Propagação vegetativa de porta-enxertos para citros
Propagação vegetativa de porta-enxertos para citros1
Vegetative propagation for citrus rootstocks
Renata Aparecida de AndradeI; Antonio Baldo Geraldo MartinsII
IEnga. Agra., Aluna de Pós-graduação em Agronomia ' Produção Vegetal ' UNESP '
FCAV ' Depto de Produção Vegetal. Via de acesso Prof. Paulo Donato Castellane,
s/n. Cep: 14884-900. Jaboticabal-SP. Tel/Fax: (16)32092668. e-mail:
reandrad@fcav.unesp.br
IIEng. Agr., Prof. Doutor ' UNESP - FCAV ' Departamento de Produção Vegetal.
Via de acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n. Cep: 14884-900. Jaboticabal-
SP. Tel/Fax: (16)32092668. e-mail: baldo@fcav.unesp.br
INTRODUÇÃO
O Brasil é o maior produtor de suco concentrado e de laranja fresca,
ultrapassando os Estados Unidos. A área ocupada com a citricultura aproxima-se
de 1 milhão de hectares no território brasileiro e, desse total, 850 mil
hectares localizam-se no Estado de São Paulo.
O sucesso na implantação de um pomar de citros está no plantio de mudas de
qualidade, sendo, para isso, imprescindíveis a boa formação, o vigor e a
sanidade da muda. Tal a importância de mudas de qualidade, que a Secretaria da
Agricultura editou três regras para a produção das mesmas, sendo que os
viveiros que não atenderem às especificações, deverão ser erradicados: 1) as
sementeiras de produção de porta-enxerto de citros somente poderão ser
instaladas em ambiente telado à prova de insetos (entrou em vigor a partir de
1º-07-2000); 2) a partir de 1º-01-2001, só serão registrados os viveiros para
produção de mudas cítricas instalados em ambientes telados à prova de insetos.
Os porta-enxertos utilizados nesses viveiros também deverão, obrigatoriamente,
ser provenientes de instalações teladas; 3) a partir de 1º-01-2003, serão
proibidos, em todo o Estado de São Paulo, o comércio e transporte de porta-
enxertos e mudas cítricas produzidos em viveiros sem proteção antiinsetos.
As principais características que um porta-enxerto deve apresentar, são:
resistência a pragas e doenças das raízes; compatibilidade com as principais
copas comerciais; alta produção de frutos e com ótima qualidade dos mesmos;
adaptação às condições de solo e clima da área onde será empregado (devendo ser
adaptável às mais diferentes situações); grande quantidade de sementes; alta
taxa de poliembrionia; facilidade de propagação e enxertia sobre as principais
copas comerciais; vigor adequado à indução de bom pegamento dos frutos e de boa
maturação; imunidade total ou alta resistência aos patógenos e pragas de
importância econômica, incluindo viroses destrutivas e declínios (Carlos et
al., 1997; Castle et al., 1993).
Os citros podem ser propagados por quatro métodos: sementes, alporquia,
estaquia e enxertia, sendo este último o mais utilizado por apresentar algumas
vantagens, entre as quais se pode citar a uniformidade das mudas, uma vez que
os porta-enxertos utilizados são poliembriônicos, precocidade no início de
produção e aumento na produtividade, além de obter-se mudas praticamente
idênticas à planta-mãe.
As primeiras espécies cítricas introduzidas no Brasil foram propagadas
utilizando-se de sementes. A facilidade deste método norteou a disseminação
durante a colonização do Brasil, durante o século XVI. A propagação por
sementes, na citricultura mundial, predominou até a metade do século XIX,
quando problemas relacionados ao ataque de Phytophthorasp., na Ilha dos Açores
(Portugal), determinaram o uso de porta-enxertos tolerantes a estes fungos. Na
Espanha, os agricultores perceberam que as plantas provenientes de sementes
tardavam muito a entrar em produção e tinham muitos espinhos, que podiam
lesionar as frutas, e passaram a adotar a enxertia a partir da segunda metade
do século XIX (Carlos et al., 1997).
Na busca pela uniformidade e produtividade, os pomares comerciais de citros são
atualmente formados por mudas obtidas por enxertia, mas isso tornou os cultivos
vulneráveis a enfermidades típicas de plantas enxertadas, como exocorte,
xiloporose e do declínio dos citros (Castro & Kersten, 1996). Especialmente
no caso do declínio, além das laranjeiras enxertadas sobre porta-enxertos
tolerantes, plantas produzidas a partir de cascas da própria cultivar-copa
parecem tolerantes a este, pela não-utilização do porta-enxerto (Zafarri et
al., 1993).
O enraizamento de estacas é um método de propagação assexuada que mantém as
características básicas da planta-mãe e incrementa o número de plantas
rapidamente, o que é de grande interesse para a citricultura. Muitas espécies
de citros podem ser propagadas por estacas (Platt & Optiz, 1973).
A obtenção de porta-enxertos por estaquia é uma prática que pode possibilitar,
além da redução do prazo na formação da muda, a obtenção de mudas tolerantes ao
declínio, possibilitando também a utilização de variedades monoembriônicas, com
características desejáveis e, ao mesmo tempo, a uniformidade do pomar. Além
disso, a produção de porta-enxertos pelo sistema tradicional é sazonal,
enquanto a estaquia pode ser realizada, teoricamente, em qualquer época do ano
(Zafarri et al., 1993).
De acordo com Grosser*, não há diferença no comportamento entre plantas
enxertadas sobre pé-franco ou de estaquia, observando-se apenas, nos seis
primeiros meses, um crescimento ligeiramente maior para as primeiras, porém
logo se equiparam.
Segundo Komissarov (1968), a época do ano em que a estaquia é realizada, é
fator determinante do sucesso, uma vez que está relacionada com o estádio do
ramo e com o grau de atividade dos processos fisiológicos das plantas. Os
efeitos favoráveis do tratamento com reguladores de crescimento traduzem-se em:
estímulo à iniciação radicular; aumento na porcentagem de estacas que formam
raízes; aceleração do tempo de formação das raízes, com conseqüente diminuição
da permanência das estacas no leito de enraizamento no viveiro (Sampaio, 1989).
Quanto ao substrato, dentre as composições diferenciadas favoráveis ao
enraizamento, indica-se a vermiculita devido às suas propriedades, como
capacidade de absorção de água em cinco vezes sua massa e fácil aeração,
insolubilidade em água e solventes orgânicos, pH levemente alcalino, alta
capacidade catiônica e tampão, além de ser um substrato inodoro e atóxico
(Gonçalves, 1995).
Aproximadamente 80% da citricultura encontra-se baseada em plantas enxertadas
em limão-cravo, situação esta que perdurou por muitos anos, até que fosse
observada a necessidade de diversificação dos porta-enxertos, principalmente
após o surgimento da Morte Súbita, doença que tem sido detectada em plantas
enxertadas sobre limão-cravo, na maioria dos casos.
Segundo Grosser* e Mourão Filho (2002), os porta-enxertos existentes não
possuem as características adequadas àquelas exigidas pela citricultura atual,
de modo que vêm desenvolvendo hibridação somática entre espécies, sendo que
estes novos porta-enxertos vêm sendo utilizados na forma de estacas.
Frente a esta necessidade de um melhor entendimento acerca da produção de
porta-enxertos por estaquia, realizou-se o presente trabalho, objetivando
estudar o comportamento de quatro porta-enxertos para citros, avaliando-se o
efeito da época de coleta das estacas e do tratamento com diferentes doses de
IBA (ácido indolbutírico).
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido em câmara de nebulização intermitente, localizada
no ripado, pertencente ao Departamento de Produção Vegetal da FCAV/UNESP,
Câmpus de Jaboticabal ' SP.
O município de Jaboticabal localiza-se a 21º15'S de latitude e 48º18'W de
longitude, com altitude ao redor de 595 m. O clima da região, baseado na
classificação de Köppen, é do tipo Cwa, ou seja, subtropical úmido com estiagem
no inverno.
Para a realização do experimento, foram utilizadas estacas herbáceas, com cerca
de 12 cm de comprimento, de Poncirus trifoliata, Citrus volkameriana, Citrumelo
Swingle e Citrus limonia, as quais foram imersas em soluções com 0; 100; 200 e
400 mg.L-1 de IBA (ácido indolbutírico), de acordo com o tratamento, por um
período de 14 horas. O material utilizado foi coletado no banco de germoplasma
da Fazenda Cambuhy, localizada no município de Matão, Estado de São Paulo. As
estacas foram colocadas em bandejas plásticas de dimensões 34 x 23,5 x 8,5 cm,
tendo como substrato vermiculita de textura média, e foram mantidas sob
nebulização intermitente. O experimento foi instalado em épocas distintas do
ano (primavera e outono), visando a uma análise do comportamento das estacas
quanto ao enraizamento.
O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado, tendo-se 4
concentrações de IBA, 4 porta - enxertos, 4 repetições, 10 estacas por parcela,
totalizando 160 estacas para cada porta-enxerto. Para a análise dos resultados,
utilizou-se do teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade.
As avaliações, realizadas 90 dias após a instalação do experimento, foram
quanto à: porcentagem de sobrevivência das estacas; porcentagem de
enraizamento; comprimento e número médio de raízes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Da análise das observações, têm-se que:
- Porcentagem de sobrevivência:a maior porcentagem de sobrevivência foi
encontrada para a testemunha (0 mg.L-1 IBA), com 81,80% de sobrevivência de
estacas, diferindo do observado com 100 (70,00%) e 200 mg. L-1 (68,94%), embora
semelhante à dose de 400 mg.L-1 (71,08%), como pode ser visto na Tabela_1.
Resultados contraditórios foram observados por Roncatto et al. (1999) e Roberto
et al. (2001), quando, estudando o efeito do IBA no enraizamento de estacas de
laranjeira-'Valência', verificaram que não há influência da dose de IBA no
percentual de estacas sobreviventes. Quanto aos porta-enxertos estudados
(Tabela_2), os maiores valores para porcentagem de sobrevivência foram
encontrados para Citrumelo Swingle (82,08%), seguido por Citrus limonia (73,29)
e diferindo significativamente do Citrus volkameriana (70,23) e Poncirus
trifoliata (66,25%). Em relação à época de coleta das estacas, pode-se
verificar maior percentual de sobrevivência para aquelas coletadas na primavera
(87,34%), diferindo significativamente das coletadas no outono (58,59%), como
mostra a Tabela_3.
- Porcentagem de enraizamento:não foi observada diferença significativa para
este parâmetro em relação à dose de IBA (Tabela_1). Resultados semelhantes
foram encontrados por Prati et al. (1999), em lima-ácida 'Tahiti', que
observaram não ser necessário o emprego de reguladores de crescimento para o
enraizamento de estacas. A variabilidade genética entre as espécies estudadas
foi marcante na indução radicular, como pode ser visualizado na Tabela_2, onde
há diferenças quanto às respostas, sendo o Citrus volkameriana que apresentou
os melhores resultados. Essa diferença varietal também foi relatada por Prati
et al. (1999), que observaram um enraizamento de 96% para a lima-ácida 'Tahiti'
e 0% para a laranjeira 'Valência'. Quanto à época do ano, as estacas coletadas
na primavera apresentaram 56,11% de enraizamento, diferindo significativamente
daquelas coletadas no outono (Tabela_3) e concordando com Hartmann et al.
(1990), os quais relataram que as estacas coletadas em um período de
crescimento vegetativo intenso (primavera/verão) apresentam-se mais herbáceas,
com melhor capacidade de resposta, e as colhidas em um período de repouso
vegetativo ou de dormência (outono/inverno) apresentam-se mais lignificadas e,
de modo geral, tendem a enraizar menos.
- Comprimento médio das raízes:não se verificou influência da dose de IBA no
comprimento de raiz (Tabela_1), o mesmo não ocorrendo com os porta-enxertos,
sendo que, como no caso anterior, o Citrus volkameriana foi o que apresentou
maior valor para este parâmetro (8,79 cm), seguido por Citrus limonia,
Citrumelo Swingle e Poncirus trifoliata, com 7,09; 6,73 e 0,94 cm,
respectivamente (Tabela_2). Similarmente, Santos et al. (1987) e Villas Boas et
al. (1987), em estudo sobre o enraizamento de outras espécies de citros,
verificaram uma diferença na resposta ao enraizamento em função da espécie.
Quanto à época do ano, como no caso anterior, as estacas coletadas na primavera
apresentaram maiores valores em relação àquelas coletadas no outono, como pode
ser visualizado na Tabela_3.
- Número médio de raiz:a maior dose de IBA, ou seja, 400 mg.L-1, foi a que
proporcionou maior número médio de raízes, possibilitando a formação de um
sistema radicular mais efetivo, diferindo dos tratamentos com 0 e 100 mg.L-1 de
IBA (Tabela_1). Resultados similares foram encontrados por Roncatto et al.
(1999), que verificaram um incremento no número de raízes por estaca com a
utilização de IBA, indicando sua eficiência em laranjeira Valência. Em relação
aos porta-enxertos, o Citrus volkamerianae Citrus limonia foram os que
apresentaram maiores valores para esta variável. A ocorrência de diferença
varietal para esta variável foi também observada por Prati et al. (1999), em
estudo realizado para avaliar o enraizamento de estacas das laranjas 'Pêra' e
'Valência' e da lima-ácida 'Tahiti', não verificando, entretanto, diferença em
função da dose de regulador empregada. Não foi observada diferença
significativa para esta variável em relação à época do ano.
CONCLUSÕES
Para as condições em que o experimento foi realizado, pode-se concluir que: o
Citrus volkameriana e o Citrus limonia mostraram resultados superiores aos
observados para as demais espécies em estudo; a porcentagem de sobrevivência é
influenciada pela dose de IBA, pelo porta-enxerto e pela época de coleta das
estacas; a porcentagem de enraizamento é influenciada pela espécie de porta-
enxerto e época de coleta das estacas, o comprimento médio das raízes é
influenciado pelo porta-enxerto e pela época de coleta das estacas, e o número
médio de raízes é influenciado pela dose de IBA e pela espécie de porta-enxerto
utilizada.