Efeito da aplicação de cianamida hidrogenada e óleo mineral na quebra de
dormência e producão do pessegueiro-'Flamecrest'
EFEITO DA APLICAÇÃO DE CIANAMIDA HIDROGENADA E ÓLEO MINERAL NA QUEBRA DE
DORMÊNCIA E PRODUCÃO DO PESSEGUEIRO-'FLAMECREST'1
INTRODUÇÃO
A produção mundial de pêssegos e nectarinas, no ano de 2000, foi da ordem de
13,8 milhões de toneladas, destacando-se a China, a Itália, os Estados Unidos e
a Espanha. O Brasil aparece como o 13° produtor mundial de pêssego, com 155 mil
toneladas. O Rio Grande do Sul destaca-se como o maior produtor nacional, com
aproximadamente 70 mil toneladas de pêssegos, sendo que a Metade Sul do Estado
possui mais de 7 mil hectares, o que corresponde a 50% da produção gaúcha. No
entanto, o Brasil ainda é um grande importador de frutas de caroço, tendo
importado, entre os anos de 1997 e 1999, mais de 600 mil dólares em frutas
frescas (Marodin & Sartori, 2000).
A quebra de dormência das plantas caducifólias envolve fatores internos, como
balanço dos promotores e inibidores de crescimento, ou externos, como
temperatura, fotoperíodo e a radiação solar, entre outros. Dos fatores
externos, o que mais se destaca é a temperatura, sendo que, quando as plantas
são cultivadas em regiões com insuficiências de frio hibernal, apresentam
sintomas de falta de adaptação como atraso e maior duração do período de
floração e abertura de menor número de gemas floríferas e vegetativas,
resultando em redução na produção, com frutos desuniformes e de baixa qualidade
(Marodin et al., 1992).
Para completar sua formação, as gemas floríferas e vegetativas do pessegueiro
devem atravessar um período de repouso, o qual está relacionado com o somatório
de temperaturas abaixo de 7,2 º C. Constatou-se, porém, que temperaturas acima
de 7,2ºC também têm influência, principalmente em cultivares de menor
exigência. A necessidade de frio do pessegueiro foi satisfeita com temperaturas
médias de 9,7ºC. Cada cultivar tem suas exigências de horas de frio e horas de
calor diferentes, o que explica como uma mesma cultivar tem florescimento em
épocas distintas em locais diferentes (Diaz, 1987).
Em muitos anos, especialmente em regiões marginais para o cultivo de frutíferas
temperadas, não ocorre a superação efetiva da dormência das gemas pela
insuficiente acumulação de frio. Nestes casos, a utilização de produtos
químicos é prática comum na viabilização destas espécies (Marodin et al.,
1992).
Associações de óleo mineral e sais de dinitro, tais como DNOC, DNBP,
calcionamida e nitrato de potássio, foram as mais utilizadas no Brasil na
quebra da dormência das frutíferas temperadas (Petri, 1986). Porém, o uso dos
sais de dinitro foi proibido, fazendo com que a melhor opção para a quebra de
dormência passasse a ser a associação de cianamida hidrogenada (CH) com óleo
mineral ou, ainda, o nitrato de potássio (Araújo et al., 1991). Trabalhos de
(Marodin et al., (1989) Petri et al. (1996) têm demonstrado que algumas
cultivares de pêssego suportam maiores doses de CH, mas o resultado é muito
dependente da época de aplicação. Na cv. "Chiripá", concentrações
acima de 0,25% de CH, próximo da floração, causou intensa queda de gemas
floríferas, sem prejuízo da produção total (Marodin et al., 1989).
Uma série de fatores, como a concentração dos produtos, épocas de aplicação,
condições meteorológicas, estádio das gemas, volume de solução aplicado por
planta, somatório das horas de frio acumuladas pela planta, devem ser
considerados na quebra de dormência, sendo necessários trabalhos para
identificar tais fatores para cada local e cultivar (Marodinet al., 1991).
Na cv. Rubidoux, a produção e número de frutos por planta, em Videira-SC, foi
muito dependente das concentrações de CH, ocorrendo queda de produção em
concentrações superiores à normal. A antecipação de colheita de cerca de 15
dias foi significativa com baixas concentrações de CH (Petri et al., 1996).
No México, tratamentos de CH + extrato de alho ou + OM aplicados isolados ou
combinados, em ameixeiras-japonesas "Shiro", anteciparam a brotação e
a colheita em torno de 15 dias. A mais elevada percentagem de brotação
vegetativa foi alcançada com as concentrações médias de CH e OM. Os tratamentos
com CH resultaram em maior intensidade de floração, menor queda de gemas
florais e maior produção por planta (Marodin et al., 1997).
Em pessegueiros-"Chiripá", C.H. 0,75% com O.M. 1,0% propiciou um
aumento no número de frutos por plantas e no peso dos frutos. O.M. 2,0% ficou
numa faixa intermediária entre a maior e a menor produção, não sendo, porém,
significativa a diferença em relação aos outros tratamentos e à testemunha
(Nunes et al., 2001).
A produção de frutas, em especial de pêssegos e nectarinas na região da Serra
do Nordeste do Rio Grande do Sul, onde foi realizado o presente estudo, é de
extrema importância para a pequena propriedade rural. Produtores têm buscado
alternativas de cultivares com melhor adaptação, qualidade dos frutos e
possibilidade de armazenamento. Estudos preliminares mostraram que as cvs.
Flavor Crest, Elegant Lady, Tropic Snow e Flamecrest têm potencial de cultivo
(Perazzolo, 1999), mas têm-se observado problemas de uniformidade de brotação e
produções insuficientes. O objetivo deste trabalho foi estudar os efeitos de
aplicações de diferentes doses de cianamida hidrogenada e óleo mineral sobre a
brotação vegetativa, frutificação e qualidade dos frutos do pessegueiro-
'Flamecrest', uma das cultivares mais promissoras devido à época de colheita.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado no Município de Farroupilha-RS, no ano de 2000, em
um solo Cambissol Húmico álico textura argilosa (Cambissolo Húmico Alumínico
Típico ' EMBRAPA, 1999) com altitude de 702 metros do nível do mar, latitude
29° 14' 30'' e longitude 51° 26' 20'' com temperaturas máximas de 35, 2 e
mínimas de ' 6,6 ° C. O clima da região é do tipo Cfb, subtropical chuvoso com
verão ameno (Köppen, 1948). A cultivar estudada foi o pessegueiro-
'Flamecrest', de alta exigência de frio, enxertada sobre o porta-enxerto
capdeboscq, em um pomar comercial com 4 anos de idade, com espaçamento entre
filas de 5m e 2,5m entre plantas.
O delineamento experimental adotado foi de blocos casualizados, com uma planta
por parcela e 4 repetições. Planta bordadura foi utilizada somente para separar
os blocos. A aplicação dos tratamentos foi realizada com pulverizador costal
manual, com pressão de 70 Lb/pol, sendo na primeira aplicação com temperaturas
próximas de zero grau e na segunda em torno de 15° C. O volume médio de calda
aplicado por planta foi de 1,2 litro. Fez-se uso de uma lona plástica para
evitar a deriva da aplicação às plantas ao lado.
Foram testados os efeitos dos seguintes tratamentos: Cianamida hidrogenada
(C.H.) 1,22; 2,45; 3,675 e 4,90 g de i.a.L-1 com óleo mineral (O.M.) 10 g de
i.a.L-1; O.M. 10 g de i.a.L-1 isolado e testemunha (sem pulverização), em duas
épocas de aplicação, 15-07 (plena dormência) e 02-08 (próximo do inchamento das
gemas).
Foram obtidos dados de brotação de gemas vegetativas e florais, através da
marcação e contagem de gemas em quatro ramos, nos quadrantes de cada planta, e
calculados em porcentagem. Acompanhou-se a fenologia das plantas e avaliou-se a
fitotoxicidade.
As variáveis avaliadas foram o número de frutos raleados e o número, a massa, o
teor de sólidos solúveis totais (SST) e a firmeza da polpa dos frutos colhidos.
Foram retiradas amostras de 10 frutos por tratamento para determinar o teor de
sólidos solúveis totais (SST) com o uso de refratômetro de mesa e firmeza de
polpa em (Lb/pol) avaliada por meio de um penetrômetro FT-11, utilizando uma
ponta de 5 mm de diâmetro.
Os dados foram processados para análise de variância do Sistema Sanest e,
quando da significância, realizou-se o Teste de Duncan, com nível de
significância de 5%, para separar as médias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados de acumulação de frio de maio a setembro, coletados a poucos
quilômetros do pomar estudado, indicaram um somatório de 758 horas abaixo de
7,2 Cº, teoricamente suficiente para a adequada quebra de dormência desta
cultivar, o que não ocorre na prática, indicando que este não é o melhor meio
para avaliar a adaptação da maioria das frutíferas temperadas.
Os tratamentos não anteciparam a brotação das gemas floríferas, porém plantas
tratadas com C.H. 1,22 g i.a.L-1 e 3,675 g i.a.L-1, na primeira época, e CH
2,45 e 4,90 g i.a.L-1, na segunda época, acrescidas de O.M. 10 g de i.a.L-1,
tiveram maior brotação das gemas vegetativas em relação aos demais tratamentos
(Tabela_1). Estes resultados estão de acordo com Nunes et al. (2000), que
também não encontraram antecipação das gemas vegetativas no pessegueiro-
"Chiripá" utilizando diversas concentrações de CH. Marodin et al.
(1997), na ameixeira híbrida 'Shiro', verificaram uma antecipação na brotação
das gemas vegetativas em 15 dias, com CH a 0,245% com ou sem OM. Parece que a
espécie e/ou cultivar e as condições meteorológicas pós-aplicação têm grande
influência na brotação das fruteiras de caroço.
Não houve efeito dos tratamentos sobre a floração e a porcentagem de frutos
vingados, discordando dos dados obtidos por Marodin et al. (1997), onde os
tratamentos que incluíam CH incrementaram a intensidade de floração da
ameixeira-'Shiro'. Fato relevante foi a ausência de efeito fitotóxico às flores
quando se utilizaram concentrações superiores a 3,675 g de i.a.L-1 de CH, pois
já se havia constatado que menores concentrações, de cerca de 2,45 g i.a.L-1 de
CH, provocaram queda de gemas e redução da frutificação no pessegueiro-
' Chiripá' (Marodin et al., 1989).
O número de frutos raleados por planta foi maior nos tratamentos com C.H. 3,675
g de i.a.L-1 + O.M. 10 g de i.a.L-1 na primeira época e CH 2,45 e 4,90 g de
i.a.L-1 + O.M. 10 g de i.a.L-1 na segunda época estudada (Tabela_2),
concordando com Marodin et al. (1997) e Nunes et al. (2000) que encontraram
menor queda de floração e, conseqüentemente, aumento da frutificação com
aplicações da cianamida em concentrações em torno de C.H. 2,45 g i.a.L-1,
associadas ao óleo mineral.
A produção de frutos por planta está colocada na Tabela_3. Constata-se que,
para o número e peso total dos frutos, os tratamentos com C.H. 1,22 g i.a.L-1 e
3,675 g i.a.L-1, aplicados na primeira época (15-7), e C.H. 3,675 e 4,90 g
i.a.L-1 na segunda época (2-08), todos com O.M. 10 g de i.a.L-1, proporcionaram
valores significativamente maiores aos demais tratamentos, concordando com
Marodin et al. (1997; Nunes et al. (2000) e Petri et al. (1996), que
encontraram maior produção de frutos por planta em concentrações similares. Os
tratamentos aplicados na segunda época, na média, foram maiores, inclusive na
testemunha, provavelmente, devido ao efeito de ventos, já que as plantas da
primeira época estavam na primeira fila do pomar e sujeitas a maior intensidade
de ventos. Isto ocorreu porque o trabalho foi realizado em pomar comercial, não
sendo possível a escolha aleatória. Quanto ao peso médio dos frutos, na segunda
época, houve destaque dos tratamentos com C.H. 3,675 e 4,90 g de i.a.L-1 + O.M.
10 g de i.a.L-1, não se constatando praticamente nenhum efeito no tamanho dos
frutos na primeira época (Tabela_3).
O teor de sólidos solúveis totais não foi alterado por todos os tratamentos nas
duas épocas, concordando com a maioria dos trabalhos onde a quebra de dormência
não afeta as características das frutas. No entanto, a resistência de polpa foi
superior nos tratamentos com CH 1,22 g i.a.L-1 e 2,45 g i.a.L-1, na primeira
época, e CH 3,675 g i.a.L-1, na segunda, provavelmente, pelo tamanho da amostra
de 10 frutos ser insuficiente para esta avaliação (Tabela_4).
Os tratamentos com O.M. 10 g de i.a.L-1 não resultaram em aumentos
significativos para todas as variáveis estudadas em relação à testemunha.
Também não foi constatada antecipação de colheita para todos os tratamentos
testados, ao contrário do que havia sido encontrado por Petri et al. (1996).
CONCLUSÕES
1. Os tratamentos não afetaram a floração, mas a brotação das gemas vegetativas
foi incrementada com C.H. 2,45 e 4,90 g de i.a.L-1 associados ao O.M. a 10 g de
i.a.L-1, principalmente quando aplicados na segunda época, cerca de 40 dias
antes da plena florada.
2. Para a primeira época (15-7), os tratamentos com C.H. 1,22 e 3,675 g i.a.L-
1 com O.M. 10 g de i.a.L-1 proporcionaram maior produção e, para a segunda
época (2-8), C.H. 2,45 e 4,90 g de i.a.L-1 com O.M. 10 g de i.a.L-1.
3. O teor se sólidos solúveis totais não foi alterado pelos tratamentos.
4. Os tratamentos com O.M. 10 g de i.a.L-1 não proporcionaram aumentos
significativos nas variáveis estudadas.
5. Não houve efeitos de fitotoxicidade nas plantas tratadas, como queda de
gemas florais, mesmo nas concentrações de CH 4,90 g de i.a.L-1 + O.M. 10 g de
i.a.L-1.