Índice de pegamento de frutos em goiabeiras
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICAA goiabeira (Psidium guajava L.) é uma planta cujo cultivo apresenta grande
importância econômica e social para o Brasil, especialmente nos estados de São
Paulo (68,3 %) e Pernambuco (10,3 %), responsáveis por 78,6 % das 260 mil t da
fruta produzidas no País em 1998 (AGRIANUAL, 2001). Em pomares antigos,
predominam plantas propagadas via semente; entretanto, nas últimas décadas,
tem-se utilizado a propagação vegetativa de cultivares mais adequadas à
produção comercial, obtidas em programas de melhoramento genético desenvolvidos
no Brasil. Dentre estas, pode-se citar as cultivares Pedro Sato, Rica e Paluma,
de aptidão mista, muito utilizadas para renovação ou implantação de novos
pomares, com destino prioritário à indústria, especialmente as duas últimas,
sendo a 'Paluma' a mais difundida no País (Kavati, 1996).
O comportamento das plantas quanto ao florescimento e frutificação pode variar
em função de uma série de fatores (genéticos, ambientais e de manejo dos
pomares), tais como tipo e posição das flores nos ramos, deiscência da antera,
clima, solo, espaçamento entre plantas, estado nutricional, poda, dentre outros
(Erickson, 1968; Rocha et al., 1990; Pereira, 1995; Davies & Albrigo, 1994;
Agustí, 1999; Araújo et al. 1999; Jutamanee et al., 2000). Dada essa variação,
torna-se importante o estudo do tema, a fim de definir padrões para conjuntos
de combinações dos fatores citados. Cameron & Frost (1968) chamam a atenção
para a importância da observação do comportamento de uma mesma variedade em
diferentes ambientes, com o objetivo de avaliar adequadamente suas
características genéticas.
A produção das plantas está intimamente relacionada ao florescimento e
frutificação. Conforme Forshey & Elfving (1977) e Dennis Jr. (1981), a
produção é função da densidade de plantio, densidade de flores, índice de
pegamento de frutos e tamanho dos frutos. De modo geral, para todas as
espécies, variedades e condições climáticas, a porcentagem de flores que vingam
numa planta, diminui com o aumento da densidade de flores; o tamanho do fruto
está inversamente relacionado à densidade de frutos (Forshey & Elfving,
1977; Dennis Jr., 1981; Agustí et al, 1982; Natale, 1993; Gravina et al.,
1996).
Na literatura, tem-se registrado sensíveis variações no índice de pegamento de
frutos para espécies e cultivares distintas. Em macieiras, Dennis Jr. (1986)
relata variação de 5 a 15 % no pegamento de frutos; nos cítrus observa-se de
104 a 2,5 x 105 flores lançadas por planta em uma safra, conforme a cultivar,
localização e estação, e um índice de pegamento oscilando entre 0,1 e 6 % do
total de flores emitidas (Goldschmidt & Monselise, 1977; Agustí et al.,
1982; Gravina et al., 1996). Em mangueira, esse índice não chega a 0,01 %
(Simão, 1980). Para goiabeiras, há poucos relatos quanto à retenção final de
frutos, com registros de valores de 6 a 20 % (Singh & Sehgal, 1968;
Feldberg et al., 1997).
Informações acerca do florescimento e frutificação das plantas têm importância
na caracterização biológica e em estudos comparativos de variedades, nos quais
são considerados o potencial de produção e a qualidade do fruto produzido
(Doni, 1974; Simão, 1980; Araujo, 2000), características essas relacionadas à
porcentagem de flores que são convertidas em frutos maduros (índice de
pegamento de frutos).
Segundo Alcázar (2000), o desenvolvimento de programas de melhoramento genético
em frutíferas perenes depende da adequada avaliação de variedades disponíveis
e, dentre as características consideradas mais importantes a serem avaliadas,
está a frutificação efetiva nas plantas. Lopes (1997) evidencia a necessidade
de conhecer-se e preservar-se os recursos biológicos, o que mantém a
diversidade e permite seu aproveitamento futuro.
Além disso, o índice de pegamento de frutos pode ser usado como um indicativo
precoce da produção e tem sido incorporado como componente de modelos
matemáticos para predição de produtividade e qualidade (tamanho) de frutos, com
objetivo de gerar, com antecedência, informações úteis para cotação de preços,
preparativos logísticos e comercialização da safra (Bustan et al., 1999;
Marcelis e Heuvelink, 1999).
Em pomares comerciais de goiabeiras, a queda de frutos pode significar redução
da receita ou mesmo prejuízo econômico para o produtor. Diante da perspectiva
ou constatação de queda acentuada de flores e frutinhos, em função da
ocorrência de pragas, moléstias ou temperaturas extremas, há a possibilidade de
adequação do manejo do pomar. Assim, pode-se racionalizar o uso de insumos
agrícolas, especialmente fertilizantes, cuja aplicação é feita total ou
parcialmente depois do florescimento das plantas, sendo possível redução nas
doses, compatibilizando-as com a menor produção esperada.
Diante do exposto, torna-se oportuno o conhecimento do comportamento de
goiabeiras cultivadas no Brasil, com vistas ao manejo dos pomares da forma mais
econômica possível. Assim, com este estudo, objetivou-se avaliar as cultivares
Pedro Sato, Paluma e Rica quanto ao índice de pegamento de frutos, em pomares
comerciais adultos, instalados no município de Taquaritinga, São Paulo.
O estudo foi desenvolvido em pomares de goiabeiras adultas, já em plena
capacidade produtiva, explorados comercialmente e apresentando elevada
produtividade anual (70 - 100 t ha-1). O solo da área é um Argissolo Vermelho-
Amarelo, textura média, localizado no município de Taquaritinga - SP (21o24' de
latitude Sul, 48o29' de longitude Oeste e altitude de 521 m). O clima da região
é do tipo Cwa, de acordo com a classificação de Köppen, com precipitação
pluviométrica em torno de 1350 mm por ano, distribuídos em média da seguinte
forma: 229; 262; 158; 60; 51; 17; 22; 33; 73; 98; 111; 236 mm de chuva,
respectivamente, de janeiro a dezembro dos anos de estudo.
O espaçamento das plantas nos pomares era de 7 metros entre linhas e 5 metros
entre árvores. O manejo fitossanitário foi realizado periodicamente, de acordo
com as recomendações técnicas da região, e o manejo da adubação conforme Natale
et al. (1996).
As avaliações foram realizadas entre os anos de 1999 e 2001. Para as cultivares
Paluma e Rica, foram feitas duas avaliações, uma em 1999-2000 e outra em 2000-
2001. Na primeira avaliação, tomaram-se 25 plantas da cv. Paluma e 8 da cv.
Rica e, na segunda avaliação, 8 plantas de cada cultivar. Para a cv. Pedro
Sato, foi feita uma avaliação, no ano de 2000, tomando-se 29 plantas.
Nos pomares de 'Paluma' e 'Rica' (ambas com cerca de 9 anos de idade no início
do estudo), as plantas foram submetidas à poda de frutificação em julho/agosto
e alcançaram o ápice do florescimento em outubro/novembro, nos dois anos
agrícolas considerados (1999-2000 e 2000-2001). No pomar de 'Pedro Sato'
(aproximadamente 7 anos de idade no início do estudo), a poda ocorreu em
janeiro e o ápice do florescimento no final de fevereiro/2000.
No auge do florescimento, foram marcados ramos à altura do terço médio da copa
das plantas. Na primeira avaliação das cvs. Paluma e Rica e na avaliação da cv.
Pedro Sato, foram marcados dois "ramos podados" por planta, um de cada lado,
voltados para a entrelinha. Esses ramos apresentavam comprimento entre 50 e 80
cm e número variado de brotações novas (ramos novos, produtivos). Já na segunda
avaliação das cvs. Paluma e Rica, foram marcados dez "ramos novos" por planta,
sendo que em quatro plantas marcou-se o ramo brotado na primeira gema e, nas
outras quatro, o ramo brotado na segunda gema vegetativa, a partir da
extremidade do ramo podado, em ambas as cultivares.
Durante as marcações, contaram-se o número de botões, flores e frutinhos por
ramo, bem como eventuais cicatrizes ou resquícios de tais estruturas já
perdidas. Cerca de 30 dias depois das marcações iniciais, realizou-se nova
contagem, registrando-se os novos botões emitidos.
A contagem dos frutos fixados foi feita uma semana antes do início da colheita
nos pomares de 'Paluma' e 'Rica', e, quando os frutos apresentavam diâmetro ³ 3
cm, no pomar de 'Pedro Sato'. O tempo total decorrido entre a 1a e a última
contagem foi de aproximadamente 120 dias para 'Paluma' e 'Rica', e 85 dias para
'Pedro Sato'.
A partir do número total de botões florais emitidos (NB), somadas primeira e
segunda contagens, e de frutos fixados (NF), calculou-se o índice de pegamento
de frutos, IP = (NF/NB)100, adaptado de Rocha et al. (1990).
A comparação entre cultivares, em cada um dos anos agrícolas avaliados, foi
feita através dos testes F e de Tukey, conforme delineamento inteiramente
casualizado, com número de repetições diferentes na safra 1999-2000.
Analogamente, comparou-se o pegamento de frutos em ramos novos originados da 1a
ou 2a gema de ramos podados a partir da extremidade do ramo podado. Essa última
comparação foi feita apenas na safra 2000-2001.
A análise estatística revelou a existência de diferenças significativas quanto
ao índice de pegamento de frutos entre as cultivares na primeira avaliação
(Tabela_1). Pela comparação de médias, apresentadas na Tabela_2, nota-se que a
'Pedro Sato' foi mais efetiva na retenção de flores emitidas (32,3 %) do que a
'Paluma' (19,9 %) e esta, mais efetiva do que a 'Rica' (10,7 %).
Na segunda avaliação, embora tenha ocorrido tendência de manutenção dos valores
de índice de pegamento observados para as cultivares Paluma (17,5 %) e Rica
(13,7 %), a diferença não foi significativa (Tabelas_1 e 2).
Vale ressaltar que o manejo de poda adotado no pomar de 'Pedro Sato' (época de
poda) foi diferente dos demais, de forma que o florescimento e desenvolvimento
dos frutos desta cultivar ocorreram mais tardiamente, sob condições climáticas
diferenciadas. Isso evidencia a importância do manejo dos pomares, conforme
ressaltaram Erickson (1968), Rocha et al. (1990), Pereira (1995), Agustí
(1999), Araújo et al. (1999), Jutamanee et al. (2000).
Os índices aqui obtidos para as cultivares Paluma e Rica estão próximos
daqueles relatados por Feldberg et al. (1997) para as mesmas cultivares,
havendo, contudo, inversão na ordem dos valores apresentados por esses autores,
cujo índice de pegamento da cv. Paluma (14,4 %) foi menor que o da cv. Rica
(19,3 %). Essa divergência pode estar relacionada a diferenças no espaçamento
de plantio, manejo do pomar ou mesmo particularidades climáticas locais, não
detalhadas no resumo publicado pelos referidos autores.
As três cultivares avaliadas neste estudo apresentaram índice de pegamento de
frutos superior aos 6% registrados por Singh & Sehgal (1968) em pomares da
Índia. Embora a densidade de flores possa ser importante, particularmente em
espécies e cultivares que apresentem clara alternância de produção, a fixação
de frutos está mais estreitamente relacionada à produção do que a densidade de
flores ou o tamanho de frutos (Forshey & Elfving, 1977; Dennis Jr., 1981).
Ao comparar-se a goiabeira com outras frutíferas perenes, como os citros,
verifica-se, nas primeiras, uma maior eficiência na retenção dos botões florais
até frutos maduros, pois, nos citros, os índices de pegamento de frutos
registrados na literatura têm oscilado entre 0,1 e 6 % (Goldschmidt &
Monselise, 1977; Agustí et al., 1982; Gravina et al., 1996). Segundo Becerra
& Guardiola (1984) e Monselise (1986), este é o fator determinante das
baixas produtividades em citros. Isso reflete, ao menos em parte, a diferença
produtiva das duas frutíferas; a goiabeira, de modo geral, potencialmente mais
produtiva, atingindo valores de até 100 t ha-1 em pomares comerciais, enquanto,
nos pomares comerciais mais produtivos de laranjas, a colheita atinge no máximo
cerca de 50 t ha-1.
Em mangueiras, a diferença é ainda maior, pois a retenção de flores até o
estágio de frutos maduros não ultrapassa 0,01 % do total emitido (Simão, 1980).
Quanto ao pegamento de frutos em ramos novos oriundos da primeira ou da segunda
gema, a partir da extremidade do ramo podado, não foram observadas diferenças
significativas (Tabela_3). Supõe-se que a quebra da dominância apical, em
virtude da execução da poda de limpeza e produção, elimine maiores diferenças
na capacidade de dreno dos ramos originados das duas primeiras gemas.
De acordo com Araujo (2000), resultados como os aqui apresentados contribuem
para a caracterização de genótipos individuais que fazem parte do germoplasma
da goiabeira no Brasil, enriquecendo o conjunto de informações disponíveis e
permitindo a escolha dos genótipos mais adequados às diferentes necessidades de
cultivo, ou em programas de melhoramento genético.
Sob as condições em que o estudo foi conduzido, o índice de pegamento de frutos
observado em plantas de goiabeira 'Pedro Sato', podadas no início do verão, foi
de 32,3 %; já as plantas das cultivares Paluma e Rica, podadas em meados do
inverno, apresentaram índice de pegamento de frutos em torno de 18,7 % e 12,2
%, respectivamente.