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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452002000300009

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0100-2945
ano2002
Issue0003
Article number00009

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Caracterização físico-morfológica de frutos de microtangerinas (Citrus spp.) de potencial utilização como porta-enxertos INTRODUÇÃO As plantas cítricas são originárias das regiões úmidas tropicais e subtropicais do continente asiático e ilhas adjacentes. No Brasil, as citrinas foram introduzidas pelos portugueses por volta de 1540, provavelmente na Bahia (Moreira & Moreira, 1991).

A citricultura é atualmente uma importante atividade socioeconômica, em que a cultura comercial tem por base a muda enxertada, que está alicerçada sobre um número muito reduzido de porta-enxertos, com ampla predominância do limoeiro- 'Cravo', cuja participação nos pomares pode variar desde 70 até 100%. A preferência pela referida espécie está relacionada à sua ampla adaptação às variações de solo e clima e combinação com a maioria das variedades-copa, induzindo grande produção de frutos de boa qualidade. Seria um ideótipo como porta-enxerto, não fosse sua suscetibilidade ao 'declínio dos citros', de causa desconhecida, e à gomose de Phytophthora.

Levantamento realizado em viveiros do Estado de São Paulo pelo Fundecitrus ' Fundo de Defesa da Citricultura, em 1998, revela que a situação praticamente não se alterou: o limoeiro- 'Cravo' lidera com 81,2 % das plantas, seguido pela tangerineira-'Cleópatra' (8,3%), citrumelo 'Swingle' (5,9%) e tangerineira- 'Sunki' (2,2%), que somados correspondem a 97,6% do total de variedades (Salva,1998 ' Informação Pessoal).

A grande maioria dos cultivos de citros no mundo esteve por muito tempo assentada sobre um número muito reduzido de porta-enxertos: a laranjeira- 'Azeda' Citrus aurantium L., o limoeiro-'Rugoso-da-Flórida' C. jambhiri Lush., o limoeiro-'Cravo' C. limonia Osbeck, e o 'Trifoliata' Poncirus trifoliata Raf.

(Salibe, 1978; Wutscher, 1979).

A importância do porta-enxerto para a citricultura, segundo Salibe (1978), traduz-se pelas inúmeras influências e modificações que ele exerce na variedede-copa, passando pelo vigor, produção, qualidade dos frutos, nutrição e resistência a pragas e doenças. Para que essas características sejam atingidas, outras espécies e variedades têm sido experimentadas e recomendadas, numa tentativa de diversificação racional, visando a maior segurança para a citricultura, conforme salienta Pompeu Júnior (1991).

As tangerineiras constituem um grupo de plantas de particular interesse como porta-enxertos, pois, além da tolerância natural ao vírus da tristeza e ao declínio dos citros, induzem a produção de frutos de boa qualidade. Ressalta-se que a tangerineira-'Cleópatra' é considerada suscetível à anomalia "declínio" (Muller et al., 1997). Dois exemplares bem conhecidos no Brasil são as tangerineiras 'Cleópatra' e 'Sunki', que também podem ser agrupadas como "microtangerinas". O termo microtangerinas proposto refere-se ao pequeno tamanho das folhas, flores e especialmente frutos, constituindo-se num grupo aparentemente homogêneo.

Devido à permanente necessidade de diversificação de variedades porta-enxertos e ao crescente interesse pelas microtangerinas, realizou-se o presente trabalho objetivando a caracterização física e morfológica dos frutos, de forma a propiciar maior conhecimento desse grupo de plantas e oferecer subsídios para futuras pesquisas.

O grupo das microtangerinas Segundo Hodgson (1967), as tangerineiras originaram-se, provavelmente, no Nordeste da Índia ou no Sudeste da China. Esse autor refere-se à existência de uma forma primitiva chamada C. indica Tanaka, nas florestas de Assã, além da ocorrência de numerosos híbridos e outras formas não localizadas em outras partes do mundo.

O termo microtangerinas aqui referido compreende as espécies e variedades de Citrus spp., caracterizadas por apresentar folhas, flores e especialmente frutos pequenos, sendo os frutos normalmente ácidos. Essa denominação aproxima- se da expressão "small ' fruited mandarins" usada por Hodgson (1967). De acordo com o citado autor, tendo por referência principalmente Tanaka (1954), "as tangerineiras de frutos pequenos" são compostas de 16 espécies, sendo que sete destas têm importância horticultural.

Donadio et al. (1998), em recente publicação Tangerinas ou Mandarinas, referem- se ao termo microtangerinas, as quais são representadas por várias espécies e usualmente utilizadas como porta-enxertos. Baseado na classificação hortícola das tangerineiras proposta por Hodgson (1967), Pio (1997) refere-se ao grupo das microtangerinas como "tangerineiras de pequenos frutos", citando entre elas as conhecidas 'Cleópatra' e 'Sunki'.

Os dois sistemas taxonômicos mais importantes e amplamente aceitos para citros, com relativas divergências, foram organizados por Swingle (1943) e Tanaka (1954). O primeiro reconheceu 16 espécies de Citrus, enquanto o segundo reconheceu 159 espécies válidas. Para as tangerineiras, Tanaka (1954) reconheceu um total de 36 espécies, divididas em 5 grupos taxonômicos. Destas 36 espécies, Swingle (1967) reconheceu somente três: C. tachibana (Japão), C.

indica (Índia) e C. reticulata, na qual posicionou todas as outras.

Em estudos recentes desenvolvidos no Brasil a respeito da diversidade genética entre as tangerineiras, Coletta Filho et al. (1998), utilizando marcadores moleculares tipo RAPD, sustentam a classificação das tangerinas como espécie única (C. reticulata Blanco) proposta por Swingle (1943). Esses autores propõem, ainda, que as tangerineiras são compostas de diferentes grupos taxonômicos ' formados de indivíduos geneticamente diferentes e um grande número de híbridos - pertencentes à referida espécie.

Entre as variedades do grupo das tangerineiras, as de importância como porta- enxerto são as microtangerinas 'Cleópatra' (C. reshni Hort. ex Tan) e 'Sunki' (C. sunki Hort. ex Tan). Além destas, outras cinco espécies têm importância horticultural: C. amblycarpa ('Nasnaran'), C. pectinifera (C. depressa), C.

kinokuni, C. oleocarpa ('Timkat'), C. lycopersicaeformis ('Heennaran').

MATERIAL E MÉTODOS O estudo foi conduzido no Departamento de Horticultura da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA/UNESP), Câmpus de Botucatu. As variedades de microtangerinas avaliadas foram provenientes do Banco Ativo de Germoplasma de Citros (BAG- Citros) da FCA/UNESP, Botucatu e do BAG-Citros do CCSM/IAC, Cordeirópilis-SP.

Incluiu-se também o limoeiro-'Cravo' como testemunha.

A classificação taxonômica das espécies usadas está resumida na Tabela_1, de acordo com os dois principais sistemas propostos para as plantas cítricas: Swingle (1943) e Tanaka (1954).

As tangerineiras colhidas em Botucatu foram: 'Cleópatra' (clones CLE 1 e CLE 352); 'Sunki' (SUN 1, SUN 375); 'Suen Kat' (KAT 418); 'Pectinífera' (PEC); 'Nasnaran' (NAS 1 e NAS 2); 'Sun Chu Sha Kat' (KAT e KAT 1004); 'Crenatifolia' (CRE); e o limoeiro-'Cravo' (clone Limeira). Do CCSM foram colhidas as tangerineiras 'Cleópatra' 352 (199), 'Sunki' 375 (200), 'Suen Kat' 418 (202), 'Nasnaran' (705), 'Sun Chu Sha Kat' 1004 (234), 'Tachibana' (708) (TAC), 'Pectinífera' 372, 'Keraji' 461 (KER), 'Heennaran' (HEN) e limoeiro-'Cravo'- Limeira. Entre parênteses, indica-se o novo número do acesso no BAG-Citros do CCSM. O 'Nasnaran' do CCSM, proveniente da Califórnia, corresponde ao clone NAS 2 de Botucatu.

Para a avaliação dos atributos físicos e morfológicos, foram colhidos frutos maduros em junho do BAG-Citros de Botucatu, em 1995 e 1996, e frutos coletados em julho de 1996, junto ao BAG-Citros do CCSM-IAC, em Cordeirópolis-SP. Para comparação, incluíram-se frutos de tangerineira-'Poncã', colhidos em 1996, em pomar comercial de 12 anos de idade da Fazenda Morrinhos - Companhia Agrícola Botucatu.

Foram colhidos 100 frutos de duas plantas por variedade, nos diferentes quadrantes da copa, que foram armazenados em sacos plásticos, em câmara fria, a + 4 oC . Os frutos foram então misturados em caixa de colheita e em seguida tomadas, ao acaso, quatro subamostras de 10 frutos cada, num total de 40 frutos por variedade.

Foram avaliados os seguintes atributos: peso médio, altura, largura e índice de conformação; forma do fruto, da base e do ápice; coloração e superfície da casca (epicarpo), conforme recomendação de IBPGR (1988), Cereda et al. (1984) e Pio et al. (1991). Após estas mensurações, os frutos foram seccionados transversalmente e determinaram-se a espessura da casca, número de gomos ou segmentos, número de sementes normais e abortadas, diâmetro do eixo ou columela, aderência da casca e cor da polpa. As medidas foram tomadas com auxílio de paquímetro.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Os dados obtidos estão apresentados na Tabela_2. Os valores referentes a peso e dimensões do fruto, auxiliam na própria denominação do grupo de plantas - microtangerinas - citadas por Hodgson (1967) como "small fruited mandarins", especialmente aquelas incluídas nos grupos IV e V propostos por Tanaka (1954).

As tangerineiras 'Sunki' e 'Nasnaran' são representantes do grupo com frutos de menores peso e dimensão (Tabela_2). C. tachibana, pertencente ao BAG-citros de Cordeirópolis, também se constitui numa típica microtangerina. Apenas para efeito de comparação, a tangerina- 'Poncã' tem um peso médio aproximadamente 10 vezes superior a NAS 1 e 9,6 vezes superior a SUN 375, embora o peso médio de 'Poncã', no presente trabalho (165g ), seja pouco superior ao descrito por Figueiredo (1991), que é de 138g.

Em um nível intermediário de peso de fruto, situam-se os clones de 'Cleópatra', CRE, PEC e HEN. Os clones de 'Sun Chu Sha Kat' e C. keraji (KER) apresentam frutos de peso e dimensão ligeiramente maiores. Com relação ao clone KAT 418, que originalmente é tido como um "tipo" de C. sunki e denominado 'Suen Kat' (Tabela_1) conforme Tanaka (1954), o mesmo apresentou peso, dimensão e número de sementes bem superiores aos outros clones de 'Sunki' (SUN 1 e SUN 375).

Dessa forma, pelas características descritas, 'Suen Kat' apresenta-se mais relacionado botanicamente com as tangerineiras 'Cleopatra' e 'Sun Chu Sha Kat'.

Hodgson (1967) adota como sinonímias para a espécie C. sunki, os termos 'Suen Kat' e 'Sun kat' uma mandarina azeda do Sul da China, enquanto Swingle (1943) se refere a 'Sün Kat' como C. reticulata var. austera, e que os tipos chamados 'Kat' seriam formas dessa variedade. Conforme relatou Swingle (1943) acerca da possível origem híbrida de 'Suen Kat' (C. sunki x C. reticulata) e pelos resultados obtidos neste trabalho - maiores peso e dimensão do fruto, número de sementes, taxa de poliembrionia (dados não publicados) e cujas características foram repetidas nos BAG-Citros de Botucatu e Cordeirópolis - propõe-se que 'Suen Kat' seja incluída como uma variedade de Citrus sunki e não somente um clone respectivo.

O número de sementes do fruto é, a princípio, uma condição fundamental para uma variedade constituir-se um bom porta-enxerto. As variedades que produziram maior número de sementes normais ou viáveis foram 'Cleópatra', 'Sun Chu Shu Kat', KAT 418 e 'Heennaran'. Produziram poucas sementes os clones de 'Sunki', e as variedades KER e TAC. Note-se que o baixo número de sementes nomais de 'Sunki' parece estar relacionado com o alto número de sementes abortadas (Tabela_2), enquanto o uso de clones polinizadores mais eficientes e identificados por Medina Filho et al. (1992) poderia atenuar essa deficiência.

Para 'Nasnaran', o número de sementes por fruto, variando de 9 a 10, confirma os resultados obtidos por Gravina (1989).

Com relação à variação entre os dois locais de amostragem de frutos, chama atenção o clone KAT 1004, que apresentou maior peso de frutos e menor número de semente no BAG-Citros de Cordeirópolis, em relação a Botucatu (Tabela_2). Essa variação pode estar relacionada à alternância de produção que ocorre normalmente nas variedades de tangerineiras (Figueiredo, 1991), em anos consecutivos.

Os detalhes da forma do fruto, base e ápice e coloração da casca constam na Tabela_3. Verifica-se ser predominante a forma oblata, característica típica das tangerineiras (Pio, 1997). As tangerinas 'Sunki' e 'Nasnaran' apresentaram uma variação no formato (oblata-esférica), conforme está indicado pelos índices de conformação mais elevados. A base variou de truncada a côncava e o ápice de deprimido a truncado. A cor da casca predominante foi a laranja e suas variações, sendo amarela em 'Nasnaran' e 'Tachibana'.

CONCLUSÕES 1 - As microtangerinas estudadas apresentaram características semelhantes quanto à forma oblata dos frutos e coloração predominante laranja. Citrus amblycarpa , C. sunki e C. tachibana produziram os frutos de menor tamanho e espessura de casca. Houve diferenciação na dimensão dos frutos e número de sementes normais e abortadas.

2 - O maior número de sementes por fruto foi encontado nas tangerineiras 'Cleópatra', 'Sun Chu Sha Kat', 'Suen Kat' e 'Heennaran', enquanto nos clones de 'Sunki' predominou um elevado número de sementes abortadas em detrimento do baixo número de sementes normais.

3 - Propõe-se considerar 'Suen Kat' (Kat 418) como uma variedade de Citrus sunki, por apresentar peso e dimensões do fruto e número de sementes por fruto significativamente superiores aos clones respectivos de 'Sunki' descritos.


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