Editoriais da REBEn: expressão da vida da enfermagem brasileira
PESQUISA
ERA NOVA
ANNAES DE ENFERMAGEM, v.1, n.1, p.5, maio 1932.
Da velha índia, atravez todos os povos primitivos, fonte da nossa civilização,
também desabrocharam as primeiras manifestações da enfermagem. Dos irracionaes
recebemos nós os bellos exemplos do mais forte pelo mais fraco: delles ainda
aos homens a concepção da necessidade de se ajudarem mutuamente. Dessa
concepção desenvolvida pelo espirito de observação tão peculiar aos primitivos,
aprehenderam elles a grandeza do "auxilio mutuo" - alma da enfermagem 0 que
pelos séculos, vencendo obstáculos, baqueando por vezes, ressurgiu, por fim,
triumphante, dominando o universo, ampliado no espirito da "enfermeira
moderna".
Desde as épochas mais remotas encontramos prenuncios de enfermagem em todos os
povos, se bem que manifestados sob aspectos e concepções differentes, desde as
imaginações mais estravagantes até as mais lógicas e scientificas conclusões.
Se volvermos os olhos para a tradicional India, encontraremos a velha Avó
septuagenária curando com beberagens hodiendas, rezas macabras, superstições e
crendices, que segundo o rito passavam de Avós a Mães e a filhas, sempre
entregues ao sexo feminino, consideradas que eram quasi sagradas.
Depois, a enfermagem se elevou aos templos, onde era praticada sob forma
mythologica, desde que aos deuses era dada a faculdade de fazer adoecer segundo
a gravidade do pecado, pois a doença era a punição dos deuses para os pobres
mortaes.
Com a evolução, estas idéias foram desapparecendo, assim as superstições e
crendices. Aos Hebreus deve-se em grande parte a evolução, como ao espírito do
gregos, que abandonaram as velhas e falsas concepções devido aos estudos de
Hypocrates e suas theorias marcadamente scientificas.
Os Romanos influenciados pelos Gregos também despegaram-se das velhas iéas e é
em Roma eu se encontra, principalmente quando influenciada pelo Christianismo,
a expansão da enfermagem representando o mais perfeito espirito de
humanitarismo.
A's matronas romanas deve-se a introducção e expansão desse espirito em todo o
occidente, tornando a enfermagem, a mais viva manifestação de altruismo
feminino. Com as Cruzadas maior vulto tomou esse desenvolvimento; formaram-se
ordens militares, destinadas á pratica da enfermagem.
Taes ordens muito contribuíram para que a aristocracia se interessasse portão
nobre profissão.
A influencia aristocratica trouxe como consequência o desdobramento de novas
ordens, de que é reminicencia o "Noblesse Oblige".
Ser enfermeira era ser fidalga e a enfermagem era uma fidalguia.
O Christianismo, o Militarismo e a Aristocracia não lograram, porém, crear o
typo ideal da enfermerira por faltarlhes o essencial - uma educação apropriada.
Como consequência, fechou-se um circulo dentro dos ideaes religiosos, surgindo
então fóra, um typo muito longe do que deveria ser, o da enfermeira curandeira,
inculta e inconsciente, que de casa em casa ia aplicando tratamentos absurdos e
quejando processos.
Foi o período da decadencia de uma profissão que tão alto se tinha elevado nos
meios sociaes.
Dois typos de enfermeiras existiram: a enfermeira religiosa em geral novre e
sem preparo scientifico, mas guiada por grande idealismo religioso,
considerando a enfermagem como um holocaustro, e a mercenaria, ignorante, sem o
menor espirito humanitario, visando a parte material da profissão.
Surge, então, Florence Nightingale, que reunia em sua pessoa, ideal
humanitario, cultura intellectual basica e posição social destacada na
aristocracia ingleza.
Florence, derruiu as idéas erróneas, de então, que tinham a enfermagem como
incompatível com a intelligencia, a educação esmerada e o meio social.
Foi ella, com sua energia, que provou aos potentados que, quanto maior preparo
melhor producto, theoria hoje universalmente reconhecida e proclamada, com a
consagração dos thecnicos em todos os ramos das actividades da vida.
O exemplo, partindo de tão alto conquistou a opinião pública, e o inicio do
nivelamento da profissão se operou. A efficiencia demonstrada por Florence e
suas dedicadas discípulas venceu a inveja e o despeito, conseguindo do governo
imperial britânico permissão e auxilio para a fundação de escolas de
enfermeiras tal como essa grande realisadora sonhara: - nível social e
intellectual esmerados.
A' immortal Florence cabe a glória da era nova da enfermagem: ás que seguiram-
lhe as pégadas até nós, continuando e consolidando obra tão complexa, os
louros, por terem, sem desfallecimento, elevado a profissão ao gráo supremo de
aperfeiçoamento, concretizado na admissão do ensino da enfermagem em quasi
todas as Universidades do mundo.
Izabel Humpton, mais tarde pelo casamento, Miss Robb, Adelaide Nutting, Anna
Goodrich, Izabel Stewart e tantas outras americanas do norte, tenazes e
infatigáveis irmãs de ideal, são nomes que toda a enfermeira moderna deve
venerar e cultuar pelo que hão feito pela independencia da profissão e
nivelamento delia ao ponto das demais ditas liberaes.
O espirito da enfermeira moderna é a concretisação dos exemplos e principios
ensinado pelas grandes precursoras da era nova, mas infelizmente ainda mal
conhecido em certos meios sociaes da actualidade, particularmente entre nós,
onde perdura conceito marcadamente erroneo.
A mentalidade da enfermeira de hoje symbolisa a cultura feminina aliada ao amor
ao proixmo e á Patria, dominado sempre pela satisfação intima.
A enfermeira moderna é ao mesmo tempo psychologa, philosopha e sociologa, ora
procurando conhecer e comprehender seus doentes, para ensinar-lhes a supportar
as adversidades e os soffrimentos pelo exemplo da sua própria mentalidade
fortalecida pelo estudo do "imperio de si proprio", ora ajudando-os em seus
problemas sociaes (tanta vez causa de males physicos) com o levar-lhes
conhecimentos aprehendidos no estudo da sociologia.
É a companheira constante dos infortunados.
É a mãe desvelada, noite e dia á cabeceira dos que lhe foram confiados na
ausência do medico, que tranquillo pode entregar-se aos seus afazeres.
É a technica efficiente, cuja competencia se constitui nos estudos e
conhecimentos da sciencia. É a observadora perspicaz, a quem o medico, muita
vez, deve o proprio brilho da Victoria final.
É a educadora dos lares, a aperfeiçoadora da raça, quando em seu nobre mister
de visitar quotidianamente as casas pobres que estão aos seus cuidados, ensina
princípios de hygiene e eugenia.
A enfermeira, a verdadeira enfermeira, deve prehencher a enfermagem dos três eu
do doente - o eu moral, o eu espiritual e o eu physico, objectivação do ideal
profissional. Neste complexo de requisitos, que só uma enfermeira instruída e
altamente cultivada pode realizar, está a "Era Nova" da enfermagem, de que será
o arauto esta publicação, a primeira entre nós.
Intelligencia, sensibilidade, cultura, amor aos estudos, dedicação ao proximo,
patriotismo, abnegação, temos todos nós brasileiras. A obra está iniciada; a
ella já pressurosas acorreram nossas irmãs do Norte. Em breve virão as do Sul e
todas fortes, unidas, trabalharão para a consolidação da era nova da nossa
profissão no Brasil.
Rachel Haddock Lobo
NOTA DA REDAÇÃO
ANAIS DE ENFERMAGEM, v.l, n.1,1948.
Pela quarta vez, em sua curta e acidentada existência, esta revista muda de
formato, e, se alguém possuirá coleção, do seu início até a interrupção em 1941
verificará que o presente número muito se assemelha àqueles publicados de 1935
em diante. As causas que determinaram as modificações anteriores são por nós
desconhecidas, mas, esta última alteração foi motivada por argumentos sérios
apresentados pela atual casa editora, de que um trabalho econômico e bem feito
implicaria na diminuição do formato. Esta medida foi tomada depois de certa
reflexão, guiada, principalmente, pelo desejo de melhorar a revista.
Encontramos certa oposição mas, a oportunidade excelente que nos foi
apresentada, de oferecer aos leitores um trabalho de melhor impressão venceu
todos os obstáculos.
Inicia-se, com este número de Janeiro de 1948, volume I e nº 1, nova fase para
os ANAIS DE ENFERMAGEM.
Ao dar essa explicação, que julgamos necessária, solicitamos, encarecidamente,
a colaboração de todas as enfermeiras para que nos enviem trabalhos científicos
de caráter teórico, prático e sugestões. Embora publicada em São Paulo, a
redação dos ANAIS DE ENFERMAGEM é composta de enfermeiras doutros Estados, e,
justamente para que a revista possa apresentar problemas de enfermagem
relativos a todo o país é que essa contribuição se torna imprescindível. É
preciso, pois, que todas compreendam que, sem esse espírito de cooperação, não
haverá desenvolvimento da Enfermagem; não poderemos ir para diante, e ficaremos
simplesmente marcando passos inúteis.
CONSELHO NACIONAL DE ENFERMAGEM
ANAIS DE ENFERMAGEM, v. 1, n. 3, 1948.
Como já foi noticiado, realizar-se-á no Rio de Janeiro, de 18 a 23 de julho
próximo, sob os auspícios da Seção do Distrito Federal da A.B.E.D., o II
Congresso Nacional de Enfermagem, enfermeiras de quase todos os pontos do país
encontrarão uma excelente oportunidade para estudarem e discutirem em conjunto
os nosso problemas de enfermagem.
Em março do ano passado, foi realizado em São Paulo o I Congresso Nacional.
Teses foram apresentadas e discutidas e resoluções foram tomadas. Vamos nos
deter um pouco nestas últimas. A primeira e mais importante resolução dizia o
seguinte: "Solicitar do Exmo. Sr. Ministro de Educação e Saúde a criação do
Conselho Nacional de Enfermagem, que será o órgão competente para estudar,
regulamentar e fiscalizar todos os assuntos concernentes ao ensino e à prática
de enfermagem".
Não foi esta, porém, a primeira vez, que as enfermeiras sentiram a necessidade
da criação do Conselho. Em 11 de junho de 1945, a presidente da Associação
Brasileira de Enfermeiras Diplomadas, apresentou ao Sr. Ministro de Educação um
anteprojeto da criação do Conselho, elaborado pela Associação, com o fim de
colaborar com o Ministério de Educação e Saúde no levantamento do nível
cultural e profissional da Enfermeira, estimulando o levantamento da profissão.
Este anteprojeto salientava a necessidade da criação de um órgão normativo, de
orientação, consulta e coordenação, relacionado com o ensino e exercício de
enfermagem em todo o país. Também, em 23 de dezembro de 1947, a Comissão
designada pelo Diretor do Departamento Nacional de Saúde, para o Estudo do
Problema de Enfermagem no Brasil, após pormenorizado exame do problema, apontou
grande número de fatores responsáveis pelo pequeno desenvolvimento da
enfermagem no Brasil e entre eles, estava aquele referente à ausência de órgãos
normativos e orientadores da enfermagem.
Não há dúvida, pois, que a criação do Conselho Nacional de Enfermagem está se
tornando imperiosa. Até agora, infelizmente, a atenção dos poderes públicos não
se voltou para o sério problema da Enfermagem, não foi elaborado ainda para as
nossas escolas um programa educativo nos moldes do "Curriculum Guide for School
of Nursing" que as escolas americanas congêneres possuem, que apresentasse as
linhas mestras do ensino de enfermagem, e que servisse de guia às escolas em
formação ou em vias de equiparação, contribuindo dessa maneira, para certa
uniformidade nos padrões de ensino. Se bem que, as escolas levam em
consideração as necessidades de suas respectivas comunidades no preparo das
enfermeiras, é importante tanto para as enfermeiras como para o público que
todas estejam preparadas para trabalhar em qualquer comunidade seja o Distrito
Federal ou a Amazônia.
As nossas escolas de enfermagem até agora têm se baseado no "Curriculum" norte-
americano, mas o programa educativo dos Estados Unidos não necessitaria de uma
adaptação ao nosso meio? E a quem compete estudar, sugerir e apresentar
conclusões, senão uma comissão designada pelo Conselho? O estímulo e a
orientação de tais estudos, dle grande importância para nós teriam de vir,
naturalmente dlo Conselho Nacional de Enfermagem.
A formação de auxiliares de enfemagem, o estudo do tipo, duração dos cursos a
serem ministrados, seriam objetivos do C.N.E. Caberia também a ele dar o
parecer sobre a equiparação de novas escolas, depois de minucioso estudo sobre
as condições das mesmas. O artigo 4º do Decreto federal nº 20.109 de 5 de junho
de 1931, referente à equiparação de escolas de enfermagem, sugere a criação de
um Conselho para aprovar os relatórios apresentados pelas escolas em questão.
Mas a criação do Conselho Nacional, como já foi feito, não se limitaria apenas
à função de decidir sobre a equiparação das escolas, e sob este ponto de vista,
o artigo citado está falho.
Esperemos que o II Congresso Nacional de Enfermagem traga, como resultado, a
criação do referido Conselho, e se assim acontecer, teremos avançado um grande
passo para o desenvolvimento da Enfermagem no Brasil.
EDITORIAL
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 12, n. 1,1959.
Está concluído o levantamento sobre os recursos e as necessidades de
enfermagem. Brevemente deverá ser publicado o relatório final. Foi o trabalho
de maior vulto que a Associação Brasileira de Enfermagem jamais empreendeu. O
fato de ter tido origem em recomendação da própria classe faz prever êxito na
fase de cumprimento das recomendações cujo objetivo é melhorar os serviços de
enfermagem prestados ao público. Sabem os enfermeiros, entretanto, que as
principais providências nesse sentido fogem à sua alçada. Muito do que se tem a
fazer terá que ser feito por legisladores, médicos, administradores sanitários
ou hospitalares e diretores de departamentos administrativos de serviços
públicos. A estes não tem sido fácil, até o presente, tomar decisões no terreno
da enfermagem, por falta, entre outros elementos, de dados objetivos em que se
basearas decisões.
O levantamento que a ABEn fez, utilizando os processos cientificamente
recomendados, abrangeu o estudo do que o Brasil já possui em enfermagem e do
que necessita, de pronto, para satisfazer suas necessidades mais prementes.
Seria grande demais a obra? Consumiria muito dinheiro? Muito tempo? Não
importa. Teria que ser realizada.
A causa boa tem adeptos certos. O público é que mais precisa de boa enfermagem,
compreendeu-o e deu à ABEn apoio sem o qual não se realizaria o trabalho.
A Fundação Rockefeller tomou a si dar os meios financeiros; a O.M.S. pela
Repartição Sanitária Panamericana, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, o Serviço Especial de Saúde Pública, a Comissão Nacional de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, o Ministério da Saúde por vários
de seus órgãos, estão entre as entidades que mais colaboraram com a ABEn para o
empreendimento agora concluído.
As recomendações aí estão como metas. Que fazer delas? Teremos de obter a ação
requerida em cada caso. São numerosíssimos os trabalhos a serem realizados.
Muitos enfermeiros se mostram conscientes da atual oportunidade de agir. Assim
é que já foram indicadas medidas para a instalação, em cada uma das dezessete
Seções Estaduais da ABEn, de uma Comissão de Seguimento. As recomendações
números 10 e 11 do XI Congresso Brasileiro de Enfermagem, de Recife,
recentemente divulgadas, dão as normas que deverão servir para o começo do
trabalho. A a Diretoria da ABEn está instalando, em dependências de sua sede, a
sua Comissão de Seguimento que trabalhará em coordenação com as Comissões das
Seções. Espera-se assim facultar aos demais Estados conhecer a experiência
daqueles que conseguiram as primeiras providências úteis.
Temos esperança de que, assim como a ABEn venceu etapa preliminar do estudo,
leve também de vencida os obstáculos que irá encontrar para a realização de
seus planos, feitos para que a enfermagem de amanhã seja melhor e mais adequada
às necessidades do público.
OS ENFERMEIROS E A POLÍTICA
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 13, n. 4, p. 443, dez. 1960.
Está o Brasil passando por mudança social em ritmo acelerado. Em muitas
instâncias, como tem acontecido a diversos povos, mudanças sociais rápidas
quebram o equilíbrio da contextura de instituições, ideais e modos de pensar,
dando assim oportunidades para que o equilíbrio social se refaça, favorecendo
muitas vezes o progresso nas instituições, servindo à maioria dos cidadãos,
assim a maior justiça social e liberdade.
O Brasil realizou eleição de Presidente e Vice-Presidente da República, ao
tempo em que várias unidades da Federação escolheram também outros detentores
de cargos eletivos. Saudando o Presidente e Vice-Presidente do País e demais
autoridades que serão empossadas, desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, a
Associação Brasileira de Enfermagem se reúne a todas as demais estruturas
nacionais e estaduais constituídas, para realizar, cada uma em sua esfera,
trabalho orientado e esforço organizado para a solução dos diferentes problemas
sociais das áreas respectivas.
Como Associação, somos, e é com justo orgulho que o proclamamos, um grupo
social coeso em luta por um Brasil melhor, mais humano para com os que não
estão firmes, ou "in firmus" que deu raiz à palavra que nos distingue como
classe. Temos revelado capacidade de trabalho com diretrizes, não só traçadas,
mas experimentadas e revistas continuamente. Nossos rumos se têm modificado
para ajustarem-se às necessidades sociais no dinamismo de suas transformações.
Apesar dos avanços que temos tido como classe e aqui incluímos todos os
profissionais das diversas categorias da enfermagem - estamos cônscios de que
há muito ainda a realizar no sentido de maior solidariedade social.
Consideramos apenas início o que os vários profissionais da enfermagem têm
feito, - entre si e em relação ao povo que precisa de nossa assistência.
Tenhamos, pois, ânimo para prosseguir nesse auspicioso começo.
O título que encima essas considerações deve ter sugerido alguma contribuição
do pessoal da enfermagem na política. Nossa agremiação é cultura. Não é dentro
dela que tomamos atitudes políticas. Entretanto, é muito importante saber como
agir na qualidade de cidadãos. Para todo o pessoal de enfermagem é de
excepcional importância a forma de participação na política. Devem atuar como
pessoas bem informadas, com educação cívica bastante para saber como procurar
dados fidedignos. Para que tenham participação coerente é necessário militar
dentro dos partidos. A ABEn, como ABEn, não pode e não deve ser identificada
como um partido político, embora haja ocasiões em que podemos nos opor com a
ABEn, a partidos. Se por exemplo um partido viesse a pregar discriminação
racial levantar-nos-íamos contra, é claro.
No Brasil o regime político do Estado é representativo, e mais do que isto, é
proporcional. O Código Eleitoral dispõe sobre essa proporcionalidade de votos.
Não é possível votar-se numa pessoa sem dar-se o voto ao partido respectivo.
Portanto é esta a instituição política que recebe o voto. É ponto pacífico que
os cidadãos devem escolher o partido em termos de seus membros, o mais acertado
é serem alguns de nós ativos nos partidos, por tempo suficiente para ali
mostrarmos valor. Assim teríamos o direito de, por escolha do partido, vermos
alguns membros de nossas categorias profissionais disputar nas urnas cargos
políticos. O Japão, países da Escandinávia e alguns outros dão-nos o exemplo de
enfermeiras que realizaram essa dupla participação, - vida profissional e vida
política. Quanto a nós, temos tido certa atuação; em plano nacional, a ABEn
dirigiuse memorial aos candidatos contando assim contribuir, como enfermeiros,
para aperfeiçoamento dos seus programas.
Em resumo, devemos ser ativos participantes nas eleições como cidadãos
conscientes. O desencanto com a política não é atitude recomendável. Por sermos
imperfeitos, como homens, não somos capazes de organizar governos perfeitos. O
poder tende a corromper os seres humanos. Mas nem por isso vamos desautorar os
poderes constituídos, nem vamos nos manter neutros.
ENFERMEIRO, PROFISSIONAL LIBERAL
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 15, n. 1,1962.
A Comissão do Enquadramento Sindical do Ministério do Trabalho, em memorável
sessão realizada em 9 de novembro de 1961, classificou os enfermeiros para fins
de enquadramento sindical, entre os profissionais liberais.
O pedido foi feito e reiterado por esta Associação durante os últimos anos,
desde 1951. A classificação nova vai alterar a vida sindical dos enfermeiros.
Daqui por diante devem os membros da classe fundar, o mais cedo possível,
associações profissionais de enfermeiros. No fim do prazo regulamentar o
Ministro do Trabalho conferirá cartas sindicais, uma em cada jurisdição,
àquelas associações profissionais que julgar mais representativas. Quando
houver cinco desses sindicatos, faremos jus a uma federação e esta entrará para
a confederação Nacional dos Profissionais Liberais. A este último órgão devemos
levar a força de nossa profissão que será somada a das demais. Será um dar e
receber contínuo. É oportuno dizer que começamos por receber na CNPL: esta
entidade prestigiou-nos ao opinar para o Ministério do Trabalho, afirmando que
o enquadramento pleiteado pela ABEn era justo e merecido. Que o lugar dos
enfermeiros deveria ser entre os universitários e não na Confederação Nacional
do Comércio.
Qual será, na ordem das coisas, a contribuição dos enfermeiros ao se
constituírem em membros de sindicatos, estes em membros de federação, que, por
sua vez, ingressarão na confederação? Compara-se a soma das forças da mente,
reflexão e decisão de cada enfermeiro aos pequenos rios que formam um São
Francisco com sua Paulo Afonso. Só o grupo poderá fazer o impacto que contará,
na esfera nacional. Há muito que nós, os enfermeiros, desejamos influir, com
mais capacidade de dar diretriz, juntamente com outras classes pujantes, para
que o nosso país receba um pouco mais da ajuda que ele necessita receber.
Lancemos, pois, com ânimo novo inaugurando esta nova fase de maturidade
profissional que com tão grande esforço conseguimos atingir. A própria demora
na obtenção dessa possibilidade de representação se apresenta como um sinal das
necessidades prementes de aumentar-se, no país, os quadros de profissionais de
nível tecnológico adequado ao momento atual. Que os enfermeiros se organizem
sem tardança dentro da nova estrutura, e que demonstrem, ao darem vida aos
novos órgãos de defesa da classe e colaboração com o Governo o mesmo espírito
associativo, a mesma capacidade de confraternizar e de lutar por ideais comuns
que os têm animado em seus admiráveis trabalhos na ABEn. Nossa entidade
cultural terá mais do que nunca possibilidades de realização de seus fins
precípuos, quando, em futuro próximo, delegar aos sindicatos aquilo que, na sua
falta, procura desempenhar. É justo dizer que o brilhantismo de suas lutas
dificilmente será esquecido.
30º ANIVERSÁRIO DA REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 15, n. 5,1962.
Completou em 1962 trinta anos de existência a Revista que começou com o nome de
Anais de Enfermagem, cujo primeiro número tem a data de maio de 1932.
A publicação, portão longo período, deste órgão de imprensa, nas condições em
que se deu, é feito invulgar que traz crédito a esta Associação.
Qual tem sido a contribuição da Revista à causa da enfermagem nacional? Sem
dúvida é incalculável.
Quando a soma dos enfermeiros existentes não atingia uma centena, aliás no
mesmo ano em que o nome do profissional foi cunhado pelo Decreto nº 20.931 de
11 de janeiro de 1932, surge a Revista. Estabelece-se para realizar
comunicação, para servir de depositária das concepções que vão plasmando,
moldando, e dando existência à enfermagem nacional. Graças à existência da
Revista, muitas idéias são produzidas, reunidas e difundidas.
Examinemos, de início, o crescimento da profissão. A aceitação da enfermagem
conquista áreas gradualmente maiores, tendo tido como ponto de partida, em
1922, um grupo de médicos, Carlos Chagas e colaboradores, e os da Fundação
Rockefeller. A Revista nasce bastante cedo para tomar parte nesse processo. Ao
registrar fatos, ajuda no desdobramento da idéia para atingir certeza maior ou
suscitar ação. "O livro caindo n'aima é germen que faz a palma, é chuva que faz
o mar". É imensurável a boa semeadura feita pela Revista nessas primeiras
décadas da enfermagem.
Ao ser relembrado o começo, que seja mencionado o grupo que, segundo o registro
do próprio periódico, teve participação ativa em seu labor. A lista será
iniciada com as ex-Presidentes e Presidente da ABEn que é a entidade
mantenedora, na ordem de seus mandatos muitas vezes renovados e a partir de
1932: Sras. Edith de Magalhães Fraenkel, Zaira Cintra Vidal, Waleska Paixão,
Glete de Alcântara, Maria Rosa Sousa Pinheiro, Marina de Andrade Rezende e
Clarice Della Torre Ferrarini; a seguir, citem-se os editores que, sob esta ou
outra designação, fizeram sair a Revista: a 1ª foi a Sra. Rachel Haddock Lobo,
também benemérita, de vez que doou à Revista o seu primeiro papel. As seguintes
foram: Sras. Zaira Cintra Vidal, Alayde Borges Carneiro, Edith de Magalhães
Fraenkel, Glete de Alcântara, Maria Rosa Sousa Pinheiro, Altair Alves Arduíno e
Marina de Andrade Rezende, que é a atual. A Sra. Maria Geralda Franco,
enfermeira e jornalista, ocupou o cargo de gerente, na fase de maior expansão
da circulação, durante os últimos nove anos.
Outros tantos nomes deveriam ser citados, dos que desempenharam cargos de
secretário, redator-chefe, tesoureiro, dos que auxiliaram na distribuição, além
dos grandes colaboradores que têm escrito os trabalhos de maior vulto. Para nos
limitarmos o espaço do Editorial e em face da falta de informação completa, não
registramos os nomes de todos estes que são, entretanto, credores de gratidão.
A apresentação gráfica atual é a de uma revista pobre. Sem ilustrações - visto
como o clichê encarece a publicação - a leitura não é amena. O papel é de custo
médio. É evidente que dentro das atuais condições, a Revista tem dificuldade em
manter-se financeiramente. Deverá sair, com mais esforço, desta fase inicial de
trabalho voluntário. Nenhuma revista boa é feita sem que possa fazer face à
manutenção de seus serviços. Eis o desafio diante dos que compreendem o seu
papel na enfermagem.
Entretanto, muita coisa já tem mudado para melhor. A partir de 1961 é
bimestral. Está em sede de propriedade da Associação Brasileira de Enfermagem.
É registrada segundo a Lei de Imprensa. Tem marca registrada.
Mudou também a capa da Revista: do primitivo desenho centralizando o lema
"Ciência, Arte, Ideal" e símbolos do Egito, como depositário das lendárias
origens de Esculápio, passou-se, finalmente, a um desenho em linhas simples,
concepção do pintor Santa Rosa, especialmente para a capa.
Teria o artista evocado Santa Catarina de Siena ou Florence Nightingale? Para
nós resume ambas, tem o condão de suscitar imagens que vão às raízes, à
essência da enfermagem que desejamos realizar.
Leitor, esta é a tua Revista. Passou por vicissitudes. Venceu os anos incertos.
Continua seu roteiro difundindo idéias, criando condições de progresso. Que
possa ser estreitado o seu convívio contigo, ligando-te as idéias às outras
idéias, quais gotas de "chuva que faz o mar".
CURRÍCULO MÍNIMO
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 15, n. 6,1962.
"Aquilo que toca a todos deve ser aprovado por todos".
Não é senão esta a norma democrática da ABEn que leva à Assembléia Geral a
decisão de pontos importantes relacionados com sua própria estrutura, funções e
atividades; que busca na Assembléia Geral a aprovação ou desaprovação de
documentos a serem submetidos ao legislativo e ao executivo e que se empenham
em reformas no ensino ou no exercício da enfermagem.
Para atender pedido da Diretoria do Ensino Superior do MEC e por ele nomeado,
reuniu-se em junho de 1962, no Rio, ou grupo de peritos em enfermagem que
elaborou um projeto de currículo mínimo obedecendo às diretrizes da Lei nº
4.024/61 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O projeto foi levado pela
Comissão de Educação a Curitiba, por ocasião do XIV Congresso Brasileiro de
Enfermagem. Submetido à discussão dos membros da Comissão, sofreu pequenas
alterações e foi depois aprovado pela Assembléia Geral.
Outro grupo, afastado das lides da enfermagem, no Conselho Federal de Educação,
composto de três médicos, estudava o mesmo problema quando o projeto aprovado
pela Assembléia Geral entregue ao Conselho.
Um levantamento dos currículos das várias escolas de enfermagem havia sido
feito, e estava servindo de base para estudo da Comissão.
Aos 22 de outubro, a ABEn surpresa, toma conhecimento do Parecer nº 271 de 19
do mesmo mês; pelo menos, três inovações são introduzidas no curso, relativas à
duração, ao próprio currículo e a especializações no curso de graduação.
A Comissão de Peritos distribuíra a matéria em 4 anos acadêmicos ou 720 dias de
trabalho escolar efetivo. O Conselho Federal de Educação, aprovando o parecer
da Comissão de Médicos, diminuiu o curso para 3 anos ou 540 dias de trabalho
escolar efetivo, reduzindo de 36% o curso que vem sendo realizado no país, com
duração de 850 dias, obedecendo à Lei 775/49.
No currículo, o parecer "tendo em vista as condições sócio-econômicas do país",
entre outras inovações, eliminou a Enfermagem de Saúde Pública do curso geral.
Relativamente a especializações, introduziu um 4º ano optativo, para a
graduação de dois tipos de enfermeiros: o enfermeiro de Saúde Pública e a
enfermeira obstétrica. A surpresa da ABEn determinou ação imediata no sentido
de revisão do parecer. Foram fundamentados os pedidos e o Conselho aceitou
reestudar o assunto. Aos 17/11/62, aprovou um substitutivo ao parecer e este
foi homologado pelo Sr. Ministro da Educação e Cultura no dia 4/12/1962.
Não foram atendidos todos os pedidos da ABEn cujos trabalhos entretanto não
foram inteiramente perdidos.
A Lei de Diretrizes e Bases facilita flexibilidade no ensino e as diretoras de
escolas saberão valer-se das oportunidades de experimentar, no objetivo de
melhorar sempre a formação da enfermeira.
O ensino da enfermagem ficara por muitos anos, fora do sistema nacional. Hoje,
está definitivamente firmado no nível superior. Se por contingências alheias,
os esforços das escolas de da ABEn não forem suficientes para o aproveitamento
das vantagens oferecidas pela legislação atual, restará a possibilidade do
próprio Conselho Federal de Educação, a pedido, rever o currículo estabelecido.
Não o havíamos aprovado mas haveremos de experimentá-lo para o melhor proveito
do ensino. (M. A. R.)2
CONSELHOS DE ENFERMAGEM
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 26, n. 4 e 5,1973
O Conselho de Enfermagem e os Conselhos Regionais foram criados por lei, - Lei
nº 5.095, de 12 de julho de 1973, publicada no Diário Oficial da União de 13 de
julho desse ano. Essa aspiração da classe data de muitos anos. Por que só agora
vem a lei? O processo foi lento. As reflexões valiosas do Dr. Jurandir Lodi,
então Diretor de Ensino Superior, a Presidente da ABEn, sobre a necessidade do
órgão de disciplina e fiscalização do exercício profissional, muito
contribuíram para que o I Congresso Brasileiro de Enfermagem, realizado em São
Paulo em 1947, recomendasse a criação dos Conselhos de Enfermagem. A partir de
1960 começou a tramitação do projeto, que contou com inúmeros subsídios, dentre
os quais o Parecer do Prof. Cesarino Júnior, jurista de nomeada. O assunto foi
discutido em muitas Assembléias de Delegados.
O dia 13 de julho de 1973 é um marco a ser lembrado; começou a vigorar a lei
que dispõe sobre a criação dos Conselhos Federal e Regional de Enfermagem.
Ajudaram a ABEn na tramitação do projeto de lei dos Conselhos não só sua
Comissão de Legislação, como enfermeiras do Rio Grande do Sul, São Paulo,
Goiás, Bahia e muitos outros estados.
É ainda motivo de justo júbilo termos unificada a profissão de enfermeiro, com
respeito à especialidade de obstetrícia. A unificação completou-se em 1972, em
virtude do que dispõe o Parecer nº 163 do Conselho Federal de Educação. Em
decorrência desse Parecer, são enfermeiras todas as obstetrizes, daqui por
diante. São três as habilitações, como se recorda: médico-cirúrgica, de
obstetrícia e de saúde pública.
Também, para os fins de controle, todas as ocupações de enfermagem são
abrangidas pelos Conselhos. Uma das vantagens é a integração. Todos os
excedentes de enfermagem de que trata a lei nº 2.604 de 1955, em uma
determinada área, têm seu exercício regido pelo mesmo Conselho Regional.
ALEI Nº7.498/86
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 39, n. 2/3,1986.
Finalmente, depois de onze anos de esforços, espera e luta, conseguiram os
enfermeiros, por intermédio do COFEn, da ABEn e dos Conselhos Regionais de
Enfermagem, uma lei atualizada do exercício da enfermagem.
Uma das primeiras preocupações do Conselho Federal de Enfermagem (COFEn),
instalado em abril de 1975, foi a existência de um documento legal no qual
pudessem os futuros Conselhos Regionais (COREn's) basear-se para cumprirem sua
função de órgãos disciplinadores e fiscalizadores das atividades do pessoal de
enfermagem, a lei do exercício então em vigor (Lei nº 2.640/55), além de
defesada - como tudo no Brasil, a enfermagem muito mudou nestas últimas décadas
-, era incompleta, pois não incluía o Técnico de Enfermagem, cujo preparo só
foi iniciado em 1966.
Em setembro de 1975, o COFEn, após ouvir os órgãos representativos dos
profissionais e ocupacionais de enfermagem, enviou ao Ministério do Trabalho
anteprojeto de lei reguladora do exercício; mas, infelizmente, forças hostis
conseguiram bloquear o envio de Mensagem do Executivo ao Legislativo sobre o
assunto.
Cinco anos depois, desesperançados de conseguirem a necessária atualização da
lei do exercício por iniciativa do Executivo, o COREn e a ABEn recorreram ao
Legislativo. Em 1980, deram entrada na Câmara dos Deputados a dois projetos de
lei sobre a matéria, os quais foram transformados num projeto único - de
número3.427/80, do Deputado Nilson Gibson, e que acaba de se tornar Lei. Muitas
foram as emendas sofridas por esse Projeto nos seus quase seis anos de trânsito
por Ministérios e Comissões do Congresso Nacional, tendo ele também recebido 18
vetos do Executivo.
Não importa! A Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, aí está! Quem estudar
atentamente o Projeto, tal como foi aprovado pelo Congresso, e compará-lo com a
Lei, verificará que os pontos essenciais foram conservados, tais como:
- reforço de obrigatoriedade de inscrição dos profissionais e ocupacionais de
enfermagem no respectivo COREn (art. 2º);
- obrigatoriedade da inclusão, no planejamento e programação das instruções e
serviços de saúde, do planejamento e programação de enfermagem (art. 3º) e,
nesta, da inclusão da prescrição da assistência de enfermagm (art. 4º) que, ao
ser assinada pelo enfermeiro (assinatura acompanhada do número de sua inscrição
no COREn), constituirá uma poderosa arma de fiscalização do exercício;
- definição das funções do pessoal de enfermagem (art. 11, 12 e 13), merecendo
especial menção as funções privativas do enfermeiro no exercício (art. 11), a
nosso ver o ponto alto da Lei e uma das maiores conquistas dos profissionais de
enfermagem até o presente. Cabe lembrar que as alíneas a) e b) do art. 11
suprem a falta de um dos artigos que foram vetados (art. 5º);
- supervisão de todas as atividades do pessoal de enfermagem exclusivamente
pelo enfermeiro (e obstetriz, que está incluída entre os enfermeiros) (art.
15);
- obediência obrigatória a esta Lei, por parte dos órgãos da administração
pública, no provimento de cargos e funções e na contratação de pessoal (art.
20);
- autoridade do COFEn para permitir, por 10 anos, o exercício de atividades
elementares de enfermagem por atendentes, e para baixar os critérios a serem
obedecidos nesta questão (art. 23). Aliás, este artigo dá oportunidade ao COFEn
de reivindicar, junto ao Ministério do Trabalho, o direito que lhe foi retirado
pelo Despacho MTb nº 311.279/78 de estender sua ação aos atendentes, por meio
do que chamou, no passado, de "provisionamento", ação esta imprescindível para
a eficiência da fisclaização a que os COREn's estão obrigados.
- Regozije-se a classe, pois, se a Lei nº 7.498/86 não vem resolver os
problemas da profissão, irá ela certamente facilitar o trabalho daqueles que se
esforçam por seu desenvolvimento e por melhor assistência a nosso povo.
(M.R.S.P.)3
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM (ABEn) - 60 ANOS E A ENFERMAGEM BRASILEIRA
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v.45, n.1,1992.
Na programação das atividades desta Associação para o ano em curso, um destaque
especial vem sendo conferido à celebração dos seus sessenta anos de vida e
história e de sua influência no desenvolvimento da enfermagem brasileira.
Este é o ternário escolhido para estudo e debate na 47ª Semana Brasileira de
Enfermagem, bem como para o XXXVIII Congresso Brasileiro de Enfermagem, a
realizar-se no próximo mês de outubro, no Rio de Janeiro.
Pretende-se com isto, estimular o interesse de toda a comunidade de enfermagem,
no País, inclusive dos estudantes, para uma melhor compreensão das raízes desta
Associação, como caminho necessário para uma melhor avaliação de sua trajetória
nesses seis lustros.
Buscar conhecer esta Entidade é, simultaneamente, procurar compreender a
própria história da enfermagem brasileira. É valorizar o trabalho realizado
pelos que nos antecederam, nas diferentes épocas.
Como uma das mais antigas entidades de classe no País, coma predominante
presença da mulher, é confortador rememorar a determinação e tenacidade com que
suas lideranças e associados trabalharam para que se fizesse uma entidade forte
e atuante, empenhada sempre na defesa da causa da enfermagem e do compromisso
de seus profissionais por melhores níveis de saúde de nossos concidadãos.
Comemorar os sessenta anos da ABEn é lembrar o destemor com que as pioneiras
lideranças procuraram abrir os caminhos numa sociedade ainda preconceituosa em
relação à profissão de enfermagem e ao trabalho da mulher fora do lare,
principalmente, da mulher enfermeira.
A participação desta entidade, sob a liderança de Edith de Magalhães Fraenkel,
na luta pela conquista do voto feminino é, entre outras, página brilhante que
engrandece e honra a história desta Entidade.
Seis décadas de existência significam seis décadas de lutas e de numerosas
conquistas nas várias áreas da educação, assistência, pesquisa e legislação. A
difícil tarefa de destacar esse feitos, em artigos nesta Revista, foi conferida
a Amália C. Carvalho, com a autoridade de ter sido, como outras notáveis
figuras da enfermagem brasileira, protagonista e testemunha desta história por
várias décadas. Se, agora, outras entidades de classe dividem com a ABEn as
responsabilidades que, a um tempo, foram unicamente suas, em nada enfraqueceu o
seu papel. A recente reforma de seus Estatutos é o mais eloqüente atestado da
vitalidade desta Associação. O seu intenso calendário de atividades, em todas
as regiões do País, e o crescente número de associados provam o prestígio que a
ABEn desfruta no seio da comunidade brasileira de enfermagem.
As crises que o seu crescimento tem, por vezes, provocado e os caminhos
encontrados para superá-los atestam o respeito de suas lideranças e associados
pelo legado recebido e pelo reconhecimento da força desta Associação.
Os que hoje dirigem a ABEn, ao homenagear os que antecederam e enaltecer todo o
trabalho feito nesses sessenta anos, têm plena consciência das
responsabilidades deste tempo, certos de que não há presente sem passado e nem
o "agora" sem a inexorável perspectiva do futuro.
(M.I.R.O.)4
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM - 60 ANOS DE EXISTÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 45, n. 1,1992.
Em 20 de maio de 1992 a REBEn completará 60 anos. Fundada em 1932 com o nome de
"Anais de Enfermagem", teve como principal incentivadora, Edith de Magalhães
Fraenkel (na época presidente da Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas
Brasileiras-ANEDB) e como 1ª redatora-chefe, Rachel Haddock Lobo.
Historicamente, a nossa Revista sempre se sustentou no desejo dos dirigentes e
sócios da ABEn em manter o veículo de divulgação da Associação Brasileira de
Enfermagem.
Interrompida algumas vezes, em conseqüência de dificuldades de diversas ordens,
a REBEn sempre buscou alternativas para permanecer viva e preservar o seu
espaço, já garantido, como divulgadora do saber em enfermagem. Energias foram
dispendidas nesses sessenta anos, por todos aqueles que ousaram acreditar e
manter a ativa a REBEn. Como qualquer outra publicação em nosso país, a Revista
Brasileira de Enfermagem vive em crise permanente.
Assim, por diversas vezes, necessitou a REBEn condensar em uma só publicação 3
números, para viabilizar a continuidade de edição e não privar o contato
leitor/Revista.
Na gestão 89/92, a REBEn foi pensada dentro do sistema de assinaturas, com
aprovação em AND. Para desenvolver um empreendimento de tal magnitude, contou o
Conselho Editorial com o apoio da diretoria da ABEn-Nacional, dos órgãos
financiadores (CNPQ e FINEP), das seções, regionais e dos sócios da ABEn.
Os sócios da ABEn demonstraram total confiança no projeto, mandando suas
críticas e sugestões, enviando trabalhos e sensibilizando a categoria quanto à
importância da assinatura da Revista.
O esforço dos membros do Conselho Editorial foi imensurável, pois rompeu
obstáculos até aqui, intransponíveis. Todos, com o firme propósito de
concretizar o projeto, não titubearam em abandonar suas horas de lazer para
juntos vencerem mais uma etapa da sua Revista.
Contamos sempre com o incentivo da Escolas de Enfermagem e, em especial, nesta
gestão, com o apoio da Escola de Enfermagem da UFF. Esta Escola, num todo, não
mediu esforços para auxiliar o trabalho da Revista, colocando-se à disposição
do Conselho Editorial. Acreditava que só o trabalho conjunto poderia viabilizar
a regularização da REBEn e manter sua periodicidade.
Hoje temos como recompensa deste esforço, a publicação de 7 exemplares, fruto
de um trabalho profícuo de todos aqueles que, direta ou indiretamente,
contribuíram com a REBEn.
Aos 60 anos, a REBEn mantêm-se jovem, bela, ousada e denunciante de que a
construção, o enriquecimento da experiência e o avançar dependem de
participação consciente nas lutas travadas cotidianamente; reflexiva e aberta a
contribuições para que o processo participativo represente um crescer harmónico
e capaz de sintonizar-se com os anseios da categoria e da sociedade em geral.
Jane da Fonseca Proença
EDITORIAL
REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, v. 47, n. 3,1994.
A constatação de que a legislação que regula a formação do enfermeiro, em vigor
desde 1972, não mais se adequava às necessidades de saúde da população
brasileira (expressas pelas alterações no seu perfil demográfico e
epidemiológico), e às demandas do mercado de trabalho, levou a Associação
Brasileira de Enfermagem, a Comissão de Especialistas de Enfermagem da
Secretaria de Ensino Superior do MEC e as Escolas de Enfermagem do país, a
iniciarem um processo de reflexão sobre o currículo mínimo da graduação em
enfermagem.
Este processo culminou com a elaboração de uma proposta curricular, encaminhada
pela ABEn ao CFE em setembro de 1991, que resultou das discussões ocorridas em
seminários e oficinas de trabalho nacionais e regionais, com a participação de
Escolas de Enfermagem e enfermeiros de serviço de todas as regiões de país, das
entidades de enfermagem (ABEn, Federação Nacional dos Enfermeiros e sindicatos)
e do sistema COFEn/COREn's.
O parecer (nº 314/94) do Conselheiro Virginio Cândido Tosta de Souza, aprovado
em 6 de abril de 1994, foi encaminhado ao Ministro da Educação para as
providências pertinentes à sua transformação em instrumento informativo. Apesar
das alterações introduzidas pelo relator na proposta original, são inegáveis os
avanços obtidos no novo currículo mínimo, entre os quais se destacam: o aumento
da duração mínima do curso para quatro anos e da carga horária para 3500 horas;
a inclusão de conteúdos instrumentais básicos para a capacidade clínica,
epidemiológica e administrativa do enfermeiro, desenvolvidos em quatro áreas
temáticas -Bases Biológicas e Sociais da Enfermagem, Fundamentos de Enfermagem,
Assistência de Enfermagem e Administração em Enfermagem; a supressão das
habilitações ao nível de graduação e a inclusão do estágio curricular
supervisionado nos dois últimos semestres, a ser desenvolvido m hospitais,
ambulatórios e centros de saúde, com supervisão docente e participação dos
enfermeiros dos serviços.
Entre as alterações introduzidas pelo relator, destacam-se a definição de
percentuais de carga horária por área temática, o que compromete a
flexibilidade necessária para atender às especificidades regionais e
institucionais, e a exclusão de conteúdos didáticopedagógicos, o que limita a
instrumentalização do graduado de enfermagem para a atividade docente nos
cursos que formam auxiliares e técnicos de enfermagem, esta limitação poderá
ser superada pela inclusão desses conteúdos nos currículos plenos.
A demanda da enfermagem brasileira para a modificação das bases legais da
formação do enfermeiro, foi atendida. Estas definem eixos, diretrizes e
requisitos mínimos. Entretanto, o processo de reformulação que se pretende, não
se esgota na definição do seu arcabouço geral, mas deve se materializar na
implementação de propostas de ensino/aprendizagem que impactem no perfil do
profissional desejado, que já foi amplamente diagnosticado: centrado na
dicotomia teoria/prática, saber/fazer; desvinculado do processo de trabalho e
da realidade de saúde da região onde se localiza; fundamentando em propostas
pedagógicas, que valorizam o domínio de habilidades (não se negando a sua
importância), em detrimento do desenvolvimento da capacidade crítica, que
permita ao profissional a intervenção oportuna e adequada na realidade de
saúde.
Ao coordenar o processo de revisão das bases legais da formação do enfermeiro,
que coloca à disposição da enfermagem brasileira um novo currículo mínimo, a
ABEn reafirma seu compromisso com a consolidação da enfermagem como uma prática
social, essencial à assistência à saúde e à organização dos serviços de saúde.
Por essa razão, convoca as demais organizações e instituições da enfermagem,
para que juntos enfrentem o desafio de contribuir para apresentar à sociedade
brasileira um profissional que efetivamente responda às suas demandas.
1 Na comemoração dos 70 anos da REBEn selecionamos editoriais que expressaram
grandes momentos da enfermagem brasileira. No primeiro editorial, preservamos a
ortografia da época.