Influência de fatores fisiológicos de plantas-matrizes e de épocas do ano no
pegamento de diferentes métodos de enxertia do umbuzeiro
Influência de fatores fisiológicos de plantas-matrizes e de épocas do ano no
pegamento de diferentes métodos
de enxertia do umbuzeiro1INTRODUÇÃO
O umbuzeiro pertence à família Anacardiaceae. Em seu habitat, estende-se
através das áreas de caatinga do Nordeste brasileiro, e seu extrativismo ocupa
um lugar de destaque na composição da renda familiar dos agricultores pelo seu
expressivo valor comercial. Segundo Santos (1998), o negócio agrícola da
coleta, beneficiamento e comercialização dos frutos do umbu situa-se em torno
de 6 milhões de reais/ano.
Em relação ao mecanismo fisiológico de resistência à seca, alguns estudos têm
sido realizados para explicar tal mecanismo. Ferri (1955), Ferri &
Labouriau (1952), Oliveira & Labouriau (1961), Lima Filho & Silva
(1998) e, mais recentemente, Lima Filho (2001) concordam que o umbuzeiro exerce
rígido controle sobre o seu estado hídrico e que a abscisão foliar anual do
umbuzeiro ocorre mesmo quando a planta é cultivada em regiões úmidas com uma
boa hidratação nas folhas.
A época de realização e os métodos de enxertia encontram-se entre os fatores
externos que afetam ou que podem afetar o pegamento dos enxertos. Normalmente,
espécies lenhosas caducas, como as frutíferas de clima temperado, apresentam
ótimos índices de pegamento quando os enxertos são realizados em período de
repouso vegetativo (Hartmann et al., 1990; Fachinello et al., 1994).
Estudos referentes às melhores épocas e métodos de enxertia têm sido realizados
com outras espécies, como o conduzido por Gonzaga Neto (1982), que recomenda os
meses de agosto e setembro como os mais propícios para a enxertia em goiabeira
(Psidium guajava L.), muito embora, Gama et al. (1989) tenham identificado o
mês de maio como a melhor época para a enxertia da mesma cultura. Em relação
aos métodos de enxertias, Pinheiro et al. (1970) recomendam o método de
garfagem em fenda cheia para mangueira (Mangifera indica L). Ledo & Fortes
(1991) relatam que as garfagens em fenda cheia e inglesa simples são os métodos
recomendados para gravioleira (Annona muricata) e Holanda Neto et al. (1996)
recomendam as garfagens no topo em fenda cheia e à inglesa simples para
enxertia em cajueiro-anão-precoce.
Baseado no conhecimento existente, Pedrosa et al. (1991) relatam que a
borbulhia em janela aberta é o método de enxertia recomendado para o umbuzeiro.
Nascimento et al. (1993) ressaltam que produção de mudas de umbuzeiro em escala
comercial deve ser feita através da garfagem no topo em fenda cheia. Os autores
realizaram as enxertias em apenas uma fase do estádio fenológico da planta-
matriz do umbuzeiro, o que limita muito a disponibilidade de garfos para a
produção de mudas.
A necessidade de ampliar-se o período de coleta de garfos, para um maior
fornecimento de mudas, é uma das prioridades da pesquisa. O presente trabalho
tem como objetivo avaliar a influencia de fatores fisiológicos das plantas-
matrizes de umbuzeiro (Spondias tuberosa Arruda), as épocas de realização e os
métodos de enxertia sobre o pegamento dos enxertos.
MATERIAL E MÉTODOS
O trabalho foi realizado com o umbuzeiro (Spondias tuberosa Arruda) na Embrapa
Semi-Árido, situada a 45 km de Petrolina-PE. Conforme classificação de Köeppen,
o clima local é classificado como semi-árido quente BSwh', sendo as coordenadas
geográficas 09º 09' de latitude Sul e 40º 22' de longitude Oeste, e a altitude
de 365 m. Os dados climáticos observados ao longo de 33 anos mostram que a
temperatura média anual é de 26,3 ºC, com média mínima de 20,5 ºC, e média
máxima de 31,6 ºC; 61% de umidade relativa do ar e precipitação média anual de
570 mm.
Foram estudados três métodos de enxertia: garfagem no topo em fenda cheia ( T1
), garfagem no topo à inglesa simples ( T2 ) e borbulhia em "T" invertido ( T3
).
O estudo foi composto por cinco experimentos, cada um representando uma época
de enxertia (janeiro, março, maio, julho e setembro de 1998). O delineamento
empregado foi em blocos ao acaso, utilizando-se de três tratamentos (métodos de
enxertia), com oito repetições para cada época.
Os porta-enxertos foram formados com sementes provenientes de uma única planta
adulta da safra de 1997, de ocorrência espontânea, e receberam o enxerto aos
286 dias contados da semeadura quando apresentavam uma espessura média de 0,6 a
0,8 cm. Os garfos e borbulhas (semilenhosos), sempre do ano anterior, tinham
idade média dos tecidos de 12 meses.
As plantas das quais se retiraram os enxertos e se avaliaram as características
fisiológicas, foram propagadas vegetativamente. Estas plantas-matrizes tinham
sete anos de idade e fazem parte do Banco Ativo de Germoplasma de Umbu da
Embrapa Semi-Árido. Em cada época de enxertia, foi utilizada uma planta do
acesso para as avaliações das características fisiológicas e fornecimento do
enxerto.
As enxertias e as avaliações das características fisiológicas foram realizadas
nas distintas fases fenológicas, caracterizadas pela fase de crescimento
vegetativo, reprodutivo e o estádio de dormência (Tabela_1).
Os processos de enxertias foram realizados de acordo com a metodologia de
Hartmann et al. (1990). A avaliação do pegamento dos enxertos foi realizada aos
45 dias após a enxertia, contando-se o número de enxertos viáveis. Os tratos
culturais foram realizados de acordo com a necessidade da cultura.
Nas épocas de cada enxertia, foram também realizadas as avaliações do potencial
hídrico da planta, da taxa fotossintética líquida e da condutância estomática
nos horários das 9h e 13h e foram determinadas com o medidor portátil de
fotossíntese LICOR 6200 (Licor Inc, Nebraska, EUA). As leituras foram tomadas
de folhas maduras expostas ao sol, situadas nas bordas da projeção da copa do
umbuzeiro. Nas épocas de julho e setembro, considerou-se o valor zero para
fotossintese e condutância, haja vista que a planta se encontrava totalmente
sem folhas. A densidade de fluxo de fóton variou em média de 1400 a 1900 µmol/
cm2/s.
O potencial hídrico foi tomado de folhas maduras expostas ao sol, situadas nas
bordas da projeção da copa, pelo uso de uma bomba de pressão PMS (PMS, Utah,
EUA), e nas épocas de julho e setembro foi determinado em pequenas ramificações
(ramo com diâmetro médio de 2mm), e a umidade do solo foi determinada
gravimetricamente, amostrando-se três pontos eqüidistantes na projeção da copa,
nas profundidades de 0-20, 20-40 e 40-60 cm, utilizando um trado tubular de
ferro galvanizado com 3,8 cm de diâmetro.
Os fatores do ambiente, como a umidade relativa e a temperatura do ar, foram
monitorados por um higrômetro e termômetro, respectivamente, e armazenados em
coletor automático de dados modelo LI-1000. Os sensores e o coletor automático
de dados foram instalados no mesmo local onde se encontravam as plantas-
matrizes. As precipitações pluviométricas foram coletadas na Estação
Experimental de Manejo da Caatinga da Embrapa Semi-Árido, local onde se
realizaram os experimentos.
As análises estatísticas foram realizadas para avaliar as diferenças entre os
métodos de enxertias, em cada época e conjuntamente, considerando épocas,
métodos e a interação métodos versus épocas como efeitos fixos. No caso da
interação métodos versus épocas, fez-se a decomposição dos efeitos, avaliando-
se as diferenças entre os métodos em cada época, de acordo com recomendações de
Banzatto & Kronka (1989).
Os índices de pegamento dos enxertos foram submetidos à transformação angular
do arco-seno da raiz da proporção (X= arco-seno Ö%), de acordo com
recomendações de Snedecor & Cochran (1974). A significância entre o efeito
dos métodos de enxertia foi determinada pelo teste "F" e, nas comparações de
média, utilizou-se o teste de Tukey, a 5%.
Para as análises de correlações, utilizou-se o método de " forward selection"
(Draper & Smith 1966). Neste método, a ordem de inserção de variáveis é
determinada pelos coeficientes de correlação parcial. Os coeficientes de
correlações simples, entre o índice de pegamento dos enxertos e as
características fisiológicas da planta-matriz e fenológicas dos porta-enxertos,
foram testados utilizando o teste "t " de Student, a 5%, com o objetivo de
verificar o nível de significância.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As diferentes fases fenológicas das plantas-matrizes não alteraram o índice de
pegamento dos enxertos. Isto amplia o período de coleta de garfos, o que pode
melhorar a oferta de mudas ao longo do ano.
Os índices de pegamento dos enxertos, em todas as épocas estudadas (Tabela_2),
superaram os valores encontrados por Pedrosa et al. (1991), ou seja, 33%, 30% e
16% para os métodos de garfagem à inglesa simples, fenda cheia e borbulhia em
"T" invertido, respectivamente. Os autores não encontraram diferenças
significativas entre as garfagens e a borbulhia em "T" invertido, apesar de
terem trabalhado com a mesma espécie e sob condições de viveiro.
Em todas as épocas estudadas, não houve diferenças significativas entre as
enxertias de garfagens, no entanto, foram significativamente superiores à
borbulhia. A média de enxertos viáveis, 97,1%, para a garfagem em fenda cheia,
aliada à facilidade de execução deste método, permite indicá-lo como o melhor
para o umbuzeiro, independentemente da fenologia e dos fatores fisiológicos,
apesar de não ter apresentado diferenças significativas em relação à garfagem à
inglesa simples (Tabela_2).
Nas avaliações da taxa fotossintética líquida, observou-se que a mais alta taxa
foi no mês de janeiro, diminuindo sensivelmente nos meses seguintes, atingindo
zero em 17 de março e não mais voltando a atingir valores superiores a 1mmol de
CO2/m2/s (Figura_1). Este comportamento, em grande parte, reflete a
disponibilidade de água para a planta. A maior concentração de chuva foi no mês
de janeiro e fevereiro, com chuvas reduzidas em março e sem nenhuma chuva em
abril (Figura_2). Neste período de janeiro a março, a planta encontrava-se em
plena atividade fisiológica e consumia bastante água, o que pode ter
contribuído para uma queda de água disponível no solo neste mesmo período
(Figura_3).
A umidade do solo, via mecanismo de potencial hídrico ou déficit hídrico, pode
não apenas afetar a taxa fotossintética, mas também provocar redução da divisão
celular dos tecidos meristemáticos da planta, afetando seu crescimento
(Fachinello et al.,1994).
Observa-se na Figura_3 alta disponibilidade de água durante o período de
janeiro a fevereiro, estando próxima à capacidade de campo. Contudo, após o mês
de fevereiro, a umidade do solo permaneceu próxima ou abaixo do ponto de murcha
permanente.
Como a reserva natural para o abastecimento de água da planta é o solo, o teor
de umidade afeta diretamente o potencial hídrico da planta. Neste sentido,
observações do potencial hídrico da planta (Figura_4) mostraram valores mais
altos para os meses de janeiro e fevereiro, com uma progressiva diminuição após
estes meses. Diferenças no potencial hídrico das folhas entre 9h e 13h devem
ser maiores para os períodos de boa umidade do solo e mínimas para os períodos
de déficit hídrico (Hsiao, 1973). Entretanto, Morgan (1984), revisando o efeito
do ajustamento osmótico e potencial hídrico sobre as plantas, comenta que as
plantas superiores podem aumentar seu potencial hídrico sob condições de
déficit hídrico. Isto causaria o potencial hídrico das 13h ser superior ao
potencial das 9h, como mostra a Figura_4.
O efeito do déficit hídrico sobre mecanismo estomatal foi demonstrado por Boyen
(1970), Castro Neto (1991) e Salisbury & Ross (1992). Entretanto, o déficit
hídrico pode afetar a taxa fotossintética mediante mecanismo não estomático
(Berry & Dawnton, 1982; Krieg, 1983).
Os estudos conduzidos sobre o comportamento fotossintético do umbuzeiro são
raros. Neste trabalho, os dados de fotossíntese e condutância estomática
indicam que, inicialmente, durante a época das chuvas, a fotossíntese, tanto no
horário das 9 horas como às 13 horas, foi controlada por um mecanismo
estomático devido à redução da taxa fotossintética ser acompanhada por uma
diminuição da condutância estomática. Contudo, após o término do período das
chuvas (Figura_2), verificou-se um esgotamento da água disponível no solo
(Figura_3), levando-o a atingir seu ponto de murcha permanente.
Os dados obtidos sugerem que um mecanismo não estomático pode ser o principal
responsável pela inibição da fotossíntese do umbuzeiro, sob condições de
déficit hídrico. Esta sugestão parece provável devido ao aumento da condutância
estomática não provocar elevação ou aumento da taxa fotossintética do umbuzeiro
(Figura_1). Nesta situação, provavelmente, tenham ocorrido danos ao sistema de
enzimas do aparelho fotossintético, ou o estresse hídrico foi capaz de afetar a
atividade das membranas dos cloroplastos, como sugerem os autores Krieg (1983)
e Berry & Downton (1982); apesar disto, o percentual da enxertia não foi
afetado (Tabela_2). Para Medina et al. (1998), o decréscimo da fotossíntese em
laranjeiras foi ocasionado pelo aumento do déficit de pressão de vapor e da
temperatura ambiente.
Em relação ao controle estomatático, este mecanismo é o mais eficiente para o
controle de perdas de água das plantas, embora a planta tenha de enfrentar o
dilema de ter de economizar água e absorver CO2 pelo mesmo caminho, isto é, os
estômatos (Salisbury & Ross, 1992). Nos dados deste trabalho, observa-se
que, durante o período das chuvas, a condutância estomática apresentava-se
baixa, sugerindo, assim, um controle estomatal para a economia de água.
CONCLUSÕES
1. Os fatores fisiológicos, fotossíntese, potencial hídrico, resistência e
condutância estomática, observados na planta-matriz, nas diferentes fases
fenológicas, não influenciaram o índice de pegamento dos diferentes métodos de
enxertia do umbuzeiro.
2. Os métodos de enxertia por garfagem em fenda cheia e à inglesa simples
apresentaram maiores índices de pegamento, em média 97,1 e 92,4%,
respectivamente.
3. O material vegetativo (garfos) obtido nas épocas de coleta (fases
fenológicas) não afetou a porcentagem de pegamento das enxertias realizadas
pelos métodos de garfagem em fenda cheia e à inglesa simples, o que amplia a
oferta de mudas ao longo do ano.