Efeito do 1-metilciclopropeno na conservação de maçãs 'Royal Gala' em ar
refrigerado e atmosfera controlada
COLHEITA E PÓS-COLHEITA
Efeito do 1-metilciclopropeno na conservação de maçãs 'Royal Gala' em ar
refrigerado e atmosfera controlada1
Effects of 1-methylcyclopropene on 'Royal Gala' apples stored in refrigerated
air and controlled atmosphere
Adriana Regina CorrentI; Aguinaldo ParussoloII, Cesar Luiz GirardiIII; Cesar
Valmor RombaldiIV
IEng. Agr. Doutoranda da Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de
Agronomia, Dep. de Horticultura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Caixa postal 15100, CEP 91-501-970, Porto Alegre-RS, e-mail-
acorrent@hotmail.com, Bolsista CNPq
IIQuímico Industrial MSc. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
Porto Alegre-RS
IIIPesquisador II MSc. Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves-RS
IVProfessor do Departamento de Ciência e Tecnologia Agroindustrial, UFPel.
Universidade Federal de Pelotas, Pelotas-RS
INTRODUÇÃO
A 'Gala', compreendendo seus clones, é a cultivar de maçã mais plantada no
Brasil, respondendo por 46 % da produção nacional, que é de aproximadamente
850.000 toneladas (ABPM, 2002). A colheita dessa cultivar concentra-se no mês
de fevereiro, e sua conservação, dependendo do ponto de colheita e das
condições de armazenamento, varia de 3 a 8 meses. Em condições de armazenamento
em ar refrigerado (AR), onde se controlam apenas a temperatura e a umidade
relativa, a maçã 'Gala' conserva-se por períodos relativamente curtos, de até 4
meses. Já em condições de atmosfera controlada (AC), onde, além do controle da
temperatura e da umidade, se monitoram as concentrações de O2 e CO2, o período
de armazenamento pode ser estendido para 8 meses (Saquet, 1997). Após este
período, ocorrem com maior intensidade problemas de ordem fisiológica e
sanitária, que depreciam a qualidade das frutas. A rápida perda da firmeza de
polpa, a redução da suculência e o surgimento da textura farinácea, além da
perda acentuada da acidez e amarelecimento da epiderme, são os principais
problemas relacionados aos longos períodos de armazenamento desta cultivar
(Brackmann & Saquet, 1995).
Associando-se tratamentos que inibem a produção de etileno, como a aplicação de
aminoetoxivinilglicina (AVG) a campo (Halder-doll & Bangerth, 1997) e/ou a
utilização de adsorvedores de etileno durante o armazenamento, melhora-se o
potencial de armazenamento de maçãs 'Gala'. Por ser o etileno o principal
acelerador do metabolismo de maçãs dessa cultivar, as ações que inibem sua
produção e ação contribuem para melhor manutenção da qualidade das frutas e
aumentam seu período de conservação (Mir et al., 2001).
O metilciclopropeno (1-MCP) liga-se aos receptores membranários do etileno,
bloqueando a ligação e a transdução do sinal desse hormônio e,
conseqüentemente, as respostas fisiológicas a esse gás (Serek et al., 1995;
Sisler & Serek, 1997). Segundo Argenta et al. (2001), o 1-MCP interfere na
habilidade de as plantas responderem ao etileno, representando importante
ferramenta para o manejo pós-colheita de frutas climatéricas. No entanto,
Watkins et al. (2000) citam que as respostas à aplicação são variáveis,
devendo-se testar e calibrar as condições para cada espécie, cultivar, região e
sistema de manejo de colheita e de armazenamento.
Neste trabalho, avaliaram-se os efeitos do 1-MCP em maçãs 'Royal Gala' colhidas
em dois estádios de maturação e armazenadas em atmosfera controlada e
refrigerada.
MATERIAL E MÉTODOS
Maçãs da cultivar Royal Gala foram colhidas em pomar da Estação Experimental de
Vacaria, pertencente à Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves. As maçãs foram
colhidas em dois estádios de maturação caracterizados como: estádio de
maturação 1 e estádio de maturação 2, colhidas 15 dias após a primeira
colheita. As frutas colhidas no estádio de maturação 1 apresentavam firmeza de
polpa de 82,14 N, acidez total titulável de 0,36 % de ácido málico, teor de
sólidos solúveis totais de 14,10 ºBrix e produção de etileno de 2,00 nL.g-1.h-
1, enquanto as colhidas no estádio 2 apresentavam firmeza de polpa de 79,96 N,
acidez total titulável de 0,33% de ácido málico, teor de sólidos solúveis
totais de 13,74 ºBrix e produção de etileno de 17,11 nL.g-1.h-1. Após a
colheita, as maçãs foram tratadas com os fungicidas Iprodione (150 g.100L-1) e
Benomil (60 g.100L-1). Em seguida, foram acondicionadas em câmaras com
capacidade média de 300 L. Pesaram-se quantidades do produto comercial em pó
suficientes para proporcionar concentrações finais de 1-MCP de 0; 625 e 1250
nL.L-1. O produto foi dissolvido em solução de dodecil sulfato de sódio (SDS) a
0,1 %, à temperatura de 50 ºC, em vidros hermeticamente fechados. Prepararam-se
10 mL de solução em cada frasco. Após dissolvido o produto, os frascos foram
levados para as câmaras e então abertos, permitindo que o produto entrasse em
contato com as frutas. As câmaras permaneceram fechadas por 48 horas, à
temperatura de 20 ± 2 ºC. O tratamento-controle foi mantido nas mesmas
condições, porém sem a aplicação de 1-MCP. Passado esse período, as frutas
foram armazenadas em AR, com temperatura de 0 ± 0,5 ºC e umidade relativa de 95
± 5 %, e AC com níveis de CO2 variando de 2,1 a 2,3 kPa e 1,8 a 2,0 kPa de O2,
com temperatura de 0,5 ± 0,5 ºC e umidade relativa de 95 ± 5 %.
A qualidade e os índices de maturação dessas frutas foram determinados após 4;
6 e 8 meses de armazenamento refrigerado e aos 6 e 9 meses para as maçãs
armazenadas em atmosfera controlada. Foram realizadas análises de firmeza de
polpa, sólidos solúveis totais, acidez total titulável e produção de etileno.
Essas análises foram realizadas 7 dias após a retirada das frutas das câmaras
frigoríficas e manutenção em temperatura ambiente (20 ± 2 ºC). As variáveis
analisadas foram:
a)Sólidos solúveis totais: determinados com auxílio de refratômetro portátil
digital da marca Atago. Os resultados foram expressos em ºBrix (Girardi et al.,
2003).
b)Firmeza da polpa: determinada com auxílio de um penetrômetro manual, munido
de ponteira de 11 mm de diâmetro, expressando-se os resultados em Newtons. Em
cada fruto, foram realizadas 2 leituras em lados opostos, na seção equatorial
da fruta, após a remoção da epiderme (Girardi et al., 2003).
c)Acidez total titulável: foi determinada por titulometria de neutralização com
NaOH 0,1N, utilizando 10mL de suco diluídos em 90 mL de água destilada,
titulando-se até pH 8,1, sendo os resultados expressos em % de ácido málico
(Girardi et al., 2003).
d)Produção de etileno: foi determinada a partir da coleta de 1 mL da amostra
gasosa resultante da incubação de aproximadamente 1kg de frutas em frascos de
5L, hermeticamente fechados, e mantidos a 20 ± 2 ºC, durante 1 hora. O etileno
produzido foi determinado por cromatografia em cromatógrafo da marca Varian®,
Modelo 3300, coluna de aço inox 1/8 preparada com Porapak®, e um detector de
ionização de chama. Os resultados foram expressos em nanolitros de etileno, por
hora, por grama de fruto (nL.C2H4 g-1.h-1), (Girardi et al., 2003).
O experimento foi conduzido segundo o delineamento inteiramente casualizado, em
um esquema com 3 repetições de 15 frutas cada. Para a comparação de médias, foi
utilizado o Teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A aplicação do 1-MCP em maçãs 'Royal Gala' proporcionou efeito positivo na
preservação da firmeza de polpa das frutas, tanto naquelas colhidas no estádio
de maturação 1 quanto nas colhidas no estádio de maturação 2. Além disso,
observou-se que as diferenças de firmeza de polpa entre as frutas tratadas e
não-tratadas com 1-MCP aumentaram com o prolongamento do período de
armazenamento (Figuras_1A e 1B).
Considerando-se como mínimo de firmeza de polpa para consumo e comercialização
de maçãs 'Royal Gala' o valor de 60 N, somente as frutas tratadas com 1-MCP
encontram-se em condições adequadas aos 8 meses de armazenamento em ar
refrigerado (AR). Ressalta-se, ainda, que essas condições correspondem às
avaliações realizadas 7 dias após a retirada das frutas da câmara frigorífica.
Sem a aplicação de 1-MCP, somente as frutas colhidas no estádio de maturação 1
e armazenadas por até 6 meses mantiveram FP superior a 60 N.
Esses resultados diferenciam-se, em parte, daqueles encontrados por Fan et al.
(1999), que observaram que o 1-MCP só contribuiu para a manutenção da firmeza
de polpa até o 6º mês de AR. A partir daí, segundo esses autores, não houve
diferenças significativas entre frutas tratadas e não-tratadas. Essas
diferenças de comportamento podem estar vinculadas à procedência das frutas,
concentração e condições de aplicação do produto, além da diferença entre
estádios de maturação. Esses fatores são citados por Watkins et al. (2000) e
Mir et al. (2001) como principais interferentes na eficiência do 1-MCP.
Desta maneira, verificou-se que o 1-MCP contribui para reduzir as perdas de
firmeza de polpa, preservando um dos principais atributos de qualidade de
maçãs. Esse comportamento era esperado, embora não quantificado, uma vez que o
etileno regula a expressão de genes codificadores para enzimas de degradação da
parede celular de maçãs (Atkison et al., 1998).
Mesmo em condições de atmosfera controlada (AC), maçãs 'Royal Gala' têm
significativas reduções de firmeza de polpa, porém menos acentuadas do que em
AR. Assim, por exemplo, na colheita, a firmeza de polpa estava em 80 N, e após
9 meses de armazenamento em AC, reduziu-se para 60 N e 40 N, respectivamente,
para frutas colhidas na maturação 1 e na maturação 2 (Figuras_2A e 2B). Essas
reduções foram mais intensas em maçãs mantidas em AR, atingindo aos 8 meses de
armazenamento valores de 50 N e 35 N para frutas colhidas na maturação 1 e na
maturação 2, respectivamente. Esses resultados são semelhantes aos de vários
trabalhos realizados com essa cultivar e que demonstraram os efeitos benéficos
da AC na redução das perdas de firmeza de polpa (Saquet, 1997; Brackmann &
Ceretta, 1999).
O conteúdo de ácidos, monitorado pela queda da acidez total titulável, também
foi influenciado pela aplicação de 1-MCP. Durante todo o período de avaliação,
as maçãs tratadas com 1-MCP mantiveram mais elevada a acidez total titulável em
comparação com as maçãs não-tratadas, independentemente do estádio de maturação
na colheita (Figuras_1C, 1D, 2C e 2D). À semelhança do observado com a firmeza
de polpa de maçãs armazenadas em AR, somente as maçãs tratadas com 1-MCP
mantiveram valores de acidez total titulável acima do mínimo adequado para esta
cultivar (0,20% de ácido málico), aos 8 meses de armazenamento em AR. A
manutenção da acidez total titulável é importante para garantir o equilíbrio,
como o teor de açúcares. Do ponto de vista metabólico, esse comportamento pode
ser explicado por menor atividade metabólica das maçãs tratadas com 1-MCP,
representada pela menor produção de etileno (Figuras_1G, 1H, 2G e 2H). Os
ácidos orgânicos constituem, juntamente com os açúcares, os substratos da
respiração e estão intrinsecamente ligados à conservabilidade de maçãs (Bender,
1989). Segundo Pech (2002), o aumento da produção de etileno acelera a
intensidade respiratória que, de imediato, aumenta o consumo de ácidos
orgânicos e açúcares.
O comportamento diferenciado nesse experimento está relacionado com a aplicação
do 1-MCP, que proporciona uma significativa influência na redução da perda da
firmeza de polpa e da acidez total titulável. Durante todo o período de
avaliação, a firmeza de polpa manteve-se acima de 60 N, independentemente do
estádio de maturação na colheita e da concentração de 1-MCP utilizada. Esses
resultados demonstram o efeito sinérgico entre o armazenamento em AC e a
aplicação do 1-MCP, mesmo para frutas colhidas em estádios avançados de
maturação.
CONCLUSÕES
1. A aplicação de 1-MCP em maçãs 'Royal Gala' armazenadas em AR proporciona
benefícios equivalentes aos do armazenamento em atmosfera controlada.
2. O 1-MCP tem efeito sinérgico à atmosfera controlada durante o armazenamento
de maçãs 'Royal Gala'.