Capacidade de enraizamento de variedades de nespereira submetidas à poda de
renovação
FITOTECNIA
Capacidade de enraizamento de variedades de nespereira submetidas à poda de
renovação1
Rooting capacity of varieties of loquat
Erivaldo José Scaloppi JuniorI; Natanael de JesusII; Antonio Baldo Geraldo
MartinsIII
IPós-graduando em Agronomia, área de concentração em Produção Vegetal,
Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias
(UNESP/FCAV), Câmpus de Jaboticabal. Via de acesso Prof. Paulo Donato
Castellane s/n, CEP 14.884-900, Jaboticabal-SP. Tel.: 16 3209 2668. e-mail:
sjunior@fcav.unesp.br_
IIPós-graduando em Agronomia, Departamento Produção Vegetal, UNESP/FCAV. e-
mail: natanael@fcav.unesp.br_
IIIProf. Dr., Departamento Produção Vegetal, UNESP/FCAV. e-mail:
baldo@fcav.unesp.br
INTRODUÇÃO
A nespereira (Eriobotrya japonica Lindl.) é uma árvore perenefólia da família
Rosaceae, originária da China Oriental e Japão, em regiões subtropicais, sendo
cultivada desde tempos remotos (Cavaco, 1990). A maturação dos frutos de
nêspera ocorre de maio a outubro no Estado de São Paulo, período de maior
escassez de fruta in natura no mercado. Este fato tem possibilitado lucros mais
compensadores ao produtor, além do aspecto atraente do fruto, de sabor suave e
agradável. As nêsperas prestam-se também à produção de excelentes geléias e
compotas, atividades ainda pouco exploradas (Ojima et al., 1999).
As mudas de nêspera são normalmente obtidas através da enxertia. Em relação à
sua formação, são utilizadas sementes para a produção de porta-enxertos,
resultando em um stand não uniforme quanto ao vigor e constituição genética. A
propagação vegetativa, via estaquia, tem por finalidade proporcionar
uniformidade das plantas, além da redução do tempo de formação da muda
(Hartmann et al., 1997). A propagação por estaquia pode ser influenciada por
diversos fatores, entre características inerentes à própria planta e condições
do meio ambiente (Calabrese, 1978; Menzel, 1985). Dentre os fatores que podem
melhorar os resultados, destacam-se a presença de folhas na estaca, utilização
de câmara com nebulização intermitente, reguladores de crescimento, estádio de
desenvolvimento da planta e do ramo, além da época do ano em que as estacas são
coletadas.
Em relação ao estádio de desenvolvimento da planta e do ramo, tem-se o conceito
da juvenilidade, sendo a capacidade de iniciar, prontamente, raízes
adventícias, uma das principais características fisiológicas que parece comum a
todas as plantas (Janick, 1966). Em espécies de difícil enraizamento, pode ser
útil induzir, em plantas adultas, um rejuvenescimento para aumentar a
capacidade de enraizamento (Hartmann et al., 1997).
O presente trabalho tem por objetivo avaliar a capacidade de enraizamento de
cinco variedades de nespereira a serem propagadas por estaquia e do ácido
indolbutírico (IBA) neste processo.
MATERIAL E MÉTODOS
Nespereiras obtidas através de enxertia, das variedades Champagne, Precoce de
Itaquera, Mizuho, Mogui e Tanaka, com cerca de 15 anos de idade, provenientes
do Câmpus da Unesp em Jaboticabal-SP, foram submetidas à poda de renovação de
copa, deixando-se apenas as pernadas principais. Após a poda, ramos não
lignificados (tenros) foram formados, os quais serviram de material para a
realização do experimento. Foram coletadas estacas apicais com cerca de 15 cm,
contendo um par de folhas no nó superior, eliminando-se as demais folhas e
feito um corte em bisel na extremidade inferior. Após preparadas, as estacas
foram tratadas por imersão rápida, durante cinco segundos em IBA, nas
concentrações: 0 (testemunha); 1.000; 3.000; 5.000 e 7.000 mg.L-1, sendo em
seguida estaqueadas em bandejas plásticas perfuradas, preenchidas com
vermiculita de grânulos médios. O experimento foi conduzido em câmara de
nebulização intermitente, pertencente ao Departamento de Produção Vegetal da
Unesp em Jaboticabal-SP; o sistema de nebulização era acionado por "timer" e
programado para manter um filme d'água na superfície das folhas. Todo o ensaio
foi conduzido sob condições de ripado, com 50% de luminosidade.
O experimento foi realizado em 08 de abril de 2002 e, após noventa dias, foram
feitas avaliações das estacas em relação à sobrevivência, enraizamento, número
e comprimento médio de raízes, estacas calejadas, calejamento associado à
presença de raiz e permanência de folhas.
Posterior à avaliação das estacas, estas foram transferidas para sacos
plásticos contendo uma mistura de solo + areia + esterco de curral curtido (3:
3:1 v), comumente utilizado no viveiro de mudas desta instituição e avaliadas
quanto a sua sobrevivência e desenvolvimento inicial.
O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, em esquema fatorial
5x5, com 5 variedades e 5 concentrações de IBA, totalizando 25 tratamentos.
Cada tratamento constou de 4 repetições, sendo 10 estacas por parcela. Os
resultados foram submetidos à análise de variância pelo teste F, ao teste de
Tukey e à regressão polinomial. Para efeito da análise estatística, os dados em
porcentagem relativos ao enraizamento, sobrevivência, calejamento, calejamento
associado à raiz e permanência de folhas foram transformados em arco-seno [/
img/revistas/rbf/v26n1/a17img01.gif](x+0,5)/100, enquanto os valores referentes
ao número e comprimento de raízes foram transformados em
(x+0,5).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela_1 apresenta os valores e significância do teste F para os fatores
variedade, concentração e interação em relação às características avaliadas.
Com relação à permanência de folhas, o teste F apresentou significância apenas
entre as variedades. A sobrevivência das estacas foi diferenciada entre as
variedades, de forma semelhante à permanência de folhas. O calejamento foi
diferenciado entre as variedades, não apresentando influência das concentrações
do regulador utilizado, sendo um fato independente da indução radicular
(Hartmann et al., 1997), o que pode ser constatado na associação da formação de
calo e presença de raiz que não foi significante para variedade, concentração
do regulador e interação. Normalmente, o aparecimento precoce de raízes pode
prevenir o desenvolvimento do calo (Komissarov, 1968). O enraizamento foi
significante ao nível de 5% para variedades e a 1% para as concentrações de
IBA. O número de raízes foi significativo entre variedades e concentrações do
regulador, à semelhança do enraizamento. Níveis de auxina (endógeno ou exógeno)
são determinantes na diferenciação de muitos tipos de meristemas, incluindo
raízes (Leopold, 1955). O comprimento de raízes foi significativo apenas para
as concentrações de IBA.
A Tabela_2 apresenta as médias (valores transformados) das variedades de
nespereira em relação à permanência de folhas, calejamento, enraizamento,
sobrevivência e número de raízes. As variedades apresentaram comportamento
semelhante para permanência de folhas e sobrevivência, em que as variedades
Precoce de Itaquera e Tanaka diferiram da variedade Champagne, embora esta não
tenha diferido das demais. Quanto ao enraizamento, as maiores médias são
encontradas para Precoce de Itaquera, que diferiu apenas de Mogui. Observando-
se as médias das variedades para permanência de folhas e sobrevivência, nota-se
uma analogia nos resultados, sendo geralmente os maiores valores de uma
variedade tendo correspondência entre as características e vice-versa;
comprovando que a maior constância no suprimento de carboidratos, auxinas e
outras substâncias promotoras produzidas pelas folhas pode influir no
enraizamento e sobrevivência. Os valores encontrados para calejamento indicam
diferença estatística apenas entre as variedades Mogui e Champagne, comprovando
novamente a ocorrência independente entre calejamento e enraizamento (Hartmann
et al., 1997), pois estas duas variedades apresentaram os menores valores de
enraizamento. Embora o teste F indicasse significância para as variedades em
relação ao número de raízes, o teste de Tukey não apresentou diferença
estatística entre elas.
A Tabela_3 apresenta valores médios de enraizamento, número e comprimento de
raízes das variedades de nespereira em função das concentrações de IBA. Em
relação ao enraizamento, encontra-se uma relação direta de incremento, em que,
a partir de 3.000 mg.L-1, houve diferença estatística no que se refere à
testemunha, com tendência de estabilização dos valores a partir de 5.000 mg.L-
1. De forma semelhante, verificam-se melhores resultados pelo uso do IBA para
número e comprimento de raízes, ocorrendo estabilização dos valores a partir de
5.000 mg.L-1 e 3.000 mg.L-1, respectivamente, diferindo da testemunha.
A máxima eficiência técnica das concentrações de IBA pode ser observada na
Figura_1 para cada variedade, em que são apresentadas as regressões polinomiais
significantes para enraizamento, número e comprimento de raízes. Os pontos de
máximo, obtidos pela derivação das equações, indicam no geral maiores valores
na maior concentração de IBA (7.000 mg.L-1); com exceção para a curva de
regressão do comprimento de raízes na variedade Mizuho, em que o ponto de
máximo se situa entre as concentrações de 3.000 e 5.000 mg.L-1. Todas as
variedades apresentaram incremento significativo de enraizamento pelo uso do
IBA, com exceção da variedade Mogui, que apresentou significância apenas para o
comprimento de raízes. As raízes possuem alta sensibilidade às auxinas, e o
fornecimento exógeno pode prejudicar o crescimento destas (Leopold, 1955). O
IBA promove apenas uma precocidade na formação de raízes (Pereira et al., 1991)
e diferenciação dos primórdios radiculares existentes, além do estímulo na
formação de novos primórdios (Komissarov, 1968). O maior comprimento de raízes
nas variedades Mizuho e principalmente Mogui é devido, provavelmente, à
precocidade na emissão de raízes estimulada pelo uso do IBA.
Pereira et al. (1996) realizaram estaquia de nespereira sem regulador de
crescimento e verificaram que a variedade Mizuho enraíza melhor com estacas
colhidas no verão do que no inverno. Estacas apicais apresentando meia-folha
foram melhores do que estacas subapicais. O enraizamento esperado foi de 25 a
36%. O presente experimento foi realizado no outono, sendo um período
intermediário ao ótimo, segundo Pereira et al. (1996), porém a poda de
rejuvenescimento permitiu resultados, mesmo da testemunha, superiores aos
encontrados pelo autor citado (Tabela_4).
Boliani (1986) utilizou estacas herbáceas enfolhadas de nespereira das
variedades Mizuho e Precoce de Itaquera, colhidas no final de outubro e obtidas
após podas drásticas realizadas nas plantas-matrizes, com a utilização de IBA
(0; 2.000 e 4.000 mg.L-1), obtendo médias de enraizamento de 46,8 e 52,3%,
respectivamente. Para a variedade Precoce de Itaquera, houve aumento de
enraizamento com a aplicação de IBA, não acontecendo o mesmo com a variedade
Mizuho. Os resultados contrastam com o presente em relação à resposta das
variedades, demonstrando a necessidade de experimentos regionais para a
determinação de um protocolo.
Posterior ao enraizamento, as estacas enraizadas foram transferidas para sacos
plásticos contendo o substrato já descrito, permanecendo por mais um mês sob
nebulização, para assegurar o pegamento e, após, foram mantidas em telado com
50% de sombreamento, recebendo água duas vezes ao dia por microaspersão. A
sobrevivência das mudas foi alta (cerca de 90%) no primeiro mês e manteve-se
até o final da avaliação, com as mudas apresentando cerca de 50 cm de altura
com um ano de idade, desde a instalação. Aos seis meses de idade, as mudas já
apresentavam condições de serem plantadas no campo e, aos oito meses, com cerca
de 30 cm de altura, possuíam diâmetro suficiente para a realização da enxertia
(equivalente a um lápis). Em condições normais de desenvolvimento, as mudas
provenientes de sementes estão aptas para receber a enxertia entre 15 e 18
meses após a semeadura, com altura aproximada de 80 cm e diâmetro de 1 cm
(Ojima et al., 1999). Os resultados indicam precocidade na formação das mudas
por estaquia.
CONCLUSÕES
O IBA promoveu incremento de enraizamento e no número de raízes, com exceção
para a variedade Mogui. As estacas apicais tenras, provenientes da poda de
renovação, apresentaram melhores resultados que nos experimentos encontrados na
literatura. A sobrevivência e o estabelecimento das mudas foi alto, com
precocidade em sua formação.