Armazenamento refrigerado sob atmosfera modificada de pedúnculos de cajueiro-
anão-precoce dos clones CCP-76, end-157, end-183 e end-189
Armazenamento refrigerado sob atmosfera modificada de pedúnculos de cajueiro-
anão-precoce dos clones
CCP-76, end-157, end-183 e end-1891INTRODUÇÃO
O crescimento do consumo de pedúnculo de cajueiro-anão-precoce (Anacardium
occidentale L. var. nanum) como fruta de mesa vem aumentando consideravelmente
a cada safra, tanto pela abertura de novos mercados como pela consolidação dos
mercados tradicionais (Filgueiras & Alves, 2001). Isto ocorreu devido
principalmente aos novos plantios feitos com cajueiro-anão-precoce que, por
apresentarem porte baixo, permitem a colheita manual com maior aproveitamento e
redução de perdas (Paiva et al., 1998).
Até muito recentemente, os pedúnculos eram vendidos exclusivamente em feiras
locais, porém hoje alcançam supermercados em outras partes do País, localizadas
a mais de 4.000 km do local de produção, podendo ser mantidos em boas condições
por até quinze dias após a colheita (Filgueiras et al., 1999), devido ao
desenvolvimento de técnicas adequadas de manuseio e conservação pós-colheita,
como o uso da refrigeração associada a modificação da atmosfera. Nestas
condições, a conservação pós-colheita de pedúnculos de caju, que em temperatura
ambiente é de apenas 1 dia, aumentaria para, pelo menos, 10 dias (Menezes,
1992; Menezes & Alves, 1995; Alves et al., 1998; Figueiredo, 2000).
Paiva et al. (1998) destacaram que, na seleção do clone para a produção de
pedúnculos com características comerciais, a qualidade do produto é de
fundamental importância. Com a grande variabilidade genética existente, faz-se
necessário selecionar pedúnculos que atendam às exigências da comercialização,
tais como: alta resistência ao manuseio, avaliada através da firmeza; formato
piriforme, de fácil disposição nas embalagens utilizadas; altos teores de
açúcar e vitamina C; baixa adstringência; e coloração vermelha (Alves et al.,
1998). Além disso, o consumidor prefere pedúnculos de cor laranja a vermelha e
de tamanho grande, ou seja, dos tipos 4 ou 5 (de acordo com o número de cajus/
bandeja). Esses tipos alcançam os melhores preços no mercado.
A partir dos genótipos em estudo no Programa de Melhoramento Genético do
Cajueiro-Anão-Precoce da Embrapa Agroindústria Tropical, Moura (1998)
selecionou, além do CCP 76, tradicionalmente plantado para o mercado de frutos
in natura, os clones END 157, END 189 e END 183 como os mais promissores.
O presente trabalho tem como objetivo avaliar o uso das condições de
armazenamento atualmente utilizadas a nível comercial, ou seja, refrigeração
(5ºC) associada a atmosfera modificada por filme plástico, sobre a conservação
pós-colheita de pedúnculos dos clones de cajueiro-anão-precoce CCP 76, END 157,
END 183 e END 189.
MATERIAL E MÉTODOS
Os pedúnculos foram obtidos de um experimento de competição de clones de
cajueiro-anão-precoce em avaliação no Programa de Melhoramento da Embrapa
Agroindústria Tropical, instalado sob irrigação na Empresa Mossoró
Agroindustrial S.A. (MAISA), em Mossoró-RN. Foram avaliados quatro clones (CCP
76, END 157, END 183 e END 189), selecionados em experimento anterior realizado
por Moura (1998), sendo o CCP-76 utilizado como testemunha, por ser o mais
cultivado atualmente para o mercado de mesa.
Os cajus foram colhidos manualmente, no período mais fresco da manhã, e
colocados em caixa de colheita em apenas uma camada, para evitar danos físicos.
Em seguida, foram transportados até o Laboratório de Fisiologia e Tecnologia de
Pós-Colheita da Embrapa Agroindústria Tropical, onde foram submetidos a uma
lavagem com hipoclorito de sódio a 50ppm e colocados para secar em temperatura
ambiente. Os cajus, em número de quatro, foram dispostos em bandeja de isopor e
envolvidos com filme plástico (atmosfera modificada) de PVC (15 micra). Após a
pesagem das bandejas, as mesmas foram submetidas a refrigeração (5 ±1ºC e 85±3%
de U.R.) em câmaras que eram diariamente monitoradas através de um
termoigrômetro. No tempo 0 (colheita), e a cada cinco dias, três bandejas eram
retiradas, pesadas e os pedúnculos avaliados quanto à aparência (senescência) e
firmeza. Em seguida, os mesmos foram cortados em quatro pedaços iguais no
sentido longitudinal e distribuídos em sacos transparentes de polietileno de
baixa densidade com fecho hermético, devidamente identificados e armazenados em
"freezer" (-20ºC) para posteriores análises físico-químicas e químicas.
As avaliações realizadas foram as seguintes: perda de peso - em balança semi-
analítica; firmeza da polpa - com penetrômetro manual FT011; senescência -
escala de notas de 0-4 (0 = pedúnculos com aparência boa, resistente ao choque
mecânico, isento de cheiro e enrugamento; 1 = manchas pequenas de mudança de
cor; 2 = descoloração em aproximadamente metade do pedúnculo; 3 = perda de
brilho, mudança total de coloração e presença de depressão, característica de
contato com a embalagem; e 4 = liberação espontânea do suco, presença de
fungos, cheiro desagradável, imprestável para o consumo), sugerida por Menezes
(1992) e Figueiredo (2000); sólidos solúveis totais (SST), acidez total
titulável (ATT) e pH (IAL, 1985); açúcares solúveis totais (AST), conforme Yemn
& Willis (1954); vitamina C total (Strohecker & Henning, 1967);
compostos fenólicos (Reicher et al., 1981); e antocianinas totais (Francis,
1982).
O experimento foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado (DIC), em
esquema fatorial 4X6 (clones x tempo de armazenamento). Foram utilizadas 3
repetições, representadas por cada unidade experimental, ou seja, bandeja de
isopor contendo 4 cajus. A partir dos resultados preliminares da análise de
variância, verificando-se interação significativa entre os fatores, o tempo foi
desdobrado dentro de cada clone e os resultados submetidos à regressão
polinomial, considerando-se equações de até 3ºgrau. O coeficiente de
determinação mínimo para a utilização das curvas foi de 0,70.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
De forma geral, as análises de variância revelaram interações significativas
para as características avaliadas, com exceção de SST, perda de peso e firmeza
da polpa, para as quais houve efeito significativo do tempo e, para firmeza,
que também houve efeito dos clones.
O uso da atmosfera modificada, independentemente dos clones, propiciou uma
perda de, peso de no máximo, 1,4% ao final do período de armazenamento (Figura
1A), podendo ser considerada baixa para o caju, pois não resulta em nenhum
sintoma de murchamento. Resultados semelhantes foram encontrados por Menezes
(1992), trabalhando com pedúnculos de cajueiro comum, e Figueiredo (2000), em
trabalho realizado com pedúnculos de cajueiro-anão-precoce CCP 76, que
encontraram, respectivamente, 0,8% (14 dias) e 1,2% (25 dias) de perda.
Nos pedúnculos dos clones estudados neste trabalho, houve um decréscimo gradual
da firmeza até 15 dias de armazenamento. Após esse tempo, verificou-se que essa
característica tendeu à estabilização (Figura_1B). Os clones CCP 76, END 183 e
END 189, pelo teste de Tukey a 5%, não apresentaram diferença estatística;
apenas o clone END 157 apresentou pedúnculos mais firmes (dados não
apresentados). De modo geral, a firmeza da polpa dos pedúnculos aqui avaliados
foi superior à encontrada por Menezes (1992), usando condições de armazenamento
semelhantes a esse trabalho.
Em relação à qualidade interna, apesar de ter sido observada interação
significativa para a maioria das características (AST, ATT, SST/ATT e pH),
praticamente não houve variação em relação ao tempo e/ou aos clones (dados não
apresentados). Os pedúnculos apresentaram, em média: SST = 10,7ºBrix; AST =
8,6%; ATT = 0,35g ácido málico/100g; SST/ATT = 31,25; e pH = 4,6, valores esses
dentro das faixas reportadas por Pinto et al. (1997) e Moura et al. (2000) para
pedúnculos de clones de cajueiro-anão-precoce.
Pela escala de senescência utilizada, os pedúnculos que apresentaram nota
superior a 2, já se apresentam com um padrão de qualidade externa inferior
(perda de brilho e perda da cor característica), ao exigido pelo mercado; pode-
se constatar que os clones END 157 e END 189 (Figura_2A) foram os que mostraram
menor vida útil pós-colheita (entre 10 e 15 dias) nas atuais condições
comerciais utilizadas, ou seja, 5ºC e 85-90% de UR.
A essa temperatura, a vida útil dos pedúnculos parece estar associada de forma
inversa à intensidade de cor vermelha (Figura_2B). De acordo com Moura et al.
(2001), os clones estudados nesse experimento, em termos de intensidade de
coloração vermelha, medida através do teor de antocianinas totais na película,
seguem a seguinte ordem decrescente: END-189, END-157, CCP-76 e END-183, com
teores médios de 76; 59; 37 e 18 mg/100g, respectivamente. Apesar de terem sido
observadas nessa pesquisa diferenças quanto aos teores, também foi observada a
mesma seqüência. Os resultados obtidos (Figuras_2A e B) indicam que pedúnculos
mais vermelhos são mais suscetíveis a danos pelo frio e que, nessas condições,
a temperatura utilizada não seria adequada para a conservação dos mesmos, tendo
em vista a perda da coloração vermelha característica, avaliada através do
conteúdo de antocianinas totais.
Como muitas substâncias podem coexistir com as antocianinas nos vacúolos, não
há dúvida de que alguns podem interagir com as mesmas, resultando na prevenção
da perda de cor ou igualmente no aumento da cor. A natureza química,
concentração, presença de pigmentos, pH, presença de compostos conhecidos como
copigmentos e, algumas vezes, a presença de certos íons metálicos, parecem ser
os principais fatores que influenciam a cor das antocianinas contidas no meio
(Brouillard, 1983; Stafford, 1990).
O pH, no entanto, é o mais importante fator que afeta a cor das antocianinas
(Mazza & Brouillard, 1987). Agindo como indicadores de pH, as antocianinas
são vermelhas com pH baixo, incolores em pH intermediário e azuladas em pH
elevado (Bate-Smith, 1954; Wrolstad et al. 1970; Mazza & Brouillard, 1987).
De acordo com Murata (1990), em geral, o principal efeito do armazenamento de
frutos sob condições que provocam danos pelos frio, é a separação de fase
(transição) dos lipídios polares das membranas celulares e/ou diminuição do
transporte ativo para dentro da célula. O repentino aumento na permeabilidade
da membrana, no começo do dano pelo frio, pode resultar em desnaturação de
membranas, tais como plasmalema e tonoplasto (vacúolo). Em conseqüência disso,
o pH mais baixo do conteúdo do vacúolo, em contato com o pH externo, pode
sofrer aumento, provocando as alterações observadas (perda de cor).
Segundo Menezes (1992), o uso de ambiente refrigerado para o armazenamento de
pedúnculos de caju é decisivo para o prolongamento de sua vida útil pós-
colheita, já que, em temperatura ambiente, a vida útil do material é de apenas
1 dia, e em ambiente refrigerado, este período aumentaria para 10 dias.
Pelos resultados obtidos neste experimento, não se observou infecção fúngica
durante os 25 dias de armazenamento. De acordo também com Menezes (1992), isso
provavelmente ocorre devido à presença de elevados teores de compostos
fenólicos, especialmente dímeros e oligoméricos no início do armazenamento
(Figura_3A e B).
Houve uma tendência geral de diminuição no teor de todos os compostos fenólicos
durante o período de armazenamento (Figura_3A, B e C). Segundo Menezes e Alves
(1995), isso geralmente ocorre durante o armazenamento refrigerado de
pedúnculos do caju, o que também foi observado por Figueiredo (2000) com
pedúnculos do clone CCP-76.
Como para outras características de qualidade interna, a variação no teor de
vitamina C total foi pequena, com exceção do clone END 189 (Figura_3D). A
vitamina C está presente nos tecidos vegetais, principalmente na forma de ácido
ascórbico reduzido (AA) . Esse composto pode ser oxidado, de modo reversível, a
ácido deidroascórbico (DHA). De acordo com Mapson (1970), essas oxidações
ocorrem via enzimas ou na presença de metais.
Geralmente, a modificação da atmosfera resulta numa maior retenção de ácido
ascórbico, devido principalmente à menor disponibilidade de O2 no interior da
embalagem (Kader, 1986), o que não aconteceu no END, 189 que sofreu mais danos
pelo frio. Esse clone, assim como para vitamina C, também apresentou uma
redução mais pronunciada nos compostos fenólicos ao final do experimento.
CONCLUSÕES
1. O uso da refrigeração (5ºC e 85% U.R), associada a atmosfera modificada,
proporcionou uma vida útil pós-colheita de até 10 dias para o clone END 189, 15
dias para o clone END 157 e de até 25 dias para os clones CCP 76 e END 183.
2. A temperatura de 5ºC não se mostrou adequada para armazenamento de
pedúnculos de coloração mais intensa (END 157 e END 189) que a testemunha (CCP
76), provocando perda de cor (antocianinas) a partir do 10º dia de
armazenamento.