Avaliação nutricional subjetiva: Parte 2 - Revisão de suas adaptações e
utilizações nas diversas especialidades clínicas
REVISÃO / REVIEWINTRODUÇÃO
A avaliação nutricional subjetiva (ANS) é método clínico de avaliação do estado
nutricional, desenvolvido por BAKER et al.(2) e DETSKY et al.(9). Diferencia-se
dos demais métodos de avaliação nutricional utilizados na prática clínica por
englobar não apenas alterações da composição corporal, mas também alterações
funcionais do paciente. Trata-se de método simples, de baixo custo e não-
invasivo, podendo ser realizado à beira do leito. Apesar de possibilitar a
participação de todos os membros da equipe multidisciplinar de terapia
nutricional na realização da avaliação nutricional, é indispensável o
treinamento adequado de todos os observadores que desejam praticá-la, pois sua
precisão depende da capacidade do observador em detectar as alterações
nutricionais significativas através da avaliação subjetiva.
Por ser de fácil execução e boa repetibilidade, a ANS vem se tornando o método
de escolha também em outras situações clínicas, seja na sua forma original ou
após adaptações. Serão discutidos a seguir seu uso e resultado em diversas
situações clínicas, assim como estudos de intervenção.
Uso do método em diversas situações clínicas
Originariamente, a ANS foi desenvolvida e validada para pacientes cirúrgicos(2,
8), sendo posteriormente utilizada como método de avaliação nutricional em
outros estudos nesses pacientes(13, 16, 28, 29). Em todos estes estudos, exceto
um(13), a ANS conseguiu identificar o grupo de pacientes com maior
morbimortalidade.
Vários autores têm relatado seu uso em diversas situações clínicas, sendo que
em alguns casos foram sugeridas algumas adaptações do método.
Pacientes nefropatas
Devido às dificuldades do emprego dos parâmetros nutricionais e antropométricos
usualmente utilizados na avaliação nutricional, a ANS tem sido usada como
método de avaliação nutricional alternativo neste grupo. Em pacientes com
insuficiência renal crônica, foi encontrada correlação entre o diagnóstico de
desnutrição realizado pela ANS e métodos objetivos tanto bioquímicos, como a
dosagem de transferrina(20), quanto os de composição corporal(12, 19). ABDULLAH
et al.(1) encontraram menores níveis de fatores anabólicos, como IGF-1 e
maiores níveis de citocinas catabólicas em pacientes considerados desnutridos
pela ANS, podendo ser esta uma das causas da alta prevalência de sua
desnutrição.
Estudos prospectivos realizados em pacientes renais utilizando a ANS mostraram
que o método também tem valor prognóstico nesta população. Em pacientes com
insuficiência renal aguda, FIACCADORI et al.(14) mostraram que o diagnóstico de
desnutrição realizado através da ANS associa-se com maior morbimortalidade e
maior custo hospitalar. Em pacientes renais crônicos, a piora do estado
nutricional avaliada pela ANS associou-se com aumento de mortalidade em
pacientes que realizam diálise peritonial(5),porém não se confirmou como fator
que influencie a sobrevida destes pacientes nos estudos de MAIORCA et al.(22,
23).
KALANTAR-ZADEH et al.(21) adaptaram a ANS, de forma a torná-la método
quantitativo que pudesse ser utilizado em pacientes submetidos a diálise. Cada
item é pontuado de acordo com a intensidade da alteração encontrada, variando
de normal (1) a muito grave(5). Um "índice de desnutrição" é obtido
através da somatória dos pontos obtidos nos 7 itens, sendo que os pacientes
normais têm valores baixos (próximo a 7) e os gravemente desnutridos têm
valores próximos a 35. Aumento no índice durante a monitorização do paciente
seria indicativo de piora no estado nutricional. A ANS quantitativa
correlacionou-se significativamente com medidas antropométricas e bioquímicas,
necessitando estudos longitudinais para avaliar sua capacidade preditiva de
complicações.
Pacientes com neoplasias
Devido à necessidade de método fácil e de baixo custo que pudesse ser utilizado
em pacientes oncológicos ambulatoriais, OTTERY(25) desenvolveu uma forma
modificada da ANS denominada avaliação subjetiva global do estado nutricional
produzida pelo paciente (ANS-PPP). A avaliação consta de questionário, dividido
em duas partes, sendo a primeira delas auto-aplicada, com perguntas sobre perda
de peso, alteração da ingestão, sintomas (sendo acrescentados alguns
relacionados ao paciente oncológico) e alterações na capacidade funcional. A
segunda parte do questionário será completada pelo médico, enfermeira ou
nutricionista, através da avaliação de fatores associados ao diagnóstico que
aumentem a demanda metabólica (como por exemplo: estresse, febre, depressão,
fadiga, estádio do tumor ou tratamento), e exame físico semelhante à ANS
original. Além da vantagem do paciente sentir-se mais participativo, este
método também diminui o tempo gasto pelo profissional para finalizar a
avaliação(26). Mostrou-se adequado para identificar pacientes oncológicos que
se beneficiariam de intervenção nutricional preventiva durante a terapêutica
oncológica(25).
A ANS-PPP pode ser utilizada em diversos tipos de paciente oncológico, havendo
boa concordância entre os resultados das avaliações realizadas por médicos e
nutricionistas(27). No mesmo estudo, os pacientes oncológicos considerados
desnutridos pela ANS-PPP, tiveram níveis significativamente menores de albumina
e pré-albumina sérica, assim como menor sobrevida. No entanto, não foram
encontradas diferenças significativas entre pacientes considerados desnutridos
moderados e graves, sendo questionado se neste grupo esta classificação teria
importância clínica.
Pacientes hepatopatas
Os sinais associados à hepatopatia crônica, tais como ascite, edema, alteração
da imunocompetência, diminuição da síntese protéica e insuficiência renal,
podem alterar os critérios objetivos tradicionalmente utilizados na avaliação
nutricional. Desta forma, a perda de peso, medidas antropométricas, índice
creatinina-altura, balanço nitrogenado, excreção de 3-metil-histidina, testes
de sensibilidade cutânea, contagem de linfócitos e dosagem sérica de albumina,
transferrina, pré-albumina e proteína ligada ao retinol devem ser interpretados
com restrições na avaliação do estado nutricional destes pacientes. HASSE et
al.(15) introduziram adaptações na ANS original, de forma a torná-la mais
adequada a hepatopatas candidatos a transplante hepático. As informações da
história são obtidas diretamente do paciente ou de seus familiares, quando
existe presença de encefalopatia que possa prejudicar o recordatório. Além dos
itens da história e exame físico, um terceiro item completa a avaliação com
informações sobre condições mórbidas pré-existentes (presença de encefalopatia,
infecções crônicas ou recurrentes, disfunção renal e varizes). Diferentemente
da ANS original, o resultado final da avaliação nutricional deve ser baseado
nestes três itens conjuntamente. Apesar da pequena população estudada, o método
modificado obteve boa concordância entre os observadores, sendo que as perdas
das massas musculares e gorduras subcutâneas foram os fatores que mais
influenciaram na avaliação nutricional deste pacientes.
Pacientes geriátricos
A ANS permite a avaliação nutricional de pacientes geriátricos hospitalizados
ou residentes em clínicas geriátricas, pois dispensa maiores recursos técnicos
e pode ser realizada à beira do leito(6, 11, 17). Em pacientes geriátricos
hospitalizados, o diagnóstico de desnutrição realizado através da ANS associou-
se com maior mortalidade em 90 dias e 1 ano após a alta hospitalar, assim como
recuperação funcional mais lenta e maior chance de internações em clínicas
geriátricas, sendo estes efeitos independentes da maior gravidade da doença,
co-morbidade ou dependência funcional do paciente no momento da internação(6).
BECK et al.(3) realizaram revisão onde analisam os valores de perda de peso
significativo e índice de massa corporal adequado para pacientes idosos.
Segundo estes autores, perda de peso de 5% em 1 ano já é clinicamente
significativa neste grupo, sendo sugerido que, para a interpretação da perda de
peso em 6 meses na ANS, qualquer valor seja considerado significativo.
Pacientes HIV positivos
A ANS tem sido utilizada também na avaliação nutricional de pacientes HIV
positivos. O método torna-se útil principalmente em pacientes ambulatoriais
(24), já que pode ser realizado por profissionais não-médicos, como enfermeiras
e nutricionistas(4). Também nesta população a ANS associou-se
significativamente com outros métodos objetivos de avaliação nutricional.
Pacientes HIV positivos considerados desnutridos graves pela ANS, apresentaram
valores significativamente menores de albumina sérica e contagem de linfócitos
CD4(4) e alterações na composição corporal(24).
Em estudos prospectivos, a ANS mostrou-se útil no acompanhamento de pacientes
ambulatoriais infectados com o HIV. Os pacientes que apresentaram piora no
estado nutricional segundo a ANS, correlacionaram-se significativamente com a
piora na classificação CDC para a doença(24), demonstrando a sensibilidade do
método nesta situação clínica. Neste estudo, porém, a desnutrição diagnosticada
pela ANS foi subestimada quando comparada com a perda de peso isoladamente como
critério diagnóstico.
Intervenções
A ANS parece ser capaz de identificar adequadamente os pacientes de maior risco
de apresentar complicações pós-operatórias ou em situações clínicas, e
considera-se que estas complicações sejam mediadas pelas alterações funcionais
decorrentes da desnutrição. Segundo este raciocínio, a intervenção terapêutica
' neste caso, terapia nutricional ' deveria ser capaz de reverter o maior risco
encontrado em pacientes desnutridos graves. No entanto, alguns aspectos devem
ser discutidos. Em primeiro lugar, existe a possibilidade de que a ANS possa
ser marcador para um "estado de saúde/doença", que vai além da
definição de desnutrição, decorrente da ingestão inadequada de calorias,
proteínas e micronutrientes(10, 18). Sob este raciocínio, a repleção de macro e
micronutrientes somente não seria capaz de modificar o risco nutricional
associado aos pacientes considerados desnutridos graves. Outra possibilidade
seria a desnutrição, como diagnosticada pela ANS, um fenômeno contínuo, apenas
iniciado pela ingestão insuficiente de macro e micronutrientes, progredindo a
partir de alterações funcionais que precedem as alterações da composição
corporal e tais alterações seriam responsáveis pelo maior risco de complicações
(18). Sendo assim, apenas a restauração da função poderia diminuir o risco
nutricional destes pacientes.
Deve-se considerar, também, a via pela qual será realizada a intervenção
nutricional, uma vez que o próprio método pode estar associado à presença de
complicações, como no caso da nutrição parenteral. O estudo multicêntrico
coordenado por Buzby(29), mostrou pela primeira vez que parte dos resultados da
terapia nutricional depende da via que se utiliza, parenteral ou enteral. Nesse
ensaio clínico e aleatório, inúmeras considerações poderiam ser feitas, tais
como: pequeno número de pacientes que efetivamente participaram do estudo (395
pacientes entre 3.259 potencialmente elegíveis) e ao próprio método de
intervenção utilizado (nutrição parenteral mesmo com trato digestivo disponível
e excesso de calorias ofertadas). Nesse estudo não foi observada boa
concordância entre os métodos objetivos e subjetivos, uma vez que após serem
selecionados para o estudo, critérios objetivos (% peso ideal, albumina, pré-
albumina ou índice de risco nutricional (INR)), classificados pela ANS, mostrou
que 30% dos pacientes que foram incluídos na aleatoriedade não apresentavam
déficit nutricional pela avaliação subjetiva. No grupo controle tanto a
classificação subjetiva (ANS), como a objetiva (INR) sugere maior incidência de
complicações conforme a piora da gravidade da desnutrição, porém esta
associação não foi estatisticamente significativa. No grupo que recebeu
nutrição parenteral total, os pacientes identificados como desnutridos
moderados, tiveram aumento significativo das complicações infecciosas, e apenas
aqueles considerados desnutridos graves pela ANS tiveram benefício sugerido da
intervenção nutricional na forma de nutrição parenteral. Este benefício se
resumiu a menor incidência de complicações maiores (infecciosas e não-
infecciosas) (25,8%), comparando-se com o grupo controle (47,4%). A redução de
complicações observada não foi estatisticamente significativa, sendo que o
limitado número de pacientes neste subgrupo certamente comprometeu o poder do
estudo.
DETSKY et al.(7) já haviam considerado anteriormente que a via utilizada para a
intervenção nutricional interfere na decisão de se tratar todos, alguns ou
nenhum paciente submetido a cirurgia do trato gastrointestinal. Pela análise
desses autores, a decisão deve ser tomada levando-se em consideração não apenas
as propriedades preditivas do método diagnóstico utilizado, mas também as
complicações iatrogênicas inerentes ao método de intervenção nutricional.
Em pacientes oncológicos a utilização da ANS para identificar os que se
beneficiariam da intervenção nutricional, tem tido bons resultados(25). Um
algoritmo é utilizado, baseando-se na classificação do estado nutricional
segundo versão modificada da ANS e no risco nutricional que a terapia
oncológica a ser aplicada oferece (considerada de baixo ou alto risco para o
aparecimento de sintomas de impacto nutricional, tais como náusea, vômitos,
diarréia, etc). Segundo o algoritmo, os pacientes são encaminhados para receber
apenas material educativo geral, orientação nutricional específica ou
intervenção nutricional, que pode variar desde suplementação oral, a terapia
nutricional enteral ou parenteral preventiva, se necessário. Desta maneira,
tem-se obtido a manutenção ou melhora do peso e das proteínas viscerais durante
a terapia oncológica.
Em resumo, são poucos os estudos de intervenção nutricional que utilizaram a
ANS como método de avaliação inicial de critério de elegibilidade na
identificação do paciente de risco nutricional. O maior estudo realizado
utilizou o método não como critério de elegibilidade e os resultados obtidos
não podem ser conclusivos devido a vários problemas metodológicos do estudo. No
entanto, em pacientes oncológicos, a ANS tem sido útil como método de
identificação de pacientes com maior risco nutricional e potenciais candidatos
a uma intervenção nutricional precoce e preventiva.
CONCLUSÕES
Apesar de originariamente desenvolvido para uso em pacientes cirúrgicos, a ANS
vem se tornando o método de escolha também em outras situações clínicas, seja
na sua forma original ou após adaptações.
A ANS tem sido utilizada também em outras áreas clínicas, além do paciente
cirúrgico. Pequenas modificações têm sido sugeridas para individualizar o
método para cada particularidade da situação clínica em questão. Desta maneira,
tem se comprovado a idéia de que a boa avaliação clínica realizada por
profissional atento para as modificações que a desnutrição pode ocasionar,
consegue identificar os pacientes de maior risco nutricional nas diversas
situações clínicas, seja ele portador de neoplasia ou seja renal crônico.
Mais estudos de intervenção, utilizando o método como diagnóstico do risco
nutricional tornam-se necessários para sua melhor avaliação. As evidências de
que o método consegue identificar os pacientes que realmente poderiam
beneficiar-se de uma terapia nutricional ainda não são suficientes para que seu
uso seja universalmente utilizado como avaliação inicial no paciente
hospitalizado. O fato de identificar os pacientes de maior risco para
morbimortalidade sem a certeza de meios de revertê-lo, torna a avaliação de
risco nutricional de pouco valor prático no manuseio clínico do paciente.
A complementação da ANS com outras técnicas de avaliação nutricional é
sugerida, uma vez que o método não possui sensibilidade adequada para
identificar pequenas variações no estado nutricional e, portanto, não é
indicado como método de acompanhamento da evolução do paciente em terapia
nutricional.