Transtornos intestinais
Transtornos intestinais
Robin C. SpillerI; W. Grant ThompsonII
INottingham Digestive Diseases Centre, University Hospital, Nottingham, Reino
Unido
IIEmeritus Professor of Medicine, University of Ottawa, Ontario, Canada
Correspondência
SINTOMAS INTESTINAIS
Os principais sintomas de origem intestinal são: dor abdominal ou desconforto,
hábito intestinal alterado, distensão abdominal e borborigmos.
Dor abdominal/desconforto
As características da dor abdominal incluem a localização, a irradiação (se
houver), o caráter (ardor, em pontadas, cólicas), padrão e duração (desde o
início e a duração da crise) e fatores precipitantes e de alívio. Dor abdominal
ou desconforto de origem gastrointestinal funcional surge da estimulação dos
nervos viscerais: normalmente é difusa e mal localizada, muitas vezes no abdome
inferior ou central. Quando perguntado para demonstrá-la, o paciente pode usar
uma mão estendida, colocada sobre a área. Dados que sugerem a origem
gastrointestinal da dor abdominal incluem exacerbação ao comer e alívio por
defecação, sendo esta última parte dos critérios diagnósticos para síndrome do
intestino irritável (SII). No entanto, apesar da alimentação aumentar a
motilidade do cólon, pode produzir desconforto por meia hora depois , sendo
característica de muitas doenças gastrointestinais. Portanto, a dor após
refeições não faz parte dos critérios diagnósticos para a SII.
Em contraste, quando doença visceral está associada com a estimulação dos
neurônios somáticos, a dor é localizada mais precisamente. Diverticulite e
apendicite são exemplos de doença intra-abdominal que, inicialmente são mal
localizados, porque uma leve inflamação afeta apenas os neurônios viscerais. No
entanto, quando a inflamação progride e atinge o peritônio parietal, a dor
abdominal somática mais precisamente localizada é experimentada. Outros
exemplos incluem a irradiação para as costas, que é típica de doença
pancreática ou de úlcera duodenal penetrante.
Dor em parede abdominal devida à hérnia de Spigelian (hérnia através da fáscia
aponeurótica lateral ao músculo retoabdominal), lesão no músculo reto ou
síndrome de dor em costelas é também localizada com mais precisão. Dor de tais
causas pode ser identificada pelo teste do Carnett, no qual o paciente dobra
seus braços sobre o peito e levanta sua cabeça contra a resistência suave.
Exacerbação da dor por enrijecer os músculos retos desta forma, indica um
distúrbio de parede abdominal(1). Dor na caixa torácica é também precisamente
localizada e agravada pela pressão local ou compressão. Reconhecimento precoce
destas fontes somáticas menos comuns de dor abdominal pode evitar muita
investigação fútil(2).
A dor abdominal da SII é visceral por natureza e geralmente episódica e
imprevisível. Períodos de dor reaparecem durante uma mediana (intervalo) de 3
dias(2-8), intercalados com alguns dias sem dor(3). No entanto, em alguns
casos, períodos dolorosos podem ser mais prolongados. Uma característica
crucial da dor abdominal de SII é a associação temporal com hábito intestinal
alterado. Uma alteração na frequência e consistência das evacuações simultânea
com a dor é um fenômeno usado nos critérios de Manning. Para a SII, esses
recursos têm sensibilidade de SII desde 0,39 - 0.6 e uma especificidade de 0,66
- 0,77 com relação de probabilidade que varia entre 1,7-2,1. Portanto, por si
só, esses recursos são de pouco valor diagnóstico, mas as combinações deles têm
muito melhor desempenho. Uma combinação de quaisquer três critérios de Manning
- ou seja, três de fezes (a) mais frequentes, com o início da dor, (b) fezes
mais soltas no início da dor, (c) distensão visível ou (d) alívio por defecação
- têm uma sensibilidade de 0,84 e uma especificidade de 0,76, com uma relação
de probabilidade positiva de 2.9 e uma relação de probabilidade negativa de 0,2
(4).
Constipação
Com base em pesquisas realizadas há muitos anos, a "constipação" foi
tradicionalmente definida como menos de três evacuações por semana(5), no
entanto, muitos que preenchem esta definição não se consideram constipados. A
evidência atual sugere que o esforço para defecar e a consistência (forma) das
fezes são mais importantes. A consistência das fezes, classificada pela Escala
Bristol de Forma Fecal (EBFF), adiciona uma dimensão objetiva de suas formas, e
correlaciona-se bem com o tempo de trânsito do cólon(6). A EBFF faz parte dos
critérios de Roma III, para o reconhecimento da SII com constipação, bem como
apoia o reconhecimento da constipação funcional(7). Assim, os critérios de Roma
III para "constipação" incluem os parâmetros de forma das fezes, bem como
frequência e esforço.
Os critérios dos pacientes para a constipação frequentemente diferem dos de
seus médicos, levando aos possíveis mal entendidos entre ambos. Uma pesquisa de
731 mulheres no Reino Unido constatou que a presença de constipação difere
conforme o indivíduo, o tempo de trânsito intestinal ou pelos critérios de Roma
I para a constipação funcional que foram utilizados para defini-lo(8). Embora
cerca de 8,5% dos indivíduos tivessem constipação por cada uma dessas
definições, apenas 2% foram constipados por todas as três definições. Portanto,
o médico deve considerar todos os aspectos da queixa do paciente de
constipação, incluindo a sua atitude para os sintomas. Fezes duras
correlacionam-se bem com trânsito lento, mas dificuldade de eliminação e
frequência de defecação não, havendo outros fatores determinantes que não o
trânsito do cólon.
Diarreia
O termo "diarreia" sofre dificuldades de definição semelhantes às da
constipação. Embora a passagem urgente de fezes líquidas, oito vezes por dia,
seja diarreia por qualquer definição, há uma área cinzenta entre normal e
anormal. Diarreia não é a passagem frequente de fezes duras. Por esta razão,
fezes amolecidas ou aquosas, sem dor, que ocorrem em pelo menos 75% das
evacuações é o critério de sintoma de diarreia funcional(7), um recurso que
indica geralmente trânsito rápido através do cólon. Assim como com SII com
constipação, a EBFF também auxilia o reconhecimento da SII com diarreia. Não
obstante, o paciente deve ser indagado sobre urgência e frequência, pois esses
sintomas são socialmente debilitantes e podem impedir o paciente de comer fora
ou viajar, reduzindo significativamente a qualidade de vida. Quando a urgência
é uma característica acentuada, a fraqueza do esfíncter anal deve ser
considerada, especialmente em mulheres com um parto vaginal anterior difícil.
Mais do que muitos outros sintomas de distúrbios gastrointestinais funcionais,
a diarreia, particularmente quando associada a volumes acima de fezes normais,
pode ter causa orgânica, necessitando de cuidado no questionamento e
investigação mais extensa.
Distensão abdominal e inchaço
Pacientes com distúrbio intestinal funcional, frequentemente relatam sensação
de inchaço, que pode ser invasiva e próxima de uma sensação de desconforto.
Inchaço não é específico da SII e, portanto, não é um critério de diagnóstico.
Alguns pacientes descrevem também distensão abdominal visível com a necessidade
de afrouxar a roupa. Isso pode aparecer abruptamente e ser devido à uma
contração reflexa do diafragma combinada com o relaxamento dos músculos
abdominais(9). Apesar de flatulência e distensão poderem ocorrer no mesmo
paciente, inchaço geralmente reflete um fenômeno perceptivo ou sensorial,
considerando-se que distensão indica uma mudança observável no diâmetro da
parede abdominal(10). Recentemente, medições objetivas confirmaram que
perímetro abdominal normalmente aumenta ligeiramente durante o dia, caindo
abruptamente quando deita-se para dormir e, aumentando ao levantar-se. O
aumento diurno é maior que o normal em pacientes com SII e constipação(10).
Apenas a metade dos pacientes de SII que relatam a sensação de inchaço tem
distensão acima da faixa normal. Aqueles sem distensão visível têm limiares
mais baixos de dor visceral, sendo assim, é provável que a sensação seja devida
à hipersensibilidade visceral(11).
Síndromes funcionais do intestino
Dor abdominal ou desconforto, hábito intestinal alterado com constipação ou
diarreia e inchaço são sintomas comuns na população geral, sintomas que
individualmente não têm sensibilidade e especificidade para o diagnóstico. No
entanto, combinações de tais sintomas são mais específicas. Quando
caracterizadas com limites apropriados de frequência, tais combinações podem
ser identificadas como síndromes. Os distúrbios intestinais funcionais são o
grupo de desordens atribuídas à disfunção intestinal. O distúrbio intestinal
funcional mais comum é a ISS.
Gravidade dos sintomas
Os médicos frequentemente tomam decisões de diagnóstico e tratamento baseados
não só pelo padrão de sintoma, mas também pela severidade, muitas vezes pela
dor, mas também pelo padrão de fezes, através do relato dos pacientes.
Portanto, este é um parâmetro importante a avaliar como parte do diagnóstico.
Por exemplo, pacientes com diarreia, que é mais grave e associada à
incontinência, podem exigir testes de motilidade anorretal e o biofeedback pode
ser possível. Em geral, quando os sintomas tornam-se mais graves e interferem
no dia a dia, podem se associar com outros, somáticos ou psicológicos
(comorbidades). Em particular, o clínico deve considerar sintomas simultâneos
de sofrimento psicológico (ansiedade ou depressão) ou mesmo da comorbidade com
transtornos psiquiátricos, por exemplo depressão maior, transtorno de estresse
pós-traumático, somatização ou transtornos de personalidade, que também podem
existir. Muitos destes pacientes terão uma história de doença psiquiátrica
anterior(12). Se esses tipos de sintomas psicológicos são importantes, o médico
precisa explorar a relevância. As escalas do Questionário de Alarme
Psicossocial Roma III (ver apêndice A), do Questionário de Ansiedade e
Depressão Hospitalar(13) ou do Questionário de Saúde Pessoal (PHQ15)(14), ou
seus equivalentes, podem ser aplicados aos pacientes em poucos minutos. Estes
questionários podem ajudar a identificar aqueles pacientes que podem se
beneficiar de tratamentos e avaliações psicológicas e, uma vez bem sucedidos,
os sintomas do intestino também podem melhorar. Os doentes que se incluem nos
critérios para transtorno de somatização devem ser identificados logo, pois
exigem gerenciamento diferente e consomem mais recursos médicos(15).
Dependendo do nível de confiança alcançado, pode ser apropriado explorar as
zonas mais sensíveis como por exemplo, abuso na infância. Tratamento com
antidepressivos geralmente melhora os sintomas do pacientes, reduz o sofrimento
psicológico e melhora o bem estar e hábitos diários(16). Em casos graves ou
intratáveis, deve-se também considerar encaminhamento para profissional de
saúde mental para ajudar o paciente a desenvolver estratégias eficazes de
tratamento.
DOR ABDOMINAL RECORRENTE/DESCONFORTO COM O HÁBITO INTESTINAL ALTERADO
Anamnese
Empresária com 32 anos de idade foi encaminhada ao gastroenterologista em
função de episódios recorrentes de dor abdominal associada ao hábito intestinal
alterado (Caixa 1, Figura_1). Os sintomas estão presentes de maneira
intermitente por cerca de 5 anos, mas se tornaram mais frequentes e graves nos
últimos 4 meses. A dor ocorre a cada 2 ou 3 semanas, permanecendo por vários
dias a cada crise, situando-se geralmente, na fossa ilíaca esquerda ou na
região periumbilical e, frequentemente, surge ao se alimentar e é aliviada pela
evacuação. Ao surgir a dor, as fezes normalmente se tornam moles e mais
frequentes, podendo apresentar até quatro evacuações soltas e pastosas em
período de 2 horas durante a manhã. Em outros momentos não evacua por 3 ou 4
dias e as fezes, então, são duras e grumosas. Relata urgência associada à
evacuação de fezes mais amolecidas, esforço evacuatório com a defecação de
fezes duras e, com frequência, tem a sensação de evacuação incompleta. Também
apresenta desconfortável sensação de estufamento (empachamento) e o abdome
frequente e visivelmente está distendido, especialmente à tarde e à noite
(Caixa 2). Não há sinais clínicos de alarme, sem sangue nem muco nas fezes, sem
perda de peso, nem qualquer dor durante a noite (Caixa 3). Não apresenta
náusea, vômito ou anorexia, mas sente cansaço a maior parte do tempo. Sua
menstruação é intensa, geralmente com duração de 6 ou mais dias. Não tem
história médica anterior significativa, exceto enxaqueca há muito tempo. Não há
história familiar de doença gastrointestinal (Caixa 3).
A paciente não fuma e se alimenta de dieta balanceada, sem intolerâncias
alimentares conhecidas. A ingestão de leite é inferior a 240 mL por dia, e a de
cafeína, fibra e frutose não é excessiva. Faz uso apenas de pílula
anticoncepcional oral e, raramente, comprimidos de sumatriptano para enxaqueca.
Não fez uso de antibióticos, recentemente. Já tentou uso de várias preparações
fitoterápicas para os seus sintomas, sem apresentar melhora. O exame físico é
normal, sem palidez nem massa abdominal. A paciente mostra o local da dor com
as duas mãos espalmadas sobre o umbigo. Os exames perianal e retal são normais
(Quadros 2, 3). Em razão do seu cansaço e da menstruação intensa, o
gastroenterologista solicita um hemograma completo (HC); sugere também
verificar a sorologia celíaca (Caixa 7). O hemograma está normal (hemoglobina
(Hb) 11,7 g/dL, volume corpuscular médio (VCM) 88 dL) e a transglutaminase
tecidual é negativa (Caixa 8).
É feito o diagnóstico de síndrome do intestino irritável (SII) (Caixa 9), e seu
médico discute-o, incluindo as possíveis causas e como podem ocorrer os
sintomas, além de reassegurar-lhe que a SII não resulta em doença mais séria.
Ele usa a EBFF para auxiliá-la a descrever seu padrão usual de consistência
fecal (sem laxantes ou preparações antidiarreicas) (Caixa 10). Esta discussão
confirma que sua forma, de acordo com a EBFF, varia do Tipo 1 ou 2 (dura/
grumosa) ao Tipo 6 ou 7 (pastosa/líquida), em proporções de tempo
aproximadamente iguais (pelo menos 25% do tempo para cada padrão). Com base
nestes dados, é feito o diagnóstico de SII mista (SII-M) (Caixa 12).

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DIARREIA CRÔNICA SEM DOR
Anamnese
Contador de 27 anos de idade foi encaminhado ao gastroenterologista em função
de histórico de 2 anos de frequentes fezes aquosas (Caixa 1, Figura_2). Evacua
de 5 a 6 vezes por dia, frequentemente com acentuada urgência, mas sem
episódios de incontinência fecal. Geralmente precisa evacuar imediatamente ao
se levantar e várias vezes durante a manhã, em intervalos curtos. Em cada
ocasião há apenas uma pequena quantidade de fezes, porém são sempre aquosas ou
muito moles. O gastroenterologista apresenta ao paciente a EBFF e este indica
que as suas fezes sempre correspondem ao tipo fecal 6 ou 7. Não há
características de esteatorreia e o paciente também não apresenta dor
abdominal, náusea, vômitos ou anorexia (Caixa 2). Não há sangue ou muco nas
fezes, nem dor abdominal, sem haver perda peso desde o início dos sintomas; a
urgência para defecar raramente o desperta à noite (Caixa 3). A diarreia surgiu
repentinamente, sem qualquer fator desencadeante, como um episódio de
gastrenterite, um ciclo de antibióticos ou um evento estressante grave. O
padrão não se alterou ao longo dos 2 anos. Não apresenta outra enfermidade nem
cirurgia anterior. Não há história familiar relevante de doença gastrintestinal
ou qualquer outra. Doze meses antes o médico de atenção primária solicitou
exames hematológicos e de bioquímica de rotina, que foram normais. O paciente
também experimentou loperamida por curto período, mas achou difícil ajustar sua
dose sem desenvolver constipação.
O paciente nega o uso de qualquer medicamento, inclusive laxantes. Não fuma,
mas bebe até 30 g de álcool diariamente. A sua ingestão de lactose é limitada a
um copo pequeno de leite por dia e não consome bebidas que contenham cafeína,
doces, adoçantes artificiais ou conservantes. Ao ser questionado, descreve seu
trabalho como sendo muito estressante e está preocupado em perder a atual
posição na empresa. A preocupação resulta em sono de má qualidade e sente
dificuldade para lidar com a filha de 3 anos de idade (Caixa 2). O exame físico
é normal. A pressão arterial está em 125/75 mg Hg e a frequência de pulso é de
70/bpm. Há fezes amolecidas presentes durante o exame retal (EBFF 6), mas o
tônus do esfíncter anal parece normal com pressão de contração voluntária
satisfatória (Caixa 2).
O gastroenterologista solicita um conjunto adicional de testes de avaliação
incluindo hemograma, VSG, ureia e eletrólitos, cálcio, TSH e sorologia celíaca
(tTGA/EMA) bem como três exames parasitológicos de fezes (Caixa 5). Todos estes
exames estão dentro dos limites normais (Caixa 6). Em função da duração da
história e da gravidade da diarreia, decide solicitar a colonoscopia, que é
normal, e a biópsia não apresenta inflamação da mucosa colônica ou melanose
cólica. O paciente admite não ter fatores de risco para infecção por HIV.
Observando que o paciente se mantém bastante ansioso, o gastroenterologista lhe
pede que responda ao questionário Roma III de alarme psicossocial, que é
compatível com o quadro de ansiedade.
É feito um diagnóstico provisório de diarreia funcionale o gastroenterologista
explica ao paciente (Caixa 10), tranquilizando-o. Informa que existem
medicamentos disponíveis para controlar os sintomas de diarreia e, que o
acompanhará para orientar o tratamento e ficar alerta para quaisquer alterações
importantes. Também discute o papel da ansiedade na possibilidade de contribuir
para os sintomas. Ao reconhecer esta associação, é recomendada ao paciente a
orientação e/ou os serviços de um profissional de saúde mental, com que
concorda.
Como o paciente não apresenta melhora após 1 mês de doses regulares e
cuidadosamente tituladas de agentes antidiarreicos e de redução na ingestão de
álcool, o gastroenterologista solicita exames adicionais (Quadros 11, 12). A
biópsia duodenal é negativa. Uma tentativa de colestiramina não melhora a
diarrreia. A tomografia computadorizada (TC) do abdômen é normal. O exame para
laxantes é negativo. O diagnóstico de diarreia funcional é confirmado e a
continuidade do controle se concentra na redução da ansiedade (Caixa 14).
CONSTIPAÇÃO CRÔNICA
Anamnese
Cabeleireira de 40 anos de idade foi encaminhada ao gastroenterologista pelo
seu médico de atenção primária em razão de uma prolongada situação de evacuação
de fezes duras e infrequentes (Caixa 1, Figura_3). Defeca em média duas vezes
por semana e, na maior parte das vezes, isto exige um esforço considerável. As
fezes são constituídas de pequenas pelotas duras, nunca soltas ou aquosas, a
não ser que use laxativos. O gastroenterologista apresenta à paciente a EBFF e
esta indica que as suas fezes geralmente correspondem ao tipo fecal 1 ou 2.
Estes sintomas estão presentes há 8 anos, mas se tornaram gradualmente mais
graves e incômodos nos últimos 2 anos. Ela nega a necessidade de extração
digital das fezes ou sensação de haver alguma coisa bloqueando a passagem das
fezes. Não há dor abdominal, mas refere empachamento (estufamento) abdominal
várias vezes na semana (Caixa 2). Não apresenta perda de peso (Caixa 3). As
suas menstruações são bastante intensas e duram 7 dias. Fuma cinco cigarros por
dia, não ingere bebida alcoólica, nem toma medicamentos constipantes (Caixa 7).
Tem dois filhos, ambos nascidos de parto vaginal sem complicação. Nega
depressão e descreve uma vida social ativa. A análise da dieta indica que
ingere de 15 a 20 g de fibras diariamente. Não há dados relevantes em seu
histórico médico e não há história familiar de constipação, câncer intestinal
ou outra doença gastrintestinal.
O exame físico é normal, inclusive o exame abdominal. Na inspeção anal são
evidentes pequenas hemorroidas e, o exame de toque retal revela apenas fezes
duras. Em particular, o tônus do esfíncter anal é normal e a evacuação simulada
é acompanhada pelo relaxamento do músculo puborretal com descida perineal
normal (Caixa 2). A paciente tentou uma série de preparações disponíveis sem
prescrição médica, incluindo emoliente de fezes e chás fitoterápicos,que não
foram muito eficazes. Recentemente descobriu que se tomar dois comprimidos de
bisacodil pela manhã, algumas vezes consegue evacuar no final da tarde, mas a
melhora é passageira.
O hemograma está normal. Na ausência de evidência sugerindo disfunção do
assoalho pélvico ou inércia colônica (ver o algoritmo seguinte 'constipação
refratária e defecação difícil'), o gastroenterologista faz o diagnóstico de
constipação funcional(Caixa 11). Explica os possíveis mecanismos para a
constipação, sugere que aumente gradualmente a ingestão de fibras na dieta e
comece com uma dose baixa de psyllium, aumentando gradualmente ao longo de
vários meses, com ingestão adequada de líquidos (Caixa 12). Sugere-lhe
adicionar uma preparação de polietilenoglicol (PEG), se necessário. Três meses
mais tarde a paciente relata melhora significativa da forma fecal e do esforço
evacuatório, bem como da defecação que ocorre 3 ou 4 vezes por semana (Caixa
13). Tem tomado psylliumde forma regular com adição de uma preparação de PEG e
está satisfeita com a continuidade desta medida a longo prazo (Caixa 14).
CONFLITO DE INTERESSE
Garantia do artigo: Rome Foundation.
Contribuições específicas dos autores: Redação e revisão: Robin C. Spiller e W.
Grant Thompson
Apoio financeiro: Financiado com subvenção da Rome Foundation.
Potenciais conflitos de interesse: Nenhum.