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Representação em texto

BrBRCVHe0004-28032009000100019

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
ano2009
Issue0001
Article number00019

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Ressecção hepática robótica. Relato de experiência pioneira na América Latina COMUNICAÇÃO BREVE BRIEF COMMUNICATION

Ressecção hepática robótica. Relato de experiência pioneira na América Latina

First robotic-assisted laparoscopic liver resection in Latin America

Marcel Autran C. MachadoI; Fábio Ferrari MakdissiI; Rodrigo C. T. SurjanI; Ricardo Z. AbdallaII IDepartamento de Gastroenterologia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo IICentro de Treinamento de Cirurgia do Hospital Sírio Libanês, São Paulo, SP Correspondência

INTRODUÇÃO As ressecções hepáticas tornaram-se, nos últimos anos, o método de eleição para o tratamento curativo dos tumores hepáticos. Graças ao melhor conhecimento da anatomia segmentar do fígado e desenvolvimento de novas técnicas, houve aumento do número de indicações de hepatectomias. O desenvolvimento da cirurgia minimamente invasiva ocorreu paralelamente e o aumento da experiência, aliado ao desenvolvimento de novos instrumentais, resultaram no crescimento exponencial das ressecções hepáticas videolaparoscópicas(3, 4, 5). A cirurgia robótica surgiu nos últimos anos como a última fronteira de desenvolvimento técnico aplicado à videocirurgia.

O objetivo do presente trabalho foi relatar a experiência pioneira de ressecção hepática totalmente com o uso de robótica na América Latina.

MÉTODOS Paciente do sexo masculino com 72 anos de idade, com cirrose hepática criptogênica de classe funcional Child-Pugh A5. Durante seguimento apresentou piora súbita da função hepática com progressão para classe funcional B7. A ressonância magnética revelou nódulo suspeito para carcinoma hepatocelular em segmento 5 do fígado com 2 cm de diâmetro, sinais de hipertensão portal e redução do volume hepático. Endoscopia digestiva alta revelou varizes esofágicas de médio calibre. Foi indicado tratamento cirúrgico que consistiu de ressecção do segmento 5 com o uso de robótica. A intervenção cirúrgica foi realizada no dia 20 de agosto de 2008.

O sistema de robô empregado foi o da Vinci (Intuitive Surgical, Inc., Sunnyvale, CA, EUA). A técnica de hepatectomia robótica é semelhante à realizada por videolaparoscopia e previamente descrita pelos autores. Em resumo, o doente é colocado em posição supina, em decúbito dorsal horizontal. O primeiro trocarte é inserido pela técnica aberta. Pneumoperitônio com CO2 é estabelecido com pressão intra-abdominal de 12 mm Hg. Foram utilizados quatro trocartes pelo cirurgião, dois de 11 mm e dois de 5 mm. Um porto auxiliar, colocado na cicatriz umbilical, é utilizado pelo assistente para introduzir fios agulhados e aspirar o campo cirúrgico (Figura_1a). Uma vez posicionados os trocartes, o robô é posicionado e seus braços acoplados aos portos (Figura 1b).

O cirurgião posiciona-se no console de comando do robô (Figura_1c). O controle dos braços é obtido com o uso dos dedos de maneira intuitiva (Figura_1d)

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A intervenção iniciou-se com secção de aderências de cirurgia prévia (colecistectomia laparoscópica), seguida da secção do ligamento redondo e do ligamento falciforme, com utilização de bisturi harmônico. O hilo hepático foi circundado para eventual necessidade de controle vascular durante a hepatectomia.

Após a confirmação da localização do tumor no segmento 5 por ultrassonografia intraoperatória, foi realizada a demarcação da área a ser ressecada com bisturi monopolar. A secção do parênquima hepático foi feita com combinação de bisturi bipolar e bisturi harmônico (Figura_2a). Vasos de médio calibre foram controlados com clipes metálicos e vasos de grande calibre foram suturados (Figura_2b).

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O espécime cirúrgico foi colocado em saco plástico e retirado através do prolongamento do porto auxiliar umbilical (Figura 2c). A área cruenta é verificada para presença de fístula biliar e sangramento (Figura_2d).

RESULTADOS O tempo cirúrgico total foi de 2 horas. Não houve necessidade de manobra de Pringle. O sangramento foi mínimo e não houve necessidade de transfusão de hemoderivados. A cavidade abdominal não foi drenada. Não houve descompensação da função hepática no período pós-operatório e o paciente recebeu alta no dia de pós-operatório. O exame anatomopatológico demonstrou tratar-se de carcinoma hepatocelular moderadamente diferenciado e as margens cirúrgicas eram livres. O paciente apresenta-se bem e sem evidência de recidiva tumoral 4 meses após o procedimento.

DISCUSSÃO A ressecção hepática por videolaparoscopia é método seguro e estabelecido no nosso meio(3, 4, 5). A abordagem laparoscópica pode tornar viável a ressecção hepática em pacientes cirróticos com hipertensão portal, que não tolerariam este mesmo procedimento por via laparotômica(1).

A cirurgia robótica nada mais é que uma videocirurgia assistida por robô. A robótica acrescenta algumas vantagens ao método puramente laparoscópico.

Com o sistema robótico, o cirurgião tem visão tridimensional real do campo cirúrgico e seu posicionamento sentado com os braços apoiados lhe confere ótima ergonomia (Figura 1c). Os instrumentos de cirurgia robótica foram especialmente desenvolvidos para conferir amplitude de movimentos ao cirurgião, semelhante ao da mão humana, e podendo atingir rotação de até 360º. A liberdade de movimento das pinças robóticas proporciona aprendizado rápido e intuitivo. O robô também pode ser ajustado para realizar movimentos com amplitude de escala reduzida, o que permite suturas em espaços pequenos com grande desenvoltura. Além disso, elimina tremores conferindo grande precisão de movimentos. A ressecção hepática por videolaparoscopia necessita frequentemente de grampeadores para controle de grandes vasos. O robô permite suturas com muita rapidez e agilidade, o que possibilita o controle de grandes vasos sem uso de grampeadores endoscópicos.

No presente caso, o controle da veia hepática média foi feito por meio de sutura.

No console o cirurgião possui controle do posicionamento da câmera e de três braços automatizados. Por meio de pedais pode alternar o controle da câmera e dos três braços do robô. Assim a apresentação fica estática e não sujeita à fadiga ou falha do auxiliar. Nos momentos em que o cirurgião está utilizando os braços do robô, a câmera fica fixa e sem nenhum tremor. O terceiro braço tem a função de apresentação e, no paciente operado, foi utilizado um afastador de fígado.

Em países desenvolvidos, a cirurgia robótica tem suplantado as demais técnicas cirúrgicas como, por exemplo, a prostatectomia radical. No entanto, na literatura inglesa, os autores encontraram um relato de ressecção hepática por robô(2).

Os autores concluem que a hepatectomia laparoscópica com o uso do sistema robótico Da Vinci permite refinamentos técnicos graças à visualização tridimensional do campo cirúrgico e utilização de instrumentais precisos e com grande amplitude de movimentação que simulam os movimentos da mão humana. A desvantagem atual deste método consiste no custo ainda elevado, mas que tende a ser reduzido com sua maior utilização. Contribui para isto o fato deste método ter sido implementado na América Latina apenas recentemente, no início de 2008.


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