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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452002000300007

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0100-2945
ano2002
Issue0003
Article number00007

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Brotação e produtividade de videiras da cultivar Centennial Seedless (Vitis vinifera L.) tratadas com cianamida hidrogenada na região noroeste do estado de São Paulo INTRODUÇÃO As fruteiras de clima temperado caracterizam-se pela queda das folhas no final do ciclo e conseqüente entrada em dormência no inverno, com a drástica redução de suas atividades metabólicas. Para que estas plantas iniciem um novo ciclo vegetativo na primavera, é necessário exposição a um certo período de baixas temperaturas (Petri et al., 1996).

De acordo com Lavee (1973), a dormência de gemas em plantas decíduas é governada por fatores do meio ambiente que afetam o nível dos hormônios vegetais, que, por sua vez, controlam as mudanças metabólicas que conduzem à quebra de dormência. Emmerson & Powell (1978), tentando elucidar este mecanismo, verificaram que o ácido abscísico endógeno decresceu a níveis muito baixos quando as gemas de videiras foram expostas a um período de frio, sendo que, durante a abertura das gemas, este atingiu o seu nível mínimo.

Em estudos conduzidos por Nir et al. (1984), verificou-se que a intensidade da dormência de gemas estava diretamente relacionada à atividade da catalase que apresentou acentuada redução com o declínio da temperatura no inverno. A diminuição da atividade da catalase causou um aumento dos níveis de peróxido de hidrogênio nos tecidos das gemas, ativando a via metabólica fosfato-pentose, o que levou ao início da brotação das gemas, seguido por um rápido desenvolvimento.

Comparadas a outras plantas decíduas, as videiras requerem pouca exposição a baixas temperaturas para sair da condição de dormência. A necessidade de temperaturas abaixo de 7oC situa-se entre 50 e 400 horas, variando em função da cultivar (Dokoozlian, 1999).

Todavia, em regiões de clima tropical, o comportamento fisiológico da videira é totalmente diverso, o que permite obter produções em qualquer época do ano, desde que seja feito um controle da época de poda e da irrigação. De acordo com Albuquerque & Albuquerque (1981), em conseqüência da alteração do comportamento fisiológico da videira pelas condições climáticas, observa-se uma acentuada dormência de gemas na maioria das cultivares de videira introduzidas no Submédio São Francisco, que varia em intensidade conforme a época do ano.

Nessas regiões, faz-se necessária a utilização de compostos químicos para a quebra artificial da dormência, garantindo uma brotação abundante e uniforme das gemas (Petri et al., 1996).

A cianamida hidrogenada (H2CN2) é um regulador de crescimento que pode ser utilizado para quebrar a dormência das gemas de plantas decíduas. O seu modo de ação ainda não está totalmente esclarecido, podendo estar relacionado aos seus efeitos no sistema respiratório das células e interferência em alguns processos enzimáticos que controlam o repouso das plantas, como, por exemplo, a atividade da catalase (Shulman et al., 1986).

Reddy & Shikhamany (1989) pesquisaram o efeito da cianamida hidrogenada na quebra de dormência e brotação da videira 'Thompson Seedless' em condições tropicais. O tratamento com H2CN2 a 3% resultou em alta porcentagem de brotação, isto é, 88% de gemas brotadas, enquanto, no controle, esta foi de somente 25%. Além disso, os tratamentos que receberam H2CN2 anteciparam a brotação em cerca de 10 dias e aumentaram a produtividade por planta.

Na Região de Jundiaí-SP, Pires et al. (1999) constataram que a pulverização das gemas da videira Niagara Rosada, com cianamida hidrogenada, adiantou a brotação das gemas e aumentou a porcentagem de gemas brotadas, o número de cachos e a produtividade por planta. Os melhores resultados foram verificados para as concentrações de cianamida hidrogenada entre 1,44 e 1,63%. No Rio Grande do Sul, Miele (1991) obteve resultados semelhantes em videiras da cultivar Cabernet Sauvignon, sendo que as melhores doses de cianamida hidrogenada, para as variáveis estudadas, se situaram entre 1,8 e 1,9%.

A região Noroeste do Estado de São Paulo apresenta inverno brando com temperaturas amenas, o que possibilita a produção de uvas entre os meses de junho e outubro, fora da época de safra das regiões vitícolas tradicionais.

Nestas condições climáticas, a brotação das gemas das videiras pode ser deficiente e desuniforme se não for realizada a quebra artificial da dormência.

O uso da cianamida hidrogenada é bastante difundido entre os produtores desta região, porém não existem resultados de pesquisa que orientem a adoção adequada desta prática. Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo estudar o efeito de diferentes doses de cianamida hidrogenada na brotação e na produtividade de videiras da cultivar Centennial Seedless, em diferentes épocas, na região Noroeste do Estado de São Paulo.

MATERIAL E MÉTODOS Este experimento foi conduzido em vinhedo localizado no município de Urânia-SP, região Noroeste do Estado de São Paulo. As videiras da cultivar Centennial Seedless encontravam-se no terceiro ano de produção, no espaçamento 5x3m, enxertadas sobre porta-enxerto IAC-572 'Jales', conduzidas no sistema de pérgula e com irrigação por aspersão.

As videiras foram podadas em três épocas distintas, nas datas de 23-03-2001, 05-04-2001 e 20-04-2001; deixando-se de 8 a 10 gemas por vara. Imediatamente após a poda, realizou-se a aplicação de cianamida hidrogenada mediante imersão das 4 gemas mais apicais de cada vara em solução aquosa contida em recipiente confeccionado com tubo PVC. Para o preparo das soluções, utilizou-se do produto comercial Dormex® (490g.L-1 de H2CN2).

O delineamento experimental foi em blocos ao acaso, para um experimento em parcelas subdividas, com 6 repetições, 3 níveis do fator primário e 6 níveis do fator secundário. Os níveis do fator primário foram constituídos pelas três épocas de realização da poda, sendo cada parcela composta por uma planta. Os níveis do fator secundário foram as seguintes doses de cianamida hidrogenada: 0; 0,75; 1,5; 2,25; 3,00 e 3,75%. A unidade experimental ou subparcela foi composta por 4 varas previamente demarcadas.

As seguintes variáveis foram avaliadas: 1. Porcentagem de brotação: 15 dias após a poda, avaliaram-se as 4 gemas apicais de cada uma das 4 varas marcadas por unidade experimental, computando- se a proporção de gemas que haviam brotado, considerando-se como base as gemas que atingiram pelo menos o estádio de gema em abertura.

2. Porcentagem de ramos desenvolvidos: após a realização da desbrota, em 05-06- 2001, em que foram deixados, no máximo, 2 ramos por vara, eliminando-se os ramos pouco desenvolvidos ou sem cachos, avaliaram-se as varas demarcadas, computando-se a proporção de ramos desenvolvidos em relação ao número original de gemas tratadas.

3. Número de cachos: foi contado o número de cachos totais de cada subparcela.

4. Produção: Os cachos totais de cada subparcela foram pesados em balança de precisão. A colheita foi realizada nas datas de 02-08-2001, 15-08-2001 e 29-08- 2001, nas parcelas podadas na 1a, 2a e 3a época, respectivamente.

5. Peso médio dos cachos: estimou-se esta variável a partir dos dados de número de cachos e de produção obtida em cada subparcela.

Os dados dos experimentos foram submetidos à análise de variância. A comparação entre médias das épocas de poda foi realizada pelo teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade. Para o estudo dos efeitos de doses de cianamida hidrogenada, efetuou-se a análise de regressão polinomial.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Não houve interação entre os fatores para a variável porcentagem de brotação.

Independentemente da dose de cianamida hidrogenada, a porcentagem de brotação na primeira época de poda, realizada em 23 de março, foi inferior às demais (Tabela_1). As doses de cianamida hidrogenada apresentaram efeito quadrático para a porcentagem de brotação (Figura_1), sendo que a dose estimada para o máximo valor foi de 2,89%.

A menor porcentagem de brotação verificada para a poda realizada mais cedo, em 23 de março, independentemente da dose de cianamida hidrogenada utilizada, pode estar relacionada ao baixo nível de dormência das gemas e, conseqüentemente, ao amadurecimento inadequado dos ramos, por ocasião da quebra de dormência. A entrada em dormência, antes do reinício do ciclo vegetativo, parece necessária para uma adequada brotação das videiras, o que pode estar diretamente associado à mobilização de nutrientes das folhas senescentes para os órgãos de reservas, como raízes, troncos e ramos (Ndung'u et al., 1997).

Segundo Fennel et al. (1996), a dormência em videiras é promovida em resposta a um decréscimo de fotoperíodo. Em Vitis riparia, duas semanas de dias curtos, com 8 horas de fotoperíodo, promoveram o início da dormência, porém o processo ainda foi reversível. Entretanto, após 6 semanas de dias curtos, o processo de dormência estava bem avançado, sem haver nenhum crescimento. Como em março o fotoperíodo ainda é longo no Estado de São Paulo, possivelmente a realização da poda neste período não permitiu a dormência adequada das gemas, reduzindo a brotação das mesmas.

De acordo com Ndung'u et al. (1997), em regiões tropicais, práticas culturais, como o desfolhamento e a interrupção da irrigação após a colheita, podem ser benéficas para a brotação das videiras. Estes autores verificaram que a interrupção da irrigação, por um período de 16 dias após a colheita, aumentou o conteúdo de ácido abscísico e de açúcares, e as reservas de compostos nitrogenados nos ramos, tronco e raízes. Em São Paulo, o mês de março ainda apresenta um bom nível de precipitação, o que pode ter impedido a entrada de dormência das videiras podadas mais precocemente e o adequado amadurecimento dos ramos.

O efeito de aplicações de cianamida hidrogenda no aumento da porcentagem de brotação das gemas está de acordo com os resultados obtidos em outras pesquisas (Shikhamany et al., 1989; Miele, 1991 e Pires et al., 1999). Shulman et al.

(1986) verificaram que a cianamida hidrogenada é um eficiente agente de quebra de dormência em plantas decíduas cultivadas em climas quentes. A aplicação de H2CN2 em gemas de videira resultam na redução da atividade da catalase, similiar ao que ocorre em videiras mantidas à temperatura de 4oC.

Para a porcentagem de ramos desenvolvidos após a desbrota, constatou-se interação entre os fatores. As videiras podadas na terceira época, em 20 de abril, apresentaram menor porcentagem de ramos somente quando não foram tratadas com cianamida hidrogenada (Tabela_2). Para o fator doses, aplicações de cianamida hidrogenada aumentaram a porcentagem de ramos após a desbrota, apresentando efeito linear para as duas primeiras épocas de poda e efeito quadrático para a terceira época de poda (Figura_2). Para esta última data de poda, a maior porcentagem de ramos desenvolvidos foi estimada para a dose de 2,38% de cianamida hidrogenada.

A menor porcentagem de ramos desenvolvidos verificada para a terceira época de poda, em 20 de abril, pode estar diretamente relacionada às condições climáticas. Com o declínio das temperaturas e do fotoperíodo no início do outono, os ramos brotados não encontraram condições ideais para o seu desenvolvimento. Para as videiras que receberam tratamentos com cianamida hidrogenada, o problema foi amenizado, possivelmente, pela antecipação da brotação, encontrando, conseqüentemente, condições mais apropriadas para o desenvolvimento dos ramos. Segundo Shikhamany et al. (1989), videiras da cultivar Thompson Seedless tratadas com H2CN2 anteciparam a brotação em até 10 dias.

Não houve interação entre os fatores para a variável número de cachos.

Independentemente da época da poda, as doses de cianamida hidrogenada apresentaram efeito quadrático sobre o número de cachos (Figura_3). Não houve diferença significativa entre as épocas de poda para esta variável.

O aumento do número de cachos nas varas tratadas com cianamida hidrogenada está de acordo com relatos de Miele (1991) e Pires et al. (1999). De acordo com Miele (1991), houve uma relação direta entre porcentagem de brotação e número de cachos por planta, em videiras da cultivar Cabernet Sauvignon. No presente trabalho, as videiras não tratadas apresentaram menor porcentagem de brotação e menor número de ramos desenvolvidos, o que poderia explicar o menor número de cachos formados.

A interação entre os fatores foi significativa para as variáveis massa média dos cachos e produção total. Para a variável massa de cachos, poucas diferenças significativas foram observadas entre as épocas de podas. A massa dos cachos de videiras podadas na segunda data foi inferior àquelas podadas na terceira e primeira data para as doses de cianamida hidrogenada de 0,75 e 1,5%, respectivamente (Tabela_3). As plantas podadas na segunda época, em 05 de abril, apesar de terem apresentado menores valores de massa dos cachos para algumas doses de cianamida hidrogenada, não tiveram redução da produção total em relação às outras épocas (Tabela 5), tendo, inclusive, superado a produção das plantas podadas na terceira data para as doses de 0 e 3,75% de cianamida hidrogenada e daquelas podadas na primeira época para as doses de 2,25 e 3,75% de cianamida hidrogenada.

O fator dose, de cianamida hidrogenada, apresentou efeito linear para as variáveis produção total e massa dos cachos, na segunda data de poda, e efeito quadrático na terceira época (Figuras_4 e 5). Para a poda realizada mais tardiamente, em 20 de abril, a máxima produção total foi estimada para a dose de 2,25 %.

Ainda que as aplicações de cianamida hidrogenada tenham um efeito significativo na brotação das gemas dormentes, não se verificou diferença significativa na produção total em videiras podadas na primeira data. Isto ocorreu, possivelmente, porque as varas não tratadas, apesar de apresentarem uma porcentagem de brotação menor, ainda produziram ramos em número e nível de desenvolvimento adequado para garantir uma produção satisfatória, em função das condições climáticas mais apropriadas. De acordo com Dokoozlian (1999), o nível mínimo de quebra de dormência necessário para a produção comercial de uvas varia em função da cultivar, região e condições de cultivo. Na região de Coachella Valley, na Califórnia, um nível de 75% de brotação é suficiente para garantir uma boa produção.

Concluindo, a cianamida hidrogenada pode ser utilizada para aumentar e uniformizar a brotação das gemas de videiras da cultivar Centennial Seedless, cultivadas na região Noroeste do Estado de São Paulo. O efeito desta prática no aumento da produção é mais evidente nas podas mais tardias, realizadas no mês de abril, quando as condições climáticas se tornam mais limitantes para o desenvolvimento normal dos ramos.

O efeito da época de poda na brotação de videiras Centennial Seedless, cultivadas na região Noroeste do Estado de São Paulo, não foi totalmente esclarecido, devendo ser objeto de futuras pesquisas. Aparentemente, o grau de dormência e do amadurecimento dos ramos influi diretamente na brotação das gemas, sendo que as podas mais precoces, no final de março, apresentaram piores resultados.

CONCLUSÕES 1- A aplicação de cianamida hidrogenada para a quebra de dormência de gemas de videiras da cultivar Centennial Seedless, na região Noroeste do Estado de São Paulo, aumentou a brotação e o número de cachos por vara, independentemente da época de poda.

2- A cianamida hidrogenada aumentou a produção total e a massa dos cachos somente nas podas realizadas no mês de abril.

3- A dose de cianamida hidrogenada estimada para a maior porcentagem de brotação foi estimada em 2,89 %, independentemente da época da poda.


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