Fitotoxicidade de fungicidas, acaricidas e inseticidas sobre o mamoeiro (Carica
papaya L.) cultivar sunrise solo improved line 72/12
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
Fitotoxicidade de fungicidas, acaricidas e inseticidas sobre o mamoeiro (Carica
papaya L.) cultivar sunrise solo improved line 72/121
Toxic effects of pesticides products on papaya plant (Carica papayaL.) cv.
Sunrise Solo Improved Line 72/12
Alcílio VieiraI; Carlos RuggieroII; Sérgio Lucio David MarinIII
IPesquisador, Dr. da PESAGRO-RIO, Estação Experimental de Macaé, Estrada Velha
de Glicério Km 03. CEP. 27901-970, Cx. Postal 119.371, Macaé-RJ.
pesagro@castelo.com.br
IIProfessor Titular, Dr. Departamento de Produção Vegetal- FCAV ' UNESP,
Rodovia Carlos Tonanni, km 05. Jaboticabal' SP
IIIProfessor Assistente, M.Sc., Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias,
UENF, Avenida Alberto Lamego, 2000 ' Horto ' CEP. 28015-620, Campos - RJ
O mamoeiro pertence à família Caricaceae, da qual fazem parte 31 espécies,
compreendidas em quatro gêneros, sendo o Carica o mais conhecido, destacando-se
o Carica papaya L., a única de valor comercial das 22 espécies deste gênero
(Kist & Manica, 1995).
Segundo dados divulgados pela Agroanalysis (1999), os principais países
produtores mundiais de frutas, em 1997, foram China, Índia, Brasil e EUA, com,
respectivamente: 37,3; 33,2; 32,5 e 29,8 milhões de toneladas. Ressalta-se
também que, com a abertura do mercado norte-americano para importação, aumenta
sobremaneira o potencial por demanda do mamão tipo Solo do Brasil.
A produção mundial de mamoeiros, em 1999, foi de 5.296.504 t, sendo a do
Brasil, a maior, com 1.700.000 t; vindo em seguida a produção da Nigéria, com
751.000 t. (Agrianual, 2001)
Com a ocorrência do mosaico do mamoeiro no Estado de São Paulo, ocorreu a
migração de novos plantios para outros Estados brasileiros, onde, hoje, se
cultivam, na sua grande maioria, os mamoeiros de sementes importadas e/ou seus
avanços genéticos, como os da cultivar Sunrise Solo Line 72/12 (Martelleto et
al., 1997).
As maiores produções de mamão no Brasil ocorrem nos Estados da Bahia, Espírito
Santo e Pará, com, respectivamente: 367.562 t;197.840 t e 21.110 t (Agrianual,
2001).
O controle de pragas e doenças é a garantia de boas produtividades para a
cultura, mas é fundamental para o mamoeiro o estudo fitotóxico dos produtos,
área pouco pesquisada no Brasil.
Couto et al. (1986) estudaram o controle químico da população do ácaro-branco
em 'Sunrise Solo' e testaram diversos produtos. O abamectin (Vertimec 18 CE -
36,5 ml/100 litros de água) teve a ação mais rápida, mais eficiente e constante
no controle do ácaro-branco durante o período de ensaio.
Marin et al. (1995), dentre vários produtos, recomendaram para o controle do
ácaro-branco do mamoeiro o uso do abamectin + óleo mineral (Vertimec 18 CE a 50
ml + Naturoil a 250 ml), abamectin + clofentezine (Vertimec 18 CE ' 25 ml +
Acaristop 500 SC ' 20 ml); para o ácaro-rajado e ácaro-vermelho, Vertimec 18 CE
a 50 ml, óxido de fenilbutamina (Torque 500 SC - 80 a 100 ml e Partner SC - 80
a 100 ml) e dicofol + tetradifon (Carbax ou Acardifon ' 200 ml), todas
recomendações em 100 litros de água.
Sanches & Oliveira (1995) recomendaram para o controle do ácaro branco,
dentre vários produtos, o dicofol + tetradifon (Carbax), na concentração de 200
ml/100 l de água.
Fungicidas cúpricos, como o Cupravit Azul e Cupravit Verde, nas doses de 0,30%,
são recomendados para o controle da varíola ou pinta-preta (Medina, 1980); e
para o controle da antracnose, o mancozeb (Dithane M 45 a 0,24%).
Marin et al. (1995) indicaram o uso de diversos agrotóxicos para o controle de
doenças do mamoeiro, dentre os quais, pode-se citar: para o controle da
antracnose, o mancozeb (Dithane M 45 - 150 a 200 g) e thiabendazole (Tecto 600
' 150 g); varíola ou pinta-preta, oxicloreto de cobre (Cuprosan Azul BR - 300 a
500 g); podridão do pedúnculo do fruto e mancha de ascoquita , mancozeb
(Dithane M 45 - 150 a 200 g) e thiabendazole (Tecto 600 ' 100 g), todas as
doses em 100 litros de água.
Marin et al. (1986) consideraram ser o mamoeiro uma planta muito sensível à
fitotoxicidade provocada pelos produtos químicos utilizados no controle químico
de pragas e doenças e que esta fitotoxicidade não só é variável em relação aos
produtos empregados, como entre as formulações do mesmo produto.
Marin (1988) estudou, em 02 experimentos conduzidos na FCAV-UNESP, em
Jaboticabal-SP, os efeitos fitotóxicos de inseticidas, acaricidas e fungicidas
no mamoeiro 'Sunrise Solo Improved Line 72/12', utilizando-se de mudas
envasadas, em casa de vegetação. Constatou que o triazophós (Hostathion 40 CE)
causou a redução do diâmetro do caule e do número de folhas das plantas, além
de apresentar intensa fitotoxicidade nas folhas das plantas jovens; tetradifon
+ dicofol (Carbax 16 CE), mancozeb (Dithane M 45), oxicloreto de cobre (Recop
84 PM) e chlorotalonil (Daconil 75 PM) não causaram queima nas folhas, ou esta
foi leve, aparentemente, não afetando o seu desenvolvimmento. O autor utilizou
o Carbax CE a 200 ml; Hostathion 40 CE a 100 ml; Dithane M-45 a 200 g; Recop 84
PM a 250 g e Daconil 75 PM a 200 g, todos em 100 litros de água.
Marin et al. (1995) afirmaram que o Hostathion 400 ou Hostathion 400 BR,
utilizado a 100 ml, causa severo desfolhamento em plantas de mamoeiro; o Carbax
(240 ml), Dithane M-45 (200 g), Recop (50% - 250 g), Vertimec 18 CE (50 ml),
Torque 500 SC (100 ml), praticamente, não foram tóxicos.
Silveira Filho & Ponte (1996), em experimentação conduzida com mamoeiros
cv. Formosa e Solo, em plantas em condições de ripado, no Ceará, testaram os
efeitos fitotóxicos dos seguintes tratamentos: 1- manipueira em diluição; 2 -
tebuconazole (0,5%); 3 - mancozeb + metalaxyl (0,3%); 4 - oxicloreto de cobre
(0,3%); 5 - enxofre elemetar (0,5%); 6 - óxido cuproso (0,34%); 7 - hidróxido
de cobre (0,28%); 8 - tiotanato metílico (0,07%); 9 - oxicloreto de cobre +
clorothalonil (0,35%), e 10 - água (testemunha). As pulverizações semanais, e
repetidas 4 vezes, foram avaliadas quando as plantas tinham 110 dias (10 dias
após a última pulverização), em relação à altura, diâmetro do caule, número de
folhas e sintomas fitotóxicos foliares (injúrias e queimaduras). Não houve
diferenças significativas entre os tratamentos e a testemunha, em relação aos
parâmetros avaliados; somente o tebuconazole apresentou redução significativa
no número de folhas, quando comparado à testemunha.
Na região Norte do Espírito Santo, ocorrem diversas pragas e doenças fúngicas,
necessitando de controle, quer nas diversas fases do desenvolvimento das
plantas, quer em pós-colheita dos frutos (Marin et al., 1995) Para este
controle, são necessárias pulverizações periódicas, o que pode acarretar
problemas de fitotoxicidade, devido à sensibilidade do mamoeiro à aplicação de
defensivos.
Por outro lado, os produtores tendem a associar os produtos fitossanitários,
necessários ao controle de pragas e doenças, visando a reduzir os custos
elevados das pulverizações, razão pela qual a avaliação dos efeitos de misturas
ou associações de produtos, em relação à fitotoxicidade, deve ser investigada.
O experimento foi instalado na propriedade da Papaya Ceres Ltda, no município
de São Mateus-ES. A cultivar utilizada foi a Sunrise Solo Line 72/12, plantada
no espaçamento de 3,60 x 1,80 x 1,80 m.
Foi realizado o delineamento experimental de blocos casualizados, com 16
tratamentos e 4 repetições, sendo que cada parcela experimental constou de 3
plantas úteis.
Os tratamentos utilizados foram:
Foram avaliadas as variáveis: altura das plantas, diâmetro do caule, número de
folhas, número de flores e frutos, e injúrias.
O efeito de injúrias e/ou queimadura nas folhas foi avaliado por uma escala de
notas visual de fitotoxicidade. Foi verificado por 02 observadores, utilizando-
se da seguinte escala:
Nota 0 - plantas com folhas normais, sem sintomas de queimaduras;
Nota 1 - plantas com folhas levemente injuriadas e/ou com pequenas áreas
queimadas;
Nota 2 - plantas com folhas medianamente injuriadas, amareladas e com bordos e
ápices queimados;
Nota 3 - plantas com folhas intensamente injuriadas, apresentando severo
desfolhamento.
A formação das mudas e de todo o sistema de produção utilizado foi o proposto
por Marin et al. (1995).
O experimento foi irrigado por aspersão convencional e de acordo com as
necessidades da cultura.
As avaliações foram efetuadas um dia antes das pulverizações, 15 dias após e 30
dias após.
Os dados de balanço hídrico-climatológico e as normais climáticas de
temperatura, durante a realização do experimento (02 meses), apresentaram os
seguintes valores médios mensais: evaporação potencial ' 69 mm; precipitação '
75,0 mm; armazenamento ' 12,1 mm; evapotranspiração real ' 71,1 mm; deficiência
' 4,9 mm; temperatura média ' 20,5ºC; temperatura máxima ' 22,9ºC e temperatura
mínima ' 16,4ºC.
Os dados relativos aos efeitos fitotóxicos foram analisados estatisticamente,
aplicando-se o teste T, e as médias comparadas através de Tukey, a 5% de
probabilidade.
Observa-se que, nas avaliações realizadas aos 15 e 30 dias após as
pulverizações, nenhum dos produtos testados, isoladamente ou em associação,
afetou significativamente a altura das plantas, diâmetro de caule (Tabela_1) ou
número de folhas (Tabela_2). Resultados semelhantes foram obtidos com o Carbax,
Dithane PM e oxicloreto de cobre (Recop), aplicados em mamoeiros do grupo Solo
por Marin (1988) e por Silveira Filho & Ponte (1996), em relação à
aplicação do oxicloreto de cobre, princípio ativo de Reconil, utilizado no
presente ensaio.
Verifica-se, na Tabela_2, que nenhum dos tratamentos utilizados, isoladamente
ou em associação, alterou significativamente o número de flores e frutos,
variável não relatada por outros autores.
Verificou-se que o Vertimec 18 CE, associado ao Reconil ou ao Tecto 450,
ocasionou pequenas injúrias foliares, detectadas na avaliação realizada aos 15
dias após as pulverizações, que se tornaram praticamente imperceptíveis aos 30
dias após as pulverizações. Essas associações não foram testadas por outros
autores; porém, em relação aos outros tratamentos estudados, os resultados são
comparáveis aos de Marin (1988), constatando que o Carbax, Dithane PM e
oxicloreto de cobre (Recop) e Vertimec 18 CE não induziram efeitos fitotóxicos,
causando queimaduras ou injúrias nas folhas de mamoeiros do grupo 'Solo';
também estão em concordância, quanto à não-fitotoxicidade foliar do oxicloreto
de cobre, em mamoeiros do grupo 'Solo' e 'Formosa', verificada por Silveira
Filho & Ponte (1996).
De acordo com os resultados obtidos, pode-se concluir, nas condições climáticas
em que foi realizado o presente trabalho, para as doses e combinações
estudadas, que:
-Os fungicidas Reconil e Tecto 450; o fungicida-acaricida Dithane PM, os
acaricidas Carbax e Torque 500 SC, e o inseticida-acaricida Vertimec 18 CE,
aplicados isoladamente, não afetaram os parâmetros de crescimento e de produção
das plantas (altura e nº de folhas, diâmetro do caule, número de flores e
frutos), e também não ocasionaram queimaduras ou injúrias foliares.
- O Vertimec 18 CE, quando associado ao Reconil ou ao Tecto 450, mostrou-se
levemente fitotóxico, causando pequenas injúrias e queimaduras foliares.
-As associações entre Dithane PM + Carbax, Dithane PM + Torque 500 SC, Dithane
PM + Vertimec 18 CE, Reconil + Carbax, Reconil + Torque 500 SC, Tecto 450 +
Carbax e Tecto 450 + Torque 500 SC, mostraram-se não fitotóxicas, não alterando
os parâmetros de crescimento e de produção das plantas e não causando
queimaduras ou injúrias foliares.