Caracterização física e química de frutos de três tipos de gravioleira (Annona
muricata L.)
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
A gravioleira (Annona muricata L.), da família Annonaceae, é uma das
importantes frutíferas cultivadas no Nordeste Brasileiro, principalmente nos
Estados da Paraíba, Ceará, Pernambuco e Bahia, sendo seus frutos utilizados na
fabricação de suco, sorvetes, compotas, geléias e doces. Apesar da importância
da graviola na fruticultura nordestina, conforme Pinto & Silva (1994), não
existem variedades de gravioleiras que sejam portadoras de características
botânicas geneticamente definidas. Esse autor revela que, nos principais países
produtores (Venezuela, Porto Rico e Costa Rica), os inúmeros tipos de
gravioleiras encontrados se diferenciam pela forma, sabor e consistência de
seus frutos. Considerando essas características, são conhecidos os tipos
'Morada', 'Lisa' e 'Blanca', introduzidos da Colômbia pela Embrapa, em 1981.
Entretanto, no Nordeste, predomina a variedade nordestina, também chamada
crioula ou comum, denominação utilizada para as graviolas que não se enquadram
nos tipos colombianos. Pinto & Ramos (1997) relatam que a quase totalidade
das gravioleiras existentes nas coleções de trabalho é considerada ecotipo,
pois apenas foram introduzidas sem passarem por processo mais detalhado de
seleção, avaliação e fixação de suas características. Em geral, esses ecotipos
diferenciam-se pela forma e/ou pelo sabor ácido ou menos ácido dos frutos.
Devido à inexistência de variedades selecionadas, a maioria das áreas
comerciais de graviola do Brasil foi implantada utilizando-se de mudas de
origem sexuada, as quais apresentam grande variabilidade na produção e
qualidade dos frutos. De acordo com Marinho (1999), na região Sul da Bahia,
onde o cultivo de graviola é mais recente, a maioria dos produtores utilizou
mudas propagadas por sementes, e em alguns casos a enxertia, utilizando-se de
material proveniente de plantas dos tipos conhecidos como 'Morada' e, em menor
escala, dos tipos 'Lisa' ou 'Comum'. Trabalhos de caracterização físico-química
de frutos de graviola foram efetuados por diversos autores (Paull, 1982; Castro
et al., 1984; Bora et al., 1987; Bosco et al., 1996; Livera & Guerra, 1996;
Silva & Souza, 1999); entretanto, na maioria das avaliações, foram
utilizados frutos de variedades não identificadas; portanto, os resultados
encontrados são bastante variáveis. Conforme Torres & Sanches (1995), a
graviola é uma baga ou sincarpo, geralmente ovóide ou elipsóide, de cor verde-
escura, medindo de 15 a 50cm de comprimento e 10 a 25cm de diâmetro, coberta
por espinhos suaves de 0,3 a 0,8cm.
O objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade de graviolas dos tipos
'Morada', 'Lisa' e 'Comum', produzidas na região Sul do Estado da Bahia, com a
finalidade de auxiliar futuros trabalhos de seleção de matrizes de
gravioleiras.
Foram utilizadas gravioleiras de quatro anos de plantio, cultivadas no
espaçamento de 5x4m, no pomar do sítio Santo Antônio, situado no km 23 da
rodovia Ilhéus-Itabuna, Ilhéus, Bahia, Brasil (14º47' S e 39º 16' W). Essas
gravioleiras, caracterizadas pelo tipo de fruto, como 'Morada', 'Lisa' e
'Comum', foram propagadas vegetativamente por enxertia, utilizando-se de
borbulhas retiradas de matrizes pés-francos. Para evitar danos causados por
broca-do-fruto e broca-da-semente, os frutos, provenientes de flores
polinizadas manualmente, foram protegidos com sacos telados de polietileno
verde durante o período de desenvolvimento. Foi utilizada uma amostra de 10
graviolas de cada tipo, no período de abril a junho de 2000. Os frutos foram
colhidos diariamente na propriedade em estado de pré-maturação e, um dia após a
colheita, os frutos maduros foram levados para o laboratório de Fisiologia
Vegetal do Centro de Pesquisas do Cacau (CEPEC), onde foram pesados e
mensurados quanto ao comprimento, diâmetro superior (maior diâmetro), diâmetro
mediano (medido na metade do fruto) e diâmetro inferior (medido entre a metade
e o ápice do fruto). A média dos diâmetros foi estipulada como diâmetro médio.
Após as mensurações, os frutos foram descascados manualmente e a seguir
efetuaram-se a separação e a pesagem da polpa, sementes e eixo floral, e
contagem das sementes. Uma amostra da polpa foi utilizada para determinação de
pH, acidez titulável, açúcares solúveis totais, sólidos solúveis totais e
vitamina C (b.u.), conforme os métodos analíticos preconizados pelo Manual de
Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz (1985).
Devido aos cuidados tomados no processo de amostragem, onde se procurou
garantir homogeneidade, tanto das condições ambientais como do material
experimental, os tratamentos foram considerados como dispostos no delineamento
inteiramente casualizado, tendo sido usado um fruto como repetição. Os dados
foram submetidos à análise de variância seguida do teste SNK a 5% de
probabilidade para comparação entre médias, utilizando-se do aplicativo SAS.
Observou-se que, por ocasião da colheita, os frutos do tipo 'Lisa' apresentavam
coloração verde-clara brilhante e acúleos incipientes, enquanto os frutos dos
tipos 'Morada' e 'Comum' apresentaram coloração verde-clara brilhante e acúleos
proeminentes (Figura_1). Os resultados das características físicas são
apresentados na Tabela_1, onde se observa que, pelo teste adotado (SNK a 5% de
probabilidade), não foram detectadas diferenças entre os frutos quanto ao peso;
entretanto, o alto valor do CV (27,7%) pode ser indicativo da interferência de
fatores não controlados. Adicionalmente, o contraste ('Morada' vs. ('Lisa' +
'Comum') mostrou-se significativo a 5,6% de probabilidade e, mantendo o teste
padrão adotado (SNK), foi detectada diferença entre os mesmos, considerando um
erro igual ou superior a 6,7% de probabilidade. Os valores do peso médio dos
frutos analisados neste trabalho são bastante superiores aos citados por Castro
et al. (1984), Bora et al. (1987), Cardoso et al. (1989), Bosco et al. (1996) e
Livera & Guerra (1996), os quais citam graviolas de 0,4kg a 1,7kg de
variedades não identificadas, porém são próximos aos valores citados por Silva
& Souza (1999), os quais relatam peso médio de 2,8kg para frutos de
'Morada' e 'Lisa'. Tal diferença, em relação aos frutos de variedades não
identificadas, pode ser explicada pelo fato de os frutos avaliados neste
trabalho terem sido oriundos de plantas selecionadas para frutos grandes,
inclusive o tipo 'Comum'. Além disso, as flores foram polinizadas manualmente e
os respectivos frutos protegidos contra broca-da-semente e broca-do-fruto. A
polinização manual aliada à proteção permitiu que os frutos apresentassem um
completo e uniforme desenvolvimento, embora o tamanho final seja inerente,
principalmente ao patrimônio genético, vigor da planta, número de frutos em
desenvolvimento na planta e localização do fruto no ramo. De acordo com Torres
& Sanches (1995), na graviola, as sementes variam de poucas até mais de 200
por fruto, envoltas pela polpa, geralmente cada uma dentro de um carpelo. Ainda
que o desenvolvimento do fruto seja muito variável por causas varietais e
ambientais, este é afetado pela quantidade de pistilos fecundados, aumentando o
seu tamanho e melhorando a sua forma.
Não houve diferença entre os tipos com relação ao comprimento, entretanto o
diâmetro médio dos frutos dos tipos 'Morada' e 'Lisa' foram maiores que os do
tipo 'Comum', originando uma razão comprimento/diâmetro médio de 1,56,
comparado a 1,94 do tipo 'Comum', caracterizando os dois primeiros tipos
('Morada' e 'Lisa') como cordiforme. Esses resultados são próximos aos
relatados por Bora et al. (1987), que encontraram valor médio de 1,81 para
relação comprimento/diâmetro médio para graviolas do tipo 'Comum'. Com relação
ao rendimento de polpa, o tipo 'Lisa' (85,85%) foi superior aos tipos 'Morada'
(83,57%) e 'Comum' (83,12%). Tais resultados são próximos aos 85,5% relatados
por Paull (1982) e Silva & Souza (1999) para frutos dos tipos 'Morada' e
'Lisa' e sensivelmente superiores aos valores encontrados por Castro et al..
(1984), Bora et al. (1987) e Livera & Guerra (1996), que obtiveram 50,40%,
69,97% e 63,04%, respectivamente. Tais diferenças referem-se provavelmente aos
diferentes tipos avaliados, fatores ambientais, tratos culturais e polinização.
Observou-se, também, para o tipo 'Comum', maior valor para percentagem de casca
e menor para percentagem de sementes por frutos, em relação aos demais. A
percentagem de sementes entre 3,03 e 5,06% está próxima aos valores citados por
Paull (1982), Castro (1984) e Silva & Souza (1999). Não houve diferença
entre as variedades com relação à percentagem do eixo floral, e os valores
encontrados neste trabalho são relativamente próximos aos 2,3% citados por
Paull (1982) e inferiores aos valores de 7,52 a 10,32% obtidos por Livera &
Guerra (1996). A relação polpa/peso de semente foi maior nos frutos do tipo
'Comum'. De acordo com Paull (1982), existe uma correlação de 49% entre peso de
semente e peso do fruto, e 44% para peso de semente e peso de polpa, indicando
que a polinização pode exercer um papel importante no desenvolvimento do fruto.
Os dados referentes às características químicas são apresentados nas Tabelas_2
e 3, onde se observa (Tabela_2) que, à exceção de açúcares solúveis totais
(AST), não houve diferença entre os tipos com relação às variáveis avaliadas.
Isto pode ser devido, provavelmente, ao fato de que os frutos utilizados foram
oriundos de gravioleiras caracterizadas como tipos, cuja seleção para
multiplicação levou em consideração apenas a produção e o tamanho do fruto. Os
frutos apresentaram médias dos valores de sólidos solúveis totais entre 12,18 e
13,85 ºBrix, inferiores aos 17,1 ºBrix citados por Castro et al. (1984) e aos
14,5º a 16,0 ºBrix citados por Silva & Souza (1999). Alves et al. (1997),
citando vários autores, apresentam valores entre 13,5 e 19,0 ºBrix para a
graviola. O teor de sólidos solúveis nos frutos de anonáceas é elevado e
constitui-se principalmente de açúcares solúveis; em graviola, passa de 10 para
16 ºBrix nos cinco dias que se seguem à colheita (Paull, 1982). A média da
acidez titulável variou de 0,92 a 1,0g/100g e são semelhantes ao valor citado
por Castro et al. (1984), situando-se dentro dos intervalos de 0,70 a 2,18%
citados por Alves et al. (1997). As médias dos valores de vitamina C (35,60 A
38,51mg/100g) obtidos neste trabalho são bem superiores ao valor de 10,50mg/
100g encontrado por Castro et al. (1984), porém, próximos aos 30,50mg/100g
obtidos por Guedes & Oriá (1978) citados por Castro et al. (1984). De
acordo com os Padrões de Identidade e qualidade mínima (PIQ) para polpa
estabelecidos pelo Ministério da Agricultura (1999), a composição da polpa de
graviola deve apresentar os seguintes valores mínimos: Sólidos solúveis em
ºBrix 9,0; pH 3,50; acidez total em ácido cítrico 0,60g/100g; ácido ascórbico
10mg/100g; e sólidos totais 13,0g/100g.
Verifica-se (Tabela_3) que, com exceção do pH da variedade "Comum",
os frutos das gravioleiras avaliados neste trabalho superaram as exigências
mínimas estabelecidas pelo PIQ do Ministério da Agricultura (BRASIL, 1999).
Nas condições em que foi conduzido o presente trabalho, pode-se concluir que,
com exceção do rendimento de polpa, cujo maior valor foi apresentado pelo tipo
'Lisa', os frutos dos tipos estudados ('Morada', 'Lisa' e 'Comum') não
apresentam diferenças entre si, quanto às principais características
industriais: peso de fruto, sólidos solúveis totais, pH, acidez titulável e
relação sólidos solúveis totais. Os valores obtidos nas características
químicas, com exceção do pH da variedade "Comum", superaram os
valores mínimos estabelecidos no Padrão de Identidade e Qualidade do Ministério
da Agricultura, para polpa de graviola.