Melhoramento do cajueiro-anão-precoce: avaliação da qualidade do pedúnculo e a
heterose dos seus híbridos
MELHORAMENTO DO CAJUEIRO-ANÃO-PRECOCE: AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DO PEDÚNCULO E A
HETEROSE DOS SEUS HÍBRIDOS1
INTRODUÇÃO
O consumo de pedúnculo de caju "in natura" vem experimentando
incremento no Brasil após o cultivo dos novos clones de cajueiro-anão-precoce,
lançados no mercado a partir dos anos oitenta. Eles vêm proporcionando maior
produtividade, facilidade na colheita e uniformidade da castanha e do pedúnculo
(Barros & Crisóstomo, 1995). Associados a isso, recentes avanços na área de
pós-colheita vêm aperfeiçoando o processo de transporte, embalagem e
conservação do pedúnculo, ampliando sua duração para até quinze dias após a
colheita, o que está possibilitando a comercialização em mercados distantes do
centro de produção ( Filgueiras et al., 1999).
Apesar desses avanços, o consumo ainda é pequeno, cerca de 1% da produção anual
estimada em 1,5 milhão de toneladas/ano (levantamento preliminar não publicado
da área de Difusão e Transferência de tecnologia da Embrapa Agroindústria
Tropical, 1999). Esse "impedimento" a um maior consumo "in
natura" decorre de vários fatores, alguns dos quais intrínsecos ao
pseudofruto como a adstringência, devido ao teor de tanino existente no
pedúnculo dos clones e de tipos comerciais produzidos por semente, todos da
espécie Anacardium occidentale L. Outro problema é a elevada perecibilidade do
pedúnculo, que não ultrapassa, após colhido, 48 horas em condições de ambiente.
Os estudos sobre a composição química do pseudofruto do cajueiro têm se
restringido a diferentes genótipos da espécie cultivada A. occidentale L. e
revelado diferentes valores em função do grau de maturidade e procedência da
produção. Resultados com amostras de pedúnculos vermelhos e amarelos,
procedentes de municípios litorâneos do Ceará, acusaram médias de tanino de
0,40% e 0,35%, e médias de acidez total de 0,34% e 0,42% para pedúnculos
vermelhos e amarelos, respectivamente (Moura Fé et al, 1972). Na Índia,
Chandran & Damodaran (1985) analisaram dezesseis tipos de cajueiros e
encontraram variação na porcentagem de tanino total de 0,33% a 0,74%.
Filgueiras et al. (1999) apresentaram uma síntese recente sobre a composição
química em pedúnculos maduros de cajueiro a qual demonstra a seguinte
composição e variação: pH de 3,5 a 4,5; água de 84,5 a 90,4%; acidez de 0,22 a
0,52%; sólidos solúveis totais de 9,8 a 14,0 oBrix; açúcar total de 7,7 a
13,2%; vitamina C de 139,0 a 187,0 mg/100g e tanino de 0,27 a 0,72%. Esses
resultados indicam, além de valores elevados para o tanino, a existência de
variabilidade genética na espécie A. occidentale L., sendo possível a obtenção
de progresso por seleção.
Por outro lado, não se conhece a composição química de caracteres de interesse
em outras espécies, o que seria importante pela possibilidade de identificar
tipos com propriedades desejáveis que poderiam ser empregados em programas de
melhoramento genético. Com esse objetivo, foi efetuada uma avaliação do Banco
de Germoplasma de caju da Embrapa Agroindústria Tropical onde se destacaram
genótipos da espécie A. microcarpum L. por apresentarem, em avaliação
preliminar, no campo, algumas características contrastantes e positivas, em
relação aos tipos comerciais, sobretudo quanto à adstringência. A partir daí,
estes genótipos foram empregados no melhoramento do cajueiro-anão-precoce
visando à melhoria do pedúnculo dos clones CP76 e CP09, da espécie A.
occidentale, pela introdução, via retrocruzamento, de características
desejáveis em genótipos da espécie A. microcarpum existente no Banco de
Germoplasma.
Os objetivos deste trabalho foram: a) caracterização físico-química de
pedúnculos dos genitores das duas espécies empregadas no programa de
melhoramento; b) caracterização dos cruzamentos (F1's) respectivos, inclusive
os recíprocos; e c) estimativas dos valores de heterose nos cruzamentos em
relação aos valores de tanino, de acidez total, de textura, de pH e de sólidos
solúveis totais, em amostras de pedúnculos maduros dos genitores e respectivos
híbridos.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado em pedúnculos coletados em 1999, em experimentos que
estão sendo conduzidos no Campo Experimental da Embrapa Agroindústria Tropical,
em Pacajus-CE. O experimento faz parte do programa de melhoramento genético,
objetivando a melhoria do pedúnculo de clones comerciais de cajueiro-anão-
precoce pelo método do retrocruzamento, empregando-se genótipos da espécie
Anacardium microcarpum L. como pai doador das características baixa
adstringência , baixa acidez e textura elevada, e como pai recorrente os clones
CP76 e CP09 da espécie Anacardium occidentale L., atualmente, os mais
cultivados.
As amostras de pedúnculos maduros foram coletadas no período de setembro-
outubro de 1999, em plantas de A. microcarpum, nos clones CP76 e CP09 e nos
respectivos cruzamentos (F1's), inclusive nos recíprocos. Foram coletados oito
pedúnculos numa única planta no A. microcarpum e dez em quatro plantas de cada
um dos outros seis genótipos, os quais, após identificados, foram analisados no
laboratório de pós-colheita da Embrapa Agroindústria Tropical para as seguintes
características: Textura (firmeza de polpa), realizada nos pedúnculos íntegros
com penetrômetro manual FT011 com ponteiras de 8mm de diâmetro. (A punção foi
feita na porção basal do pedúnculo tendo sido efetuadas três leituras por
pedúnculo e os resultados expressos em Newton (N), como citado por Moura,
1998); Sólidos Solúveis Totais (SST), efetuado com refratômetro de acordo com
metodologia recomendada pela AOAC (1992) e expressa em graus Brix; Acidez Total
Titulável (ATT), efetuada no suco conforme técnica recomendada por Kramer
(1973), citada por Menezes (1992); relação SST/ATT, obtida através do quociente
entre as análises; pH, obtido diretamente no suco, seguindo a técnica
recomendada por AOAC (1992), conforme Menezes (1992); Tanino a 50% em água,
determinado conforme metodologia de Reicher et al. (1981), citada por Moura
(1998).
Os resultados foram tabulados e as médias dos pais e dos cruzamentos compiladas
em tabela e comparadas entre si pela obtenção da estimativa do intervalo de
confiança (Little & Hills, 1978). Foram obtidas, também, as estimativas da
heterose de cada cruzamento, conforme Ferh (1987).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As análises da composição química dos pedúnculos (Tabela_1) revelaram valores
baixos para tanino (0,14%) e para acidez total (0,16%) no pai doador (A.
microcarpum ), quando comparado com os valores encontrados nos genótipos de A.
occidentale , clones CP76 (0,34% para tanino e 0,25% para acidez total) e CP09
(0,32% para tanino e 0,26% para acidez total). Com relação à textura do
pedúnculo, o genótipo doador também foi superior, com a média de 10,75 N contra
5,86 N e 7,86 N nos clones CP76 e CP09, respectivamente. A estimativa do
intervalo de confiança acusou diferença entre a média de Tanino no A.
microcarpum e aquelas dos demais genótipos (Tabela_1). Quanto aos resultados da
Acidez Total, da relação SST/ATT e da Textura , verificou-se que, apesar da
acentuada diferença entre as médias em relação ao A. microcarpum, a
variabilidade dos dados não possibilitou a discriminação do ponto de vista
estatístico ao nível de 5% de probabilidade. Isso provavelmente ocorrerá com o
aumento da amostra.
Apesar de a literatura não registrar uma classificação quanto aos níveis
adequados ao mercado para esses caracteres, alguns autores destacam que valores
de tanino, a partir de 0,55%, torna inadequada a qualidade do pedúnculo para o
consumo e consideram razoáveis valores abaixo de 0,35% (Chandran &
Damodaram, 1985). A este respeito, testes sensoriais realizados em pedúnculos
com estes teores têm indicado rejeição de parte dos provadores, evidenciando
que, apesar de "aceitáveis", estes níveis (0,32 a 0,35%) não são
ainda os ideais para uma maior inserção no mercado, sobretudo para pessoas de
regiões não tropicais. É importante destacar que os clones cultivados e
empregados neste estudo apresentaram teor médio de tanino de 0,33% (Tabela_1),
contrastando com os baixos valores encontrados no A. microcarpum (0.14%). Isto
torna evidente a possibilidade de melhoria do pedúnculo daqueles clones via
retrocruzamento.
É importante destacar, também, os maiores valores do A. microcarpum em relação
aos clones, quanto à relação SST/ATT, uma vez que essa relação indica o grau de
doçura de um determinado fruto. Os valores encontrados neste trabalho foram de
80,6 e 47,3 para A. microcarpum e a média dos dois clones, respectivamente.
Deve-se destacar que a literatura não registra dados com aquela magnitude
(80,6). Menezes (1992) encontrou valores de 36,03 e 41,03 para pedúnculos com
zero a 48 horas de armazenamento, respectivamente. Moura (1998) avaliou nove
clones de cajueiro-anão-precoce e encontrou uma variação de 29,93 até 46,48.
Alves et al. (1997), citado por Moura (1998), observou que pedúnculos do clone
CP76 atingiram até 59,5 para essa relação, quando completamente maduros. Esses
resultados confirmam mais uma vez a importância do A. microcarpum como doador
no programa de melhoramento genético do cajueiro-anão-precoce visando à
qualidade do pedúnculo. A partir deles, podem-se prever resultados
satisfatórios com os retrocruzamentos que estão sendo praticados visando
principalmente à redução de tanino dos clones cultivados. Abre também uma
perspectiva quanto à investigação nas demais espécies de Anacardium visando ao
aproveitamento nessas pesquisas.
Na Tabela_2, temos as estimativas de heterose para os cruzamentos realizados.
Constataram-se maiores médias dos híbridos em relação à média dos pais para
tanino, acidez e textura em todos os cruzamentos, ocasionando heterose positiva
para esses caracteres. Os maiores valores de heterose foram para tanino e
acidez total. As estimativas para tanino variaram de 29,2% a 100% e as de
acidez variaram de 2,44% a 52,38%, evidenciando elevado vigor híbrido nos
cruzamentos, o que é indicativo de divergência gênica nos locos que condicionam
esses caracteres, nas duas espécies. Também para textura, verificou-se vigor
híbrido embora inferior aos valores encontrados para os outros caracteres já
comentados. O pH apresentou a menor heterose, sendo, conseqüentemente, o
caráter de menor divergência gênica, tendo apresentado valores de heterose
negativa em três cruzamentos.
Observando-se os dados dos clones na Tabela_2, pode-se efetuar uma comparação
entre os dois, uma vez que se constataram maiores estimativas de heterose (para
tanino e acidez) nos cruzamentos com o CP09, evidenciando ser este mais
divergente do A. microcarpum que o CP76. Ainda nesta tabela, analisando-se as
médias dos híbridos recíprocos e as estimativas de heterose, pode-se afirmar
que não houve efeito de cruzamentos recíprocos para a maioria dos caracteres
estudados, à exceção do tanino, que apresentou efeito divergente no F1 quando
se inverteu a direção do cruzamento. A este respeito, pode-se verificar que, no
cruzamento A.m. x CP09, a média do híbrido foi de 0,46%, e a heterose foi de
100,0%. No mesmo cruzamento, mas na outra ordem, ou seja, CP09 x A.m., a média
do híbrido foi de 0,35% e a heterose foi de 34,8%. Esses resultados indicam
que, à exceção desse cruzamento e caráter, qualquer um dos genitores pode ser
empregado como macho ou como fêmea quando em programas de cruzamentos
artificiais.
CONCLUSÕES
1. O baixo teor de tanino (0.14%) comprovado no A. microcarpum, em relação aos
clones de A. occidentale (0,33%), demonstra sua adequação em programa de
melhoramento genético visando à qualidade do pedúnculo:.
2. Os pedúnculos de A. microcarpum e de A. occidentale mostraram-se semelhantes
quanto aos teores de sólidos solúveis totais e de pH.
3. Os híbridos entre A. microcarpum e A. occidentale exibiram acentuado vigor
híbrido com relação aos teores de tanino, acidez e textura e ausência de vigor
híbrido em relação aos valores do pH e de sólidos solúveis totais.
4. Com exceção do tanino, não se verificou efeito dos cruzamentos recíprocos
entre A. microcarpum e os clones anão-precoce de A. occidentale para acidez
total, sólidos solúveis totais, pH e textura dos pedúnculos.