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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452004000100039

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0100-2945
ano2004
Issue0001
Article number00039

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Efeitos da aplicação de calcário no desenvolvimento, no estado nutricional e na produção de matéria seca de mudas de maracujazeiro SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS

Efeitos da aplicação de calcário no desenvolvimento, no estado nutricional e na produção de matéria seca de mudas de maracujazeiro1

Effects of liming on the development, nutritional status and dry matter of passion fruit seedlings

Renato de Mello PradoI; William NataleII; Márcio Cleber de Medeiros CorrêaIII; Luiz Fernando BraghirolliIV IProf. Dr., Depto. de Solos e Adubos, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus Jaboticabal, Unesp, Via de Acesso Prof. Paulo D.

Castellane, s/n., CEP 14870-000, Jaboticabal-SP, Brasil. E-mail: rmprado@fcav.unesp.br IIProf. Adjunto, Depto. de Solos e Adubos, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Unesp. Bolsista CNPq. E-mail: natale@fcav.unesp.br IIIDoutorando, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus Jaboticabal, Unesp IVGraduando em Agronomia, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus Jaboticabal, Unesp

INTRODUÇÃO A cultura do maracujá tem evoluído muito rapidamente no Brasil. A partir do final da década de 80, observou-se ampliação significativa do consumo e do parque agroindustrial e, conseqüentemente, da área cultivada e da produção. No período de 1989 a 1996, houve crescimento significativo da área plantada, passando de 28,3 mil para 44,5 mil ha (Agrianual, 2000). Os principais produtores são Pará, Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Sergipe, Estados nos quais se destaca a importância da cultura no agronegócio brasileiro, na geração de divisas e empregos.

Por outro lado, é conhecido que o sucesso da instalação de um pomar de frutíferas é garantido pelo uso de mudas de alta qualidade. A acidez do solo é reconhecidamente um dos principais fatores da baixa produtividade das culturas (Raij, 1991). Em solos ácidos com elevada saturação por alumínio, a calagem promove a precipitação do Al tóxico do solo, possibilitando a proliferação intensa das raízes. A importância do sistema radicular das plantas é óbvia, visto existir uma estreita dependência entre o desenvolvimento das raízes e a formação da parte aérea. Este fato é muito importante em mudas, na fase de pós- plantio no campo, podendo aumentar a taxa de pegamento e estabelecimento mais rápido, com reflexos na precocidade de produção dos pomares. Assim, para a produção de mudas de forma eficiente, o uso de corretivos da acidez do solo pode favorecer a obtenção de plantas com qualidade e estado nutricional adequado.

É oportuno salientar que, como os preços do calcário são relativamente baixos comparados aos dos demais insumos, tem-se alta relação benefício/custo, com maior sustentabilidade nos sistemas de produção.

Na literatura, são escassos trabalhos que avaliam a resposta do maracujazeiro à aplicação de corretivos de acidez. Entretanto, existem estudos em solução nutritiva, indicando a sensibilidade da fruteira ao alumínio tóxico (Mendonça et al., 1999), de forma que têm sido indicados valores de saturação por bases de 70% (Lima, 1999) até 80% (Piza Júnior et al.,1996; Rizzi et al.,1998; Silva & Oliveira, 2000) para o maracujazeiro adulto. Entretanto, estas indicações carecem de experimentação. Em mudas, existe ainda uma indicação da baixa resposta do maracujazeiro à calagem (Fonseca et al., 2002). Vale et al. (1997) explicam que, dependendo da tolerância de determinadas espécies vegetais a solos ácidos, pode-se ter crescimento muito satisfatório com saturação por bases menores que 50%. Assim, observa-se que as indicações da literatura sobre a resposta do maracujazeiro à calagem são contraditórias, e praticamente inexiste experimentação.

Tendo em vista o exposto, objetivou-se avaliar o efeito da aplicação de calcário ao substrato de produção de mudas de maracujazeiro e acompanhar os efeitos no desenvolvimento, no estado nutricional e na produção de matéria seca das plantas.

MATERIAL E MÉTODOS O presente trabalho foi conduzido em condições de casa de vegetação, na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Unesp (Universidade Estadual Paulista) Câmpus de Jaboticabal. Como substrato, utilizou-se o subsolo de um Latossolo Vermelho distrófico (camada 3-4 m). Realizaram-se análises químicas do substrato, antes da calagem e após 30 dias de incubação, por ocasião da semeadura (Tabela_1).

Utilizou-se o calcário calcinado tipo D, com as seguintes características: CaO = 420 g kg-1; MgO = 250 g kg-1; PN = 137 %; RE = 96 %, e PRNT = 131 %. O delineamento experimental adotado foi em blocos casualizados, com cinco tratamentos (zero; metade; uma vez; uma vez e meia e duas vezes a dose para elevar a saturação por bases (V) igual a 80%, correspondendo a 0; 0,44; 0,88; 1,32; 1,76 g por vaso de 2 dm3, respectivamente) e quatro repetições. As doses de calcário foram calculadas considerando-se a saturação por bases ideal para a cultura igual a 80% (Piza Júnior et al.,1996). O calcário foi misturado homogeneamente ao substrato.

Na semeadura (11-01-2003), cada unidade experimental recebeu doses de nivelamento para P (450 mg dm-3), conforme indicação de Machado (1998): N (300 mg dm-3), K (150 mg dm-3), Zn (5 mg dm-3) e B (0,5 mg dm-3), de acordo com a recomendação geral para ensaios em vasos (Malavolta, 1981), na forma de superfosfato triplo (44 % de P2O5), sulfato de amônio (20 % de N), cloreto de potássio (60 % de K2O), sulfato de zinco (22% de Zn) e ácido bórico (17 % de B), respectivamente. O N e o K foram parcelados em três aplicações, aos 30; 45 e 60 dias após a semeadura, na camada superficial do substrato. O P, o Zn e o B foram adicionados em dose total na semeadura, misturados homogeneamente ao substrato.

Empregaram-se cinco sementes do maracujazeiro-amarelo por vaso. Uma semana após a emergência das plântulas, realizou-se o desbaste, deixando-se 2 plantas por vaso até o final do experimento.

A irrigação foi mantida continuamente durante o período experimental, tomando- se por base a umidade correspondente a 70% da capacidade de campo do solo.

Aos 80 dias após a semeadura (04-04-2003), as plantas estavam com cerca de 90 cm de altura, ocasião em que foram avaliadas as variáveis biológicas indicativas do desenvolvimento das plantas, como: altura, diâmetro do caule, número de folhas, índice de área foliar, matéria seca da parte aérea e das raízes do maracujazeiro. Na mesma ocasião, o estado nutricional das plantas foi avaliado, dividindo-se as mudas em parte aérea e raízes. As determinações dos teores de macro e micronutrientes no tecido vegetal seguiram a metodologia de Bataglia et al. (1983). Amostragens de solo foram realizadas na mesma época, e as determinações analíticas seguiram as recomendações de Raij et al. (2001).

Com base nos resultados obtidos, realizaram-se análises de variância para as diversas variáveis estudadas e a análise de correlação entre os tratamentos e as determinações no solo e na planta.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Efeitos dos tratamentos no solo A aplicação do calcário ao substrato promoveu a adequada neutralização da acidez do solo, elevando a saturação por bases. Entretanto, somente empregando- se o dobro da dose atingiu-se o V igual a 80% (Tabela_1). Uma das causas que explicam este fato, é relatada por Tescaro (1998), que sinaliza que esta ineficiência em elevar o V% a valores relativamente altos pode estar ligada ao alto potencial de cargas dependentes do pH do solo, ao deslocamento da reação de equilíbrio da solubilização do corretivo e, ainda, à formação de novos minerais no solo em formas de hidróxido pouco solúvel.

Acompanhando a evolução dos efeitos da aplicação do calcário ao solo, aos 80 dias após a semeadura, verifica-se que o valor pH e a saturação por bases (Figura_1a), bem como as concentrações iniciais de Ca e Mg (Figura_1b), tiveram aumento acentuado.

Efeitos dos tratamentos sobre o desenvolvimento e a produção de matéria seca A aplicação de calcário aumentou de forma quadrática o desenvolvimento das mudas de maracujazeiro, tanto o diâmetro do caule e a altura (Figura_2a), como a área foliar e o número de folhas (Figura_2b). Esta relação positiva entre a altura e o diâmetro do caule foi relatada também por Ferri (1985), que indica serem variáveis de grande importância morfofisiológica, visto que refletem de modo prático no crescimento e na diferenciação do vegetal, favorecendo todo o processo das relações solo-planta.

O maior desenvolvimento das mudas de maracujazeiro refletiu num aumento quadrático da matéria seca da parte aérea e das raízes das plantas (Figura_3a).

Portanto, este resultado indica a resposta positiva da fruteira à neutralização da acidez do solo, o que concorda com Mendonça et al. (1999), que informam a sensibilidade do maracujazeiro à acidez, discordando, porém, de Fonseca et al.

(2002), que não obtiveram resposta das plantas à calagem em solo com saturação por bases superior a 40%. Isto indica que, embora o maracujazeiro responda à aplicação de calcário, é importante que a experimentação utilize solos com elevada acidez e baixa concentração de bases, como no presente caso (Ca=4 e Mg=2 mmolc dm-3; V=29%) (Tabela_1), dando condições de avaliação da reação dos genótipos à correção da acidez do solo, bem como seus reflexos no crescimento das plantas. Em solos com fertilidade maior, as doses de calcário podem elevar muito o valor pH e a concentração de bases, insolubilizando micronutrientes e causando prejuízos à produção.

Analisando a relação solo x produção, notou-se que a máxima produção de matéria seca total esteve associada à saturação por bases do solo de 56% (Figura_3b).

Assim, este resultado discorda da recomendação de Piza Júnior et al. (1996) para o Estado de São Paulo e de Lima (1999), em estudos realizados na Bahia, que indicam a saturação por bases ideal para o maracujazeiro igual a 80 e 70%, respectivamente. Essa diferença, possivelmente, se deve aos aspectos da planta e do cultivo, sendo que, no presente estudo, trabalhou-se com a fase de mudas e em condições de vasos, e a recomendação dos referidos autores é para a fase adulta, no campo.

Efeitos dos tratamentos no estado nutricional das mudas A aplicação de calcário afetou significativamente os teores de macro e micronutrientes na parte aérea e nas raízes das mudas de maracujazeiro (Tabela 2). Observou-se que os teores de N, K, S, Cu e Fe não foram afetados significativamente, enquanto diminuiu o teor de P e aumentaram os de Ca e Mg com a aplicação de calcário. Houve redução significativa dos micronutrientes B, Mn e Zn com a calagem. Estes incrementos nos teores de Ca e Mg, na parte área (PA) das mudas, são explicados pelos aumentos destas bases no solo, devido à aplicação do calcário, que possui em sua composição esses nutrientes, observando-se a seguinte relação quadrática: Ca(PA)= -18,40 + 3,311Ca(solo) ' [0,0857 Ca (solo)]2, R2=0,62* Mg(PA)= 0,85 + 0,740Mg(solo) ' [0,8644 Mg(solo)]2, R2=0,86**

Estes efeitos no incremento dos teores de Ca e Mg e diminuição nos de B, Mn e Zn também foram obtidos por Fonseca et al. (2002) na parte aérea de mudas de maracujazeiro submetidas à aplicação de calcário.

Quanto ao acúmulo dos nutrientes na parte aérea (PA) e nas raízes (R) das mudas de maracujazeiro, em função da aplicação de calcário (x), observou-se um incremento quadrático para o cálcio e o magnésio: Ca (PA) = 35,92 + 45,334(calcário)' [20,891(calcário)]2 , R2 = 0,99** Ca (R)= 1,03 + 0,846(calcário)' [0,3898(calcário)]2, R2 = 0,87** Mg(PA) = 6,04 + 17,113(calcário)' [6,8692(calcário)]2, R2 = 0,90** Mg (R) = 0,57 + 0,939(calcário)' [0,3802(calcário)]2, R2 = 0,94** Enquanto para o fósforo houve diminuição: P (PA) = 13,42+6,974(calcário) ' [4,0446(calcário)]2, R2 = 0,92** P (R) =1,11+0,558(calcário) ' [0,3100(calcário)]2, R2 = 0,76* Para os micronutrientes, também houve alteração significativa no acúmulo destes elementos com a aplicação do calcário, apresentando diminuição na parte aérea e nas raízes, tanto para o Mn como para o zinco: Mn (PA)=0,36 + 0,554(calcário)' [0,3426(calcário)]2, R2 = 0,85** Mn (R)=0,03 ' 0,0096(calcário), R2 = 0,80**) Zn (PA) = 0,09 + 0,057(calcário) ' [0,0426(calcário)]2, R2 = 0,98** Zn (R) =0,01 ' 0,0041(calcário), R2 = 0,78*).

Assim, estes resultados semelhantes, tanto na absorção como no acúmulo de nutrientes pelas plantas, em função da aplicação de calcário, indicam que os efeitos de diluição/concentração foram pouco importantes na nutrição das mudas.

Pode-se inferir, pois, que a marcha de absorção/acumulação de nutrientes acompanhou a taxa de crescimento das plantas.

Nota-se que o Mn e o Zn acumulados na parte aérea das mudas de maracujazeiro, nas doses moderadas de calcário, sofreram até um aumento na planta, enquanto, nas doses maiores, houve queda acentuada no acúmulo destes nutrientes; entretanto, nas raízes, estes nutrientes sofreram queda na acumulação, mesmo nas menores doses de calcário. Os efeitos da calagem na absorção e acúmulo de micronutrientes pelas plantas são amplamente relatados na literatura. Segundo Raij (1991), a diminuição da acidez do solo promove insolubilização de micronutrientes, como Zn, por meio da formação de óxidos. O Mn trocável e o da solução convertem-se em Mn+3 e Mn+4 insolúveis. O B tem sua disponibilidade aumentada até certo valor de pH, quando, então, se formam compostos com a matéria orgânica de baixa solubilidade. No caso do zinco, Vale et al. (1997) complementam que o cálcio é um potente deslocador do Zn de complexos e quelatos, deixando o zinco livre na solução, o que favorece sua precipitação como Zn(OH)2.

Observou-se, também, que houve relação positiva entre os teores de Ca e Mg na parte aérea (PA) e a produção de matéria seca total (MST) das mudas de maracujazeiro: MST= - 44,59 + 7,747 Ca(PA) ' [0,3036 Ca (PA)]2, R2=0,71** MST= 2,65 + 0,421 Mg(PA) + [0,0524 Mg (PA)]2, R2=0,94**).

Assim, a máxima produção de matéria seca foi obtida quando os teores de Ca e Mg atingiram 12,8 e 4,0 g kg-1, respectivamente. Na literatura, é indicado como adequado para o maracujazeiro um teor foliar de Ca entre 12-16 g kg-1 e de Mg entre 2,5-3,1 g kg-1 (Quaggio et al., 1996). Comparando-se esses teores com os do experimento, nota-se que apenas o Mg está acima do teor considerado ideal, indicando que as plantas jovens podem apresentar maior exigência deste elemento que plantas adultas. Entretanto, deve-se considerar as diferenças entre as partes de tecido amostrado, sendo que, na planta adulta, coleta-se a folha (com botão floral na axila) e, nas mudas, a parte aérea total (caule+folhas).

Observou-se, ainda, relação positiva entre as concentrações de Ca e Mg do solo e a produção de matéria seca total: MST= 14,72 + 2,037 Ca(solo) ' 0,0521 Ca(solo)]2, R2=0,96**) MST=2,63 + 0,649 Mg(solo) ' [0,0408 Mg(solo) ]2, R2=0,94**) Assim, as concentrações de Ca e Mg do solo de 20 e 8 mmolc dm-3, respectivamente, estiveram associadas à máxima produção de matéria seca das mudas de maracujazeiro. Portanto, para a prática da calagem em maracujazeiro, em solos com teor de Mg abaixo de 8 mmolc dm-3, é importante o uso de calcários com maior teor de Mg (dolomítico ou magnesiano).

CONCLUSÕES 1) As mudas de maracujazeiro responderam à aplicação de calcário em substrato com reação ácida.

2) O maior desenvolvimento das mudas de maracujazeiro esteve associado à saturação por bases do solo de 56%, à concentração de Ca e Mg do solo de 20 e 8 mmolc dm-3 e a teores de Ca e Mg na parte aérea de 12,8 e 4,0 g kg-1, respectivamente.


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