Caracterização fenológica da videira cv. Itália (Vitis vinifera L.) sob
diferentes épocas de poda na região norte do estado do Rio de Janeiro
Caracterização fenológica da videira cv. Itália (Vitis vinifera L.) sob
diferentes épocas de poda na região norte do estado do Rio de Janeiro1INTRODUÇÃO
A caracterização fenológica e a quantificação das unidades térmicas necessárias
para a videira completar as diferentes fases do ciclo produtivo fornecem ao
viticultor o conhecimento das prováveis datas de colheita, indicando o
potencial climático das regiões para o cultivo da videira (Pedro Júnior et al.,
1993).
Em clima tropical semi-árido, a videira apresenta um comportamento totalmente
distinto daquele apresentado nas regiões de clima subtropical e temperado,
estando condicionada ao controle da irrigação e à época de poda. Pode-se dizer
que as condições climáticas influem na fenologia e fisiologia das plantas, e na
produção e qualidade dos frutos (Albuquerque & Albuquerque, 1982).
Em regiões de clima tropical e de baixa altitude, como não ocorrem temperaturas
inferiores a 12ºC, o repouso da videira só pode ser obtido por suspensão da
irrigação, o que implica submetê-la a uma deficiência hídrica (Assis & Lima
Filho, 2000).
Segundo Terra et al. (1998), na região de Jales (SP), o ciclo da videira
'Itália' é de aproximadamente 150 dias, enquanto, na região de São Miguel
Arcanjo (SP), é de cerca de 180 dias. No Nordeste semi-árido brasileiro, o
ciclo varia em torno de 120 dias(Leão, 2000).
Com relação à videira 'Niagara Rosada', Pedro Júnior et al. (1993) verificaram
uma necessidade térmica de 1330 graus-dia, com variação em função do local, de
1248 a 1386 graus-dia. Contudo, a época de poda não afetou no total de graus-
dia necessários para completar o ciclo num mesmo local. Para a mesma cultivar,
Ferri (1994) obteve, na região de Jundiaí, um ciclo produtivo médio de 159 dias
e uma necessidade térmica de 1589 graus-dia.
Galet (1983), citado por Pedro Júnior et al. (1993), subdividiu o ciclo da
videira nos seguintes períodos: a) crescimento: da brotação ao fim do
crescimento; b) reprodutivo: da floração à maturação dos frutos; c)
amadurecimento dos tecidos: da paralisação à maturação dos ramos; d)
vegetativo: do "choro" à queda das folhas; e) repouso: entre dois ciclos
vegetativos.
Segundo Terra et al. (1998), na região de Jales, para podas realizadas em março
e colheita em julho, com ciclo aproximado de 150 dias, a videira 'Itália'
necessitou de cerca de 1700 graus-dia (temperatura base de 10ºC).
A utilização dos índices bioclimáticos, em regiões diferentes daquelas para as
quais foram estabelecidas, pode acarretar em resultados que não correspondam às
expectativas. Por esta razão, estudos que estabeleçam o comportamento da
cultura em relação aos fatores do ambiente, em especial o clima, são essenciais
para o sucesso da viticultura (Mandelli, 1984).
As principais vantagens do estudo da fenologia da videira são: redução dos
tratamentos fitossanitários, que passam a ser realizados de maneira mais
racional de acordo com as principais pragas e doenças, dentro da fase de
desenvolvimento em que a cultura se encontra; melhoria na qualidade dos frutos;
economia de insumos; e colheita na entressafra brasileira.
Os objetivos deste trabalho foram descrever a fenologia da videira 'Itália' e
estimar a necessidade térmica em graus-dia, na região Norte fluminense, sob
diferentes épocas de poda.
MATERIAL E MÉTODOS
A área do experimento localiza-se no município de Cardoso Moreira, região Norte
do Estado do Rio de Janeiro, situado a 22 m de altitude, latitude 21o29'18" e
longitude 41o36'56". A instalação ocorreu no período de maio de 2000 até
dezembro de 2001. A região, segundo Köppen (Ometto, 1981), é classificada como
tropical chuvosa, clima de bosque (Am), variando a temperatura média mensal
entre 21,4ºC, no mês mais frio, e 27,7ºC, no mês mais quente. A precipitação
média anual é de 1023 mm, com chuvas concentradas nos meses de novembro a
janeiro.
O vinhedo foi instalado em 1999, e o sistema de condução utilizado é do tipo
latada. Utilizou-se, como sistema de irrigação, da microaspersão. A cultivar de
videira é a Itália, sobre o porta-enxerto IAC 572 'Jales', implantado com
espaçamento 3 x 3 m.
O delineamento experimental foi em blocos casualisados, sendo os tratamentos
constituídos de quatro épocas de poda de produção, abril, maio, junho e julho e
oito repetições. Cada parcela foi constituída de 10 plantas úteis.
De acordo com os resultados obtidos na análise de solo, foram feitas as
adubações das plantas segundo recomendação de Terra et al. (1998), antes do
início da poda de formação, as quais se iniciaram no final do mês de agosto,
indo até meados de setembro.
Os tratos fitossanitários foram realizados preventivamente de forma a evitar o
aparecimento de doenças fúngicas, principalmente antracnose (Elsinoe ampelina/
Sphaceloma ampelinum), míldio (Plasmopara viticola) e oídio (Uncinula necator).
Realizou-se o controle manual de plantas daninhas.
Quando os ramos originados das brotações atingiram cerca de 1,5 m de
comprimento, direcionou-se o crescimento para baixo e retirou-se a brotação
apical, favorecendo assim a lignificação dos mesmos e, conseqüentemente, o
amadurecimento. Esses ramos, depois de maduros, receberam a poda de produção
nos meses de abril, maio, junho e julho. Práticas culturais, como amarração,
eliminação de ramos em excesso e brotações duplas, eliminação de gavinhas e
desnetamento, também foram realizadas periodicamente.
A poda de produção foi do tipo longa, deixando-se dez gemas na vara.
A quebra da dormência foi realizada com a aplicação de cianamida hidrogenada,
logo após a execução da poda, nas gemas dos ramos podados, com exceção das três
gemas basais de cada ramo que serão utilizadas para a poda de formação do ano
seguinte. A solução de cianamida hidrogenada a 50 mL L-1 foi preparada momentos
antes da aplicação e pulverizada nas gemas.
Além dos tratos fitossanitários e manejo de plantas daninhas, foram adotados
outros tratos culturais, a saber: amarrações, adubações, poda verde, desbaste
dos botões florais (escova plástica), desbaste de bagas (tesoura) e de cachos
quando necessário.
Para a caracterização das exigências térmicas, foi calculado o somatório de
graus-dia desde a poda até a colheita, utilizando-se das equações de Villa Nova
et al. (1972):
a) GD = (Tm-Tb) + (TM-Tm)/2, para Tm>Tb;
b) GD = (Tm-Tb)2 / 2(TM-Tm), para Tm<Tb;
c) GD = 0 para Tb>TM.
Sendo,
GD=graus-dia;
TM=temperatura máxima diária (ºC);
Tm=temperatura mínima diária (ºC);
Tb=temperatura base (ºC).
Foi considerada, para o presente trabalho, a temperatura de 12ºC como a
temperatura-base para todo o ciclo vegetativo.
O ambiente externo foi monitorado utilizando-se de um sensor de umidade e
temperatura, Spectrum Temp/RH Logger, onde foram registrados os valores diários
de temperatura e umidade relativa do ar, em intervalos de uma em uma hora.
Nos tratamentos 3 e 4, poda em junho e julho, respectivamente, realizou-se a
proteção dos cachos, no início do amolecimento das bagas, utilizando-se de
papel manteiga, evitando assim o excesso de sol e, principalmente, o ataque de
pássaros.
Avaliaram-se semanalmente os estádios fenológicos, através de observações
visuais, a partir da poda até a colheita. As determinações dos estádios de
desenvolvimento foram baseadas na escala proposta por Eichhorn e Lorenz (1984),
para os seguintes períodos: poda à gema algodão, gema algodão à brotação,
brotação ao aparecimento da inflorescência, aparecimento da inflorescência ao
florescimento, florescimento ao início da maturação e início da maturação à
colheita. Na poda de produção, foram contados os números de gemas por ramo.
Quando os brotos atingiram 10 cm, foram selecionados e marcados com fios de lã
colorida dois sarmentos por planta, e utilizando-se de trena, a partir da base
até o ápice, foram realizadas medições aos 22; 29; 40; 47 e 55 dias após a
poda.
A colheita foi realizada quando as uvas atingiram 16oBrix, que foi determinado
através de um refratômetro Zeiss.
Para a variável comprimento dos ramos, foi feita análise de variância,
utilizando-se de delineamento em parcela subdividida, sendo o fator "dias após
poda" (DAP) a subparcela. Foi feita análise de regressão polinomial e Teste de
Tukey para comparar as médias dos tratamentos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com relação ao subperíodo poda à brotação, as diferenças entre os tratamentos
foram menos evidentes, com exceção do tratamento 2, poda em maio, que
apresentou período de 21 dias, enquanto os outros tratamentos apresentaram 14;
14 e 15 dias. O subperíodo aparecimento da inflorescência ao florescimento para
as plantas com poda em junho foi mais longo, 25 dias, em contraste com os
demais tratamentos, que variaram de 14 a 21 dias. Constatou-se que o subperíodo
compreendido entre o início da maturação e colheita, para plantas podadas em
julho, apresentou maior duração, 51 dias, quando comparado às podas realizadas
em abril, maio e junho. Para os outros subperíodos, não foram observadas
variações nos tratamentos (Tabela_1).
A duração do período poda à colheita foi menor para o tratamento com poda em
abril, 138 dias. Já nas podas realizadas nos meses de maio, junho e julho, não
houve variações nos tratamentos, com ciclos de 151; 150 e 157 dias,
respectivamente, estando muito próximo do ciclo de Jales (150 dias), região
Noroeste do Estado de São Paulo. Boliani (1994) obteve, em média de três anos,
um ciclo de 164 dias para as cultivares Itália e Rubi, em Jales (SP). Nas
condições de São Miguel Arcanjo (SP), Terra et al. (1998) comentaram que a
'Itália' apresenta ciclo de 180 dias, enquanto, nas condições do Vale do Rio
São Francisco, o ciclo da 'Itália' varia em torno de 110 a 120 dias (Leão e
Maia, 1998). Quando comparados aos ciclos obtidos por Kishino (1981), 200 dias
para poda realizada no início do mês de agosto e 180 dias quando a poda foi
realizada no final de setembro, observou-se uma antecipação de um a quase dois
meses no ciclo.
A soma térmica encontrada no período poda à colheita, para as podas realizadas
nos meses de abril, maio, junho, julho, foram, respectivamente, 1727GD, 1564GD,
1702GD, 1840GD. Os valores obtidos são semelhantes àqueles citados por Terra et
al. (1998), que consideraram 1700GD a necessidade térmica da videira 'Itália'
na região Noroeste do Estado de São Paulo. Contudo, esses valores são
inferiores aos 1989GD, acumulados da poda à colheita, obtidos na cultivar
Itália por Boliani (1994), em Jales, São Paulo.
Os tratamentos que receberam poda em maio e julho obtiveram maior crescimento
(81,5cm e 110,6cm) em menor espaço de tempo (45 e 55 dias), quando comparados
aos tratamentos com podas em abril e junho, que apresentaram máximo crescimento
(48,2 cm e 80 cm) aos 51 e 62 dias, respectivamente. Esse fato pode ter sido
verificado em decorrência de temperaturas mais elevadas, com médias máximas
próximas a 30ºC, nos meses subseqüentes aos da poda, ou seja, junho e agosto,
quando as brotações se apresentavam em pleno desenvolvimento (Figura_2), pois,
segundo Kliewer (1990), a taxa de crescimento de ramos depende, entre outros
fatores, da temperatura do ar.
Verificou-se, para a poda realizada em julho, que os ramos apresentaram maiores
incrementos no comprimento do que nas podas efetuadas em abril, maio e junho
(Figura_1). Nos tratamentos com podas em abril e maio, houve incidência do
míldio (Plasmopora viticola), que culminou na morte de alguns ponteiros e na
quebra de ramos. A umidade relativa do ar (UR) e a duração do molhamento foliar
por orvalho (DMF) possuem grande correlação, em razão de o orvalho ocorrer
somente sob condições de alta umidade relativa do ar, próxima a 100%. Assim,
ambas possuem extrema importância, dadas as principais doenças fúngicas
ocorrerem sob condições de elevada UR e na presença de um filme de água sob as
folhas, de modo a propiciar a instalação do patógeno (Sentelhas, 1998).
Para podas efetuadas nos meses de junho e julho, realizou-se o desponte dos
ramos evitando o crescimento exagerado. A remoção dos ápices redirecionou a
translocação e a partição de fotoassimilados, pois os mesmos são drenos
metabolicamente ativos (Peruzzo, 1990).
CONCLUSÕES
· A duração do ciclo poda colheita para a cultivar Itália, na região de Cardoso
Moreira, para o ano de 2001, foi de 138; 151; 150 e 157 dias para podas
realizadas em abril, maio, junho e julho, respectivamente.
· No período poda-colheita, utilizando-se de temperatura-base de 12oC, a
necessidade térmica para completar o ciclo foi de 1727GD para poda realizada em
abril, 1564GD para a realizada em maio, 1702GD para a realizada em junho e
1840GD para a realizada em julho.
· As podas realizadas nos meses de maio e julho apresentaram maior velocidade e
incremento no crescimento dos ramos. Os valores de máximo crescimento obtidos
foram 81,5 cm e 110,6 cm em 45 e 55 dias, respectivamente.