Drenagem endoscópica transmural de pseudocisto pancreático: resultados a longo
prazo
ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLE
Drenagem endoscópica transmural de pseudocisto pancreático: resultados a longo
prazo
Transmural endoscopy drainage of pancreatic pseudocyst: long-term outcome
Rone Antônio Alves de AbreuI; Joaquim Alves Carvalho Jr.II; Filinto Anibal
Alagia VazI; Luiz Hirotoshi OtaIII; Manlio Basílio SperanziniIV
IConjunto Hospitalar do Mandaqui, São Paulo, SP
IISanta Casa de Misericórdia de São Paulo
IIIDisciplina de Cirurgia Torácica da Universidade Federal de São Paulo, São
Paulo, SP
IVFaculdade de Medicina do ABC, Santo André, SP
Correspondência
INTRODUÇÃO
Complicação relativamente comum em pacientes adultos, com diagnóstico de
pancreatite, os pseudocistos pancreáticos ocorrem em 16%-50% dos casos de
pancreatite aguda e em 20%-40% das pancreatites crônicas(2, 14). As lesões
císticas pancreáticas foram classificados de acordo com D'Egidio e Schein, em
1992, em tipo I: pós-necróticos, que surgem após episódios de pancreatite
aguda, sem anormalidades identificáveis nos ductos pancreáticos e, raramente,
comunicando-se com um canal do pâncreas; tipo II: ocorrem em casos de
agudização de pancreatite crônica, reconhecida pelas alterações dos ductos
pancreáticos, com os quais freqüentemente os pseudocistos se comunicam; tipo
III: pseudocistos de retenção da pancreatite crônica calcificante, comprovada
pelas alterações ductais características, ou presença de cálculos
intracanaliculares (calcificações)(3, 9, 10). O tratamento cirúrgico já está
estabelecido, apesar do crescente aumento de técnicas menos invasivas como as
drenagens endoscópica, percutânea e guiada por ultra-sonografia(12).
O presente estudo visou avaliar os resultados a longo prazo da drenagem
endoscópica transmural.
MÉTODOS
Foram estudados no Conjunto Hospitalar do Mandaqui, São Paulo, SP, de novembro
de 2000 a fevereiro de 2005, 14 pacientes com pseudocisto de pâncreas (Figura
1), que preencheram os seguintes critérios de inclusão: 6 semanas de tratamento
clínico sem regressão; tamanho maior ou igual a 4 cm; distância entre parede
gastroduodenal e parede do pseudocisto menor ou igual a 1 cm; ausência de
processo neoplásico associado; aparecimento de complicações e/ou persistência
dos sintomas e abaulamento evidente da parede gastroduodenal.

Quanto ao gênero, 71,5% (10/14) dos pacientes eram do sexo masculino e 28,5%
(4/14) do feminino. A idade variou de 28 a 57 anos, com média de 45 anos.
Pancreatite crônica alcoólica foi responsável pela etiologia em 71,5% (10/14)
dos doentes e a biliar em 28,5% (4/14). Dois pacientes ingressaram no estudo
com diagnóstico já firmado, com 18 e 36 meses de evolução após o episódio de
internação por pancreatite aguda. Todos foram examinados por tomografia
computadorizada de abdome, com cortes para estudo pancreático, visando excluir
hipertensão portal segmentar e pseudoaneurisma de artéria visceral,
caracterizar o conteúdo fluido do pseudocisto, bem como afastar necrose no seu
interior (Figura_1). A pancreatografia endoscópica retrógrada para estudo do
ducto (Figura_2), foi tentada em todos os casos, não sendo possível em quatro
pacientes (Tabela_1).
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Técnica
Os seguintes passos foram padronizados:
1. Antibioticoprofilaxia (ceftriaxona ' 1 g intravenosa a cada 12 horas,
mantida por 48 horas após o procedimento);
2. Sedação foi obtida com midazolan na dosagem de 0,03 mg/kg/peso, equivalente
a 2,0 mg para cada 70 kg, associados a meperidina 20 mg, adicionando-se doses
complementares no decurso do procedimento de acordo com a necessidade;
3. Escopolamina, 40 mg intravenosa, para obter atonia duodenal;
4. A endoscopia foi realizada com o aparelho Olympusâ modelo TJF10, canal de
trabalho de 4,2 mm, precedida da pancreatografia retrógrada endoscópica, para
estudo do ducto e classificação do cisto;
5. Identificada a área mais abaulada do segmento gastroduodenal, observada à
tomografia e à endoscopia;
6. Punção da área eleita com agulha de esclerose endoscópica (10 x 4 mm), para
confirmação da proximidade com o cisto;
7. Fistulização do trato gastrointestinal (duodeno ou estômago) com o
pseudocisto por meio de alça de polipectomia semi-aberta conectada a eletro-
cautério - WENâ, modelo SS501, utilizando-se apenas a função de coagulação,
monopolar, na intensidade 30 watts;
8. Canulação imediata do cisto com cateter de colangiografia e injeção de
contraste iodado não-iônico (300 mg iodo/mL; 612 mg iopamidol/mL) (Figura_3),
para documentação e certificação do cisto, com colocação de órtese (stent)
biliar de calibre 10 Fr, curta (6 cm, no máximo), com duas farpas, uma em cada
extremidade (Figura_4 e 5). Observando-se a drenagem do fluido pelo stent,
dava-se por encerrado o procedimento.
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A órtese foi retirada endoscopicamente, 4 a 6 semanas após avaliação clínica e
novo estudo tomográfico (Figura_6).
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Seguimento
A dor abdominal e os sintomas obstrutivos foram avaliados clinicamente e a
regressão do pseudocisto foi confirmada por tomografia computadorizada
abdominal 4 a 6 semanas após.
RESULTADOS
No quadro clínico, a dor abdominal no andar superior do abdome foi o sintoma
predominante em 92,8% (13/14). A icterícia se apresentou às custas da fração
direta, sugerindo compressão extrínseca, enquanto a anemia se mostrou do tipo
megaloblástica. Dois casos apresentaram ascite pancreática (14,3%) (Tabela_2).
Ao exame de tomografia computadorizada de abdome foram diagnosticados 16
pseudocistos, sendo: 12 pacientes com 1 pseudocisto e 2 pacientes com 2. O
tamanho do pseudocisto variou de 8 a 22 cm (média de 16 cm), assim
distribuídos: 10 estavam localizados na cabeça, 4 no corpo e 2 na cauda do
pâncreas. Em todos os casos identificou-se abaulamento na parede gástrica ou
duodenal.
Todos foram tratados por endoscopia, sendo realizados 15 procedimentos
endoscópicos. A pancreatografia foi obtida em 71,4% (10/14) dos pacientes,
sendo 9 (64,2%) do tipo I e 1 (7,1%) do tipo II. Em 12 pacientes o abaulamento
gástrico foi mais evidente, sendo realizada drenagem cistogástrica; 2 casos
apresentavam abaulamento com predomínio na região duodenal, favorecendo à
drenagem cistoduodenal. Não houve necessidade de mudança na técnica.
Nos 15 procedimentos endoscópicos realizados ocorreram 3 complicações em dois
pacientes. Nestes, no momento da colocação da órtese, houve migração para o
interior do pseudocisto, a qual foi retirada com a cesta de Dormia sob controle
fluoroscópico. Em um caso de drenagem para o duodeno, durante a manobra de
retirada da órtese, provocou-se inadvertidamente ampliação do orifício
fistuloso, impossibilitando a colocação e manutenção de nova órtese. Tendo
ocorrido esvaziamento quase total do conteúdo do cisto, optou-se por mantê-lo
em observação. No 4º dia de seguimento a paciente apresentou febre e novamente
aumento do volume abdominal. Nova CT de abdome demonstrou que o pseudocisto
havia recidivado. Em nova intervenção endoscópica notou-se oclusão de mais de
90% do orifício fistuloso para o duodeno e, evidente abaulamento gástrico.
Realizou-se nova cistogastrostomia e locação de stent 10 Fr, com saída de
líquido de odor fétido, que foi aspirado. A paciente evoluiu satisfatoriamente,
recebendo alta hospitalar em 4 dias.
O tempo médio de permanência hospitalar foi de 3 dias.
Não houve obstrução dos stents, que foram retirados entre a 4ª e a 6ª semana,
com média de 38 dias. Em um paciente no controle radiológico da 6ª semana,
comprovou-se a saída espontânea da órtese, que se encontrava na ampola retal,
sendo retirada manualmente (Figura_7). Não houve nenhuma complicação
hemorrágica ou perfuração para peritônio livre.
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A maioria dos doentes com pancreatite alcoólica teve remissão da dor abdominal
(10/12), porém dois pacientes mantiveram-se com opióides para controle da dor.
Os pacientes cujos pseudocistos eram de etiologia biliar, foram submetidos
posteriormente a colecistectomia e permanecem assintomáticos. Os dois casos de
ascite pancreática tiveram regressão da mesma após a drenagem endoscópica.
No seguimento em ambulatório os pacientes evoluíram sem recidivas, em período
que variou de 12 a 51 meses, com média de 32 meses. Não houve mortalidade
relacionada com o procedimento. No seguimento dois pacientes vieram a falecer:
um por infarto agudo do miocárdio e outro por abdome agudo obstrutivo, 6 e 18
meses, respectivamente, após as drenagens.
DISCUSSÃO
Nesta casuística, em 10/14 pacientes a pancreatite crônica foi responsável
pelos pseudocistos e massa abdominal palpável e dor foram os sintomas
principais. A etiologia mais freqüente dos pseudocistos é atribuída à
pancreatite crônica alcoólica(2, 4, 11, 14, 17, 20) e entre os sinais e
sintomas observados predominam a massa abdominal palpável e a dor em andar
superior do abdome(3, 10). A etiologia predominante, no entanto, pode variar em
função de peculiaridades da casuística. Assim, para SHARMA et al.(19) em sua
série de 38 casos, a principal etiologia foi a pancreatite biliar em 50% dos
casos, diferindo sobremaneira da presente série.
A principal indicação de drenagem foi a persistência de dor abdominal (em 98,5%
dos casos), o que está de acordo com O'MALLEY et al.(17) que relataram que este
sintoma foi o responsável em 93,4%.
Na literatura ainda há controvérsias quanto a melhor forma de abordagem
terapêutica para os pseudocistos pancreáticos.
O uso de antibióticos profiláticos não tem sua indicação precisa estabelecida,
havendo quem o preconize(6, 15), enquanto outros preferem seu uso terapêutico
somente após a ocorrência de sinais de infecção do pseudocisto(19). Neste
estudo utilizou-se antibioticoprofilaxia sistematicamente, percebendo-se quadro
infeccioso em apenas um caso, justamente na paciente em que foi realizada
apenas a cistoduodenostomia sem manter a órtese. Acredita-se que a não-fixação
da órtese tenha favorecido o fechamento precoce do orifício fistuloso,
dificultando a drenagem do pseudocisto que se refez, infectando-se em seguida.
Após a reabordagem endoscópica e nova drenagem, com uma órtese de 10 Fr, agora
para o estômago, a paciente teve uma boa evolução, com resolução da infecção e
do pseudocisto.
A ecoendoscopia tem sido usada para decidir o local ideal para punção, pois
pode avaliar a presença de vasos, identifica pseudoaneurismas e pode distinguir
pseudocistos de cistos neoplásicos(13, 20). Entretanto, para alguns autores
(15), a ecoendoscopia não é necessária. SHARMA et al.(19) afirmaram que se
houver seleção criteriosa dos pacientes com história prévia de pancreatite
aguda, crônica ou pancreatite traumática e que o pseudocisto imprima evidente
abaulamento do estômago ou duodeno, não há necessidade de se fazer a
ecoendoscopia. Opinião esta compartilhada pelos autores deste estudo
respaldados pela evolução satisfatória dos pacientes da casuísticas.
No presente estudo havia, à endoscopia, evidente abaulamento na parede
posterior do estômago ou da primeira porção duodenal de todos os pacientes.
Segundo alguns autores a drenagem transmural, principalmente a
cistogastrostomia, apresenta elevados riscos de complicações, especialmente
sangramento(13, 20). BECKINGHAM et al.(3) referiram hemorragia em 11,7% (4/34)
dos pacientes, sendo que 1 foi submetido a cirurgia de urgência para coibir o
sangramento. Esses autores realizavam cistoenterostomias amplas, através da
utilização de papilótomos de 10 mm para permitir ampla drenagem, aumentando
assim, em nosso entendimento a probabilidade de hemorragias. CREMER et al.(8)
teve complicação hemorrágica em 9% dos pacientes (1/11). Nesta série, após a
realização da fístula, retirou-se a alça de polipectomia e procedeu-se à
canulação imediata com o cateter de colangiografia, orientados pela saída
inicial de fluido pelo orifício fistuloso. Há alças de polipectomias
desmontáveis que permitem a passagem do fio-guia após a introdução do cateter
teflonado no interior do cisto, tornando mais fácil essa etapa do procedimento.
Apesar de não se ter utilizado deste recurso, conseguiu-se a recanulação em
todos os casos. Não houve nenhuma complicação hemorrágica, atribuída ao fato de
a abertura na parede ser apenas o suficiente para locação da órtese de 10 Fr.
Têm-se a impressão de que, diferentemente dos abscessos nos quais deve-se fazer
ampla drenagem, nos pseudocistos isso não seria necessário. É possível que a
órtese pelas suas dimensões, provoque fluxo unidirecional, do pseudocisto para
a luz do estômago ou duodeno. Caso o orifício fistuloso fosse maior facilitaria
a contaminação do pseudocisto, em função da maior entrada de conteúdo
gastroduodenal para dentro da cavidade. Outro fato a salientar é o comprimento
da órtese, sempre o mais curto possível, uma vez que a resistência ao fluxo do
conteúdo do cisto é diretamente proporcional ao comprimento da órtese e
inversamente proporcional ao quadrado do seu raio [Resistência = (k) x
(comprimento da órtese) x 1/diâmetro2]. Com esta órtese foi possível promover o
esvaziamento dos pseudocistos e, mantendo-se a drenagem por 1 mês, permitiu a
coalescência de suas paredes e sua oclusão total por fibrose.
Houve apenas duas complicações no momento da drenagem, ambas por migração da
órtese para o interior do cisto e que foram recuperadas com a cesta de Dormia
sob o controle da fluoroscopia. É possível que tal complicação pudesse ser
minimizada com a utilização de próteses em duplo "pigtail". No entanto, a
retirada da órtese no interior do cisto, reforça a idéia recente na literatura
da possibilidade de realização de necrosectomia através da manipulação
endoscópica. Estudo recente(5) vem preconizando, quando possível, a dilatação
da "fístula" com cateter balonado, a fim de permitir a passagem de duas
próteses, visando melhorar a drenagem. Apesar de tal recomendação, CAHEN et al.
(5) utilizaram, inicialmente, prótese única em 76% dos seus pacientes, com bons
resultados.
Em um paciente adiou-se por 4 semanas o procedimento terapêutico, face à
delgada parede do pseudocisto no momento em que foi encaminhado para o
tratamento. Considerou-se importante aguardar a adequada maturação do cisto,
obtendo-se paredes mais espessas e aderência ao estômago ou duodeno mais firmes
e confiáveis. Com isso, evitaram-se possíveis complicações, tais como
extravasamento para peritônio livre e posterior peritonite.
Os resultados deste estudo são considerados bons quando comparados com os da
literatura. Della LIBERA et al.(11) em série de 30 pacientes, apresentaram 70%
de eficácia no total dos procedimentos, cujo índice de sucesso se assemelha ao
obtido, se considerar somente suas drenagens combinadas (transmural e
transpapilar associadas). O número de complicações foi semelhante, porém de
maior gravidade, como pancreatite, sangramento, perfuração duodenal e
pneumoperitônio. BECKINGHAM et al.(3) relataram 71% de êxito com 14,5% de
morbidade, incluindo sangramentos e perfuração com necessidade de intervenção
cirúrgica. O tratamento cirúrgico convencional também não está isento de
possíveis complicações. Assim, O'MALLEY et al.(17) obtiveram com este
procedimento, taxa de morbidade de 37% e mortalidade de 4%.
Nos dois pacientes em que havia dois pseudocistos à tomografia, estes
intercomunicavam-se. Realizou-se drenagem apenas do cisto maior e os menores
desapareceram espontaneamente após este procedimento, o mesmo ocorrendo com os
dois pacientes com ascite pancreática que tiveram resolução espontânea da
ascite após o tratamento endoscópico dos cistos.
Os trabalhos descritos na literatura para tratamento de pseudocisto '
endoscópico, por punção ou cirurgia ' não mencionam a taxa de permanência
hospitalar após os procedimentos. Na presente casuística a média de permanência
hospitalar pós-operatória foi de 3 dias. O curtíssimo tempo de internação
trouxe inúmeros benefícios para a instituição e para os pacientes, tais como:
redução dos gastos hospitalares, menor taxa de ocupação e menor tempo de
convalescença dos pacientes após as intervenções.
CONCLUSÃO
A drenagem endoscópica transmural do pseudocisto pancreático, nos casos com
abaulamento evidente do estômago ou duodeno, pode ser empregada como primeira
escolha, desde que respeitados rigorosamente os critérios de inclusão e quando
não houver dúvida diagnóstica quanto à natureza do pseudocisto. Acredita-se que
seja importante escolher o local mais adequado onde se procederá a cistostomia
e em que momento, sendo necessário aguardar a maturação do cisto a fim de
evitar perfuração em peritônio livre.
Com estes cuidados, esta técnica se apresentou como terapêutica eficaz,
apresentando baixo índice de complicações, mortalidade nula, possibilitando
curta permanência hospitalar.