Qualidade de pedúnculo de cajueiro-anão precoce cultivado sob irrigação e
submetido a difrentes sistemas de condução e espaçamento
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
A cajucultura é uma atividade de destaque socioeconômico para o Nordeste,
principalmente para os Estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, onde se
concentram os maiores plantios (Paula Pessoa et al., 1995).
Os produtores de caju, utilizando os atuais sistemas de cultivo, necessitam de
um período relativamente longo para recuperar parte do capital empregado na
instalação e manutenção do pomar. Uma alternativa para se reduzir este prazo
seria a utilização do cultivo adensado, técnica que proporciona rendimentos
iniciais elevados, possibilitando uma recuperação mais rápida dos investimentos
com o pomar, o que permitirá ao produtor um uso mais eficiente dos seus
recursos.O adensamento de plantas vem sendo praticado há algum tempo na
fruticultura de clima temperado (Phillips & Waver, 1975; McDermott et
al.,1987; Cripps et al.,1975) e há pouco tempo na fruticultura tropical (Avilan
et al., 1981; Mohammed & Wilson,1984). Conforme Van Eijnatten &
AbubakerB (1983), a produtividade do cajueiro poderia ser maximizada através do
sistema adensado de plantas.
O cajueiro-anão (Anacardium occidentale L. var. nanum), devido às suas
características, tais como porte baixo, precocidade e alto potencial produtivo,
tem sido empregado no cultivo adensado de plantas, com o objetivo de reverter o
baixo rendimento apresentado no sistema tradicional de cultivo do cajueiro
( Bezerra & Miranda, 1998).
Várias pesquisas foram desenvolvidas para obtenção de genótipos de cajueiro que
permitissem não só o aumento de produtividade, como também a melhoria da
qualidade da castanha para a indústria (Araújo, 1990; Parente et al., 1991).
Não se pode, porém, desprezar a importância do pedúnculo, constituindo este uma
importante fonte de alimento no Nordeste do Brasil, seja na forma "ïn
natura", ou processada. O pedúnculo é composto de sais minerais,
carboidratos, ácidos orgânicos e um elevado teor de vitamina C. Por apresentar
um excelente valor alimentar e propriedades medicinais, é recomendado na dieta
humana (Lima, 1988). Vários produtos podem ser obtidos a partir desta matéria-
prima como: sucos, geléias, cristalizados, doces, glacê, fruto ao xarope,
vinho, etc. (Maia et al., 1971). O mercado consumidor para pedúnculo "in
natura" é crescente e exigente.
Visa-se, com este trabalho, a estudar o efeito do adensamento de plantas sobre
as características químicas e físico-químicas de pedúnculos de cajueiro-anão
precoce cultivado em condições de irrigação.
Os pedúnculos analisados neste trabalho foram colhidos em outubro/1998 de
plantas de um experimento instalado em abril de 1996 na Estação Experimental do
Vale do Curu, da Embrapa Agroindústria Tropical, localizada em Paraipaba-CE,
que ocupa uma área de 1,57 ha. Utilizou-se de pedúnculos do clone CCP-76
cultivado sob condições de irrigação. A irrigação, dependendo da época do ano,
foi feita em média três vezes por semana, durante 1,5 h, com microaspersor com
vazão de 28 l/h. A adubação de fundação foi realizada com esterco bovino de
curral, curtido (5 kg/cova), superfosfato simples (200g/cova) e calcário
dolomítico (50g/cova), e a de cobertura (fertirrigação), até o 6o mês, com 10g
de uréia e 5g de KCl por planta; após o 6omês, esta adubação foi duplicada. O
delineamento foi o de blocos casualizados, com sete tratamentos e quatro
repetições. Cada parcela, com 432 m2 (18m x 24m), continha diferentes números
de plantas, de acordo com o tratamento. Nos tratamentos adensados, foram
aplicadas práticas para o controle do entrelaçamento de plantas (poda em forma
de cerca-viva e desbaste de plantas). Os tratamentos foram os seguintes:
· T1- Testemunha ¾ 8 m x 6 m (208 plantas/ha);
· T2- 4 m x 3 m (833 plantas/ha), com poda em forma de cerca-viva;
· T3- 4 m x 3 m (833 plantas/ha), com desbastes de plantas;
· T4- 6 m x 3 m (555 plantas/ha), com poda em forma de cerca-viva;
· T5- 6 m x 3 m (555 plantas/ha), com desbaste de plantas;
· T6- 8 m x 3 m (416 plantas/ha), com poda em forma de cerca-viva;
· T7- 8 m x 3 m (416 plantas/ha), com desbaste de plantas.
Foram coletados dez frutos por parcela pela manhã e colocados em sacos
plásticos. O transporte dos mesmos foi feito em caixas de colheita, devidamente
acondicionadas, de modo que não houvesse danos físicos, e em seguida levados ao
LFPC (Laboratório de Fisiologia e Tecnologia Pós-colheita) da Embrapa
Agroindústria Tropical, onde foram acondicionados em freezer doméstico
(temperatura por volta de -20oC) para posteriores avaliações físico-químicas e
químicas. Os pedúnculos utilizados para as análises foram cortados em dois
pedaços iguais, em sentido longitudinal, e cada pedaço era separado por
tratamento e repetição. Para determinações de laboratório, os pedaços foram
retirados do freezer, descongelados e processados. As análise foram realizadas
no suco obtido dos pedúnculos. Para a avaliação das características físico-
químicas e químicas, foram feitas as seguintes análises: Acidez Total Titulável
( Institulo Adolfo Lutz, 1985), Açúcares Solúveis Totais (Yemn & Willis
(1954), pH e Sólidos Solúveis Totais (Association of Official Analytical
Chemistry, 1992), SST/ATT, Taninos (Poliméricos, Dímeros e Oligoméricos;
Reicher etal. 1981) pH e Vitamina C Total (Strohecker & Henning,1967).
Sólidos Solúveis Totais e Açúcares Solúveis Totais
Os tratamentos não diferiram, estatisticamente, ao nível de 5% de
significância, com relação à concentração de SST (Figura_01). Os resultados
foram semelhantes àqueles obtidos por Moura (1998) para o clone CCP 76, como
também para outros clones (Silva Júnior & Paiva,1994).
A variação entre os tratamentos com relação ao teor de SST foi de 11,9 a 13,0
ºBrix, com o tratamento T1 (testemunha) apresentando a maior média (13,0
ºBrix). Este valor está abaixo do valor mínimo apresentado por Kundu &
Ghosh (1994) na Índia, de 13,45 ºBrix, em Kerala Seedlings.
Conforme Soares (1986), todos os pedúnculos obtidos nos atuais sistemas de
plantio chegam à indústria apresentando um valor médio de 10,70 ºBrix. Desta
forma, todos os tratamentos aqui testados mostraram valores superiores ao
citado por este autor.
Também com relação ao teor de açúcares solúveis totais, não houve diferença
estatística entre os tratamentos (Figura_02).
pH e Acidez Total Titulável
Praticamente não houve variação entre as médias dos tratamentos em relação ao
pH (Figura_03). A maioria dos tratamentos apresentou média igual a 4,4.
O valor médio encontrado (4,4) está dentro da faixa de variação de 4,10 a 4,64
obtido por Moura (1998), e superior aos apresentados por Price et al. (1975) e
Ortiz & Arguello (1985), cujos valores foram valores inferiores a 4,3.
Quanto à acidez total titulável (Figura_04), a média geral encontrada foi de
0,28%. Apesar de essa média ter sido inferior à que Moura Fé et al. (1972) e
Priceet al. (1975) obtiveram, manteve-se dentro do intervalo apresentado por
Moura (1998), sendo superior à menor média encontrada dentre os vários clones
testados por este autor.
Sólidos Solúveis/Acidez
O mais alto teor de SST (13,0ºBrix) foi o apresentado pelo tratamento T1;
porém, o valor da ATT de 0,30%, segunda média mais alta entre os tratamentos
testados, fez com que o valor do maior grau de doçura desta relação fosse de
0,30% , inferior a 0,31%.
Kist & Manica (1995), trabalhando com diferentes densidades de plantio em
mamoeiro formosa, também não observaram efeitos significativos do espaçamento
na relação SST/ATT dos frutos.
O mais alto grau de doçura (49,94), encontrado para o tratamento T6, foi
superior ao encontrado por Moura (1998), que foi de 46,28 de relação SST/ATT. O
valor médio foi inferior aos valores encontrados nos tratamentos estudados por
Silva Júnior & Paiva (1994).
Vitamina C Total
Na Figura_06, estão apresentados os valores obtidos para o teor de vitamina C.
Também não houve diferença estatística entre os tratamentos.
O maior teor de vitamina C (247,48 mg/100 g) encontrado nesse experimento foi
proveniente dos pedúnculos de caju do tratamento T6, enquanto o tratamento T5,
com 233,65 mg/100 g, foi o que apresentou menor teor. O intervalo de 233,65 a
247,48 mg/100 g ficou dentro da faixa de variação encontrada por Moura (1998),
que foi de 160,34 a 251,86 mg/100 g, com média de 205,05 mg/100 g.
Taninos (poliméricos, dímeros e oligoméricos)
Quanto ao teor de taninos, a exemplo das outras características, não houve
diferença significativa entre os tratamentos. O tratamento T1 (testemunha) e o
T3 (4 m x 3 m, com desbaste), em relação ao teor de taninos poliméricos,
apresentaram a mesma média (0,33%), sendo esta a maior média observada no
experimento (Figura_07). A amplitude de variação (0,26 a 0,33%) foi semelhante
à encontrada por Menezes (1995) em seu trabalho com pseudofruto mantido em
ambiente refrigerado, sob atmosfera modificada, de 0,21 a 0,29% de taninos
poliméricos. O tratamento T6 (8 m x 3 m, com poda), apesar de apresentar a
menor média (0,26%), obteve o mesmo valor verificado por Moura (1998) para este
tipo de tanino.
Com relação ao teor de taninos dímeros, a testemunha também apresentou uma
média (0,39%) superior às demais (Figura_08), seguida do tratamento T7 (0,38%).
O tratamento T3 (4 m x 3 m, com desbaste), ao contrário da média obtida quanto
ao teor de taninos poliméricos, apresentou uma média (0,31%) inferior às
demais, porém essa foi a que mais se aproximou da média (0,29%) geral observada
por Moura (1998).
O tratamento T7 (8 m x 3 m, com desbaste), tanto para o teor de taninos
poliméricos (0,31%), como para o de taninos dímeros (0,38%), apresentou uma
média alta, fato também verificado ao se analisar o teor (0,39%) de taninos
oligoméricos (Figura_09).
Na literatura, são citados teores de tanino de 0,22; 0,28 e 0,58 g/100 ml,
respectivamente, para sucos doce, ácido e adstringente (Price et al., 1975). O
espaçamento não interferiu na adstringência dos pedúnculos. A média observada
neste experimento, em relação ao teor de taninos, foi semelhante à observada
por Soares (1975).
Não se verificaram-se diferenças significativas, neste trabalho, entre os
tratamentos dos parâmetros estudados, o que pode ser decorrente da baixa
competição entre as plantas por água, nutrientes e luz, tendo em vista que as
mesmas foram adubadas e irrigadas. A competição por luz foi também reduzida
através de práticas com poda e desbastes.
Considerando-se as condições em que o estudo foi conduzido, pode-se concluir:
1. Os resultados obtidos quanto à caracterização química e físico-química do
pedúnculo são semelhantes àqueles encontrados na literatura.
2. Os espaçamentos utilizados, neste estudo, não interferiram nas
características químicas e físico-químicas dos pedúnculos.
3. Os sistemas de cultivo adensado, levando-se em conta o aspecto de qualidade,
objeto desse estudo, podem ser empregados na produção de pedúnculos para
consumo in natura.