Declínio dos citros: algo a ver com o sistema de produção de mudas cítricas?
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
Declínio dos citros: algo a ver com o sistema de produção de mudas cítricas?1
Citrus blight: is there something about the nursery trees production?
Ricardo Braga BaldassariI; Antonio de GoesII; Fernando TannuriII
IUNESP ' Departamento de Fitossanidade, Câmpus de Jaboticabal, CEP 14884-900,
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A citricultura brasileira, não obstante a sua pujança, ressente-se de vários
problemas de ordem fitossanitária, muitas vezes relacionados à qualidade da
muda, os quais afetam a produtividade e longevidade dos pomares. Dentre esses
vários problemas, incluem-se a Gomose de Phytophthora, Clorose Variegada dos
Citros, Declínio dos Citros e, ultimamente, a Morte Súbita dos Citros, uma
doença por ora de etiologia desconhecida.
Atualmente, com a nova concepção no processo de produção de mudas cítricas,
associada às novas tecnologias do manejo da cultura, incluindo-se a
diversificação do uso de porta-enxertos, levanta-se a possibilidade potencial
de que vários desses problemas estejam amenizados. Por exemplo, é de opinião
quase unânime de que, com a aplicação das atuais normas de produção de mudas
cítricas, restrita exclusivamente sob ambiente protegido, conforme legislação
vigente, muitos desses problemas estariam resolvidos. Trata-se de um processo
irreversível onde, certamente, em função da padronização e fiscalização,
espera-se maior longevidade, estabilidade de produção e produtividade dos
pomares. Tal potencial será alcançado, na prática, se houver equilíbrio
envolvendo qualidades genética e fitossanitária do material de propagação,
associado a práticas culturais adequadas. No manejo cultural, em particular, há
necessidade de que o desenvolvimento da parte aérea e sistema radical da planta
dêem-se de forma equilibrada e harmoniosa. Tal equilíbrio é fundamental para
minimizar o problema de estresse e suas conseqüências. Assim, entende-se que,
embora na nova concepção de produção de mudas cítricas prevaleça a idéia da
prevenção, alguns problemas relevantes e freqüentes nos pomares citrícolas do
Brasil e em particular no Estado de São Paulo, ainda perdurem. Pior ainda, não
se tem dado a atenção necessária e devida, como é o caso do declínio dos
citros.
O declínio dos citros
O declínio dos citros é uma alteração no desenvolvimento normal da planta,
caracterizada por perdas acentuadas de folhas, excesso de brotação no tronco e
em pernadas, gradativo secamento de galhos, floradas extemporâneas,
deficiências acentuadas de nutrientes, especialmente zinco, mesmo em pomares
adequadamente fertilizados, acúmulo de fenóis solúveis no caule, presença de
obstruções amorfas nos vasos do xilema e baixa produção. Normalmente, plantas
sintomáticas não morrem. Tal anomalia ocorre com mais freqüência em plantas de
laranjeiras doces enxertadas em limoeiros 'Cravo', Poncirus trifoliata,
limoeiro 'Rugoso', Citrus volkameriana e citranges Morton e Troyer. Considera-
se como porta-enxertos resistentes e/ou tolerantes as tangerinas 'Sunki',
'Cleópatra' e laranja 'Caipira'.
O declínio dos citros foi constatado no Brasil na década de 70 (Rossetti, 2001)
e atualmente, tem presença assinalada em praticamente todas as regiões
produtoras. Além do Brasil, sua ocorrência encontra-se assinalada na Argentina,
Uruguai e Estados Unidos, onde é designada como Declinamiento ou Fruta Bolita,
Marchitamiento repentino e Blight, respectivamente. No Estado de São Paulo,
estima-se que 6 a 8% das plantas são afetadas anualmente, significando que, a
cada ano, mais de 10 milhões de plantas tornam-se improdutivas.
Embora o declínio dos citros seja conhecido a mais de um século, como é o caso
na Flórida, EUA, não há, ainda, o diagnóstico do agente causal. A natureza
etiológica do problema é controversa, encontrando-se na literatura citações
quanto ao envolvimento de agentes bióticos (Burnett et al., 1982), sendo,
inclusive, os sintomas reproduzidos através de enxertia de raízes (Tucker et
al., 1984; Rossetti, 2001).
Segundo Berger (1998), a tentativa de explicar a transmissão de um agente
infeccioso por meio da enxertia de raízes, pode ser interpretada como uma
transferência de ácido abcísico (ABA) de uma raiz para outra, uma vez que esse
hormônio ocorre em níveis elevados em raízes de árvores sob estresse. O mesmo
autor, através de revisão sobre o assunto, faz uma ampla abordagem sobre as
possíveis causas dessa anomalia, tornando evidente a ausência do envolvimento
de um agente biótico. Dentre essas evidências temos: 1- Não foi encontrado
nenhum patógeno associado à anormalidade, mesmo após exaustivos estudos,
amparados com técnicas modernas de investigação e análises, como microscopia
eletrônica de transmissão e varredura, serologia, sondas de DNA, meios
seletivos para isolamento em cultura pura de microorganismos e corantes
específicos; 2- Os sintomas do declínio dos citros apresentam semelhança
àqueles que ocorrem em outras espécies de árvores, como por exemplo, em
carvalhos (Quercus spp), freixo (Fraxinus excelsio), ácer, ácer de açúcar (Acer
spp), dendezeiro (Elaeis guineensis) e mangueira (Mangifera indica). O declínio
destas espécies é tido como causado por fatores de natureza não patogênica; 3-
O perfil de aumento da incidência do declínio dos citros, no tempo, é diferente
daquele associado a várias epidemias causadas por patógenos de plantas. De
acordo com Yokomi et al. (1984) e Sonoda et al. (1992), na Flórida, o progresso
do declínio dos citros ao longo do tempo dá-se de forma linear, assemelhando-se
a vários outros tipos de declínios, de causa não parasitária. No Brasil, de
acordo com Tubelis et al. (1988), o progresso temporal da doença poderia ser
descrito como uma função exponencial, divergindo dos resultados obtidos nos
EUA. Nesse caso, epidemiologicamente esperava-se um progresso acentuado da
doença, ocupando gradativamente todos os pomares, de tal forma que todas as
plantas acima de seis anos estariam afetadas, o que não tem se dado na
realidade. Tal fato suscita e fortalece a idéia da ausência de agentes bióticos
associados à doença; 4- De acordo com Sonoda et al. (1992), a distribuição
espacial de plantas cítricas com sintomas de declínio dá-se geralmente ao
acaso, cujo perfil enquadra-se mais apropriadamente a problemas de natureza
abiótica. Certamente, o envolvimento de um agente patogênico levaria, ao longo
do tempo, à ocorrência na forma de agregado, fato esse não observado nas
condições do Brasil; 5- Tem-se verificado que tanto na Flórida (Wutscher, 1986)
como no Brasil, mesmo após vários anos, a co-existência de plantas sadias ao
lado de plantas assintomáticas é fato comum nos pomares cítricos. Tal fato
contraria a dinâmica espacial, temporal e espaço-temporal resultante da
influência de agentes bióticos; 6- A presença de proteína-RS (RS = relacionada
ao estresse), inicialmente designada proteína RP (RP = relacionada com a
patogênese), constitui indicação quanto à presença de plantas sintomáticas e
assintomáticas e não quanto ao envolvimento de um agente biológico específico
na ocorrência da doença. De acordo com Berger (1998), a proteína-RS está
associada à presença de um fator responsável por estresse na planta. Segundo
este autor, a causa do declínio dos citros é a mesma identificada para o
declínio de outras espécies arbóreas, qual seja: o estresse. Fatores como
desfolha, injúrias por baixas temperaturas, índices elevados de salinidade do
solo, reduções do sistema radical por atividades de nematóides e insetos do
solo e época inadequada de poda são alguns dos vários fatores responsáveis por
estresse. Dentre esses fatores, o autor cita o envolvimento direto de altas
concentrações de sais solúveis no solo, resultante de fertilização ou calagem
excessivas e déficit ou excesso de umidade. Segundo Castro (1991), já foi
estabelecido associação entre injúria no sistema radical e a incidência do
declínio dos citros. De acordo com esse autor, há possibilidade de que nas
diferentes fases de formação das mudas, fatores desencadeadores de estresse
como poda de raízes e tratos culturais inadequados predispõem as plantas ao
declínio. Segundo Anderson (1980), poda de raízes de laranjeira 'Valência'
enxertada em limoeiro 'Rugoso', com nove anos de idade, causou sintoma de
declínio nas plantas, o que corrobora a hipótese do estresse radical e presença
de plantas sintomáticas; 7- A possibilidade da reprodução dos sintomas do
declínio dos citros mediante enxertia de raízes é, segundo Berger (1998),
interpretada à transferência de ácido abscísico de uma raiz para outra, já que
esse hormônio ocorre em níveis elevados em raízes de plantas sob condições de
estresse. Tal fato torna praticamente insustentável a defesa do envolvimento de
um agente biótico na ocorrência da doença; 8- As ocorrências de desequilíbrio
nutricionais são também fatores capazes de ocasionar estresse nas plantas e,
dessa forma, contribuir para a ocorrência de sintomas. De acordo com Wutscher
(1989), verificou-se a relação direta entre baixas taxas de capacidade de troca
catiônica e maior incidência de plantas sintomáticas. Normalmente, a
manifestação dos sintomas tem sido mais evidente em solos com teores limitantes
de fósforo e potássio, exibindo, por outro lado, altos níveis de cálcio e
magnésio e baixos teores de cloro e enxofre. Segundo Wutscher, citado por
Berger (1998), nas condições da Flórida, aplicações de grande quantidade de
hidróxido de cálcio levou a uma remissão dos sintomas. Sabe-se, entretanto, que
dificilmente uma planta afetada por um determinado agente apresentaria
recuperação, o que invalida a hipótese do envolvimento de um patógeno; 9- Solos
pouco profundos, de baixa fertilidade, com drenagem deficiente, arenosos e
capazes de interferir negativamente no desenvolvimento do sistema radical estão
relacionados com maior incidência de declínio (Castro, 1991).
A muda cítrica e sua relação com o declínio
De acordo com Castro (1991) e Berger (1998), o declínio dos citros resulta,
aparentemente, de fatores condicionantes de estresse, que se manifestam de
forma isolada ou de forma complexa. Todos os aspectos abordados mostram-se
pertinentes, porém um aspecto importante fora explorado apenas
superficialmente: trata-se da limitada capacidade de desenvolvimento do sistema
radical das plantas e os fatores que proporcionam esta limitação.
Aparentemente, esse é um dos fatores que mais tem contribuído para o estresse
das plantas cítricas e conseqüentemente para a manifestação dos sintomas do
declínio dos citros. Plantas com sistema radical escasso ou pouco desenvolvido
são as mais afetadas quando sob condições de estresse hídrico, seja pelo
excesso ou deficiência. Antes da década de 70, as mudas cítricas eram
produzidas em viveiros a céu aberto, sendo que, por ocasião da sua
transferência, eram arrancadas sem a existência de terra recobrindo o sistema
radical (mudas de raiz nua). Tal prática proporcionava a seleção de mudas com
sistema radical pivotante retilíneo e com tamanho adequado. Entretanto, com o
vertiginoso crescimento da atividade citrícola a partir da década de 70, esta
prática foi abolida, tendo permanecido a produção de mudas cítricas a céu
aberto, porém, substituindo-se a utilização de muda de raiz nua por muda do
sistema "em torrão". Tal fato tornou inviável a inspeção do sistema
radical dessas plantas, o que, certamente, impossibilitou detectar defeitos nas
mesmas, como tortuosidades e divisões indesejáveis. Além disso, o volume de
solo que continha o sistema radical era inferior a 1 L e a muda apresentava-se
com a poda de formação por volta de 18 meses. Isso, certamente, contribui para
um desequilíbrio entre parte aérea e o sistema radical dessas mudas.
Mediante análise criteriosa, feita nos mais renomados e representativos
viveiros do Estado de São Paulo, verificou-se que ainda existe uma variável
desse processo que merece atenção, podendo ser substancialmente aprimorada.
Atualmente, no processo de produção de mudas de citros são empregados, quase
que na sua totalidade, tubetes de 12 cm de comprimento para a produção das
mudas de porta-enxertos. Tal técnica foi adaptada a partir do processo de
formação de essências florestais, mais especificamente da cultura de eucalipto.
Este procedimento, evidentemente, faculta ao sistema radical pivotante do
porta-enxerto, em formação no seu interior, uma limitação de crescimento de até
12 cm.
Quando o sistema radical pivotante encontra a parte final do tubete, algumas
anomalias morfológicas são desencadeadas e freqüentemente observadas nos
viveiros inspecionados: (i) intumescimento na região apical, onde, com o passar
do tempo, são emitidas várias ramificações do sistema radical pivotante, sendo
que, em alguns casos, quando ocorre maior tempo de permanência do porta-enxerto
no interior dos tubetes, observa-se a produção de clorofila nessa região de
intumescimento (Figura_1); (ii) quando as plantas (porta-enxertos) apresentam
um tamanho entre 10 a 15 cm, segue-se uma nova etapa no processo de formação
das mudas, pois estes são transplantados para sacos plásticos com capacidade
para 5L de substrato, em média. A partir desse momento, o sistema radical
retoma o seu crescimento, concomitantemente ao da parte aérea. Nesta fase, no
sistema radical, verifica-se a presença de sub-divisões (raízes secundárias) no
ponto de intumescimento da raiz pivotante, formado quando ainda ocupava os
tubetes. Essas raízes continuam se desenvolvendo, ficando, portanto, mantida as
sub-divisões, como ilustrado em raízes de limoeiro cravo, em vários estádios
(Figura_2); (iii) com o desenvolvimento dos porta-enxertos, independente da
variedade, a sub-divisão do sistema radical pivotante irá se acentuando na
medida em que as raízes forem adquirindo maiores diâmetros. O processo de sub-
divisões ocorrido se mantém nas diversas etapas de desenvolvimento das plantas.
Estas mudas, quando estão vegetativamente maduras e no estágio designado de
palito, são fiscalizadas pelo órgão certificador e, estando isentas de doenças
como Cancro cítrico, Gomose de Phytophthora e Clorose Variegada dos Citros, são
liberadas para a comercialização; (iv) o citricultor que as adquire, no momento
do plantio, corta o fundo do saco plástico com o objetivo de retirar as raízes
enoveladas, o que promove, posteriomente, nova sub-divisão do sistema radical
pivotante já sub-dividido. A Figura_3 ilustra um saco plástico, cujo fundo foi
previamente cortado, contendo muda cítrica, de onde advirão novas subdivisões
do sistema radical pivotante, quando são plantadas à campo.
Ideal seria que a raiz pivotante das mudas certificadas de citros fosse
retilínea e sem divisões, ao menos até o comprimento do saco plástico onde são
formadas, após o transplante do porta-enxerto. Mudas cítricas com essa
deformidade apresentam restrições quanto ao crescimento do sistema radical em
maiores profundidades do solo, quando plantadas a campo, mesmo que as condições
químicas e físicas do mesmo sejam favoráveis. Dessa forma, essas plantas
estarão muito mais predispostas ao estresse hídrico e conseqüentemente ao
declínio. Deve-se ressaltar que a parte genética e fitossanitária dos materiais
atualmente utilizados são sabidamente superiores àqueles utilizados até
recentemente, o que possibilitará a obtenção de maiores produtividades.
Entretanto, eventual desequilíbrio entre sistema radical e parte aérea,
acentuará ainda mais a condição de estresse, favorecendo o surgimento do
declínio nessas plantas.
Denota-se que as mudas de citros ora produzidas, não apresentam sistema radical
adequado, de tal forma que estas, mesmo quando expostas a boas condições de
manejo, não atendem as exigências da parte aérea. Dado a esse desequilíbrio e à
vulnerabilidade das raízes, amplia-se as condições de predisposição ao estresse
de diferentes natureza e, conseqüentemente, ao declínio. Tal fato sugere a
necessidade premente de se rever o atual método de produção de porta-enxertos
destinados à produção de mudas cítricas.