Efeito do ethephon na qualidade da uva 'Niagara Rosada' (Vitis labrusca L.),
produzida na entressafra, na região de Jales-SP
FITOTECNIA
INTRODUÇÃO
A 'Niagara Rosada' produzida na região de Jales-SP, no período de entressafra,
durante os meses de setembro-outubro, alcança preços acima de R$ 1,80kg-1,
porém essa produção encontra problemas, principalmente relacionados à
dificuldade de emissão e desenvolvimento das brotações após as podas de
produção realizadas quando da ocorrência de temperaturas mais baixas,
normalmente entre maio e julho. Tal fato reduz a produtividade em decorrência
da formação de um menor número de cachos e de cachos fora do padrão comercial,
sendo os mesmos pequenos, não compactos e com poucas bagas, conseqüentemente,
desestimulando os viticultores a produzir nesta época do ano.
Na tentativa de solucionar esses problemas, é comum na região a utilização de
cianamida hidrogenada aplicada após a poda, em doses de até 15%, e com
resultados nem sempre satisfatórios.
A utilização de ethephon em videira 'Rubi', na região Noroeste do Estado de São
Paulo, resultou em cachos uniformes com padrão comercial e com acidez total
titulável e sólidos solúveis totais dentro da faixa exigida para
comercialização (Fracaro, 2000). Além disso, a aplicação de ethephon não afetou
comercialmente as características dos cachos e bagas, estando dentro dos
padrões determinados por Boliani (1994), que estudou a fenologia das uvas 'Rubi
e 'Itália' para a região Noroeste do Estado de São Paulo.
A aplicação de ethephon em variedades européias resultou na melhoria dos teores
de sólidos solúveis totais, em trabalhos realizados por Hardie et al. (1981),
Manini et al. (1981) e Larios et al. (1987). Relativamente à acidez total
titulável, somente Manini et al. (1981) não observaram respostas positivas.
O objetivo deste trabalho foi de verificar o efeito de diferentes concentrações
de ethephon, aplicado via foliar antes da poda de produção, sobre a qualidade
da uva 'Niagara Rosada', na região Noroeste do Estado de São Paulo.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram realizados três experimentos no ano 2001 e repetidos no ano de 2002, em
vinhedos comerciais da cv Niagara Rosada, espaçados de 2,5 x 2,0m e conduzidos
no sistema latada, tendo como porta-enxerto o IAC 572-Jales. A área
experimental foi implantada em cinco propriedades, na região de Jales, Noroeste
do Estado de São Paulo, situada na latitude de 20°16'S, longitude 50°33'O e
altitude média de 483m,
O clima da região é classificado como CWa. A precipitação pluvial média anual é
de 1.280mm distribuídos principalmente durante os meses de agosto a abril. A
estação seca ocorre entre os meses de maio a setembro. Apresenta
evapotranspiração média anual de 2.205mm e evapotranspiração de 234,1mm. A
temperatura média anual é de 22,3°C, com média das mínimas de 19,9°C e média
das máximas de 29,0°C. A umidade relativa média é de 69%, com máxima em março
(76%) e mínima em setembro (61%) (Boliani, 1994).
O solo predominante da região está classificado como Podzólico Vermelho-
Amarelo. O relevo na região é suave-ondulado e ondulado (Terra et al., 1998).
O delineamento experimental utilizado foi em blocos ao acaso, com quatro doses
de ethephon e cinco repetições, e uma planta por parcela. Os tratamentos
utilizados foram: 1)Testemunha (sem aplicação de ethephon); 2) 3L.ha-1;
3)6L.ha-1, e 4)9L.ha-1 do produto comercial contendo 240g.L-1 de ethephon.
Em 2001, os tratamentos foram aplicados via foliar em plantas com 30% de
enfolhamento, com pulverizador costal, até o ponto de escorrimento (1.000
litros por hectare), nos dias 22-05, 30-05 e 06-06, podando-se as plantas nos
dias 11-06, 18-06 e 25-06, respectivamente, para os experimentos 1; 2 e 3. No
ano de 2002, os tratamentos foram aplicados com pulverizador até o ponto de
escorrimento nas plantas com 80% de enfolhamento, nos dias 25-05, 06-06 e 17-
06, podando-se as plantas nos dias 12-06, 22-06 e 03-07, respectivamente, para
os experimentos 1; 2 e 3.
A medição do comprimento e da largura dos cachos foi realizada através de
paquímetro digital de 0,01 mm de resolução. O peso dos cachos foi determinado
através da relação: produção/número de cachos. Foram utilizadas 20 bagas por
tratamento para a análise do teor de sólidos solúveis totais realizada com
auxílio de refratômetro manual; e a acidez total titulável foi determinada
conforme recomendações de Tressler & Loslyn (1961). O peso médio das mesmas
foi determinado em balança de precisão de dois dígitos, e comprimento e
diâmetro das bagas foi feito com auxílio de paquímetro digital. Os dados foram
analisados através de regressão polinomial, pelo programa SAS. Todos os tratos
culturais utilizados foram os convencionais adotados para a cultura na região.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Efeito sobre o comprimento e largura dos cachos
Verifica-se, nas Figuras_1 e 2, clara tendência de aumento no comprimento e
largura dos cachos, com o aumento da dose de ethephon.
Na Tabela_1, verificam-se os resultados estatísticos de todas as variáveis.
O comprimento e a largura dos cachos foram menores em 2001 que em 2002. Igual
resposta foi verificada para a produtividade, o que sugere uma contribuição do
aumento no tamanho dos cachos na produtividade.
Portanto, fica nítida a tendência de aumento dessa variável com o aumento da
dose de ethephon aplicado.
Fazendo-se uma análise conjunta dos experimentos conduzidos nos anos de 2001 e
2002, foi possível verificar que a utilização de ethephon na dose de 9L.ha-1 é
uma prática que pode auxiliar o viticultor a aumentar o comprimento e a largura
dos cachos e, conseqüentemente, a produção da 'Niagara Rosada'.
Efeito sobre o Peso dos Cachos
No que diz respeito ao peso dos cachos, observa-se, na Figura_3, a tendência de
aumento nos tratamentos com a aplicação de ethephon.
Como o número de cachos do tratamento-testemunha era muito menor, os cachos
remanescentes tenderam a um maior desenvolvimento. Isto devido à metodologia
utilizada, na qual se considerou como peso médio dos cachos, a relação entre
produção e o número total de cachos por parcela.
Efeito sobre o Comprimento, Largura e Peso das Bagas
Verifica-se, nas Figuras_4; 5 e 6, clara tendência de aumento no comprimento,
largura e peso das bagas, com o aumento da dose de ethephon.
A análise das variáveis estudadas relativas às bagas evidencia que, nos
experimentos realizados em 2002, os valores encontrados sempre se mostraram
superiores aos de 2001. Tais resultados assemelham-se às variáveis peso,
comprimento e largura dos cachos.
Isto permite concluir que o aumento da produtividade foi também influenciado
pelo crescimento dos cachos e das bagas.
Portanto, com a utilização de ethephon, na dose de 9 L.ha-1, é possível obter
cachos maiores com maiores bagas, propiciando a formação de cachos compactos,
uniformes e mais atrativos à comercialização.
Efeito sobre o teor de Sólidos Solúveis Totais
Verifica-se, na Figura_7, a ocorrência de leve tendência à diminuição dos
teores de sólidos solúveis totais com o aumento da dose de ethephon. Segundo
Terra et al. (1998), as uvas apresentam características desejáveis de colheita
e comercialização acima de 14ºBrix. Em todos os experimentos (exceção ao
experimento 1 de 2001), os teores de sólidos solúveis totais apresentaram-se
acima deste parâmetro, conferindo, portanto, boa qualidade à uva 'Niagara
Rosada'.
Pode-se, pois, utilizar o ethephon, aplicado antes da poda de produção, sem
risco de afetar significativamente os teores de sólidos solúveis totais da uva
'Niagara Rosada'.
Efeito sobre a Acidez Total Titulável
Verfica-se, na Figura_8, a tendência de diminuição da acidez total titulável,
com o aumento da dose de ethephon, embora os índices encontrados se
apresentassem normalmente abaixo do nível máximo aceitável para
comercialização. A exceção ocorreu no experimento 3 do ano de 2002, onde a
colheita foi antecipada por razões comerciais. Os valores da ATT e dos SSTs
obtidos apresentaram-se abaixo do desejável, indicando a colheita antes do
momento adequado.
É importante ressaltar que o uso de ethephon deve estar associado ao uso
adequado de outras práticas no pomar, principalmente de manejo e adubação, para
otimizar a qualidade da uva 'Niagara Rosada'.
CONCLUSÕES
Nas condições em que foram desenvolvidos os experimentos, foi possível concluir
que:
1. O uso de ethephon na dose de 9L.ha-1 aumentou o comprimento, a largura e o
peso dos cachos e das bagas da uva 'Niagara Rosada'.
2. A aplicação de ethephon não afeta os teores de sólidos solúveis totais e a
acidez total titulável.
3. O uso de ethephon, na dose de 9L.ha-1, aplicado antes da poda de produção
tende a proporcionar melhor qualidade na uva 'Niagara Rosada'.