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Representação em texto

BrBRCVHe0004-28032007000100017

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0004-2803
ano2007
Issue0001
Article number00017

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Resultado do inquérito nacional sobre condutas no acompanhamento e no tratamento da recurrência da hepatite C em portadores de vírus C submetidos a transplante de fígado INQUÉRITO NACIONALNATIONAL SURVEY

Resultado do inquérito nacional sobre condutas no acompanhamento e no tratamento da recurrência da hepatite C em portadores de vírus C submetidos a transplante de fígado

National survey about management and treatment options of hepatitis C recurrence after liver transplantation

Paulo Lisboa BittencourtI; Rita de Cássia Silva Martins Alves da SilvaII; Mário Guimarães PessoaIII; Cláudio Augusto MarroniIV; Colaboradores do Inquérito Nacional de Avaliação de Impacto de Recurrência da Hepatite C no Pós-Operatório do Transplante de Fígado* IHospital Português, Salvador, BA IIHospital de Base de São José do Rio Preto, SP IIIPró-Fígado, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, São Paulo, SP IVIrmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, SP Correspondência

INTRODUÇÃO A recurrência da infecção pelo vírus da hepatite C (VHC) ocorre em 95% a 100% dos pacientes transplantados de fígado por cirrose hepática por hepatite C(8, 15). Cerca de 30% a 70% dos pacientes apresentam evidências bioquímicas e/ou histológicas de hepatite aguda de padrão lobular 3-6 meses após o transplante hepático (TH)(4, 8). Recurrência grave da doença é observada em 1%-5% dos casos, sendo caracterizada por hepatite colestática fibrosante com evolução freqüente para perda do enxerto(29, 30). A evolução para hepatite crônica é variável, sendo observada em 25%-35% e 50%-80% dos pacientes, respectivamente, 5 e 10 anos após o TH e progressão para cirrose hepática, respectivamente, em 30% e 45% dos casos 5 e 10 anos após o procedimento(14, 15). Os principais fatores de risco associados a maior progressão da hepatite C no pós-operatório (PO) do TH foram idade do doador e do receptor, sexo feminino, gravidade da doença no pré-operatório, raça não-caucasiana, carga viral elevada no pré- transplante e precocemente no pós-operatório do TH, ocorrência de infecção por citomegalovírus, co-infecção com HIV, transplante realizado em data recente e uso de OKT3 ou bolus de corticosteróides para tratamento de rejeição celular aguda(12, 16, 22, 26). Acredita-se também que maior imunossupressão e/ou alterações abruptas ou substituição de esquema imunossupressor possam se relacionar à maior recurrência(5, 20).

A historia natural da cirrose hepática secundária ao VHC no PO do TH é rapidamente progressiva. Cerca de 40% dos pacientes com recidiva de cirrose por VHC após o TH apresenta descompensação da doença 1 ano após o diagnóstico de cirrose hepática e que 10% a 25% deles falecem de insuficiência hepática ou requerem retransplante(4, 5, 8, 15, 20, 26).

Várias estratégias visando a prevenção e o tratamento da recurrência de hepatite C pós-TH foram avaliadas, incluindo o tratamento do VHC no pré- operatório do TH, o da infecção do VHC nas primeiras semanas pós-transplante, o da hepatite aguda e da recurrência de hepatite crônica pelo VHC(8, 15).

A estratégia mais recomendada é o tratamento na recurrência da hepatite crônica (15). Vários estudos retrospectivos ou prospectivos não controlados com interferon alfa (IFN) e ribavirina e interferon alfa peguilado (PEG-IFN) e ribavirina demonstraram índices de resposta virológica sustentada (RVS), respectivamente, de 21% a 27% e 27% a 45% nos pacientes adequadamente tratados (8, 15) No entanto, a ocorrência de efeitos colaterais adversos, particularmente leucopenia, anemia e plaquetopenia, é observada em mais da metade dos pacientes tratados, resultando em alto índice de interrupção temporária ou suspensão de tratamento e necessidade do uso de terapêutica com eritropoetina e de fatores estimuladores de colônias de granulócitos(8, 15, 28, 29, 30).

No Brasil, de acordo com Portaria 863 que regulamenta o tratamento da hepatite C no país, o tratamento da recurrência da hepatite C no PO do TH não foi recomendado pelo Ministério da Saúde(9), não havendo disponibilização de interferon convencional (IFN) ou peguilado (PEG-IFN) e ribavirina para este subgrupo de pacientes com hepatite C no Sistema Único de Saúde (SUS).

Diante da ausência de diretrizes para o manejo da infecção pelo VHC no PO de transplante de fígado, foi realizado inquérito nacional visando avaliar as condutas de acompanhamento e tratamento de pacientes com VHC submetidos a TH em diferentes centros nacionais.

MÉTODOS Foram enviados questionários aos clínicos transplantadores dos principais centros de transplante de fígado de adultos em atividade de acordo com dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO)(1).

O questionário (Figura_1) foi feito e validado pelos quatro primeiros autores do trabalho, ficando cada um responsável pela sua divulgação em sua respectiva região geográfica: Norte e Nordeste (PLB); Sudeste e Centro-Oeste (RFS e MGP) e Sul (CM). Adicionalmente, foi realizado convite aberto para participação no inquérito durante sessão plenária no V Congresso Brasileiro da ABTO, sendo estabelecida data limite para inclusão de dados em agosto de 2005.

RESULTADOS Dezenove centros nacionais responderam o questionário (Tabela_1), sendo 4 da Região Sul, 10 da Região Sudeste e 5 da Região Nordeste. Os 17 centros que informaram dados referentes ao número de pacientes sob acompanhamento local, representam casuística de 2 803 pacientes submetidos a TH, incluindo 1 417 indivíduos transplantados por cirrose hepática secundária ao VHC.

A maioria (53%) dos centros usa tacrolimus associado à prednisona como esquema de indução e 63% dos centros empregam monoterapia com tacrolimus como esquema de manutenção de imunossupressão após 1 ano do TH. Apenas seis (32%) centros referem utilização de esquemas de imunossupressão individualizados para pacientes transplantados por hepatite C (Tabela_2).

Quatorze centros fazem acompanhamento dos pacientes com RNA quantitativo ou qualitativo para o VHC. Treze (68%) referem fazer biopsias protocolares para seguimento a intervalos variáveis. A maioria (47%) realiza biopsia hepática anual e anual até 5 anos de PO e subseqüentemente de 3 em 3 anos (5%). Alguns centros (10%) realizam a primeira biopsia hepática 6 meses após o TH (Tabela 3). Todos os centros baseiam-se na histologia hepática para o diagnóstico de recurrência de hepatite C, empregando diferentes critérios histológicos (Tabela 4). A presença de fibrose F1 ou F2 pela classificação de METAVIR(19) é referida pela maioria (63%) dos centros como necessária para o diagnóstico de recurrência (Tabela_4). Atividade inflamatória lobular na ausência de atividade inflamatória e fibrose portal e periportal não foi isoladamente considerada como critério isolado para diagnóstico de recurrência.

Todos os centros indicam tratamento na recurrência histológica da hepatite C e nenhum trata apenas recurrência grave da doença (Tabela_5). Nenhum faz uso de tratamento preemptivo. De acordo com a classificação de METAVIR(7), indica-se tratamento para recurrência da hepatite C na presença de estádio A1/F1 (5%), A2/F0 (5%), A2/F1 (26%), A2/F2 (21%), F1 (10%) e F2 (21%). O esquema terapêutico preconizado por todos os centros foi PEG-interferon e ribavirina, sendo realizada observação adicional do uso de IFN e ribavirina por um centro apenas para tratamento de genótipo 2 e 3. A duração estimada do tratamento foi baseada no genótipo, por 1 ano ou a la carte em, respectivamente, 21%, 32% e 47% dos centros. A maioria (84%) não interrompe o tratamento na 12ª semana na ausência de resposta virológica e todos os centros referem estar realizando tratamento para a recurrência da hepatite C após o TH (Tabela_5).

DISCUSSÃO Cirrose hepática por hepatite C é a principal indicação atual de TH nos EUA e Europa(4, 8, 15). Recurrência da doença é freqüentemente observada no PO com progressão variável para cirrose hepática e necessidade de retransplante estimada em 30% em 5-10 anos(3, 7, 13, 14). A sobrevida após o retransplante por recurrência de hepatite C é reduzida, quando comparada com outras indicações de retransplante, sendo inferior a 50% em 5 anos(7, 21, 25). Apesar da magnitude do problema, não existem ainda dados nacionais acerca do impacto da recurrência da hepatite C na sobrevida do transplante de fígado e não existem políticas de saúde voltadas para a prevenção e tratamento da recurrência da doença. As diretrizes para o tratamento da hepatite C, publicadas pela portaria . 863 do Ministério da Saúde, não incluiu pacientes com recurrência de hepatite C após o TH como candidatos à obtenção de terapêutica antiviral. Isto se deveu, sobretudo, à baixa tolerabilidade e à reduzida freqüência de resposta virológica sustentada observadas com o tratamento desses pacientes com interferon (IFN) convencional(8, 15).

O presente estudo demonstrou que hepatite C foi a principal indicação de transplante na maioria dos centros investigados. Grande heterogeneidade foi observada no acompanhamento dos pacientes transplantados com hepatite C e no manejo e tratamento da recurrência da doença.

Como o nível basal de imunossupressão é considerado um dos principais fatores de risco para recurrência de hepatite C(16), foi questionado o esquema de indução e manutenção das drogas imunossupressoras empregadas pelos centros envolvidos no estudo. A maioria usa esquema duplo com tacrolimus e prednisona como terapia de indução e monoterapia com tacrolimus como manutenção. Não existem evidências acerca da eficácia de esquemas baseados em ciclosporina ou tacrolimus na prevenção de recurrência de hepatite C. Acredita-se que o menor o nível de imunossupressão deva ser utilizado nesses pacientes, evitando-se particularmente o emprego de bolus de metilprednisolona e de OKT3 para indução de imunossupressão e tratamento de rejeição celular aguda(12, 16, 22).

Recentemente, tem-se observado maior freqüência de recurrência de hepatite C em pacientes submetidos a suspensão precoce de corticosteróides, sendo recomendado por alguns centros desmame gradual e suspensão de prednisona após 6-12 meses do TH(6, 10, 17). Devido a esses achados, imunossupressão diferenciada para pacientes transplantados por hepatite C vem sendo empregada por alguns serviços, incluindo 32% dos centros nacionais participantes do presente estudo.

O acompanhamento dos pacientes transplantados por hepatite C, os critérios empregados para diagnóstico de recurrência e para indicação de tratamento e sua duração variaram de centro para centro. Realização periódica de enzimas hepáticas e de RNA qualitativo e/ou quantitativo para VHC são realizados por 100% e 74% dos centros. Biopsias protocolares são realizadas por 13 dos 19 centros a intervalos variáveis. Esses achados estão de acordo com as recomendações da International Liver Transplantation Society (ILTS)(29) e da Conferência de Consenso sobre o Tratamento da Hepatite C promovida pela Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH)(28), que recomendam seguimento dos pacientes transplantados por hepatite C com biopsias hepáticas protocolares e não apenas com monitorização da elevação AST e ALT, visto terem esses parâmetros bioquímicos baixa sensibilidade e especificidade na avaliação da gravidade da recidiva histológica da hepatite C(15, 29). A determinação do RNA do VHC tem pouca utilidade no seguimento desses pacientes, pois a reinfeccão é praticamente universal e a carga viral não apresenta correlação com a presença e a gravidade de recurrência da doença. O intervalo anual preconizado pela ILTS para realização de avaliação histológica desses pacientes é semelhante àquele empregado pela maioria dos centros, sendo, no entanto, indicada biopsia hepática anual por período superior a 5 anos ou até o diagnóstico de cirrose hepática, não sendo ampliado o intervalo para cada 2 a 3 anos após 5 anos, como recomendado por alguns centros nacionais. O consenso brasileiro(28), por outro lado, recomendou biopsias protocolares anuais, por período mínimo de 5 anos, deixando os intervalos posteriores a critério de cada centro.

De acordo com recomendações nacionais e internacionais (28, 29, 30) todos os centros realizam diagnóstico de recurrência da hepatite C pela presença de achados histológicos compatíveis. Os critérios histológicos empregados para o diagnóstico de recurrência foram variados. Atividade lobular não foi empregada como critério isolado para o diagnóstico de recurrência de hepatite C por nenhum centro, muito embora hepatite aguda de padrão biliar seja a primeira manifestação de recurrência da doença, observada nos primeiros 3 a 6 meses de PO de TH em 30%-70% dos casos(15). Atividade inflamatória portal (A1) e periportal (A2) com ou sem fibrose portal (F1) pela classificação de METAVIR foram consideradas como critérios para diagnóstico de recurrência do VHC por 64% dos centros. Os mesmos critérios empregados para diagnóstico de recurrência foram utilizados para indicação de tratamento pela maioria dos centros nacionais. Isto se deveu, sobretudo, ao sugestionamento induzido pelo questionário aplicado (Figura_1), que orientou o preenchimento de cada uma das lacunas existentes, referentes à atividade inflamatória lobular e atividade inflamatória e fibrose portal e periportal. Critérios histológicos de recurrência incluem desde a presença de balonização hepatocitária associada à atividade inflamatória lobular e à necrose focal de hepatócitos observados na recurrência aguda da hepatite C até aos graus variáveis de atividade inflamatória portal e periportal (A1-A4) e fibrose (F1-F4) observadas na hepatite crônica C(15).

As principais estratégias para prevenção e tratamento de recurrência de hepatite C pós-TH incluem tratamento pré-transplante, tratamento preemptivo, tratamento na hepatite aguda e na recurrência de hepatite crônica(8, 15). A estratégia adotada por 100% dos centros nacionais envolvidos no estudo foi de tratamento na recidiva da hepatite C crônica. Nenhum centro indicou tratamento apenas na recurrência grave da doença. Os critérios histológicos para indicação de tratamento foram, contudo, variáveis de centro para centro. Muito embora o consenso sobre condutas nas hepatites virais B e C da SBH(28) tenha preconizado tratamento para os indivíduos com maior potencial de progressão para cirrose hepática, caracterizados por estádio de fibrose >2 pela classificação de METAVIR, aproximadamente metade dos centros nacionais avaliados indicou tratamento na ausência de fibrose grau 2 ou em estádios menos avançados de fibrose. O documento de consenso da ILTS, por outro lado, sugeriu duas estratégias: tratamento precoce durante a recurrência aguda da hepatite C, independentemente do grau de fibrose portal/periportal e tratamento na recurrência da hepatite C crônica para prevenção da progressão da fibrose para cirrose hepática.

Todos os centros nacionais, em consonância com as recomendações nacionais e internacionais(28, 29, 30), orientaram esquema terapêutico com PEG-IFN e ribavirina. Apenas um centro sugeriu o uso de IFN e ribavirina para genótipos 2 e 3. Muito embora poucos trabalhos controlados e randomizados tenham sido conduzidos nesse subgrupo de indivíduos infectados com VHC(8, 15), vários estudos não controlados com PEG-IFN e ribavirina demonstraram índices de RVS, respectivamente, de 26% a 45%(6, 10, 11, 17, 18, 23, 24). Resultados preliminares de estudo retrospectivo multicêntrico nacional demonstraram resultados favoráveis, com RVS em 35% dos pacientes tratados e maior tolerabilidade ao esquema antiviral devido ao uso de eritropoetina e filgastrina em percentual razoável de pacientes(27).

A duração do tratamento preconizada variou muito de centro para centro. A maioria individualizou a duração do esquema terapêutico (47%) ou recomendou tratamento por período de 1 ano (32%) corroborando com as diretrizes da SBH (28). O documento de consenso da ILTS sugere tratamento por período superior a 1 ano(29), mas muitos centros estão adotando tratamento individualizado ou a la carte mantendo o tratamento por intervalo variável após a confirmação de negativação do RNA do VHC por PCR qualitativo.

A resposta virológica precoce não foi empregada pela maioria dos centros como critério para suspensão do tratamento na 12ª semana de acordo com recomendação do consenso nacional(28) e surpreendentemente todos os centros referiram estar realizando tratamento de pacientes com recurrência de hepatite C após o TH, a despeito da portaria . 863 do Ministério da Saúde não facultar o tratamento da doença pelo SUS para este subgrupo de pacientes. Tem-se conhecimento de que muitos pacientes utilizam liminares concedidas pela justiça comum para obtenção do tratamento, após o mesmo ter sido negado pelas secretarias regionais de saúde. A investigação deste dado não fez parte do questionário.

Estes dados reforçam a necessidade da revisão das diretrizes nacionais para tratamento da hepatite C, visando incluir os pacientes com recurrência hepatite C após o TH como candidatos ao tratamento da doença com PEG-IFN e ribavirina, assim como também estabelecer critérios nacionais para o acompanhamento dos pacientes transplantados por hepatite C e para o manejo e tratamento da recurrência da doença após o transplante de fígado.

AGRADECIMENTO À Márcia Cristina Lacerda dos Santos pelo auxílio na realização do inquérito


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