Comportamento da pitangueira (Eugenia uniflora L) sob irrigação na região do
vale do Rio Moxotó, Pernambuco
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
FITOTECNIA
Comportamento da pitangueira (Eugenia uniflora L) sob irrigação na região do
vale do Rio Moxotó, Pernambuco1
Performance of surinam cherry (Eugenia uniflora L.) under irrigation in the
Moxotó Valley, Pernambuco State, Brazil
João Emmanoel Fernandes BezerraI; Ildo Eliezer LedermanII; Josué Francisco da
Silva JúniorIII; Marta Assunção AlvesIV
IEng. Agr., M.Sc., bolsista CNPq, Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária
' IPA, Caixa Postal 1022, CEP 5076-000, Recife, PE. E-mail: emmanoel@ipa.br
IIEng. Agr., PhD., Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária ' Embrapa/IPA,
bolsista CNPq. E-mail: ildo@ipa.br
IIIEng. Agr., M.Sc., IPA, bolsista da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia
de Pernambuco ' FACEPE. E-mail: josuéf@ipa.br
IVEng.Agr., M.Sc., IPA; E-mail: martaaa@ipa.br
A pitangueira (Eugenia uniflora L.), frutífera nativa da região que se estende
desde o Brasil Central até o norte da Argentina, tem sido largamente
disseminada por outras regiões tropicais e subtropicais do mundo (Fouqué, 1981;
Williams et al., 1987). O seu cultivo no Estado de Pernambuco vem crescendo em
razão da utilização do fruto para o preparo de polpa e suco, como também para a
fabricação de sorvetes, refrescos, geléias, licores e vinhos (Lederman et al.,
1992; Bezerra et al., 2000).
Embora a pitangueira apresente grande potencial econômico de exploração para a
fruticultura do Nordeste, as pesquisas dirigidas à cultura, principalmente nas
áreas irrigadas, são muito escassas.
Assim, a maioria dos pomares existentes não utiliza cultivares definidas e são
geralmente provenientes de plantas propagadas por sementes, resultando em
grande variabilidade, originada pelo processo de recombinação gênica decorrente
da utilização desse tipo de muda na formação dos pomares.
Por outro lado, para se obter cultivares com características definidas, são
necessários estudos de caracterização e de avaliação de germoplasma, com a
finalidade de se identificarem genótipos com características desejáveis. Esses
genótipos poderão ser indicados para plantios comerciais e também utilizados em
hibridações, a fim de gerar populações segregantes, onde se fará a seleção de
materiais que reúnam as características desejadas (Lopes et al., 2000).
A importância de introduzir, caracterizar e avaliar germoplasma de fruteiras em
ambientes diversificados, como etapas no processo de melhoramento genético, tem
sido evidenciada também por diversos autores (Dudley & Moll, 1969;
Vilela'Morales, 1990; Gonzaga Neto, 1995).
Bezerra et al. (1995, 1997a), avaliando 122 acessos de pitangueira na Zona da
Mata Norte de Pernambuco, em condições de sequeiro, relacionaram dez genótipos
com elevado potencial produtivo e boas características agronômicas. Após
avaliação clonal, o acesso IPA-2.2 foi lançado como a primeira cultivar
comercial brasileira, sob a denominação de 'Tropicana', a qual apresenta como
principais vantagens a alta produção ¯ 20,8 kg de frutos/ano (média de dez
anos), peso médio do fruto variando de 3 a 4,5g, polpa avermelhada e relação
SST/Acidez de 4,1 (IPA, 2000).
Este trabalho foi realizado com o objetivo de caracterizar, avaliar e
selecionar genótipos da coleção de pitangueira do IPA, no Vale do Moxotó, sob
condições irrigadas, visando à recomendação de cultivares comerciais.
O trabalho foi realizado na Área Experimental da Empresa Pernambucana de
Pequisa Agropecuária ' IPA, em Ibimirim, situada no Vale do Rio Moxotó, na
região semi-árida de Pernambuco. As coordenadas geográficas são 8º32'15" de
latitude Sul e 37º41'30" de longitude Oeste e uma altitude 431 m. O clima é do
tipo B'Swh', semi-árido muito quente tipo estepe (classificação de Köeppen),
com precipitação pluvial e temperaturas médias anuais de 420 mm e 25ºC,
respectivamente. O solo da área é classificado como Solonetz solodizado.
A coleção é constituída de 85 acessos, duplicados do Banco de Germoplasma de
Pitangueira do IPA, na Estação Experimental de Itambé, sendo 74 originados de
mudas do tipo "pé-franco" e implantados em julho de 1992 e 11 de mudas
enxertadas introduzidas em agosto de 1994. Cada acesso é representado por uma
planta, e apenas as dez melhores seleções estão apresentadas neste trabalho.
O manejo agronômico do pomar obedeceu às recomendações gerais citadas por
Bezerra et al. (1997b, 2000), e o sistema de irrigação utilizado foi o de
xique-xique (Sistema de irrigação localizada, que consiste na aplicação de
água, através de tubos perfurados, com diâmetro de furo de, no máximo, 1,6mm),
com intervalos entre regas de dois a três dias, baseado em dados meteorológicos
e visando a atender as exigências hídricas da cultura.
Os dados de produção correspondem às colheitas realizadas no período de 1999 a
2001. As avaliações foram realizadas em cada matriz, tomando por base a amostra
de uma planta para as análises de crescimento (altura da planta e diâmetros do
caule e da copa), fenológica (época de colheita) e de produção. Para a
avaliação das características físico-químicas do fruto (pesos do fruto, das
sementes e da polpa; diâmetros transversal e longitudinal; teor de sólidos
solúveis totais ' SST; e acidez total titulável - ATT), foram utilizados 20
frutos de cada acesso, conforme procedimentos descritos por Bezerra et al.
(1997a).
Os resultados das avaliações que se seguem correspondem a pitangueiras com nove
anos (plantas provenientes de pé-franco) e sete anos (plantas enxertadas) de
idade. A altura das plantas originadas de sementes variou de 2,2m (IPA-14.3) a
2,9m (IPA-13.2). A altura das matrizes enxertadas não apresentou variação, uma
vez que todas as seleções externaram altura média de 2,0m (Tabela_1). Esse
comportamento deve-se, possivelmente, à diferença de idade entre as plantas
oriundas de pés-francos e as enxertadas.
O diâmetro do caule, de forma geral, variou de 8,0cm (IPA-3.1) a 10,5cm (IPA-
13.2) nas plantas de pé-franco, e de 7,5cm (IPA-11.3E) a 10,2cm (IPA-1.1E) nas
enxertadas. O maior diâmetro da copa das plantas de pé-franco foi registrado
nas seleções IPA-3.1 e IPA-13.2 (ambas com 4,0m) e o menor, na IPA-15.3 (3,2m).
Com relação às plantas enxertadas, a variação foi de 3,0m (IPA-1.1E) a 3,3m
(IPA-2.2E, IPA-7.3E e IPA-11.3E). Resultados semelhantes foram obtidos por
Bezerra et al. (1997a) em plantas com a mesma idade cultivadas na Zona da Mata
de Pernambuco.
Observou-se que, de maneira geral, as produções médias das plantas originadas
de pé-franco (33,1 kg de frutos/ano) foram 26,1% mais altas do que as
enxertadas (24,5 kg de frutos/ano), (Tabela_2). A diferença da idade entre as
plantas propagadas de formas distintas explica a maior produção das seleções de
pé-franco. As dez matrizes apresentaram variabilidade na produção, com valores
entre 29,3 e 40,1 kg de frutos/ano para as seleções de pé-franco, e entre 21,3
e 28,4 kg de frutos/ano nas enxertadas. Esses resultados obtidos foram
superiores àqueles encontrados por Bezerra et al. (1997a), em trabalho
conduzido sob regime de sequeiro, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde
ocorre um período de déficit hídrico que se estende de setembro a fevereiro, e
as condições ambientais são bastante distintas. Além disso, a interação entre o
genótipo e o meio ambiente também deve ser considerada.
De acordo com a Tabela_3, pode observar-se que existe um período de oito meses
de produção contínua, estendendo-se de maio a dezembro, e que corresponde a
98,5% do total de frutos produzidos no ano e com pico no mês de novembro. Nos
demais meses, as produções foram insignificantes. Esse comportamento das
plantas sob irrigação diferiu daquele sob condições de sequeiro, em que as
plantas apresentaram dois períodos de colheita, um de abril a maio (21,9%) e
outro mais significativo, indo de agosto a outubro, com 60,8% do total
produzido (Bezerra et al., 1995, 1997a).
As seleções mostraram variabilidade quanto ao peso e composição do fruto, teor
de SST e ATT (Tabela_4). Os pesos médios do fruto variaram de 3,3g (IPA-1.1E) a
6,9g (IPA-11.3E) e, em geral, foram superiores aos de pitangueiras avaliadas em
Itambé, na região da Mata Norte de Pernambuco (Bezerra et al., 1997a). O
rendimento de polpa esteve acima de 80% em cinco dos dez acessos, com destaque
para a seleção IPA-3.1 (83,2%), que também foi uma das mais produtivas. Não
houve grandes variações no pH, cujos valores registrados estiveram entre 2,9 e
3,1. Quanto ao teor de SST, os acessos apresentaram médias entre 9,0ºBrix (IPA-
13.2 e IPA-14.3) e 14,4ºBrix (IPA-1.1E). Além deste, os acessos IPA-15.3 e IPA-
11.3E também produziram frutos muito doces (13,4ºBrix). No que concerne à ATT,
houve variação de 1,4 (IPA-14.3, IPA-3.1E e IPA11.3E) a 1,8% (IPA-7.3E), e
quanto à relação SST/ATT, que é um dos mais importantes parâmetros de
qualidade, todos os acessos apresentaram valores superiores (5,6 a 9,6) ao da
cultivar Tropicana testada na Zona da Mata (4,1), conforme observações de
Bezerra et al. (1997a).
Os acessos mostraram variabilidade em relação às características físicas e
químicas do fruto.
As seleções IPA-13.2, IPA-1.1E e IPA-11.3E reuniram as melhores características
de produção e de qualidade do fruto.