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Representação em texto

BrBRCVHe0004-28032009000100007

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
ano2009
Issue0001
Article number00007

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Estudo de vigilância epidemiológica da profilaxia do tromboembolismo venoso em especialidades cirúrgicas de um hospital universitário de nível terciário ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLE

INTRODUÇÃO A trombose venosa profunda (TVP) e a embolia pulmonar (EP) são manifestações de um mesmo problema: o tromboembolismo venoso (TEV)(25). Complicação da TVP, menos grave que a EP, é a insuficiência venosa crônica, também chamada síndrome pós-trombótica(14, 15). A dificuldade do diagnóstico da TVP, o retardo na terapêutica e a estreita relação entre TVP e EP determinam altas taxas de morbimortalidade(25).

No Brasil, provavelmente devido à falta de confirmação pela dificuldade de acesso aos serviços médicos e pela subnotificação, acredita-se que haja incidência de 0,6 caso/mil habitantes/ano(10).

Os pacientes politraumatizados ou os submetidos a intervenção cirúrgica de longa duração estão sob risco aumentado de desenvolver TEV. Esse risco aumenta com a idade, obesidade, em doentes com neoplasia, antecedentes cirúrgicos recentes e os estados trombogênicos. Além disso, interferência de fatores individuais, tais como duração da intervenção, o tipo de anestesia, a imobilização pré e pós-operatória, o grau de hidratação e a presença de uma infecção(22).

Apesar de grandes evidências sobre a eficácia das medidas profiláticas para o TEV e de protocolos de prevenção da TVP estarem à disposição dos profissionais, existe expressiva variabilidade na prática médica, na aplicação dessas medidas.

Diversos estudos encontraram flutuações de 28,0% a 100,0% no uso rotineiro dessa profilaxia(18, 26).

Sabe-se que a profilaxia adequada é o método de melhor relação custo/benefício, podendo reduzir significativamente os gastos hospitalares, que, diminuindo- se a incidência de TVP e EP, diminui-se o tempo de internação e os gastos com tratamento(25). A profilaxia também deve ser incentivada para se evitar a grande morbidade causada pela sequela tardia da TVP com graus variados de incapacidade(23).

O principal objetivo deste trabalho foi verificar a adesão dos profissionais de seis clínicas cirúrgicas quanto à indicação e uso correto da profilaxia medicamentosa do TEV, através do uso da heparina não fracionada.

Secundariamente, avaliar as complicações tromboembólicas e as decorrentes do uso da heparina.

MÉTODOS Foi realizado estudo epidemiológico, prospectivo transversal, com avaliação diária, por período de 10 dias por mês, nos meses de setembro a dezembro de 2005, em pacientes de ambos os sexos operados em seis Clínicas Cirúrgicas do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, MG. Identificaram- se os fatores de risco para o desenvolvimento de TEV, a classificação de categoria de risco e o uso profilático de heparina, de acordo com as normas propostas pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular - SBACV (4).

Uma ficha com dados de identificação, categoria de risco (baixo risco - 0 a 1 ponto; médio - 2 a 4 pontos e alto risco - 5 ou mais pontos), uso de heparina, iniciado imediatamente ao término da cirurgia, e suas complicações, foi preenchida para cada caso (Figura_1).

Avaliaram-se pacientes em pós-operatório, internados nas clínicas de cirurgia geral (aparelho digestório e proctologia), ginecologia, neurocirurgia, ortopedia e traumatologia, urologia e angiologia e cirurgia vascular.

Cada item presente contava uma unidade para pontuação, com exceção feita a algumas situações específicas, que contavam 2 pontos ou outras que configuraram alto risco, independentemente de outras variáveis, conforme demonstrado na Figura_1.

Trinta dias após a alta hospitalar, foi realizada análise retrospectiva dos prontuários dos pacientes para verificação da ocorrência do TEV sintomática, em relação a dados clínicos, medicamentosos e cirúrgicos.

A utilização adequada da profilaxia para TEV foi analisada segundo as normas da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, que recomenda movimentação ativa e passiva no leito e deambulação precoce para pacientes de baixo risco; uso de heparina subcutânea em baixa dose (5000 UI a cada 12 horas) ou heparina de baixo peso molecular subcutânea 1 vez ao dia (enoxaparina na dose de 20 mg), combinadas ou não à compressão com meias graduadas para pacientes de risco moderado; e para pacientes de alto risco, o uso de heparina não fracionada subcutânea em baixa dose (5000 UI a cada 8 horas) ou heparina de baixo peso molecular subcutânea 1 vez ao dia (enoxaparina na dose de 40 mg).

Foi considerada dosagem adequada a prescrição de heparina não fracionada de 8/ 8 h para pacientes de alto risco e de 12/12 h para pacientes de médio risco (18).

Verificou-se também a ocorrência de complicações pelo uso da heparina, como: sangramento menor (pequenos sangramentos, sem alterações hemodinâmicas e hematimétricas), sangramentos maiores (quando foi necessária hemotransfusão e/ ou queda de hemoglobina maior que 2 g/L) e trombocitopenia (queda na contagem de plaquetas superior a 50% do nível basal após o início de uso da medicação, ou pela normalização da contagem de plaquetas após a suspensão da heparina)(4).

Por se tratar de estudo epidemiológico e por ser um levantamento do que é feito rotineiramente nas clínicas cirúrgicas, não houve necessidade do consentimento livre e esclarecido dos pacientes envolvidos. O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia, protocolado pelo número 66/05.

Considerou-se como padrão-ouro para o uso da heparina na profilaxia de TVP a clínica de angiologia e cirurgia vascular e, para tanto, comparou-se estatisticamente com as demais clínicas cirúrgicas.

A análise estatística foi realizada por meio do teste da Binominal, sendo considerados estatisticamente significantes valores de P  <0,05. Utilizou-se o programa estatístico BioEStat 2.0(2).

RESULTADOS Avaliaram-se 357 pacientes (Tabela_1), dos quais 215 (60,2%) eram do sexo masculino e 142 (39,8%) do feminino. A idade média encontrada foi 52 anos e o índice de massa corporal médio foi 24,23 kg/m2.

Os fatores de risco mais encontrados, por ordem de frequência, podem ser identificados na Tabela_2.

Foram classificados 24 pacientes (6,7%) como de baixo risco para o desenvolvimento de TEV, com risco moderado 128 (35,9%) e com alto risco 205 (57,4%), com variação desta classificação conforme a distribuição dos pacientes por clínica (Tabela_3). Dos 357 pacientes avaliados, 184 (51,5%) receberam heparina profilática. Dentre os pacientes com baixo risco, três (12,5%) receberam profilaxia medicamentosa. Dos 333 pacientes de risco moderado e alto de desenvolver TEV e com indicação para receber profilaxia medicamentosa, 181 (54,4%) a receberam, e destes, 122 (67,4%) receberam em dose adequada. Dos 181 que receberam heparina, 49 (38,3%) eram de médio risco e 132 (64,4%) de alto risco (Tabela_3).

O esquema profilático empregado em todas as clínicas cirúrgicas avaliadas foi com heparina não fracionada via subcutânea. Dos 184 pacientes que receberam profilaxia medicamentosa, 122 (66,3%) a receberam com dose adequada. Quarenta e oito pacientes (36,4%) de alto risco não receberam a dose correta de profilaxia recomendada(9).

Para todos os pacientes analisados estavam prescritos cuidados gerais, mas sem nenhuma especificação quanto às medidas profiláticas físicas, como deambulação precoce e movimentação do paciente no leito.

De todas as especialidades analisadas, a clínica de ginecologia foi a que menos utilizou a heparina profilática, isto é, em quatro pacientes (16,7%). Em contrapartida, a angiologia e cirurgia vascular foi a que mais a utilizou, ou seja, em 97,7% dos pacientes, e adequadamente em 90,7% dos pacientes.

Quando comparado o uso inadequado de heparina profilática por cada clínica cirúrgica com a clínica de angiologia e cirurgia vascular, verificou-se diferença estatisticamente significante (P <0,05).

As complicações decorrentes do uso de heparina foram: 12 (6,5%) episódios de sangramento menor, 2 (1,1%) de sangramento maior e 3 (1,6%) de trombocitopenia (Tabela_4).

Foram observados 6 (1,7%) episódios de TVP do total de 357, sem nenhum episódio de TVP/EP ou EP isoladamente. Dos 205 pacientes de alto risco e 128 de risco moderado, 4 (2,0%) e 2 (1,6%) desenvolveram TEV, respectivamente (Tabela_5). Em relação à profilaxia utilizada, todos os pacientes receberam cuidados gerais e heparina não fracionada e, entre esses, dois pacientes de alto risco (28,6%) receberam dose inferior à recomendada.

DISCUSSÃO O TEV representa uma situação grave de pós-operatório amplamente documentada na literatura. A profilaxia da TVP é reconhecidamente efetiva em minimizar as complicações em situações definidas de risco(21).

Estudos mostram distribuição de pacientes em relação à categoria de risco numa proporção de 8,0%, 45,0% e 47,0% para alto, moderado e baixo risco, respectivamente(3, 4). Esses estudos englobam pacientes cirúrgicos e clínicos e diferem dos encontrados nos resultados da presente série, em que se avaliaram apenas pacientes cirúrgicos, verificando-se 57,5% de pacientes de alto risco, 35,8% de risco moderado e 6,7% de baixo risco. Resultados semelhantes a estes foram verificados em outro estudo com 47,1% de pacientes de alto risco, 36,7% de risco moderado e 16,2% de baixo risco, entre pacientes cirúrgicos(9).

A profilaxia química do TEV é necessária e fundamental, entre outras medidas, como deambulação precoce, meias elásticas, compressão pneumática intermitente, etc., pois ao diminuir a incidência de TVP e EP, reduz-se a morbimortalidade, tempo de internação e gastos. O presente trabalho objetivou identificar o uso profilático de heparina em hospital de nível terciário e universitário. A profilaxia é comprovadamente efetiva, o que foi demonstrado em trabalhos prévios(7, 8). Em estudo de pacientes de cirurgia geral, o emprego de heparina não fracionada em baixas doses reduziu a incidência de TEV de 25,0% para 4,0%, representando redução de risco relativo de 86,0%(7). Em cirurgias eletivas de colo de fêmur, o uso de heparina profilática reduziu a incidência de TEV de 50,0% para 11,0%, redução de risco relativo de 77,0%(8).

A utilização de meias elásticas de compressão moderada em cirurgia geral tem se mostrado eficaz na profilaxia da TVP em alguns estudos(11). O uso de meia elástica associada a outros métodos profiláticos (profilaxia medicamentosa), aumenta sua eficácia e, por esta razão, o uso desta associação tem sido sugerido nos casos de alto risco para o desenvolvimento de TEV(8, 32).

Existem várias classificações de risco publicadas, algumas adequadas para pacientes clínicos e outras para pacientes cirúrgicos(5, 12, 24). Neste trabalho utilizou-se a classificação proposta por CAIAFA e BASTOS(4), de acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.

Estudos mostram que o uso profilático de heparina em pacientes hospitalizados variou de 20,9 a 65,9%(4, 9, 13). Embora acessível, a profilaxia medicamentosa da TVP ainda não é rotineiramente utilizada, mesmo em hospitais de nível terciário, alcançando apenas 50,0% dos pacientes que têm indicação(21). No presente trabalho, a profilaxia química foi utilizada em 54,8% dos pacientes cirúrgicos com indicação para recebê-la, com uso adequado em 67,9%. Dentre as prováveis justificativas para essa subutilização destacam-se as imprecisões quanto à classificação de grupos de risco e insegurança do profissional.

Neste estudo, as clínicas cirúrgicas geral e vascular foram as que mais utilizaram profilaxia química, como em outro semelhante(1). Em 12,5% dos pacientes de baixo risco, a heparina profilática foi empregada desnecessariamente.

divergência na literatura quanto à indicação de heparina de baixo peso molecular ou de heparina não fracionada(17). Estudos demonstram vantagens da heparina de baixo peso molecular sobre a heparina não fracionada: resposta anticoagulante mais previsível, meia-vida plasmática mais longa, maior biodisponibilidade, redução da trombocitopenia induzida pela heparina e menor osteopenia(16, 29, 31) são alguns dos benefícios obtidos com a heparina de baixo peso molecular, mas no hospital onde foi realizado o presente estudo foi utilizada rotineiramente a heparina não fracionada.

O setor de ginecologia usou profilaxia química em apenas 16,7% de seus pacientes. Tal situação é alarmante, visto que a incidência global de complicações tromboembólicas em cirurgia ginecológica é comparável à da cirurgia geral(8), apesar de não ter sido constatada complicação pós-operatória de TEV, talvez pelo número de pacientes amostrados.

Quanto à adequação da dose de heparina não fracionada, pode-se verificar que mesmo com a disponibilidade de vários esquemas preventivos, nem sempre eles são seguidos. A dose foi adequada em 78,0% dos pacientes de médio risco e em 64,2% dos pacientes de alto risco, situação melhor que a demonstrada em estudos anteriores, que encontraram 70,0% de profilaxia adequada para médio risco e 34,6% para alto risco(20).

A possível preocupação com sangramento pós-operatório, pelos profissionais que não indicam rotineiramente a heparina profilática, pode ser uma explicação possível para a falta de indicação plena da heparina. Contudo, dados de meta- análise e estudos randomizados demonstram que não aumento significativo de sangramento com o uso de heparina não fracionada em baixas doses e, principalmente, da heparina de baixo peso molecular(9). Na presente série, casos de sangramento menor (6,5%) e maior (1,1%) ocorreram em níveis baixos, sem riscos para os pacientes. Isto deverá ter sido ser tanto pelo uso da profilaxia química, como pelo próprio ato cirúrgico. Em relação à trombocitopenia, verificou-se ocorrência reduzida (1,6%), assim como descrito por outros autores(30).

A real incidência de TEV permanece desconhecida. A história natural da doença, que evolui freqüentemente, de maneira insidiosa ou com sinais e sintomas comuns a outras doenças, contribuiu para uma subnotificação. Acresce-se o fato de que a maioria dos estudos epidemiológicos baseia-se no diagnóstico clínico, de sensibilidade inferior a 50,0%(6).

Em estudo sobre a ocorrência de TEV em 175.730 internações em um hospital geral, verificou-se incidência de 400 casos (0,3%)(28). Considerando-se as subpopulações específicas, como as cirúrgicas, a incidência pode ser mais elevada, com 23,0% dos pacientes submetidos a cirurgia geral e 40,0% dos submetidos a artroplastias de quadril(19). Na presente casuística, em que foi utilizada a profilaxia com heparina, ocorreu TEV em 1,7% dos pacientes operados, diagnosticados clinicamente. Deve-se ressaltar que, apesar das recomendações da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular(4) de iniciar a profilaxia química 2 horas e 12 horas antes dos procedimentos cirúrgicos de moderado e alto risco, respectivamente, as clínicas avaliadas nesse estudo iniciaram imediatamente após o procedimento. Os casos oligossintomáticos de TEV podem ter passado clinicamente despercebidos, e costumam ocorrer numa incidência bem mais baixa do que quando não se faz a profilaxia química(7, 8, 15). Para uma real prevalência, necessidade de exames como, flebografia, "Duplex scan", em pós-operatórios de todos os pacientes, situação pouco prática na rotina cirúrgica diária(4).

A prevalência de TEV se mantém injustificadamente alta, tratando-se de condição evitável. No entanto, verificou-se que nenhum esquema profilático é completamente efetivo na prevenção do TEV em pacientes de riscos alto e muito alto. Assim, a ocorrência de TEV não pode ser automaticamente afastada por estar o paciente recebendo medidas profiláticas em sua plenitude(27).

Programas educacionais(14) sobre a profilaxia do TVP para profissionais da área de saúde são de extrema importância. Aumento do uso de heparina profilática de 29,0% para 52,0% em pacientes com risco de desenvolver trombose foi conseguido após estratégias educacionais junto aos profissionais de saúde(1).

Este estudo demonstra a necessidade da criação de programas de atualização e campanhas educativas para maior conscientização das equipes cirúrgicas quanto à importância e à necessidade da utilização adequada da profilaxia para o TEV.


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