Prevalência do HBsAg em gestantes de Passo Fundo, RS: estudo comparativo entre
os sistemas de saúde público e privado
COMUNICAÇÃO BREVE BRIEF COMMUNICATION
Prevalência do HBsAg em gestantes de Passo Fundo, RS: estudo comparativo entre
os sistemas de saúde público e privado
Prevalence of HBsAg in pregnant women of Passo Fundo, RS, Brazil: comparative
study between public and private health systems
Andressa Pilonetto LiellI; Daiane WeberI; Camila ToscanI; Fernando FornariII;
Luiz Fernando MadalossoIII
ICurso de Medicina da Faculdade de Medicina, Universidade de Passo Fundo
IIResidência Médica em Gastroenterologia do Hospital São Vicente de Paulo,
Passo Fundo
IIIDepartamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina, Universidade de
Passo Fundo
Correspondência
INTRODUÇÃO
A hepatite B é uma doença infecciosa causada pelo vírus B. Representa um
problema de saúde pública mundial, podendo ser prevenida com vacinação. Segundo
estimativas da Organização Mundial de Saúde, mais de 2 bilhões de indivíduos
encontram-se infectados pelo vírus da hepatite B (VHB), dos quais 350 milhões
apresentam infecção crônica(5).
Os principais grupos de risco para a infecção pelo VHB incluem recém-nascidos
de mães infectadas, usuários de drogas ilícitas, pessoas com múltiplos
parceiros sexuais, homens que fazem sexo com homens, hemodialisados,
profissionais da saúde e indivíduos pertencentes às classes socioeconômicas
menos favorecidas(2, 3). A presença do antígeno de superfície do VHB (HBsAg) no
sangue de gestantes é o marcador utilizado para rastreamento e prevenção da
contaminação de recém-nascidos, o que caracteriza a transmissão vertical do
VHB.
A transmissão vertical por sua vez é considerada a principal forma de contágio
da doença e costuma ser acompanhada de altas taxas de cronicidade. A
contaminação de recém-nascidos pelo VHB acarreta elevado risco de
desenvolvimento de cirrose e carcinoma hepatocelular, que podem ocorrer em
adultos jovens(5). O rastreamento do HBsAg em gestantes possibilita a tomada de
medidas para prevenir a contaminação do recém-nascido.
Este estudo foi realizado com o objetivo de estimar a prevalência do HBsAg em
gestantes de Passo Fundo, RS, oferecendo suporte para a implementação de
medidas profiláticas.
MÉTODOS
Realizou-se estudo retrospectivo com análise de prontuários de gestantes dos
sistemas de saúde público e privado do município de Passo Fundo, RS, Brasil,
atendidas entre janeiro de 2003 e dezembro de 2005. Foram incluídas pacientes
cujos prontuários continham informações sobre a pesquisa do HBsAg sérico
durante a gestação. De uma amostra representativa de gestantes dos sistemas
público e privado, pesquisaram-se os números de gestações com a finalidade de
se comparar o nível socioeconômico das pacientes dos dois sistemas de saúde. O
protocolo do estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da
Universidade de Passo Fundo.
Os dados dos pacientes do sistema público foram pesquisados em todos os seis
Centros de Atenção Integral à Saúde (CAIS) do município, locais de atendimento
público, onde se realizam consultas obstétricas e que estão localizados nas
diversas regiões, abrangendo toda a população da cidade. Tais centros foram
visitados com autorização do Secretário da Saúde vigente do município e dos
responsáveis de cada Unidade de Saúde.
Para compor o grupo de gestantes do sistema de saúde privado, foram incluídas
16 clínicas particulares, de acordo com os seguintes critérios: 1. atendimento
particular ou por convênios; 2. localização nas áreas centrais do município; 3.
consentimento para fornecer os dados solicitados. Os dados da rede privada
foram coletados de acordo com informações fornecidas pelo responsável de cada
clínica.
O número de gestações foi apresentado como mediana (amplitude) e comparado com
teste t não-paramétrico (Mann-Whitney). A prevalência de HBsAg em cada grupo de
gestantes foi apresentada em percentual e comparada através de teste do Qui ao
quadrado. O valor de P foi considerado significativo se inferior a 5%.
RESULTADOS
O total de 4.497 prontuários foi avaliado, sendo 3.103 (69%) do sistema público
e 1.394 (31%) do privado. Foram excluídos 924 prontuários do sistema público
(30%) por não conterem o resultado do HBsAg, e nenhum do privado, perfazendo
uma amostra final de 3.573 prontuários (proporção público:privado = 6:4).
Esses dados estão apresentados na Tabela_1. A prevalência geral de HBsAg foi
0,7%, não se observando diferença estatisticamente significante entre a
prevalência do HBsAg em gestantes dos sistemas de saúde público (0,64%) e
privado (0,79%). O número de gestações foi significantemente maior na amostra
de pacientes do sistema público em relação ao do sistema privado, indicando
menor nível socioeconômico nas gestantes do sistema público.
DISCUSSÃO
A hepatite B é uma doença de considerável impacto em saúde pública. Estratégias
de prevenção são fundamentais para seu efetivo controle, incluindo o uso
judicioso de vacinas e de imunoglobulina específica. Para tal, é necessário o
conhecimento de suas taxas de prevalência, especialmente em populações de
risco, como gestantes.
Baseado nestes princípios, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência do
HBsAg em gestantes atendidas em um pólo de atenção à saúde, comparando-se taxas
de prevalência entre os sistemas público e privado.
A prevalência geral do HBsAg foi 0,7%, configurando a região estudada como área
de baixa prevalência (<2%) segundo o "Centers for Diseases Control and
Prevention" (CDC). É importante ressaltar o grande número de pacientes incluído
(mais de 3.500) e a adequada representatividade dos centros de saúde
pesquisados, abrangendo serviços públicos e privados de uma cidade de médio
porte, com elevada circulação de pacientes. Em concordância com esse achado,
estudos realizados em outras regiões populosas do Brasil têm descrito
prevalência de HBsAg entre 0,4 e 0,8%(1, 4)..
Considerando-se que a transmissão da hepatite B possa estar aumentada em
populações desfavorecidas socioeconomicamente(3), esperar-se-ia maior
prevalência do HBsAg nas gestantes do sistema público em detrimento do privado.
No entanto, as taxas de HBsAg foram similares nessas populações, questionando-
se, assim, a desigualdade socioeconômica entre as pacientes dos sistemas
público e privado. Teve-se o cuidado de estimar e comparar o nível
socioeconômico das gestantes atendidas nesses sistemas, levantando-se o número
de gestações por paciente em amostras aleatórias das referidas populações,
considerando-se que maior densidade familiar seja indicativa de menor nível
socioeconômico. Observou-se número significativamente maior de nascidos vivos
das pacientes do sistema público, indicando que a prevalência de HBsAg
independe do nível socioeconômico neste estudo. Possíveis explicações para a
reduzida taxa de prevalência de HBsAg incluem a melhora da qualidade dos
serviços de saúde pública, com a vacinação em massa, a crescente utilização de
medidas preventivas contra doenças sexualmente transmissíveis e a melhoria dos
índices de nutrição em populações menos favorecidas.
Em resumo, estimou-se a prevalência do HBsAg em gestantes atendidas nos
sistemas público e privado de um grande centro de atenção à saúde. O principal
achado foi a reduzida taxa de prevalência deste marcador, independente do nível
socioeconômico da população estudada. Melhor aprimoramento das medidas de saúde
pública poderia ser capaz de erradicar a hepatite B na região estudada.