Aplicação de reguladores vegetais no retardamento da abscisão de frutos de
laranjeira-'Hamlin'
APLICAÇÃO DE REGULADORES VEGETAIS NO RETARDAMENTO DA ABSCISÃO DE FRUTOS DE
LARANJEIRA-'HAMLIN'1
INTRODUÇÃO
No Brasil, a safra de citros tem início no mês de abril, com a colheita de
cultivares precoces, como a 'Hamlin'. Nos meses de setembro a outubro, colhe-
se, especialmente, a cultivar 'Pêra' e termina-se com os tardios, como 'Natal'e
'Valência', de novembro a janeiro. Nota-se que, nos meses de julho a agosto, a
indústria cítrica sofre redução de suas atividades com o final da colheita das
cultivares precoces, aguardando-se o início da colheita da cultivar Pêra.
Necessita-se, dessa forma, da introdução de tecnologias que consigam atrasar
parte da safra da cultivar Hamlin, diminuindo-se, assim, tais problemas de
planejamento e proporcionando a melhoria da qualidade de nossa fruta cítrica
para o mercado externo.
Monselise & Goren (1978) relatam que o uso de 2,4-D na prevenção da queda
pré-colheita em citros foi o primeiro tratamento desenvolvido e mundialmente
usado. Os mesmos autores descrevem que pulverizações de auxinas previnem a
queda dos frutos pela manutenção das células da zona de abscisão. O balanço
hormonal previne a síntese de enzimas hidrolíticas, como a celulase, que
degrada a parede celular e atua na atividade da poligalacturonase, que,
juntamente com a celulase, seriam as responsáveis pela degradação dos
principais componentes da parede celular, a celulose e a pectina. Outra auxina
sintética, o ácido naftaleno-acético (NAA), também apresenta efeito semelhante
ao 2,4-D, como o relatado por vários autores como Patil et al. (1989) e Llanos
et al. (1991).
Outro regulador vegetal muito utilizado na citricultura é o ácido giberélico,
que atrasa a diminuição do teor de clorofila na casca, reduzindo o acúmulo de
carotenóides (Ragone, 1992) e, dessa forma, atrasando a senescência da casca.
Chitarra & Chitarra (1990) relatam que as auxinas e giberelinas têm sido
estudadas por funcionarem, total ou parcialmente, como retardadores da
senescência de frutos cítricos. As auxinas endógenas atuam inibindo a síntese
de etileno, retardando o amadurecimento e mantendo os tecidos em seu estado
juvenil, sem afetar no amadurecimento posterior. As giberelinas afetam na
mudança de cor, uma vez que retardam a perda de clorofila, o acúmulo de
carotenóides e o amaciamento da casca.
O tamanho do fruto é importante não somente porque é um dos componentes do
rendimento produtivo, mas também porque determina a aceitação do mesmo no
mercado. Já a porcentagem de suco é um variável extremamente importante para o
seu processamento industrial, estando também relacionada ao tamanho do fruto
(Guardiola, 1992).
Desta maneira, o presente trabalho teve por objetivo avaliar os efeitos de
alguns reguladores vegetais, do grupo das auxinas e giberelinas, combinados e
aplicados em pré-colheita na queda natural dos frutos e sua influência no
desenvolvimento final dos frutos de laranjeira-'Hamlin'.
MATERIAL E MÉTODOS
O presente trabalho foi conduzido em condições de campo na Fazenda Olho d'Água,
pertencente à Citrovita Agroindustrial Ltda., localizada no município de
Itapetininga-SP, em 1993, sendo utilizadas árvores de laranja (Citrus sinensis
Osbeck) cultivar Hamlin com quatro anos de idade. Durante o experimento, foram
realizados todos os tratos culturais com relação à nutrição, controle de
plantas daninhas, pragas e doenças.
Os tratamentos empregados foram: 1- GA3 (ácido giberélico) 12,5 + NAA (ácido
naftaleno-acético) 12,5mg.L-1; 2- GA3 25 + NAA 25mg.L-1; 3- GA3 12,5 + 2,4-D
(ácido 2,4-diclorofenoxi-acético) 12,5mg.L-1; 4- GA3 25 + 2,4-D 25mg.L-1; 5-
NAA 12,5 + 2,4-D 12,5mg.L-1; 6- NAA 25 + 2,4-D 25mg.L-1; 7- testemunha (água).
À solução de tratamentos, adicionou-se espalhante adesivo Extravon a 0,3%,
contendo 250g/l de alquil-fenol-poliglicoéter. Foram gastos 4L de solução por
planta com pulverizador do tipo PH600 da Jacto, acionado na tomada do trator, a
pressão constante de 200 libras. Durante o período experimental, foram
realizadas três aplicações, sendo a primeira realizada no dia 25-03, no início
da virada de cor dos frutos, a segunda e a terceira a intervalos de 45 dias.
O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, com seis plantas em
linha por parcela, sete tratamentos, com seis repetições, totalizando 42
parcelas.
As variáveis avaliadas foram: massa fresca de frutos (g), porcentagem de queda
natural de frutos e teor de suco no fruto (%). Essas variáveis foram avaliadas
em oito colheitas, sendo a primeira realizada no dia 25-03 (antes da aplicação
dos tratamentos) e as demais a intervalos de 30 dias entre cada colheita, sendo
a última realizada no dia 29-10.
A porcentagem de queda natural foi obtida pela contagem semanal do número de
frutos caídos sob a copa das plantas, sem a presença de picadas de insetos, por
parcela de quatro plantas, adicionando-se em cada data o número de frutos
caídos desde a última colheita, sendo expressos em porcentagem do total de
frutos existentes em cada parcela. Mas, como os valores encontrados até a
quarta colheita foram muito próximos de zero, esta variável foi analisada
estatisticamente a partir da quinta colheita.
Para a determinação do teor de suco, foram subtraídos o peso fresco do fruto
(g) e o peso fresco do suco, extraído em extratora de copo, livre da casca,
polpa e sementes, sendo os resultados expressos em porcentagem (Coelho &
Cunha, 1982). Em cada colheita, foram selecionados cinco frutos ao acaso, de
cada uma das duas plantas, totalizando dez frutos por amostra.
Para a análise dos dados, utilizou-se o modelo linear multivariado, testando-
se, conjuntamente, as diferenças para cada uma das variáveis estudadas. Para a
realização das análises, utilizou-se o programa Perfil (Rosa, 1994), sendo
testadas cinco hipóteses: H01= os perfis dos sete grupos são paralelos, têm o
mesmo comportamento; H02= aceitando H01, não há diferenças entre os sete
grupos, considerando o perfil global; H03= aceitando H01, não há diferenças
entre as quatro condições para o conjunto dos sete grupos; H04= não há
diferença entre as quatro condições dentro de cada grupo; H05= análise de
variância para verificar efeito de grupo dentro de cada condição. Em todas as
análises estatísticas, o nível de probabilidade adotado foi de 5%.
Como o número de repetições (seis) do experimento foi menor que o número de
colheitas (oito), foi necessária, para a realização da análise estatística, a
divisão do número de colheitas em dois períodos: 1º período, referente às
colheitas I, II, III e IV, e o 2º período, referente às colheitas V, VI, VII e
VIII.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
1. Massa fresca de frutos
A primeira hipótese testada na análise de perfil (H01), referente ao
paralelismo dos perfis dos sete tratamentos estudados, não foi rejeitada para
esta variável, denotando comportamento similar dos tratamentos no decorrer do
período experimental, ou, ainda, a ausência de interação entre tratamento e
colheita. Uma vez satisfeita esta hipótese de paralelismo, procede-se com a
verificação das hipóteses H02 e H03, para a comparação dos tratamentos e das
colheitas (Tabela_1).
Para este caso, não se observa efeito significativo dos tratamentos, porém
observa-se efeito significativo das datas de colheita. A partir das Tabelas_1 e
2, conclui-se que os ganhos médios em massa fresca, nos sete grupos estudados,
apresentam perfis paralelos e coincidentes (p>0,05), não existindo diferença
significativa entre os mesmos.
Tais resultados diferem dos obtidos por Barros (1992), em tangerina-'Poncã',
nos quais o tratamento com GA3 20mg.L-1 + 2,4-D 20mg.L-1 aumentou a massa do
fruto em relação à testemunha.
Segundo Garcia-Luíz et al. (1992), a massa fresca de frutos de tangerina-
'Clementina' cresce até um mês antes da época ideal de colheita determinada
pelo "ratio", mas depois tende à estabilização, sendo que o GA3 não
aumenta a massa fresca de frutos. Tais resultados dão suporte aos resultados
obtidos para todos os tratamentos, já que os mesmos não mostraram efeitos
positivos do GA3, do 2,4-D ou do NAA sobre a massa fresca dos frutos.
Porém, para datas de colheitas, observa-se acréscimo na massa fresca de frutos
até a sexta colheita, havendo diferença estatística entre as colheitas I, II,
III e IV e entre a V, VI e VII, não diferindo esta última da oitava colheita.
Na colheita V, houve queda acentuada na massa dos frutos. Esta queda deveu-se,
possivelmente, à perda de água natural agravada pelo baixo índice pluviométrico
no mês (Tabela_7). Por outro lado, a queda na massa fresca, verificada na
colheita VII, deveu-se, possivelmente, à ocorrência da florada da safra
seguinte.
2. Teor de suco no fruto
Também para esta variável, a primeira hipótese testada (H01) referente ao
paralelismo dos perfis não foi rejeitada, denotando comportamento similar dos
tratamentos, porém nota-se efeito significativo das colheitas (Tabela_3).
A partir das Tabelas_3 e 4, pode-se verificar que os ganhos médios em teor de
suco, nos sete grupos estudados, apresentam perfis paralelos e coincidentes (p>
0,05), não existindo diferença significativa entre os mesmos. Assim, a
aplicação dos reguladores vegetais não favoreceu no aumento do teor de suco dos
frutos.
Para as colheitas, ocorrem flutuações no teor de suco com o decorrer do tempo,
aumentando até atingir o máximo de porcentagem de suco na quinta colheita,
havendo diferença estatística entre estas e as demais, após a qual houve
decréscimo na porcentagem de suco a partir da sexta colheita, com estas não
diferindo entre si até a última colheita.
Também El-Otmani & Coggins Jr. (1991), pulverizando plantas de laranja-
'Washington Navel', com GA3 10mg.L-1 e 2,4-D 16mg.L-1, isolados ou em
combinação, obtiveram maior porcentagem de suco.
Após alcançado o "ratio" ideal para a colheita, próximo à quarta
colheita para todos os tratamentos, os frutos tenderam a perder água, visto
que, a partir da sexta colheita, já tivera início a florada da safra seguinte,
a qual coincidiu com o défice hídrico ocorrido nos meses de julho e agosto
(Tabela_7). Para Agustí & Almela (1991), a maturação dos frutos cítricos
acha-se fortemente influenciada pelo clima; devendo-se considerar que a
manutenção dos frutos na árvore, até sua senescência avançada, provoca perda de
qualidade, pois o fruto segue crescendo, perdendo-se suco e açúcares, e a
acidez cai a valores insípidos, inferiores a 0,5%.
Os tratamentos com NAA diferiram da testemunha, mostrando a ausência de efeito
desses tratamentos no teor de suco.
3. Porcentagem de queda natural dos frutos
Verificando-se a análise referente à variável porcentagem de queda natural,
contida na Tabela_5, pode-se observar que, diferentemente dos resultados
obtidos para as variáveis anteriores, a hipótese de paralelismo foi rejeitada,
sugerindo interação entre tratamento e colheitas. Para esta situação,
continuou-se a análise para verificar as hipótese H04 e H05, referentes ao
estudo de condições das colheitas em cada tratamento e ao estudo de tratamentos
em cada colheita.
Para este caso, pode-se verificar que, para a porcentagem de queda, os sete
perfis estudados não são semelhantes (p<0,05). Com relação ao efeito de período
em cada tratamento, pode-se verificar, pelas Tabelas_5 e 6, que somente o
perfil relativo à testemunha é crescente do primeiro ao terceiro período, não o
sendo para os demais tratamentos.
A partir do terceiro período, nota-se que os perfis são crescentes para os
tratamentos com GA3 12,5+NAA 12,5mg.L-1, GA3 12,5+2,4-D 12,5mg.L-1 e NAA
12,5+2,4-D 12,5mg.L-1 e continuam não demonstrando crescimento para os
tratamentos com GA3 25 + NAA 25mg.L-1, GA3 25 + 2,4-D 25mg.L-1 e NAA 25+2,4-
D 25mg.L-1. O perfil da testemunha continuou apresentando crescimento até o
quarto período.
No tocante à comparação entre os tratamentos (H05), verifica-se que somente o
tratamento com GA3 25 + 2,4-D 25mg.L-1 apresentou porcentagem de queda
inferior à testemunha a partir do primeiro período de avaliação. Na Tabela_6,
verifica-se que, no segundo período de avaliação, somente o tratamento com GA3
12,5+ NAA 12,5mg.L-1, foi semelhante à testemunha, sendo que os demais
tratamentos apresentaram porcentagem de queda inferior ao mesmo. A partir do
terceiro período, todos os tratamentos apresentaram porcentagem de queda
natural significativamente inferior à testemunha (p< 0,05).
Segundo Monselise (1979), o 2,4-D é uma auxina sintética freqüentemente
utilizada nas doses de 5 a 20mg.L-1, como antagonista da abscisão de frutos
maduros em praticamente todas as espécies cítricas, diminuindo a atividade da
celulase e da poligalacturonase, inibindo a separação do cálice do fruto. El-
Otmani et al.(1990), pulverizando quatro diferentes cultivares de citros, com
10mg.L-1 de GA3 e 16mg.L-1 de 2,4-D, combinados ou isolados, relatam que as
maiores porcentagens de queda ocorreram em plantas não tratadas com tais
reguladores vegetais, e as menores porcentagens ocorreram nos tratamentos onde
o 2,4-D foi aplicado isoladamente.
Pode-se observar, pela Tabela_6, que todos os tratamentos contendo os
reguladores vegetais foram efetivos na redução da queda pré-colheita, embora em
diferentes níveis. GA3 12,5+NAA 12,5mg.L-1 reduziu a queda natural da ordem de
53,49%; NAA 12,5+2,4-D 12,5mg.L-1 reduziu a queda a 56,89% em média; com GA3
12,5+2,4-D 12,5mg.L-1, a redução encontrada foi da ordem de 73,13%; para NAA
25+2,4-D 25mg.L-1, a redução de queda foi de 79,88%; com GA3 25 + NAA 25mg.L-1,
a redução encontrada foi de 80,54% e, finalmente, obteve-se redução na queda
natural de 92,32% para o tratamento com GA3 25+ 2,4-D 25mg.L-1. Embora não
ocorrendo diferença significativa entre os tratamentos com reguladores
vegetais, as maiores reduções na queda dos frutos da laranjeira-'Hamlin' foram
obtidas nos tratamentos que apresentaram as maiores concentrações (25mg.L-1)
dos reguladores vegetais utilizados.
Esta dependência da abscisão ao conteúdo endógeno de auxinas tem sido provada
mediante aplicações exógenas de 2,4-D ou NAA, visto que o transporte das
auxinas pela planta perdura durante muito tempo sem que o etileno pareça afetá-
lo (Agustí & Almela, 1991).
Tais fatos poderiam explicar a baixa porcentagem de queda também encontrada no
tratamento com GA3 25 + NAA 25mg.L-1, devendo-se, desta forma, a redução da
queda dos frutos à interação destes dois reguladores vegetais, os quais se
mostram tão eficazes quanto os tratamentos com 2,4-D. Da mesma maneira, a baixa
porcentagem de queda obtida no tratamento com NAA 25+2,4-D 25mg.L-1 deveu-se,
possivelmente, à ação conjunta destas duas auxinas.
CONCLUSÃO
Nas condições estudadas e com base nos resultados obtidos, pode-se concluir que
a utilização de reguladores vegetais, para proporcionar o desenvolvimento dos
frutos, não influenciou no crescimento e no teor de suco dos frutos de
laranjeira-'Hamlin', mas reduziu a queda natural de frutos de laranjeira-
'Hamlin', destacando-se o tratamento com GA3 25mg.L-1+2,4-D 25mg.L-1.