Importância da resitência insulínica na hepatite C crônica
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Importância da resitência insulínica na hepatite C crônica
Insulin resistance in chronic hepatitits C
Edison Roberto Parise; Ana Cláudia de Oliveira
Disciplina de Gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo
Correspondência
A resistência à ação da insulina tem papel fundamental no aparecimento da
síndrome metabólica. No tecido periférico dependente de insulina, ocorre um
defeito intracelular pós-receptor na sinalização da insulina (Figura_1). Há
bloqueio na fosforilação em tirosina dos substratos protéicos dos receptores de
insulina (IRS), o que impede a transativação do GLUT 4 e, conseqüentemente, a
entrada da glicose para o interior da célula. Isso faz com que maiores
quantidades de insulina sejam secretadas pelas células b pancreáticas, criando
um estado de hiperinsulinemia compensatória. Esse excesso de insulina
resultante consegue, durante certo tempo, manter a glicemia dentro dos níveis
da normalidade, mas acaba determinando importantes alterações em todo
organismo. A mais conhecida é a extensiva deposição centrípeta da gordura
corporal, conhecida como obesidade central ou visceral, onde ocorre grande
aumento da gordura abdominal, em detrimento dos membros. Outros efeitos incluem
o aumento da pressão arterial e dos níveis séricos de triglicérides e redução
dos valores de HDL colesterol, com ou sem hiperglicemia. A presença de três ou
mais dessas manifestações caracteriza a síndrome metabólica ou síndrome de
resistência insulínica(64, 72).
O estudo da resistência insulínica na hepatite C crônica vem ganhando
importância desde que se observou uma elevada prevalência de casos de diabetes
mellitus tipo 2 (DM2) entre esses pacientes. De fato, portadores de hepatite
crônica C (HCC) apresentam maior prevalência de DM2 e de intolerância à glicose
que doentes com outras hepatopatias, chegando a acometer 21% dos portadores de
hepatite C contra 12% dos de hepatite crônica B em análise retrospectiva de
1.117 pacientes(43). Essa elevada prevalência de DM2 na hepatite C se mantém
mesmo quando se excluem pacientes cirróticos da análise (27,3% cirróticos x
17,5% não-cirróticos)(1, 20, 35), uma vez que a cirrose é condição
conhecidamente diabetogênica per si. Essas alterações na homeostase da glicose
estão relacionadas à presença de resistência à insulina (RI), achado quase
invariável no DM2 e parâmetro com melhor capacidade de predizer o
desenvolvimento dessa doença, precedendo seu aparecimento em 10 a 20 anos, como
mostram alguns trabalhos longitudinais(41, 67). A importância clínica da RI e
os mecanismos propostos para essa maior prevalência de RI nos portadores de
hepatite C serão objetos dessa revisão.
REPERCUSSÕES CLÍNICAS DA RI
Além do aparecimento do DM2, a RI tem sido associada a várias alterações
hepáticas, sendo a mais conhecida delas a esteatose do fígado. Para se entender
a esteatose nas doenças do fígado é necessário que relembremos as
características do metabolismo hepático dos lipídios.
METAOLISMO DASGORDURAS NO FÍGADO
Os ácidos graxos que chegam ao fígado são provenientes de três fontes
principais:
* os originários da dieta, absorvidos ao longo do intestino delgado e
carreados como quilomícrons através da veia porta;
* aqueles que derivam da hidrólise da gordura dos tecidos adiposos
periféricos através da ação de uma lipase insulina-sensível;
* a partir da transformação de aminoácidos e, mais freqüentemente, de
hidratos de carbono no interior do próprio fígado
Uma vez nos hepatócitos, esses ácidos graxos poderão sofrer dois tipos básicos
de transformação (Figura_2): o primeiro ocorre ao nível das mitocôndrias e dos
peroxissomas e envolve a b-oxidação dos ácidos graxos para fornecimento de
energia alternativa, resultando na formação de gás carbônico, água e corpos
cetônicos. Alternativamente, poderão ser esterificados para formar
triglicérides, que junto com colesterol, fosfolípides e apolipoproteínas irão
compor as lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL). O VLDL formado é,
então, secretado para a corrente sangüínea. Dessa forma, em condições normais o
fígado não acumula gordura no interior do hepatócito. No entanto, na presença
de RI encontrar-se-á situação inversa, onde há franca tendência ao acúmulo de
gordura no fígado, mediada essencialmente pela hiperinsulinemia compensatória.
No tecido adiposo, por causa da resistência à ação da insulina, ocorre inibição
da lipase lipoprotéica insulino-sensível, o que aumenta o influxo de ácidos
graxos para a circulação sangüínea e daí para o fígado. Nele, como a b-oxidação
e a liberação de triglicéride na forma de VLDL estão inibidas pela
hiperinsulinemia, esses ácidos graxos em excesso são convertidos em
triglicérides que se acumularão no fígado, levando ao quadro de esteatose
hepática relacionada à síndrome de resistência insulínica(7, 13, 16, 54).
Essa relação entre esteatose e RI tem sido especialmente observada na doença
hepática gordurosa não-alcoólica (DHGNA), onde tem sido cada vez mais freqüente
a demonstração da importância da resistência à insulina no estabelecimento e
progressão da doença. Desde o início da caracterização da DHGNA, sua associação
com RI já era sugerida pelo fato dela ser mais freqüentemente encontrada em
pacientes obesos, diabéticos e dislipêmicos(40, 50). Além de levar a esteatose,
a RI está associada às formas mais avançadas da DHGNA. Os indivíduos com
esteatohepatite apresentam níveis de resistência insulínica superiores aos
observados nos pacientes com formas mais benignas da doença. Em análise
multivariada, resistência insulínica e hipertensão arterial estiveram
associadas, independentemente da presença de fibrose septal e cirrose na DHGNA
em pacientes com obesidade severa(10).
A ESTEATOSE NA HEPATITE C
A esteatose é freqüentemente encontrada na doença crônica pelo vírus C e tem
sido atribuída maior gravidade da doença hepática na sua presença(26, 46). É
encontrada em freqüência variável na hepatite crônica pelo vírus C, com
prevalência que pode variar de 30% a 70%, sendo mais freqüente em pacientes com
genótipo 3(39). Nos portadores desse genótipo, a presença de esteatose está
associada à carga viral mais elevada e redução dos valores de colesterol sérico
e tende a regredir com a erradicação viral. Esses fatos sugerem que em tais
casos a esteatose decorra da ação citopática direta do vírus, que seria capaz
de induzir uma hipobetalipoproteinemia, interferindo na liberação do
triglicéride hepático para a circulação na forma de VLDL (Figura_1), o que
seria revertido após o tratamento(52, 61). Nos pacientes com genótipo não-3, ao
contrário, a esteatose tende a persistir após o tratamento e está mais
associada a fatores relacionados ao hospedeiro, como alcoolismo,
hipotireoidismo e, principalmente, com características da síndrome metabólica,
tais como obesidade central, hipertrigliceridemia, hipertensão arterial,
redução do HDL colesterol e diabetes ou intolerância à glicose(1, 26, 46, 58).
Essas características aproximam esses pacientes dos daqueles com DHGNA. De
fato, todo o espectro da DHGNA pode ser observado nos pacientes com hepatite
crônica, desde a esteatose pura, até características anatomopatológicas de
esteatohepatite com degeneração baloniforme e fibrose pericelular e
perivenular. Em revisão de 120 biopsias de portadores de hepatite C crônica, os
achados de hepatite crônica estavam associados aos de esteatohepatite em 18%
dos casos, para uma casuística em que quase 60% dos casos apresentavam
esteatose(71). Esses achados confirmam a diversidade dos mecanismos
fisiopatogênicos envolvidos no estabelecimento da esteatose nos diferentes
genótipos da hepatite C. Mas é preciso lembrar que mesmo pacientes com genótipo
3 podem apresentar resistência insulínica. No estudo anteriormente citado(71),
por exemplo, achados histológicos de esteatohepatite foram mais comuns naqueles
com genótipo 3.
Vários fatores estão envolvidos na evolução da hepatite pelo vírus C para
cronicidade, como a idade na ocasião da infecção, o uso abusivo de álcool, o
gênero masculino, a co-infecção com HIV(49, 51). Nos últimos anos, também a
presença de esteatose tem sido considerada fator de risco para a progressão da
doença hepática, independente do genótipo viral(24, 25, 57). As evidências
indiretas decorrem de estudos que associam o grau de esteatose observado na
biopsia às lesões fibróticas mais avançadas e com a evolução mais rápida da
doença(25) também pelo fato de que vários fatores de risco para doença mais
grave na hepatite C, como etilismo, DM tipo 2, obesidade e a idade do paciente
são fatores freqüentemente associados à presença de esteatose hepática.
Finalmente, pelo menos um estudo demonstrou que a perda de peso isoladamente,
sem qualquer outra medida terapêutica, é capaz de diminuir as taxas das enzimas
hepáticas, o grau de esteatose e, ao que parece, reduzir a lesão hepática à
histologia, a despeito da persistência da infecção viral(22).
RI E FIBROSE HEPÁTICA
Não são poucos os estudos que associam a RI à progressão mais rápida da fibrose
em pacientes com hepatite C. Desde que a esteatose também apresenta essa
associação, seria natural pensar que o estímulo fibrogênico da RI seria através
do desencadeamento da esteatose hepática. Por analogia com o que ocorre na
DHGNA, em que a RI representa fator fundamental no aparecimento da esteatose e,
juntamente com o estresse oxidativo e a lipoperoxidação, se associam à
progressão da doença(5, 16), o acúmulo de lipídios nos hepatócitos na hepatite
C poderia desencadear estresse oxidativo e formação de lipoperóxidos(4, 39). A
lipoperoxidação atuaria estimulando a liberação de citocinas ou através dos
próprios produtos da lipoperoxidação (como MDA), ativando as células
estreladas, estimulando a fibrogênese(38, 63). De fato, vários estudos já
demonstraram a existência de estresse oxidativo na hepatite C e a redução do
estímulo fibrogênico para as células estreladas com o uso de antioxidantes(8,
23, 29, 69). A redução dos níveis séricos e teciduais dos elementos
antioxidantes e o aumento na lipoperoxidação e na oxidação de proteínas têm
sido demonstrados nesses pacientes, mesmo nas fases iniciais da doença(29, 69).
No entanto, a participação desse mecanismo de lesão, via esteatose hepática, à
semelhança do que ocorre na DHGNA, não parece explicar todo o quadro. Enquanto
em alguns estudos a esteatose, e não a RI, esteve independentemente associada à
fibrose(15) e alguns estudos de imunoistoquímica associarem a positividade de
marcadores teciduais de estresse oxidativo com a presença de esteatose(34), em
outros trabalhos, como no publicado por MUZZI et al.(46), a fibrose hepática
esteve associada à RI, mas não foi observada relação da fibrose com a esteatose
hepática. Esses últimos achados estariam mais de acordo com estudos dos
presentes autores, que demonstram que os marcadores séricos de estresse
oxidativo na hepatite C crônica estão alterados naqueles pacientes com
resistência insulínica, independentemente da presença de esteatose hepática
(48).
Além da esteatose, outros fatores podem estar associados à progressão da
fibrose nos pacientes cronicamente infectados pelo vírus C, como
hiperleptinemia, produção aumentada de TNF e diminuição da expressão do PPARY,
o que aumentaria a produção de TGFb, importante citocina estimuladora da
fibrogênese hepática(56).
RI E RESPOSTA AO TRATAMENTO COM INTERFERON
ROMERO-GOMEZ et al.(55), analisando o impacto da RI no tratamento da hepatite C
crônica, demonstraram que a presença e a gravidade da RI estiveram relacionadas
à chance de resposta virológica sustentada (RVS) em pacientes portadores de
hepatite crônica C genótipo não-3 em tratamento com interferon peguilado
associado à ribavirina. A RVS foi de 60% nos pacientes com o índice de RI
medida pelo método homeostático (HOMA-IR) <2,0 contra apenas 20% naqueles com
HOMA-IR>4,0. Também foi observada redução significante na RI a partir do 6º mês
de tratamento nos pacientes que alcançaram resposta virológica sustentada,
quando comparados àqueles que não a obtiveram (nos pacientes com RVS a RI
medida pelo HOMA-IR caiu de 2,55 ± 2,52 do início do tratamento para 1,50 ±
0,77 ao final dele; P<0,05, enquanto nos não-respondedores, nesse mesmo
período, a RI variou de 3,65 ± 2,03 para 3,48 ± 1,20; P = NS). Em casuística
recente, KAWAGUSHI et al.(32) encontraram resultado semelhante, com redução da
RI medida pelo HOMA-IR e melhora significante da função das células beta nos
pacientes que alcançaram RVS. Nesse estudo, através do método imunoistoquímico,
os autores demonstraram aumento na expressão do substrato dos receptores de
insulina IRS1 e IRS2 no tecido, mostrando que o próprio vírus poderia ter papel
direto no desenvolvimento da RI relacionada à infecção crônica pelo vírus C.
Alguns mecanismos têm sido aventados para explicar a interferência da RI na
resposta ao tratamento com interferon. Estudos experimentais com o replicon do
HCV mostram que em níveis elevados de insulina há acentuado bloqueio na
inibição da replicação viral induzida pelo interferon. Essa inibição seria
mediada pela via da fosfatidil-inositol 3 quinase (PI3K) e bloqueio da indução
das proteínas antivirais proteinoquinase mitogeno ativada (MAPK) e do fator 1
regulador de interferon (IRF-1)(59).
MECANISMOS DE RI NA HEPATITE C
Os mecanismos pelos quais a infecção crônica pelo vírus C induz aumento na
resistência à ação da insulina e ao DM não estão totalmente esclarecidos.
Claramente, a prevalência de DM e intolerância à glicose é superior à esperada,
mesmo se tratando de doenças crônicas do fígado. A prevalência de esteatose e
esteatohepatite, por outro lado, também supera em muito àquela que seria
esperada para uma associação fortuita entre pacientes com DHGNA que pudessem
ser infectados pelo vírus. Mais recentemente, HUI et al.(26) encontraram maior
escore de RI, medido pelo modelo homeostático de HOMA-IR, em pacientes
portadores de hepatite crônica C com graus mínimos ou inexistentes de fibrose
hepática (F0 e F1) que no grupo controle pareado por sexo, índice de massa
corporal (IMC) e relação cintura/quadril, demonstrando que o vírus, por si só,
pode induzir à RI mesmo nos estágios iniciais da doença. Nesse estudo a RI
esteve associada, de forma independente, à progressão da fibrose hepática e
também a menor resposta à terapêutica com interferon e ribavirina.
Assim, fica claro que deve existir na hepatite um fator próprio da infecção do
vírus C capaz de modificar os fatores que regulam o metabolismo dos
carboidratos.
Utilizando modelos de animais transgênicos e cultura de células contendo o core
do vírus C, MORIYA et al.(45) conseguiram demonstrar que o próprio vírus seria
capaz de induzir ao desenvolvimento de RI, através da inibição da sinalização
dos RI (IRS-1 e IRS2) via citocinas pró-inflamatórias, particularmente TNFa,
independentemente dos fatores metabslicos tradicionais relacionados à síndrome
metabólica. Essa citocina promove uma fosforilação de resíduos de tirosina dos
receptores de insulina (IRS1 e IRS2) e aumenta a produção do supressor de
citocina (SOC3). A SOC3 inibe a fosforilação da Akt e fosfatidil inositol 3
kinase (PI3k) que, em última instância, leva a uma redução na liberação de
glicose pela célula. Também AYTUG et al.(2) investigando mecanismos de RI em
espécimes de biopsia hepática de portadores de hepatite C, encontraram vias de
inibição da ação hepática da insulina semelhante àquelas encontradas nos
modelos experimentais anteriormente descritos.
Estudos clínicos demonstram que os níveis de TNF e de receptores solúveis para
o TNF (sTNFR 1 e 2) e as citocinas IL6 e TGF-b estYo mais elevados na hepatite
crônica C que em outras doenças hepáticas e os valores séricos de sTNFR e TGF-
b correlacionam-se com o índice de RI(37).
Além dos fatores virais, outros poderiam estar associados ao desenvolvimento ou
à manutenção da RI nesses pacientes.
As adipocitocinas, especialmente leptinas e adiponectinas, têm sido
relacionadas à RI na DHGNA e seria natural que elas também o fossem com a
infecção crônica pelo vírus C. Essas adipocitocinas são uma família de
proteínas séricas derivadas do tecido adiposo, que interferem com o metabolismo
de glicose e lipídios. Tais substâncias são liberadas para a circulação tanto
pelas células gordurosas, quanto não gordurosas do tecido adiposo. A
adiponectina, produzida exclusivamente pelos adipócitos maduros, encontra-se
paradoxalmente reduzida com o aumento do índice de massa corporal. Essa
proteína regula a quantidade de gordura hepática e tem efeito antiesteatótico e
antiinflamatório no fígado, através de seu efeito na sensibilização de
insulina. Na DHGNA a redução da adiponectina esteve associada a maior grau de
esteatose hepática e atividade necroinflamatória(27, 33, 68), mas seu papel na
hepatite C não está claro e os estudos têm apresentado resultados conflitantes.
DURANTE-MANGONI et al.(11), encontraram redução dos níveis séricos de
adiponectina em portadores de hepatite C com esteatose, independente do
genótipo viral, e a adiponectinemia se correlacionou inversamente com a
presença de esteatose, HOMA-IR e grau de fibrose hepática. No entanto, JONSSON
et al.(31) observaram essa associação somente para o gênero masculino.
A mesma controvérsia é observada para a dosagem das leptinas séricas, que
também têm sido associadas à esteatose e, graças a sua atividade fibrogênica(9,
56), à fibrose hepática da hepatite C. Vários estudos com casuística limitada
encontraram relação entre os níveis de leptina e esteatose hepática e quadro
mais avançado de doença hepática(12, 20). Entretanto, esses resultados devem
ser tomados com cautela desde que os níveis de leptinas variam de acordo com o
IMC e o gênero do paciente, o que pode induzir a erro quando os valores séricos
das leptinas não são corrigidos para essas variáveis. Em estudo com casuística
adequada em 212 pacientes com hepatite C, não foram observadas diferenças
significantes entre os valores de leptinas quando os pacientes foram divididos
de acordo com a presença ou ausência de esteatose ou de fibrose na biopsia do
fígado(46). Em estudo comparativo entre pacientes com DHGNA e hepatite C
crônica, pareados quanto ao gênero, idade, IMC e HOMA-IR, só se observou
relação entre RI e os níveis de leptinas na DHGNA, sugerindo que nos pacientes
com infecção viral a leptinemia talvez não exerça papel tão relevante no
desenvolvimento da RI(48).
Fator intrigante e que pode estar relacionado a RI na hepatite C é a siderose
hepática. Inicialmente devem ser lembradas as importantes relações entre o
depósito de ferro hepático e a hepatite C. Níveis moderadamente elevados de
ferro e de ferritina são freqüentemente observados na hepatite C. A
hemossiderose pode ser observada em 30% a 40% dos infectados(3) e tem sido
associada à progressão mais rápida da doença hepática, através da indução de
estresse oxidativo e liberação de citocinas pelo ferro livre no tecido
hepático, que causariam ativação das células estreladas do fígado(42, 53). Além
disso, vários estudos têm demonstrado que a redução do ferro, através de dietas
ou de flebotomias, é acompanhada de melhora da atividade inflamatória do tecido
hepático em portadores de hepatite C(62, 70) e poderia estar associada a melhor
resposta ao tratamento com interferon alfa em monoterapia(14, 17).
A relação entre ferro, RI e estresse oxidativo parece ser relevante na
hemocromatose. A princípio acreditava-se que o diabetes mellitus encontrado
nessa doença fosse conseqüência apenas da deposição de ferro no pâncreas,
lesando as células b produtoras de insulina. Mais recentemente, no entanto,
tem-se compreendido que essa alteração do metabolismo da glicose é mais
complexa, envolvendo tanto o aparecimento de resistência insulínica, quanto a
liberação de insulina pelas células b, que são extremamente sensíveis ao
estresse oxidativo induzido pelo ferro(44).
Por outro lado, novos conceitos têm sido associados à hemossiderose hepática,
caracterizada por aumento no conteúdo de ferro no fígado, em pacientes sem
hemocromatose. Nos últimos anos, tem se observado expressivo número de casos de
sobrecarga de ferro hepático associados a sobrepeso, diabetes mellitus tipo 2 e
hiperlipemia, o que levou alguns autores a proporem uma nova síndrome, chamada
de resistência à insulina associada à sobrecarga de ferro hepático. Esse
conceito envolve casos de sobrecarga de ferro, anteriormente descritos, em
várias condições, como hiperferritinemia inexplicadas com saturação normal da
transferrina, diabetes mellitus tipo 2 e DHGNA. Essa síndrome seria 10 vezes
mais freqüente que a hemocromatose e se caracteriza por aumento do ferro
hepático de leve a moderado, associado a níveis elevados de ferritina, que não
se alteram com perda de peso através de dietas hipocalóricas e atividade
física. Caracteristicamente, há melhora dos parâmetros de RI após flebotomias
que normalizem os níveis de ferritina(21, 44). Na DHGNA vários trabalhos
demonstram que flebotomia está associada à melhora dos parâmetros de RI e
síndrome metabólica. Recentemente, VALENTI et al.(65), em estudo controlado,
demonstram melhora na RI medida pelo HOMA-IR após flebotomia em indivíduos com
esteatohepatite não-alcoólica quando comparados a um grupo apenas com mudanças
no estilo de vida, pareados por idade, sexo, IMC, ferritina, insulina e HOMA,
independente da perda de peso durante o estudo, do nível basal de HOMA e da
presença de síndrome metabólica.
Na hepatite C diversos estudos têm demonstrado a associação entre RI e níveis
elevados de ferritina, mesmo quando pacientes diabéticos são excluídos da
análise(18, 19). Entretanto, tem sido observado que a ferritina medida no
sangue periférico está associada à presença de síndrome metabólica, tanto na
população geral quanto entre diabéticos(30). Na hepatite C a presença de
diabetes mellitus foi considerada, em pelo menos um estudo, a principal causa
de elevação da ferritina sérica(36), o que não foi encontrado em outro trabalho
(60). Assim, a relação entre ferritina e RI na hepatite C não necessariamente
reflete uma associação causal entre excesso de ferro no tecido e o
desenvolvimento de RI. Os mecanismos que regem essa associação ainda necessitam
ser conhecidos.
Qualquer que seja a causa ou as causas da RI na hepatite C, deverá ser
reconhecida pelo clínico que manuseia seus portadores, tanto pela sua
importância na evolução da hepatite para formas mais avançadas, como por sua
repercussão sobre os resultados do tratamento com interferon peguilado e
ribavirina. Preocupação adicional vem se somar a essas já reconhecidas, desde
que alguns estudos têm demonstrado maior prevalência de aterosclerose de
carótida e maior risco de doença coronariana nesses pacientes(28, 66). A
participação da RI nesse risco aumentado de doença aterosclerótica, embora
ainda necessite ser demonstrada, parece ser evidente desde que a síndrome
metabólica decorrente da RI reúne uma constelação de manifestações clínicas que
identificam indivíduos com maior risco de doença cardiovascular.