Distribuição do sistema radicular da goiabeira 'Rica' produzida a partir de
estaquia herbácea
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
PROPAGAÇÃO
Distribuição do sistema radicular da goiabeira 'Rica' produzida a partir de
estaquia herbácea1
Distribution of root system of guava "Rica" plants obtained from hebaceous
cuttine
Antonio Augusto FracaroI; Fernando Mendes PereiraII
IDoutorando em Agronomia, Departamento de Produção Vegetal, Universidade
Estadual Paulista-UNESP, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias- FCAV,
Campus de Jaboticabal, Rodovia de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n,
CEP14884-900, Jaboticabal-SP. Fone: (17) 3621-6884. E-mail:
fracaro@melfinet.com.br
IIDr., Prof. Titular Aposentado, Departamento de Produção Vegetal, FCAV/UNESP,
Campus de Jaboticabal, Rodovia de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n,
CEP14884-900 Jaboticabal, SP
A importância do estudo do sistema radicular das espécies vegetais utilizadas
na agricultura, sua distribuição, extensão e atividade, é incontestável e
fundamental para o entendimento científico da produção agrícola. As raízes das
plantas têm distribuição variável com as espécies e cultivares, idade da planta
e as características químicas e físicas do solo, os tratos culturais e as
condições fitossanitárias. O conhecimento sobre a quantidade, qualidade e
distribuição das raízes é útil na produção agrícola para fornecer informações
sobre localização de adubos, espaçamento, culturas intercalares, manejo do solo
e irrigação. Trabalho realizado por Cintra & Neves (1996) relataram
dificuldades inerentes aos métodos de amostragem para o pleno conhecimento do
sistema radicular, especialmente de plantas perenes.
No caso específico da goiabeira (Psidium guajava L.), as plantas
tradicionalmente são produzidas através de sementes, sendo posteriormente
enxertadas ou não. Plantas assim formadas apresentam sistema radicular
pivotante. Entretanto, no Brasil, a propagação de goiabeira, a partir da década
de 1990, é realizada preferencialmente através de estacas herbáceas, enraizadas
em câmaras de nebulização (Pereira & Nachtigal, 1997; Pereira, 1995).
O conhecimento da distribuição do sistema radicular de plantas de goiabeira
assim formadas, que já atinge no Brasil o número superior a 2.500.000 plantas,
é fundamental para o estabelecimento de práticas culturais nos pomares assim
constituídos.
O objetivo do trabalho é conhecer o sistema radicular de plantas de goiabeira
formadas por estaca herbácea.
O estudo foi conduzido no pomar experimental da FCAV-UNESP, Câmpus de
Jaboticabal, o qual não apresenta sistema de irrigação, e as adubações são
realizadas esporadicamente dentro da projeção da copa, com espaçamento de 7 x 5
m. O solo é classificado como Latossolo Vermelho eutroférrico e utilizou-se uma
única planta da cultivar Rica obtida por estaquia herbácea de doze anos de
idade.
'Rica' é uma cultivar obtida no programa de melhoramento genético da goiabeira
da FCAV-Jaboticabal-UNESP, cujas plantas são vigorosas e muito produtivas,
atingido espaçamento próximo de 35 m2 (Pereira, 1984; 1995).
Em junho de 2002, no pomar experimental, após a seleção de uma planta da
cultivar Rica, delimitou-se uma área de 25 m2 (5x5m) em torno da planta.
Após demarcação, esta área foi subdividida em quadros de 0,25 m2, enterrando-se
estacas de ferro de 60 cm de comprimento nos vértices de cada quadro. Uma fita
plástica foi ligada a todas as estacas, quadriculando a área experimental em
100 subáreas (Figura_1).
Com o objetivo de expor o sistema radicular, procedeu-se à remoção da terra com
jatos de água (3,5 Kgf.cm-2 de pressão e 14.400 L.h-1 de vazão). O transporte
da água para o local foi realizado com um caminhão pipa (8.000 litros), sendo
utilizados 168.000 litros de água para remover toda a terra até à profundidade
de 40 cm (Figura_2). Preliminarmente à aplicação, com auxílio de uma
retroescavadeira, abriu-se uma valeta de 3 metros de profundidade para o
escoamento da água. À medida que a terra era retirada, amarravam-se as raízes
nas fitas plásticas, para a sustentação das mesmas na posição original.
As raízes foram coletadas até a profundidade de 0,4m por quadro, formando
paralelepípedos de 0,1 m3, para avaliação do seu volume e peso seco. O volume
das raízes foi medido em cuba graduada (0,1x0,1x0,5m), pelo deslocamento da
água.
O peso seco foi realizado através da secagem das raízes em estufa a 65ºC até
peso constante, e utilizou-se uma balança digital com precisão de 2 centésimos
de grama.
Para determinação destes dois parâmetros, as raízes foram separadas e
classificadas como grossas (acima de 2,8 mm) e finas (igual ou abaixo de 2,8 mm
de diâmetro).
O peso seco total de raízes no volume de 10 m3 (5x5x0,4m) foi de 16,82 kg,
sendo 14,20 kg de raízes grossas e 2,62 kg de raízes finas, ou seja, 84,39% de
raízes grossas e 15,61% raízes finas.
A presente pesquisa não evidenciou a característica do sistema radicular
pivotante, porém apresentou várias raízes espessas sem a caracterização da raiz
principal da cultivar Rica, formado através de estacas herbáceas com abundante
quantidade de raízes distribuídas em todas as partes do solo.
Verificou-se, através do peso seco das raízes finas, uma distribuição homogênea
do sistema radicular, sendo maiores os valores encontrados nos paralelepípedos
próximos do tronco da planta.
Observou-se que o sistema radicular desenvolveu-se além dos 25 m2 estudados,
sendo maior o desenvolvimento radicular no sentido da linha de plantio.
A distribuição do sistema radicular da cultivar Rica, medido através do peso
seco total das raízes, apresentou em média 168,20 g.0,1m-3, sendo o menor valor
observado de 12,37 g.0,1m-3 e o maior valor observado foi de 2.180,52 g.0,1m-3.
A distribuição do sistema radicular da cultivar Rica medido através do peso
seco das raízes grossas apresentou em média 141,94 g.0,1m-3, sendo o menor
valor observado de 1,71 g.0,1m-3 e o maior valor observado foi de 2.154,01
g.0,1m-3.
As raízes primárias (desenvolvidas a partir da estaca) apresentaram um grande
desenvolvimento, com abundante ramificação.
A distribuição do sistema radicular da cultivar Rica medido através do peso
seco das raízes finas apresenta melhor uniformidade de distribuição, estando
numa faixa média de 0,1 a 50 g.0,1m-3(sendo a média de 26,6 g.0,1m-3). Na
Figura_3, verifica-se que as faixas de 0,1 a 20 e 20,1 a 50 g.0,1m-
3 representam 94 % dos paralelepípedos amostrados.
As raízes ativas (finas) foram encontradas em grande número e uniformemente
distribuídas por toda a área estudada (Figura_4 e 5).
A planta de goiabeira estudada, produzida por estaca herbácea, não apresentou
sistema radicular pivotante, porém apresentou diversas raízes espessas com
aprofundamento em volta do tronco (raio de 0,80 m), o que provavelmente
conferiu a mesma grande resistência ao tombamento.
O aprofundamento do sistema radicular possibilita às plantas melhores condições
de atravessar períodos de estresse hídrico, diminuindo as perdas de produção
(Neves & Medina, 1999).
O volume total de raízes no volume de 10 m3 foi de 31.550 cm3, sendo 27.410 cm3
de raízes grossas e 4.140 cm3 de raízes finas, ou seja, 86,88% de raízes
grossas e 13,12% raízes finas.
A distribuição do sistema radicular da cultivar Rica medido através do volume
das raízes grossas apresentou em média 27,41 cm3.0,1m-3.
A distribuição do sistema radicular da cultivar Rica medido através do volume
das raízes finas apresenta melhor uniformidade de distribuição, com média de
41,38 cm3.0,1m-3, estando 72% dos paralelepípedos amostrados nas faixas de 20,1
a 50 e 50,1 a 70 cm3.0,1m-3, o qual se verifica na Figura_6.
Segundo Atkinson (1980), a variabilidade dos resultados ocorre porque o solo é
heterogêneo e o sistema radical desvia de zonas menos favoráveis, seguindo
caminhos de menor resistência em fendas e canais da fauna do solo e de material
orgânico em decomposição.
A distribuição do sistema radicular encontrado na goiabeira é garantia de que
mudas formadas a partir de estacas herbáceas têm condições plenas de explorar
um grande volume de solo, permitindo ótima absorção de nutrientes e água,
obtendo produções satisfatórias.
Na distribuição do sistema radicular, é observado maior volume de raízes nas
áreas de menor incidência de ervas daninhas (grama) e, conseqüentemente, nas
áreas de maior acúmulo de material orgânico, observa-se maior volume de raízes.
Em estudo realizado por Neves et al. (1998), observou-se que a interrupção
brusca da presença de raízes de plantas cítricas coincidiu com início da
presença do sistema radicular da cobertura vegetal (Arachis prostrataBong. ex
Benth.), provocando o aprofundamento do sistema radicular da planta.
Este estudo evidencia que, nas práticas de adubação, a localização do
fertilizante não deverá ser feita em linha na projeção da copa, mas por toda a
superfície em torno da mesma.
Em implantação de pomares com irrigação localizada, este estudo é fundamental
para a localização dos microaspersores e/ou gotejadores que devem ser
distribuídos por toda a linha de plantio, pois um grande número de raízes
ativas está distribuído nesta faixa do solo.
Um eficiente sistema radicular é possibilitado por uma adequada formação de
mudas. Na planta estudada, pode-se observar que através da estaquia herbácea de
goiabeira foi possível obter mudas com adequado número de raízes primárias e, a
partir destas, excelente sistema radicular.