Produção de mudas de goiabeira (Psidium guajava L.), inoculadas com o fungo
micorrízico arbuscular Glomus clarum, em substrato agro-industrial
INTRODUÇÃO
Alguns trabalhos têm demonstrado que a inoculação de fungos micorrízicos
arbusculares (FMAs) no sistema de produção de mudas representa um grande
potencial para o desenvolvimento de um cultivo racional e eficiente de mudas de
boa qualidade de diversas fruteiras (Samarão e Martins, 1999; Soares e Martins,
2000; Martins et al., 2000). As associações micorrízicas são caracterizadas por
uma simbiose mutualista entre a raiz e o fungo endomicorrízico que proporciona
à planta hospedeira um melhor desenvolvimento devido à maior absorção de
nutrientes, principalmente fósforo, maior resistência ao estresse hídrico e
transplante. Entretanto, devido à natureza biotrófica desses fungos que crescem
e se multiplicam somente na presença de raízes metabolicamente ativas, a grande
limitação é a produção em escala comercial de inóculo de FMAs. Outro fator
importante para produzir mudas de alta qualidade, é o método de produção. A
utilização de recipientes com paredes rígidas para produção de mudas tem
mostrado que esses recipientes provocam, pelo pequeno volume de substrato que
comportam, deformações no sistema radicular, refletindo no crescimento e
desenvolvimento da parte aérea das mudas, as quais persistem no campo (Barroso,
1999; Morgado et al., 2000).
Em alguns países escandinavos, é utilizado com sucesso o sistema de produção de
mudas em blocos prensados, confeccionados com resíduos orgânicos. No Brasil,
alguns trabalhos têm testado a viabilidade técnica de produção de essências
florestais em blocos com substrato prensado (Barroso, 1999; Leles et al., 2000
e Morgado et al., 2000). Espera-se que a produção de mudas nesses blocos, além
de permitir a possibilidade da viabilidade técnica de inoculação com FMAs,
possa proporcionar uma uniformidade no desenvolvimento das mudas, pois não
havendo limitações de paredes, ocorrerá o desenvolvimento das raízes por todos
os lados, sem confinamento ou direcionamento. Portanto, o crescimento ocorrerá
de forma natural.
Este trabalho teve como objetivo avaliar a viabilidade técnica de se produzir
mudas de goiabeira inoculadas com FMAs em blocos prensados, confeccionados com
resíduos agroindustriais (nova metodologia) comparados ao sistema de tubetes
plásticos (tradicional), utilizando resíduo agroindustrial como substrato.
MATERIAL E MÉTODOS
O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, em
esquema fatorial 2 x 2, sendo 2 tratamentos microbiológicos: controle e FMA; e
2 tipos de sistemas de produção de mudas: tubetes (tradicional) e blocos
prensados (nova metodologia), com 5 repetições. A unidade experimental foi
composta por nove plantas no bloco prensado e nove na bandeja de tubetes.
Os blocos prensados foram confeccionados com o substrato umedecido, colocados
em fôrma metálica de 40 x 60 x 20 cm e prensados com prensa hidráulica a 10
kgf.cm-2, a fim de proporcionar agregação do material. Uma tampa foi colocada
sobre a fôrma no momento da prensagem, tendo em sua face inferior 96 cones com
1 cm de altura, destinados a marcar os orifícios a serem plantadas as estacas
enraizadas.
Os tubetes utilizados foram de modelo cônico, com seção circular, contendo oito
frisos internos longitudinais e eqüidistantes, 190 mm de altura, 50 mm de
diâmetro interno superior e volume de aproximadamente 250 cm3.
O substrato utilizado para a produção de mudas, nos dois tipos de recipientes,
foi constituído por uma mistura de bagaço de cana-de-açúcar, torta de filtro de
usina açucareira e vermiculita. Primeiramente, o bagaço de cana e a torta de
filtro foram passados em peneira de 2 mm, misturados na proporção 3/1 v/v.
Foram adicionados 6g.kg-1 de N, tendo como fonte a uréia, com o objetivo de
diminuir a relação C/N. O material foi colocado para compostar por um período
de 35 dias, sendo revolvido e umedecido semanalmente. Terminado esse período, o
material compostado foi misturado com a vermiculita na proporção 3/1 v/v, e
tratado com brometo de metila, na dosagem de 30 ml.m-3 de substrato, por 48
horas, para eliminação de patógenos.
A análise química do substrato mostrou os seguintes resultados: pH em H2O (1:
2,5)= 6,6; P (Mehlich-1)= 3540 mg.dm-3; P(H20)= 73 mg.dm-3; K= 742 mg.dm-3; Ca
= 151 mmolc.dm-3; Mg = 63 mmolc.dm-3; Al = 0,0 mmolc.dm-3; H total = 29
mmolc.dm-3; Na = 4,9 mmolc.dm-3; C= 82,8 g.dm-3 e N total= 12,8 g.dm-3.
O substrato utilizado para o preparo do inóculo consistiu em uma mistura de
solo e areia na proporção de 1:2 (v/v). O substrato foi esterilizado em
autoclave, por três vezes, a uma temperatura de 1210C, por uma hora. O
substrato foi colocado em vasos de cultivo com 5 l de capacidade e infectado
com uma mistura de solo contendo esporos e raízes colonizadas com o fungo
Glomus clarum Nicolson & Schenk. Como planta hospedeira, foram semeadas
sementes de Brachiaria bryzantha. Os vasos foram mantidos em casa de vegetação
por um período de quatro meses para a multiplicação do fungo, os quais foram
utilizados como inóculo. A inoculação com FMA foi feita no momento da confecção
do bloco, na proporção de 10% do volume do substrato, tendo como inóculo uma
mistura de solo, raízes colonizadas e esporos do fungo.
A cultivar de goiaba utilizada no experimento foi a Paluma. Estacas herbáceas
de aproximadamente 10 cm de comprimento, com dois nós e um par de folhas
cortadas ao meio, foram colocadas para enraizar em tubetes de 50 cm3 tendo como
substrato areia, e utilizando como promotor de enraizamento ácido indol-
acético, na concentração de 2000 mg.l-1. Essas estacas permaneceram em telado
com nebulização intermitente por um período de 45 dias, para que houvesse a
emissão de raízes. Terminado esse período, elas foram transferidas para tubetes
e blocos prensados, após ser realizado um desbaste a 2 cm da inserção das
raízes. Cada bandeja com dimensões de 60 x 40 cm apresentou 54 tubetes, e o
bloco com as mesmas dimensões apresentou 96 locais a serem plantados. O volume
de substrato explorado pelas plantas foi o mesmo em ambos os recipientes (250
cm3).
Duas mudas de cada parcela foram coletadas 60 dias após o plantio nos blocos
prensados e nos tubetes. O sistema radicular foi separado da parte aérea. Após
lavagem com água de torneira, subamostras de 2 cm de comprimento das raízes
foram coletadas e conservadas em álcool etílico 50% v/v para posterior
determinação da porcentagem de colonização, pelo método da interseção em placas
de Petri reticuladas (Giovannetti e Mosse, 1980), após a coloração das raízes
com azul de metila.
O conteúdo de N e P, na parte aérea, foi determinado depois que as amostras
foram desidratadas em estufa de ventilação forçada, a uma temperatura de cerca
de 75 0C, por 48 horas (Malavolta et al., 1989). Uma vez desidratado, o
material foi pesado para a determinação da matéria seca e, em seguida, as
amostras foram moídas em moinho tipo Willey, passadas em peneira de 20
"mesh" e armazenadas em frascos hermeticamente fechados. Após
submeter o material vegetal à oxidação pela digestão sulfúrica, foi determinado
o fósforo por colorimetria, pelo método do molibdato (Malavolta et al., 1989) e
N pelo método de Nessler (Jackson, 1965).
Foram feitas a análise de variância e a comparação de médias, pelo teste de
Tukey, a 5% de nível de significância, para os dados de matéria seca da parte
aérea, conteúdo de N e P da parte aérea, utilizando o programa computacional
SAEG ' Sistema de Análises Estatística e Genética (Euclydes,1983).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A produção de matéria seca, os conteúdos de nitrogênio e fósforo da parte aérea
das mudas produzidas nos blocos prensados, inoculados com o FMA, foram
significativamente maiores quando comparados ao tratamento bloco prensado sem
inoculação, apresentando incrementos de 89%, 82% e 89%, respectivamente (Figura
1). Por outro lado, nas mudas produzidas em tubetes plásticos, a presença do
FMA não proporcionou aumentos significativos nas variáveis analisadas.
O sistema de produção de mudas em blocos prensados proporcionou melhores
resultados para as variáveis analisadas somente quando se efetuou a inoculação
das mudas com o fungo Glomus clarum, observando-se aumentos de 64%, 45%, 57%,
para matéria seca da parte aérea, conteúdos de N e P da parte aérea,
respectivamente, quando comparado ao sistema de produção em tubetes (Figura_1).
No presente trabalho, para a produção de um bloco prensado, necessitou-se de 36
litros de substrato, correspondendo a 375 ml por planta, que, após ser prensado
a uma força de 10 kgf.cm-2, apresentou o volume de 250 cm3. No caso dos
tubetes, houve o cuidado de se adicionar 375 ml de substrato em cada tubete de
250 cm3para que as plantas, nos blocos prensados e nos tubetes, pudessem
explorar o mesmo volume de substrato. Assim, o menor crescimento verificado nas
plantas micorrizadas produzidas em tubetes, possivelmente, pode ser atribuído
ao fato de a parede rígida do recipiente provocar alterações fisiológicas nas
mudas, provocando menor absorção de água e nutrientes, uma vez que a
colonização micorrízica foi equivalente em ambos os sistemas de produção, 41,1%
no sistema tubete plástico e 41,5% nos blocos prensados. Vários são os fatores
físicos ou fisiológicos que restringem o crescimento radicular afetando o
crescimento, desenvolvimento e produtividade das plantas. Dentre estes fatores,
podem-se destacar a densidade do solo, tamanho de agregados, tamanho dos poros,
presença da camada compactada subsuperficial, aeração, temperatura, qualidade
da luz, limitações de nutrientes, densidade de raízes e o volume, tamanho e
forma do recipiente onde cresce a planta. Trabalhos realizados para verificar o
efeito do volume do recipiente no crescimento e desenvolvimento de plantas têm
mostrado que a restrição radicular pode diminuir o crescimento das raízes e da
parte aérea das plants (Peterson et al.,1991b). Sugere-se que o processo
envolvido nessa redução do crescimento inclua a inibição da elongação foliar
(Peterson et al., 1991a), fotossíntese (Ismail e Noor, 1996), mudança na
partição da matéria seca da planta e absorção de nutrientes (Bar-Tal e
Pressman, 1996) e metabolismo hormonal (Peterson et al., 1991a, 1991b).
Leles et al. (2000), em trabalho com três espécies de eucaliptos, produzidas em
tubetes e em blocos prensados, verificaram que as características morfológicas
das mudas dos blocos prensados foram superiores às dos tubetes, e que, no
campo, as plantas originárias de mudas produzidas em blocos prensados
apresentaram maior crescimento em altura e diâmetro ao nível do solo, que as de
tubetes, ao longo de dez meses de avaliação. Provavelmente, porque as mudas
desenvolvidas nestes blocos, possuem os sistemas radiculares completamente
livres, sem qualquer parede que os possa direcionar. Entretanto, as espécies
não foram inoculadas com FMAs, e o volume foi diferente entre os sistemas de
produção, sendo de 50 cm3 nos tubetes e de 250 cm3 nos blocos prensados.
Kumaran e Azizah (1995) demonstraram que mudas de goiabeira inoculadas com
Glomus mossae e Scutellospora calospora também apresentaram aumento de matéria
seca da parte aérea e maior absorção de nutrientes. Os FMAs aumentaram a
absorção de nutrientes, principalmente os de baixa mobilidade na solução do
solo, como o fósforo (Marschner, 1995), pois a hifa do fungo pode absorver e
translocar o fósforo para a planta hospedeira além da zona de depleção em volta
das raízes. A resposta à inoculação com FMAs depende da quantidade de P
disponível no solo. A falta de resposta do crescimento das plantas à inoculação
com FMAs sob altas doses de P já foi observada anteriormente (Harley e Smith,
1983). Chandrashekara et al. (1995) constataram que os benefícios dos FMAs para
o crescimento das plantas diminui, quando a disponibilidade de fósforo é alta.
No presente trabalho, a inoculação com Glomus clarum proporcionou, nas mudas
produzidas em blocos prensados, aumentos significativos nas características
avaliadas, mesmo em altas quantidades de P disponível pelo extrator Mehlich. A
análise química do substrato utilizado para a produção das mudas revelou alta
quantidade de fósforo disponível pelo extrator Mehlich. Entretanto, foi
constatada uma boa taxa de colonização nas raízes das plantas, sendo de 41,09%
nas plantas em tubetes e de 41,65% nas dos blocos prensados (Figura_1d). Essa
colonização pode ser explicada pelo fato de a alta quantidade de fósforo
extraída pelo extrator ser superior àquela que é extraída pelas plantas.
Entretanto, quando se utilizou água como extrator, a quantidade de fósforo
encontrada foi de 73 mg.dm-3 de substrato. Esse valor, provavelmente, estaria
mais próximo ao que a planta realmente consegue extrair. Samarão e Martins
(1999), em experimento com mudas de goiaba inoculadas com FMAs sob diferentes
doses de fósforo, observaram que, mesmo na dose mais alta (50 mg.dm-3), houve
uma taxa de colonização de 52 %, proporcionando um aumento na produção de
matéria seca da parte aérea e no conteúdo de fósforo e potássio da parte aérea.
Entretanto, para que os FMAs possam ser aplicados com sucesso em incrementar o
desenvolvimento e a produção das culturas mediante seus efeitos na nutrição das
plantas e outros benefícios diretos e indiretos, também é necessário considerar
outros aspectos, dentre os quais, a adaptação a fatores edáficos e competição
com fungos nativos, que podem comprometer a eficiência simbiótica dos FMAs
introduzidos na inoculação (Balakrishna et al., 1996).
Os resultados sugerem que a nova metodologia de blocos prensados é recomendável
para a produção de mudas de goiabeira, uma vez que o sistema tem como vantagem
o maior número de mudas produzidas por área, quando comparado ao sistema
tradicional de tubetes, ou seja, 42 mudas a mais para a mesma área. Outro fator
de relevância é que o sistema de blocos prensados apresenta a viabilidade
técnica de inoculação, além de promover um maior desenvolvimento das mudas.
CONCLUSÕES
1. A espécie Glomus clarum promoveu o crescimento das mudas de goiabeira,
apenas no sistema de blocos prensados.
2. O sistema de blocos prensados mostrou-se eficiente para o crescimento das
mudas de goiabeira, provando ser possível utilizá-lo em conjunto com a
inoculação com os fungos micorrízicos arbusculares (FMAs).
3. Os resíduos da indústria açucareira (bagaço e torta de filtro de cana de
açúcar), inoculados com o FMA, podem ser utilizados como substrato para
produção de mudas de goiabeira.