o
simples ato de assistir centrado no fazer, nas técnicas ou nos procedimentos;
significa, também, reconhecer os clientes e seus familiares como seres humanos
singulares, vivenciando um difícil momento de suas vidas.
3 Humanizando a assistência ao cliente oncológico e sua família
A assistência humanizada ao paciente com câncer e seus familiares consiste no
emprego de atitudes que originem espaços que permitam a todos verbalizar seus
sentimentos e valorizá-los; identificar áreas potencialmente problemáticas;
auxiliá-los a identificar fontes de ajuda, que podem estar dentro ou fora da
própria família; fornecer informações e esclarecer suas percepções; ajudá-los
na busca de soluções dos problemas relacionados ao tratamento; instrumentalizá-
los para que tomem decisões sobre o tratamento proposto; e levar ao desempenho
de ações de auto-cuidado, dentro de suas possibilidades. Entre as múltiplas
ações de saúde necessárias para propiciar cuidados que privilegiem, dentre
outros, os aspectos psicológicos, estão à disponibilidade1, a atitude de
aceitação e de escuta e a criação e a manutenção de um ambiente terapêutico(6).
A partir dessa compreensão e diante da importância atribuída a uma assistência
humanizada aos clientes, o que se pretendeu com a realização deste estudo foi
construir e implementar uma prática assistencial junto à equipe de trabalho do
serviço de oncologia de uma instituição hospitalar de grande porte da região
leste do Rio Grande do Sul, fundamentada na Teoria Humanística, visando a
humanização da assistência aos clientes ali atendidos.
4 Caminho metodológico
Este estudo teve como eixo norteador o processo de diálogo reflexivo junto à
equipe dessa unidade de oncologia. Caracteriza-se como uma prática
assistencial, que buscou construir uma proposta de assistência humanizada aos
clientes por ela atendidos. Apoiando-se no referencial da enfermagem
fenomenológica2, teve o diálogo como meio facilitador do intercâmbio de saberes
enfermeira/equipe, visando sua instrumentalização para prestar uma assistência
ao cliente como sujeito do cuidado(7).
A opção pelo trabalho com a equipe deveu-se ao fato de considerar-se que, a
partir de encontros para discussões e reflexões, podem-se transformar
comportamentos para prestar uma assistência com qualidade e de forma abrangente
para, assim, colaborar para a melhoria da qualidade de vida dos clientes. A
cada um dos participantes foi solicitado o consentimento livre e esclarecido,
conforme determina a resolução 196/96 do Ministério da Saúde, bem como o Código
de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Para garantir o anonimato e o sigilo
das informações, foi sugerido aos participantes adotarem nomes de flores.
Assim, cada membro do grupo espontaneamente escolheu aquela de sua preferência
para identificar-se: Violeta, Amor Perfeito, Lírio, Orquídea, Bem-me-quer,
Cravo, Girassol e Rosa.
Os encontros foram realizados em uma das salas da unidade de oncologia, em
ambiente confortável, claro e arejado, sendo possível visualizar o verde da
natureza, através das janelas, e tendo o canto dos pássaros como fundo musical,
constituindo-se em um respiradouro para os membros do grupo. Ocorreram uma vez
por semana, às sextas-feiras, devido ao menor fluxo de clientes, totalizando
oito encontros com a duração aproximada de uma hora. Os diálogos foram captados
em fitas magnéticas numeradas, transcritas e digitadas, contemplando as falas
utilizadas pelos sujeitos com a linguagem com a qual cada um expressou suas
crenças, seus valores e opiniões, acerca da assistência prestada aos clientes
(8).
5 Operacionalização da prática assistencial
A experiência vivenciada resultou desse processo dialógico com oito membros da
equipe de trabalho da unidade de oncologia, sujeitos desta prática
assistencial, cujas cinco fases da enfermagem fenomenológica foram relacionadas
aos seguintes passos do processo de enfermagem: Investigação - coleta de dados
subjetivos e objetivos sobre e com a equipe, por meio do diálogo, da observação
das reações e expressões de cada um dos participantes e da sua interação com o
grupo. Foi possível conhecer opiniões, acerca da assistência que vêm prestando
aos clientes, dúvidas, anseios e expectativas. Esta compreensão intuitiva do
outro é necessária porque "a enfermeira tem que fazer uso da sua intuição como
pessoa e como profissional para saber como agir da melhor forma possível em
determinadas situações(9); Diagnóstico -elaborado através do diálogo, do
conhecimento de si e do outro, com a participação de todos os sujeitos desse
processo. A partir da constatação das necessidades do grupo, dos problemas
vividos, foi possível elaborar um plano de cuidados;Planejamento e
Implementação- descrição das metas a serem atingidas, conforme os objetivos
definidos junto com o grupo. As metas de bem-estar ou de vir-a-ser foram
atingidas pelo diálogo, através do encontro e da presença da enfermeira com a
equipe. Foi estabelecido como objetivo a ser atingido o fortalecimento do
grupo, visando a humanização da assistência aos clientes atendidos na unidade;
e Avaliação- ocorreu ao longo do desenvolvimento da prática assistencial,
quando, ao final de cada encontro, era realizada uma avaliação, no sentido de
identificar se houve ou não possíveis mudanças no comportamento dos membros da
equipe, em relação à prática cotidiana e a percepção de necessidades de
alterações na prática assistencial, dentre outros.
6 Descrevendo os encontros e as reflexões emergentes
A partir da instrumentalização inicial, mediante leituras e aprofundamento
teórico, consolidou-se a preparação para conhecer os outros. O primeiro contato
com o grupo visou o conhecimento subjetivo e objetivo de seus membros. Neste
encontro inicial, compareceram sete dos oito integrantes do grupo, quando foi
explicitado, novamente, o objetivo dessa prática assistencial, deixando claro
que a sua realização só seria possível com a participação ativa de cada um.
Alguns mostraram-se ansiosos e inibidos, diante da gravação das suas falas.
Buscou-se, então, estabelecer, inicialmente, um diálogo descontraído, visando
deixá-los mais à vontade para expressarem suas opiniões.
Dentre os assuntos discutidos, estão àqueles relativos à importância das
reuniões da equipe, percebidas como espaços para o diálogo, troca de idéias,
experiências, discussão e reflexão acerca dos assuntos relativos à sua prática
cotidiana. Refletindo-se sobre a importância das reuniões e o seu potencial de
fortalecimento da equipe para alcançar osobjetivos de humanização da
assistência ao paciente oncológico, partiu-se do pressuposto de que todos podem
contribuir com suas idéias e opiniões para a solução de problemas. Essa
característica essencial do trabalho em equipe faz com que as chances de êxito
na resolução dos problemas sejam maiores(10). Em outras palavras, as reuniões
não devem ser realizadas, apenas, para a cobrança do cumprimento de normas e
rotinas da unidade ou para criticar o que está errado, mas devem servir para, a
partir da identificação dos problemas, levantar sugestões, visando chegar a
soluções mais concretas. Também, devem ser realizadas para elogiar, quando a
equipe desempenha seu trabalho com qualidade.
Assim, pode-se perceber que o trabalho em equipe pode liberar a criatividade e
a energia. As comunicações em equipes eficazes são, automaticamente,
interativas; as pessoas desenvolvem-se por meio das sugestões de outras,
acrescentando novas perspectivas que fazem com que a discussão evolua(11).
Estas assertivas estão contempladas nas reflexões sobre a importância do
diálogo com o grupo, sobre o seu fazer com uma perspectiva de melhoria na
qualidade da assistência ao cliente oncológico, caracterizadas pela seguinte
fala:
O mais importante é que, através dessas reuniões, está se construindo
uma proposta de trabalho como início de um processo maior, onde irá
se desenvolver maior união entre o grupo. Esta união só vem em
benefício do paciente, pois, à medida que cada um ajudar o outro,
melhor será o trabalho da equipe(Cravo).
Houve o consenso de que a equipe já vinha prestando uma assistência com
bastante qualidade, embora reconheçam que sempre se pode melhorar, ou seja,
podemos buscar sempre "sermos mais", em nossas atividades cotidianas,
complementada pelo entendimento de que a assistência humanizada corresponde a
uma forma ideal para tratar os clientes. A gente mostra que devemos tratar o
paciente com respeito e não passando, para ele, a impressão de que temos pena
dele (Cravo).
Refletindo acerca da prática assistencial proposta e do fazer cotidiano, em
relação à humanização da assistência ao cliente oncológico, também houve o
consenso que é
Um direito do cliente ser bem atendido, implicando reconhecê-lo como
sujeito e não como um mero objeto. [...] O que nos falta é o que a
enfermeira está nos propondo, de uma forma bastante inteligente, ou
seja, instrumentalizarmo-nos melhor, visando assistir melhor.[...]
temos que fazer exercícios, parar e refletir, pois isto é uma
situação bastante nova. Tratarmos as pessoas com humanidade não deve
ser novo, não deveria ser novidade e sim uma rotina em nossa prática
profissional. Mas, como medir, como identificar esta atuação da
equipe, frente às pessoas, bem como sentir isto como nós estamos
sentindo, discutindo de uma forma coletiva? A realidade nos coloca em
cheque, no dia a dia, questões bem complexas(Girassol).
Uma questão vivenciada freqüentemente em oncologia é a possibilidade da
ocorrência e do pressentimento constante de morte a que estão submetidos os
clientes e familiares. Nesse sentido, surgiu o consenso de que se deve levar em
conta não somente suas necessidades biológicas, mas, principalmente, suas
necessidades espirituais decorrentes dessa situação.
Eu acho que a gente falha com a assistência, quando se trabalha
visando, apenas, a questão material, vendo o cliente como uma fonte
de lucro, quando não se trabalha a questão espiritual do ser humano.
Eu percebo, em toda a equipe, essa disponibilidade, essa boa vontade
(Girassol).
Por sua vez, os pacientes que vivenciam a possibilidade de ocorrência da morte,
muitas vezes, imaginam-se na iminência de "perder tudo e todos que amam"(12:
93). Frente a esta possibilidade, pacientes e familiares recorrem à
religiosidade para superarem esse difícil momento de suas vidas. É necessário,
portanto, que a equipe reconheça a importância de fazer-se presente e atender
também as necessidades religiosas dos pacientes, conforme as especificidades de
sua religião, em qualquer momento, [pois] não só é uma necessidade como um
direito do paciente(13). A proximidade da morte não deve implicar o afastamento
dos membros da equipe de saúde tanto do próprio cliente como dos seus
familiares(12).
Reportando-se a esta última fala, houve o questionamento sobre que estratégias
poderiam ser adotadas, no sentido de evitar atitudes desumanizantes,
impessoais, visualizando o paciente, apenas, como fonte de lucro. Com o
objetivo de incentivar o debate, foram trazidas, então, algumas reflexões sobre
a natureza humana dos membros da equipe e, por isso, ser impossível assumir uma
postura, apenas, de indiferença frente aos clientes, mas capaz de olhar para
suas existências, reconhecer suas unicidades, dando significado às suas
experiências e à sua busca de "ser mais". Outro assunto que emergiu refere-se à
união do grupo como resultado para o melhor atendimento ao cliente. O relato, a
seguir, reforça a importância desta união como fator facilitador para a
prestação do cuidado, dentro de uma visão humanística.
A gente pode ver qual a dificuldade do colega. Numa passada de olhos,
verificar se está necessitando de ajuda. Isto pode vir em benefício
de todos, pois demonstra que estamos, neste grupo, tentando fazer o
melhor trabalho possível. Quando a gente se predispõe a fazer alguma
coisa, tem que se fazer com carinho, tem que ter a honestidade, a
solidariedade como princípios norteadores(Cravo).
A equipe, também, necessita de cuidados especiais, de atenção, visando mantê-la
forte e unida, pois, quando não dispõe da ajuda necessária para se proteger dos
riscos do trabalho nem para usufruir recompensas, todo o tipo de problema pode
surgir como reuniões incômodas e destrutivas e o sentimento de decepção ou
desmotivação(11), cujos reflexos podem implicar baixa qualidade da assistência
prestada. Refletindo-se sobre o cuidado da própria equipe como uma exigência
para cuidar dos outros, foi evocado um estudo que buscou obter respostas a como
se dá a governabilidade na enfermagem, abordando o cuidado de si como exigência
para o cuidado do outro(14). Isto porque, para os membros da equipe
reconhecerem no paciente um ser humano e assim tratá-lo, precisam, também e num
estágio anterior, reconhecer-se e tratar-se como seres humanos. Como podemos
falar em humanização do paciente se, antes, não podemos constatar a presença de
equipes [...] humanizadas(15)?
O diálogo vivo e o entrosamento entre os membros da equipe podem ser
considerados como um fenômeno que envolve a nutrição do bem-estar e do mais-ser
(7). Esta transação intersubjetiva entre a equipe se dá num evento vivo
experienciado pelos participantes. A partir dessa prática assistencial, houve
maior interação entre eles e esta passou a ser, cada vez mais, constante no seu
cotidiano, como o atesta a seguinte fala.
Apesar de trabalhar, há alguns anos, com pacientes oncológicos
percebi que houve um maior entrosamento entre a equipe,
principalmente, com os pacientes, procurando atendê-los melhor,
dispensando mais atenção, priorizando as suas necessidades de
verbalizar suas dúvidas, em relação à doença(Orquídea).
Assim, percebe-se que a assistência humanizada inclui o estar junto de forma
empática, ouvir, buscar a compreensão de necessidades, resgatando o
entendimento de uma situação existencial que transcenda ao somente assistir,
dentro de uma visão tradicional(9), provando com isso que, por mais que seja
feito, sempre se pode fazer melhor. Portanto, quanto mais conseguimos incluir
de nós mesmos, mais conseguimos estar abertos aos outros. Quanto mais
conseguimos estar junto aos outros, mais nos permitimos compartilhar com eles
(16).
As discussões acerca do fazer cotidiano e a opção por uma assistência
humanizada, como conseqüente ampliação da perspectiva do cuidado, vendo o
cliente para além dos aspectos meramente físicos, prosseguiram nos demais
encontros. Esta perspectiva de realizar o cuidado, de maneira diferenciada, foi
identificada como uma possibilidade que vem ocorrendo de refletir sobre aquilo
que se está fazendo, a partir da realização dos primeiros encontros desta
prática assistencial, como atesta a fala a seguir.
Esta semana, quando fui aplicar a quimioterapia num paciente, percebi
que o mesmo estava muito angustiado. Fiquei conversando com ele por
aproximadamente meia hora, antes de realizar a punção. Relatou-me
que, além da doença, estava vivenciando problemas familiares. Após a
conversa, percebi que o paciente estava menos tenso, quando, então,
pude aplicar o tratamento. [...] Depois das reuniões, tem sido
melhor, porque percebemos como é importante para o paciente ser bem
atendido(Amor Perfeito).
Embora já houvesse o consenso de já estar sendo prestada uma assistência
diferenciada, houve a manifestação explícita do reconhecimento da importância
dos encontros até então realizados e suas repercussões no trabalho que vêm
desenvolvendo. Gastam-se alguns minutos a mais para estar com o cliente, mas
ganha-se em qualidade na assistência, representando maior ganho para todos.
Refletiu-se que esta é a diferença entre prestar uma assistência com qualidade
ou, simplesmente, realizada de forma mecânica, desconsiderando o cliente como
um ser semelhante a nós, que necessita, também, de atenção, de diálogo, de
carinho. Nesse processo reflexivo, emergiu, ainda, que o atendimento
diferenciado ao cliente pode ser prestado por qualquer membro da equipe, desde
aquele que realiza as funções mais elementares até aquele que realiza as mais
complexas. Por exemplo, à medida que quem realiza a limpeza do ambiente
demonstrar sua disponibilidade ao cliente, diante de suas necessidades, estará
contribuindo para a melhoria da assistência prestada a este mesmo cliente. Daí
porque são importantes o diálogo e a interação, em que as pessoas ouvem, riem,
choram, contemplam, participam do dia-a-dia demonstrando, cada um à sua
maneira, sensibilidade à importância de cada um na assistência(7). Esta
possibilidade de ajuda mútua, de união do grupo está contemplada na fala que se
segue.
Eu acho que, de agora em diante, vai melhorar mais do que está. Acho
que estamos mais unidos, fazemos uns pelos outros, ajudando uns aos
outros [...] Eu gosto muito do meu trabalho, tenho muito amor ao
serviço. Nós somos uma pequena família(Rosa).
A equipe de trabalho da unidade de oncologia, mesmo sendo constituída de
pessoas com diferentes saberes, valores e histórias de vida, neste momento, vem
convergindo seu interesse em refletir, cada vez mais, acerca da assistência que
vem prestando aos clientes.
Quanto mais tempo passamos juntos, mais unidos vamos ficar. O que
percebo como diferença de outros lugares em que já trabalhei é o
coleguismo que existe, aqui. Coleguismo mesmo. Quando qualquer um de
nós apresenta-se estressado, cansado, sempre tem alguém para ajudar,
dizendo: não. Pára ai! Deixa que eu faço! Eu punciono a veia para ti
e tu fazes outra coisa. Nos outros lugares, não tem disso. Tu tens
que fazer o teu serviço, embora, estejas cansada, angustiada,
estressada. Tens que fazer e pronto (Amor Perfeito).
As experiências vividas, durante a realização dessa prática assistencial,
apontam para o fortalecimento do grupo como equipe, em que um vai dando suporte
ao outro na realização do seu fazer cotidiano, como tão bem exemplifica a
seguinte fala.
Aqui, nós somos todos unidos, nos ajudamos uns aos outros, formamos
uma família, trabalhamos em paz, o que, às vezes, a gente não tem em
casa. Muitas vezes, é domingo e a gente está louca para vir trabalhar
(Amor Perfeito).
Esse estar disponível para o outro, significa compartilhar as experiências
diárias, enfrentando as incertezas da vida cotidiana, reconhecendo necessidades
e lutas do outro como necessidades e lutas próprias, enfim, como parte do
processo de vida, como parte do processo de vida em família(7).
7 Considerações finais
Durante o transcorrer do processo de reflexão coletiva com o grupo de trabalho
da unidade de oncologia, afloraram sentimentos que não eram percebidos ou,
muitas vezes, não manifestados no dia-a-dia de trabalho. Dentre eles, aqueles
contemplados nas falas apresentadas, a sensibilidade, o choro incontido,
durante os depoimentos de alguns membros do grupo, acerca do significado de seu
trabalho na unidade. Embora a assistência humanizada já fosse uma
característica percebida como presente no atendimento ao paciente oncológico, a
observação calcada no marco referencial construído possibilitou perceberem-se
sob uma nova visão, como seres humanos que, através do diálogo intersubjetivo
experienciado, podem utilizar seus potenciais para estar melhor. O
estabelecimento de uma relação dialógica, um estar disponível, ouvir e falar
oportunizaram a troca de conhecimentos, em que a nossa presença autêntica de
cuidadores possibilitou-nos avançar em nossas reflexões.
Constatou-se que os profissionais que trabalham em oncologia estão expostos, no
cotidiano do seu trabalho, a situações geradoras de conflitos que, muitas
vezes, são transferidos para as relações interpessoais. A partir da teoria
humanística, pôde-se interagir melhor com os membros dessa equipe, oferecendo
um espaço para o diálogo para que, desta forma, pudessem ser exteriorizados os
sentimentos. Acreditamos na importância desta prática tanto para nós, como
enfermeiros, quanto para a equipe de trabalho da unidade de oncologia porque
reconhecemos que a interação e o diálogo vivo podem ser utilizados como uma
prática assistencial, permitindo que se possa estabelecer e atingir objetivos
compartilhados.