Reciclagem e incorporação de nutrientes ao solo pelo cultivo intercalar de
adubos verdes em pomar de laranjeira-'Pêra'
RECICLAGEM E INCORPORAÇÃO DE NUTRIENTES AO SOLO PELO CULTIVO INTERCALAR DE
ADUBOS VERDES EM POMAR DE LARANJEIRA-'PÊRA'1
INTRODUÇÃO
Adubação verde é a prática de cultivo e incorporação de plantas, produzidas no
local ou adicionadas, com a finalidade de preservar e/ou restaurar os teores de
matéria orgânica e nutrientes dos solos, indo ao encontro da tendência mundial
da busca de alimentos mais saudáveis, provenientes da agricultura orgânica ou
produzidos com a mínima utilização de insumos químicos e degradação do meio
ambiente (Silva et al., 1999).
A principal vantagem do emprego de espécies leguminosas na adubação verde é
reduzir a aplicação de nitrogênio via adubo químico, pois essas plantas fixam
nitrogênio do ar, através de simbiose com bactérias do gênero Rhizobium,
enriquecendo o solo com esse macronutriente.
O sistema radicular ramificado e profundo das leguminosas proporciona aumento
na eficiência de utilização dos adubos, uma vez que trazem às camadas
superficiais do solo nutrientes perdidos por lixiviação, principalmente
potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e nitrato (NO3), funcionando também
como "agente minerador" dos nutrientes de pouca disponibilidade como
o fósforo (P) e o molibdênio (Mo), tornando-os mais disponíveis às culturas
subseqüentes. Além disso, as raízes de adubo verde e do mato fazem, por assim
dizer, uma subsolagem biológica, criando pequenos canais no solo por onde
circulam a água e o ar (Russell et al., 1981).
O material orgânico produzido, geralmente rico em macro e micronutrientes,
aumenta a capacidade de troca catiônica do solo, a infiltração e a retenção de
água no solo, tornando mais favoráveis as condições para o desenvolvimento
microbiano no solo, tendo ainda algumas espécies efeitos alelopáticos sobre
nematóides e plantas invasoras (Miyasaka et al., 1984).
Segundo Silva et al. (1999), os adubos verdes comportam-se como uma planta
daninha no pomar cítrico, pois podem competir por água, nutrientes, sol e pelo
espaço aéreo e do solo. Quando bem usados, entretanto, esses inconvenientes
pesam relativamente pouco, sendo compensados pelas vantagens que seu cultivo
apresenta. Para os citros, devem ser escolhidas espécies que possuam sementes
uniformes e de bom poder germinativo, com exigência relativamente baixa quanto
ao preparo e fertilidade do solo, de rápido crescimento, precoce, fácil manejo,
sistema radicular profundo, que dispensem tratos culturais, apresentem
resistência a pragas e doenças e produzam grande quantidade de matéria seca.
As espécies utilizadas como adubo verde para citros dividem-se em plantas de
verão, normalmente leguminosas plantadas no início das chuvas e manejadas até o
final destas, e as de inverno (leguminosas e gramíneas), plantadas no final das
chuvas e manejadas quando em pleno florescimento (Silva et al., 1999).
Tendo em vista o exposto, o presente experimento objetivou avaliar a produção
de material vegetal, incorporação de nutrientes ao solo pela fixação de N2
atmosférico e reciclagem de N, P, K, Ca, Mg, S, B, Cu, Fe, Mn e Zn do solo,
pelo cultivo intercalar de adubos verdes (leguminosas) em pomar de laranjeira-
'Pêra'.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido em condições de campo na Estação Experimental de
Citricultura de Bebedouro - SP (EECB), situada na latitude 20º 53'16" S,
longitude 48º 28' 11" W e altitude de 601 m, com clima do tipo Cwa e solo
classificado como Latossolo Vermelho-Escuro, epieutrófico, endoálico, A
moderado, textura média (Haplustox). A análise química inicial do solo indicou
os seguintes valores nas profundidades de 0-20 e 21-40 cm, respectivamente: pH
(CaCl2) 4,6 e 4,0; matéria orgânica (M.O.) em g/dm3 = 30 e 26; P resina em mg/
dm3 = 5 e 3; em mmolc/dm3: K = 1,2 e 0,7; Ca = 10,8 e 5,6; Mg = 6,1 e 3,1; H+Al
(hidrogênio + alumínio) = 38 e 47; SB (soma de bases) = 18,1 e 9,4; CTC
(capacidade de troca de cátions) = 56,1 e 56,4 e V% = 32 e 17. Utilizou-se um
pomar de laranjeira-'Pêra' (Citrus sinensis L. Osbeck) enxertada sobre
tangerineira-'Cleópatra' (Citrus reshi Hort.), plantada em maio de 1987 e
espaçadas de 7,0 x 5,0 m.
O primeiro plantio das leguminosas intercalar à laranjeira-Pêra' deu-se em
novembro de 1989, com replantio das espécies nos anos de 1990, 1991 e 1992, ou
seja, durante quatro anos agrícolas.
O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados, com sete
tratamentos ou leguminosas (Tabela_1) e quatro repetições, totalizando 28
parcelas de 20 metros de comprimento cada, com sete linhas de leguminosas
espaçadas de 0,5 m e plantadas dos dois lados (entrelinhas) da 'Pêra';
portanto, o plantio das leguminosas ocupou 50% da área implantada de 'Pêra'.
Não se utilizou adubação química para as leguminosas, nem mesmo cultivo pós-
plantio, sendo as mesmas roçadas aos 113, 148, 107 e 106 dias após o plantio,
respectivamente de cada ano, ficando o material sobre a superfície do solo.
Antes do corte das leguminosas (roçagem), efetuaram-se amostragens de todo o
material da parte aérea nas parcelas para determinação de peso verde e,
posteriormente, peso seco. Estas amostras foram então analisadas quimicamente
para a determinação dos teores de macro (N, P, K, Ca, Mg, S) e micronutrientes
(B, Cu, Fe, Mn e Zn), segundo metodologia descrita por Malavolta et al. (1989).
Os resultados das análises químicas do solo em duas profundidades, nas linhas
de leguminosas e nos citros, a incidência de plantas daninhas e cobertura do
solo, bem como a produção dos citros podem ser encontrados em Silva (1995).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No primeiro plantio 1989/90, as espécies plantadas produziram após os 113 dias
da semeadura, uma quantidade menor em peso de material verde e seco, quando se
compara com os demais plantios (Tabela_2), sugerindo que o solo, neste ano, se
apresentava mais pobre em nutrientes e que a reciclagem, a partir deste ano,
melhorou a fertilidade e as condições para o desenvolvimento das leguminosas
plantadas posteriormente.
Observa-se, na Tabela_2, que a Crotalaria juncea se destacou na produção média
de material seco (13,1), seguida pelo guandu (6,84), feijão-de-porco (6,05),
mucuna-preta (3,56), mucuna-anã (3,50), labe-labe (3,21) e Crotalaria
spectabilis(2,46 t/ha). Os valores médios de material produzidos em t/ha, estão
próximos aos obtidos por Kiehl (1980), Azeredo & Manhães (1983) e IAPAR
(1984). Devido à lenta germinação, a C. spectabilis, sofreu competição com o
mato, tendo sua produção comprometida; porém, nos anos seguintes, houve uma
menor incidência de mato e aumento da densidade populacional, melhorando a
produção de material verde e cobertura do solo. Já a mucuna-anã sofreu ataque
do fungo da cercosporiose, resultando em queda precoce de folhas e menores
valores de material verde, principalmente no ano de 1990/91, produzindo 3,93 t/
ha aos 148 dias após o plantio, enquanto, nos anos com incorporação entre 113 e
106 dias, a produção variou entre 15,7 e 31,8 t/ha. Os valores apresentados na
Tabela_2 mostram a produção considerando o plantio em área total; porém, no
caso do cultivo intercalar ao citros, devem-se considerar apenas 50% dos
valores de produção de fitomassa, pois o plantio das leguminosas restringiu-se
a 50% da área.
O guandu e a mucuna-preta, espécies de ciclo longo com florescimento após os
140 dias quando avaliadas aos 148 dias da semeadura, apresentaram maiores
valores de material verde, quando comparados com as demais espécies de ciclo
curto, em torno dos 100 a 110 dias. Já a C. juncea, apesar de florescer aos 110
dias, aos 148, apresentava-se mais fibrosa e, por isso, com o maior peso da
matéria verde (59,1 t/ha). Isto se confirma na avaliação dos nutrientes
presentes na matéria verde nas mesmas datas da avaliação, mostrando menores
teores de N, P, Ca, Mg, B, Cu, Mn e Zn, conforme ilustram as Tabelas_3 e 4.
Polli & Chada (1989) observaram que há uma certa relação entre plantas mais
tenras e o maior teor de N na parte aérea.
De acordo com dados apresentados por Azeredo & Manhães (1983), a C.
spectabilis e a mucuna-preta produziram valores inferiores de matéria fresca da
parte aérea, estando as demais espécies estudadas dentro da média citada.
Em geral, quando as plantas foram avaliadas aos 148 dias (1990/91), todas as
espécies apresentaram menores teores de nutrientes na parte aérea. Isto leva a
crer que ocorre um carreamento de nutrientes para as sementes e transformações
bioquímicas, tornando o material mais fibroso, de difícil degradação
microbiológica e mais pobres em nutrientes (Mello, 1978).
Os adubos verdes devem ser incorporados ao solo, de preferência, após o
florescimento e antes da frutificação, para garantir a adição de uma grande
quantidade de material vegetal. A incorporação das plantas, após o
desenvolvimento dos frutos, vai resultar no uso de um material mais pobre e
possível infestação dos solos com as sementes do adubo verde (Costa, 1989).
A análise química da parte aérea das leguminosas, conforme ilustra a Tabela_3,
revelou que, de modo geral, as espécies lenhosas (C. juncea, C. spectabilis,
guandu e feijão-de-porco) apresentaram menores teores de nutrientes; já as
herbáceas e rasteiras (mucuna-preta, mucuna-anã e labe-labe) foram as espécies
que apresentaram os maiores teores, principalmente N, S e P, elementos estes
fundamentais na formação de proteínas. Quando as leguminosas foram incorporadas
aos 148 dias (ano agrícola 1990/91), ao contrário dos demais anos
(aproximadamente 110 dias), observou-se diminuição dos teores médios de N, P,
Ca, Mg, B e Zn. Esta ocorrência também foi relatada por Castro (1956), que
comprovou, nos primeiros meses do período vegetativo, ocorrência de mais alta
porcentagem de N nos tecidos das leguminosas, mas a maior quantidade de
nutrientes é encontrada na época do florescimento, sendo o momento mais
oportuno para o corte, pois as folhas e os talos tenros que constituem as
partes mais fáceis para decomposição, são atacados pelos microrganismos e
começam a formar amônio e nitratos utilizáveis pelas plantas.
A C. juncea apresentou os menores teores de nutrientes no material vegetal; já
o labe-labe apresentou, em média, os maiores teores de P, Mg, S, B e Zn, e o
feijão-de-porco destacou-se por apresentar os maiores teores de N, K e Ca na
parte aérea quando comparado com as demais espécies.
De um modo geral, o feijão-de-porco e o labe-labe foram as espécies que
apresentaram melhores teores médios de macronutrientes na parte aérea, seguidos
pela mucuna-preta que se destacou nos teores de N e P, a C. spectabilis para K
e Ca e a mucuna-anã para N e S.
Ambrosano et al. (1997) determinaram teores de N de 27,6 e 16,8 g/kg na parte
aérea da mucuna-preta e da C. juncea,respectivamente, valores bastante próximos
aos obtidos neste experimento, com média de quatro anos de 24 e 14 g/kg,
respectivamente.
A incorporação aos 148 dias reduziu também os teores médios de B e Zn na parte
aérea das leguminosas (Tabela_4), indicando que a incorporação tardia incorpora
um material mais pobre também em micronutrientes. Os maiores teores de
micronutrientes foram encontrados na parte aérea da mucuna-anã (Cu, Mn e Zn),
já a C. spectabilis maiores de B e a mucuna-preta maiores de Fe.
De posse dos resultados de produção média de material verde (Tabela_2) e teores
médios de nutrientes (Tabelas_3 e 4), pode-se calcular a quantidade de
nutrientes incorporados ao solo pelo cultivo das leguminosas (Tabela_5). Assim,
verifica-se que as espécies estudadas são grandes incorporadoras e recicladoras
de nutrientes ao solo, considerando apenas a parte aérea, onde se destacam a C.
juncea, guandu e feijão-de-porco com valores significativos de N (183,4; 143,6
e 169,4 kg/há, respectivamente), concordando com valores obtidos por Mello
(1978). Segundo Igue (1984), 2/3 do N total das leguminosas é proveniente da
fixação simbiótica de N2 atmosférico, e o restante é absorvido do solo numa
quantidade total de N que varia de 15 a 30 g/kg do resíduo orgânico.
Estudando a dinâmica do nitrogênio na crotalária e na mucuna-preta marcadas com
15N, Ambrosano (1995) determinou que 60 a 80 % do N das leguminosas permaneceu
no solo, 20 a 30 % foi absorvido pelas plantas de milho e que 5 a 15 % deixou o
sistema solo-planta.
Os 183,4 kg/ha de N incorporados pela C. juncea,considerando plantio em área
total, correspondem a 91,7 kg/ha para plantio na área intercalar dos citros
(50%), ou seja, equivale à aplicação de 204 kg de uréia/ha ou 460 kg de sulfato
de amônia/ha na área intercalar.
Os demais macros e micronutrientes são provenientes da reciclagem de nutrientes
efetuada por estas espécies, que absorvem os nutrientes lixiviados no perfil do
solo (camadas subsuperficiais principalmente), trazendo-os novamente à
superfície do solo onde estarão disponíveis às culturas econômicas. Este
processo de incorporação de nutrientes lixiviados, nas camadas superficiais, se
aplica muito bem à cultura de citros, que apresenta, segundo Rodrigues (1980),
concentração das raízes nos 40 e 60 cm de profundidade.
Carvalho et al. (1999) demonstraram que a distribuição do sistema radicular da
laranjeira-'Pêra' no perfil do solo foi influenciada positivamente pela
melhoria da estrutura do solo, ocasionada pelo manejo do feijão-de-porco
associado à subsolagem na profundidade média de 55 cm, o que resultou em melhor
distribuição do sistema radicular dos citros em busca de água e nutrientes.
A C. spectabilis e a mucuna-anã incorporaram menores quantidade de nutrientes
ao solo, provavelmente devido à baixa germinação da primeira e suscetibilidade
à cercosporiose da segunda. Como incorporador de cálcio, o feijão-de-porco
destacou-se com a média de 108,9 kg/ha.
CONCLUSÕES
1. As espécies leguminosas estudadas desenvolvem satisfatoriamente intercalar
ao citros sem necessidade de manejo pós-plantio, promovendo reciclagem e
incorporação de quantidades significativas de nutrientes ao solo, destacando-se
o N, K, Ca e P, possibilitando substituir ou reduzir uma parcela dos adubos
nitrogenados químicos nos citros.
2. É recomendado alternar espécies leguminosas nas ruas dos citros de acordo
com o porte, facilitando manejar os citros no período.
3. Maiores valores de biomassa e reciclagem de nutrientes foram obtidos com a
Crotalaria juncea, guandu e feijão-de-porco.
4. O guandu e o labe-labe permitem corte alto, pois rebrotam satisfatoriamente,
podendo ser manejados por mais de um ano agrícola.